Mercado emissor do Reino Unido de 1980 na véspera do Brexit


O mercado emissor do Reino Unido é o segundo mais importante da Europa, depois da Alemanha, o mais importante para Portugal e o decisivo para o Algarve. A evolução deste mercado vai depender em boa parte de fatores ligados ao Brexit. Em qualquer das modalidades faladas, o Brexit pode diminuir a propensão para viajar e o desempenho da economia (recessão), pode desvalorizar a libra e gerar medidas de estupidez burocrática de consequências difíceis de prever. Este post é baseado em macro informação estatística até 31.12.2018, aceite como de boa qualidade. Não serve como business intelligence, mas ajuda a observar o que se passa. O essencial do post é resumido em quatro gráficos, os outros são publicados mais tarde e apoiam a base analítica do que aqui se afirma.

A evolução do número Total de deslocações ao estrangeiro mostra crescimento sustentado até ao plateau entre 2006-2008, seguida de queda brutal em 2009, com réplica em 2010. Depois começa a recuperação que em 2016 ultrapassa 2008 (oito anos depois), pequeno crescimento em 2017 e queda em 2019. Por outras palavras, o mercado sofre queda brusca com a Crise de 2008/09, mas recupera até à crise possível do Brexit. Esta terá lugar? Será mais violenta do que a anterior? E a recuperação mais lenta? Quem viver, verá.



Fonte – Elaboração pessoal com base em Office National Statistics – Travel Trends 2018.

O gráfico seguinte ilustra a taxa de variação anual do Total das Deslocações ao estrangeiro desde 1981. Salta à vista que esta taxa varia com as vagas da sociedade e da economia, mas é consistentemente positiva. Conhece pequenos valores negativos de quedas conjunturais, rapidamente recuperadas. A taxa ilustra a seriedade dos efeitos da Crise de 2008/09, com o mercado a recuperar menos rapidamente, mas a recuperar. Por outras palavras, o mercado é resiliente e a volatilidade reside na taxa de crescimento. Esclarecimento importante para muita da inteligência nacional que fala da volatilidade do turismo com o significado de queda estrutural e até irreversível.



Fonte – Elaboração pessoal com base em Office National Statistics – Travel Trends 2018.

O Total de deslocações é segmentado segundo três critérios: motivo da deslocação, área geográfica de destino e modo de transporte. No seio de cada um destes três critérios, há uma variável que domina: deslocações por holiday (o lazer, recreio ou férias do INE), com destino à Europa e em avião. O gráfico seguinte ilustra a parte de cada uma destas variáveis no número Total de Deslocações. Para Portugal interessa saber que o destino Europa cai do pico de 88,8% (1985) para o atual 79,9%, e o motivo Holiday cai para 65,6%. Como se verá no próximo post, Portugal concorre sobretudo no segmento ‘Holiday, Europa, Avião’.  


Fonte – Elaboração pessoal com base em Office National Statistics – Travel Trends 2018.

O gráfico seguinte ilustra a evolução recente da taxa de variação anual no Total de Deslocações e das variáveis dos critérios de segmentação que interessam a Portugal. A queda dos quatro indicadores é evidente e não é o pequeno valor positivo do motivo holiday que nos alegra.


Fonte – Elaboração pessoal com base em Office National Statistics – Travel Trends 2018.

Este post é um alerta sobre o que se tem estado a passar no mercado emissor mais importante do turismo português. Cabe a cada um segundo as suas responsabilidades dar segundo as suas possibilidades. O problema é quando as possibilidades estão a milhas das necessidades.


A Bem da Nação

Parque das Nações 5 de Junho de 2019

Sérgio Palma Brito


A Avó de todos os debates sobre Alojamento Local


Não, não é a Mãe. É mesmo a Avó, mas avozinha com garra, genica e ‘potencial’, como agora se diz. Esta Avó são os números do Recenseamentos da Habitação de 2011. Enquadram todo o debate sobre Alojamento Local.

O gráfico 1 ilustra as tês utilizações dos Alojamentos Familiares Clássicos (exclui barracas & similares) existentes em Portugal: Residência Principal, Uso Sazonal e Vagos. As noções são intuitivas, mas importa esclarecer

-a Residência Principal (3.929 milhares) pode ser em Alojamento arrendado ou de propriedade de quem lá vive,

-Alojamentos de Uso Sazonal (1.099 milhares) e Vagos (704 milhares) exigem que o proprietário tenha Residência Principal em Portugal, na mesma região ou não, ou no estrangeiro.

Gráfico 1 – Utilização dos Alojamentos Familiares Clássicos em 2011


Fonte: Elaboração própria com base em INE, Recenseamento da Habitação

Quando uma família é proprietária de um Alojamento de uso Sazonal ou Vago, está interessada na sua utilização ou arrendamento residencial ou turístico. O interesse concretiza-se quando há procura.

Em Portugal,

-esta família muito raramente escolhe entre uso residencial ou turístico por faltar confiança no investir para arrendamento residencial.

-na esmagadora maioria dos casos, só a possibilidade de arrendar a turistas explica o investimento privado em reabilitação destes Alojamentos,

-destruir procura por arrendamento de curta duração a turistas para aumentar a oferta para arrendamento residencial é prova de ignorância, que até pode ser compreensível, ou de má fé por quem quer, de fato, minimizar o turismo.

Em 2011 (INE), há em Portugal Continental, um milhão de alojamentos de uso Sazonal (1.099 milhares ou 19%) e 704 mil Vagos (12%). O argumento de haver Alojamentos disponíveis para ‘alojar todos os que de alojamento carecem’ ignora a divergência geográfica entre procura e oferta e, sobretudo, a desconfiança pelo arrendamento residencial.

A criação de valor a partir destes 1.8 milhões de Alojamentos passa por outras vias. Ver posts a seguir.


A Bem da Nação

Lisboa 18 de Setembro de 2018

Sérgio Palma Brito


Cadeia de valor da imobiliária turística - o muito especial caso do Concelho de Loulé


No dia 17 de Setembro de 2018 participei no Think Tank – Alojamento Local, Autarquias e Turismo, em Loulé, com uma apresentação sobre a cadeia de valor da imobiliária turística no muito especial caso do Concelho de Loulé (figura 1).

Figura 1 – O evento de Loulé



Os slides que seguem são de apoio à minha intervenção no Think Tank. O texto é sintético e pode induzir ideias que não são as minhas:


Ponho a realidade da imobiliária turística no centro de uma apresentação sobre Alojamento Local para realçar uma das mais importantes funções da legislação aprovada:

-Prioridade total: integrar a cadeia de valor da I-T na oferta de turismo e não termos mais a oferta de I-T do Algarve demonizada como ‘imobiliária’ e ‘camas paralelas’ ou ‘clandestinas’.

Dada a importância e atualidade do tema que se designa genericamente por Alojamento Local, publicarei uma série de textos mais claros e precisos sobre os pontos mais importantes.


A Bem da Nação

Lisboa 18 de Setembro de 2018

Sérgio Palma Brito



Receita de Viagens e Turismo por mercados emissores e prioridades políticas


No presente post mostramos como os diferentes mercados emissores contribuem para a Receita de Viagens e Turismo. É tempo de insistir que todas as estatísticas de turismo assentam em ‘país de residência’ e não ‘nacionalidade’. Em termos práticos, a consequência mais importante é a de ser contada a despesa em Portugal por emigrantes portugueses em deslocação turística ‘à terra’ – insisto por ainda haver muito a noção de turismo ser o exclusivo de ‘camones a alojar na hotelaria’. Assim como também conta a despesa dos turistas que alojam na sua ‘casa de férias’ ou em Alojamento Gratuito por Familiares e Amigos. Por fim e no caso de Espanha, há importantes núcleos de excursionismo (sem pernoita) junto a algumas fronteiras terrestres.


1.Introdução

*Ranking países em 2017
Recordamos a evolução da Receita de Viagens e Turismo entre 1996/2017 e voltamos a destacar o crescimento atípico de 2017, a culminar um crescimento sustentado desde 2009.

Gráfico 1 – Receita de Viagens e Turismo entre 1996/2017


Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal BPStat

Do ranking de países em 2017 (gráfico 2), retemos:

-tudo indica que os quatro grandes mercados emissores continuarão a destacar-se, não havendo ‘Belenenses à vista’, isto é, nenhum destes mercados baixará ao nível a que estão os EUA,

-os EUA podem vir a ser um caso atípico, abaixo dos quatro grandes mas acima dos outros mercados agora no grupo de ‘mais de €400 milhões’,

-que mercados poderão subir acima da fasquia de €800 milhões?

-qual a performance futura da China e Polónia?

Gráfico 2 – Receita em 2017 – ranking por países


Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal BPStat

*Algum detalhe sobre a variação da Receita entre 2016/17
Da variação da Receita entre 2017/17 (gráficos 3 e 4), destacamos EUA e Brasil nos lugares cimeiros, seguidos por médios e pequenos contributos de vários países.

Gráfico 3 – Variação da Receita entre 2016/2017 – ranking por países


Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal BPStat

Gráfico 4 – Variação da Receita entre 2016/17 – parte dos países na variação


Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal BPStat

*Algum detalhe sobre a variação da Receita entre 2009/17
Da variação da Receita entre 2009/17 (gráficos 5 e 6), destacamos a liderança dos ‘quatro grandes’, um segundo grupo com Brasil Holanda e Bélgica, mais Suíça, Angola, Irlanda, Canadá e Itália num grupo à volta dos €200 milhões.

Gráfico 5 – Variação da Receita entre 2009/2017 – ranking por países


Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal BPStat

Gráfico 6 – Variação da Receita entre 20º9/17 – parte dos países na variação



Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal BPStat


2.Os quatro grandes mercados emissores

A parte dos quatro grandes mercados emissores no total da Receita de Viagens e Turismo cresce até 2005, diminui de maneira sustentada até 2013, para subir de novo até 2016 e descer em 2017 Receita (gráfico 7). Destacamos a nossa incapacidade em explicar esta evolução, sobretudo a queda sustentada entre 2005/13. Falta análise mais profunda.

Gráfico 7 – Quatro grandes mercados emissores em % da Receita


Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal BPStat

No grupo de mercados com receita superior a €4.000 milhões (gráfico 8),
-França é o que mais cresce, num misto de franceses e portugueses emigrantes,
-o Reino Unido, depois da queda de 32,2% entre 2007/2009, cresce lentamente até 2013 e 16,1% entre 2013/2014, com o valor de 2014 (€1.748 milhões) ainda abaixo dos €1790 milhões de 2007,
-a Alemanha quase ultrapassa a Espanha, mas Portugal tem a obrigação de fazer melhor no mais importante mercado emissor da Europa [ver a seguir].
Gráfico 8 – Evolução da Receita nos quatro grandes mercados emissores

Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal BPStat


Gráfico 9 – Parte da Receita nos quatro mercados emissores no total da Receita de Portugal
Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal BPStat

3.Outros mercados emissores

Os gráficos que seguem visam apenas sensibilizar o leitor sobre a evolução de mercados que, por várias razões, são pertinentes.

*Mercados emissores com receita superior a 400 milhões de euros
No grupo de mercados com receita superior a €400 milhões (gráfico 10),
-EUA confirmam a posição de rizing star,
-Holanda confirma a subida ao grupo e aumento do ritmo de crescimento sustentado que vem de 2003,
-Brasil a crescer em 2017 e Bélgica a recuperar do valor de 2000.
Gráfico 10 – Evolução da Receita nos mercados com >€400milhões
Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal BPStat
*Mercados emissores com receita entre €300 e €400milhões
Do grupo de mercados emissores com receita entre €300 e €400milhões (gráfico 11). Destacamos o caso especial de Angola onde a questão é saber como e quando volta a crescer. Depois Suíça, Irlanda e Itália têm evolução próxima, com ligeira tendência de maior crescimento dos dois primeiros mercados. O grafismo de que dispomos não nos permite inserir rótulos de dados.
Gráfico 11 – Evolução da Receita nos mercados entre €300 e €400 milhões
Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal BPStat
*Mercados emissores com receita entre €200 e €300milhões
Do grupo de mercados emissores com receita entre €200 e €300 milhões (gráfico 41), destacamos a recuperação e potencial de crescimento do Canada e o Luxemburgo muito ligados a emigrantes portugueses.
Gráfico 12 – Evolução da Receita nos mercados entre €200 e €300 milhões

Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal BPStat

*Mercados emissores especiais: Polónia e China
Por fim, destacamos os mercados emissores da Polónia e China (gráfico 13), diferentes na dimensão e no potencial de crescimento e a justificar acompanhamento.
Gráfico 13 – Receita de dois mercados emissores especiais
 Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal BPStat

9.Notas finais
*Receita de Viagens e Turismo por Continentes
Comecemos por situar a origem da Receita de Viagens e Turismo por Continentes dos mercados emissores (gráfico 14).

Gráfico 14 – Receita de Viagens e Turismo – parte dos continentes no total

 
Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal BPStat

Destacamos:

-estabilidade da Receita com origem na Europa em que fica por saber a parte atribuída a emigrantes portugueses que se deslocam a Portugal,

-estabilidade aparente da América, com pico em 2013, queda até 2016 e recuperação em 2017 por via de Estados Unidos e Brasil, como vimos antes,

-África com pico em 2013 e queda desde então e crescimento lento, mas crescimento sustentado da Ásia que, em condições normais, ultrapassará África pelo efeito China.

*Receita em percentagem da Despesa de Mercados Emissores
O gráfico 15 ilustra a Despesa de Viagens e Turismo em mercados emissores importantes para Portugal e o gráfico 16 a parte da Receita de Viagens e Turismo de Portugal na Despesa de cada País (9). Destacamos:

-Alemanha com a Despesa de longe mais importante e em antepenúltimo lugar da percentagem – mercado a gritar para Portugal o levar a sério,

-Espanha com Despesa inferior às de Bélgica, Holanda e Suíça, mas com a percentagem mais alta – porventura por proximidade geográfica e cultural mais excursionismo,

-Bélgica tem Despesa superior à da Holanda, mas 2.2% de percentagem contra 3.3% da Holanda – o posicionamento do Algarve parece explicar a diferença,

-Polónia com percentagem já superior à de Itália, mas Despesa de um terço da de Itália – pode ou não ser mercado de crescimento?

Estas e mais questões podem ser levantadas e de maneira mais profunda (série 1996/2017) por quem tenha acesso à base de dados do FMI. Certo é não podermos ignorar esta dimensão no branding dos Destinos Regionais e Marketing & Vendas da Oferta.

Em 1989, a então Alemanha Ocidental passa a ser o mercado mais importante do turismo internacional na Europa, acabando com o domínio do Reino Unido que datava do século XVIII. A reunificação no que é a atual Republica Federal da Alemanha reforça esta liderança.

Gráfico 15 – Despesa por mercado emissor em 2016


Fonte: Elaboração própria com base em Eurostat.

O gráfico 16 ilustra a percentagem da Receita de Portugal na Despesa de mercados emissores em 2016. De memória de homem, nunca o vimos publicado, ainda menos analisado e nem por sombras tido em conta no marketing & vendas da nossa oferta de turismo. A parte da Espanha é uma surpresa e a da Alemanha um desastre para nós.

Gráfico 16 – Percentagem da Receita de Portugal na Despesa de mercados emissores em 2016

Fonte: Elaboração própria com base em Eurostat.

*Receita do Turismo, Políticas Públicas e o exemplo de 1964
Parece ser consensual que o Saldo acumulado das balanças corrente e de capital é decisivo para a sustentabilidade da Economia e Sociedade do País. Já será menos consensual, mas é nossa opinião que

-as políticas publicas de Turismo e de Transversalidade do Turismo devem dar prioridade ao crescimento do contributo da Receita de Turismo para o superavit do Saldo, antes até da importante contribuição do turismo para o PIB.

Mais concretamente e face a estes números,

-a prioridade das Políticas Públicas consiste em facilitar e fomentar a competitividade de empresas e estabelecimentos que estão na base das deslocações a Portugal por residentes no estrangeiro,

-estas Políticas devem também ser avaliadas pela sua capacidade em contribuir para a Receita de Turismo na Balança de Pagamentos.

*O exemplo de 1963/64
Perdemos a clarividência de 1964, quando o País enfrenta problemas cambiais porventura mais graves dos de hoje e quando o Turismo acaba por ser integrado nos trabalhos preparatórios do que virá a ser o Plano Intercalar de Fomento para 1965-1967. Citamos:

-“houve um critério que esteve sempre presente: o de que se deve dar prioridade às medidas destinadas a fomentar o turismo de estrangeiros, mesmo quando isso implique um certo sacrifício nas atuações orientadas no sentido do turismo interno.”*.


A Bem da Nação

Lisboa 14 de Setembro de 2018

Sérgio Palma Brito

*Presidência do Conselho, Relatório do Grupo de Trabalho nº 13, Turismo dos trabalhos preparatórios do Plano Intercalar de Fomento para 1965/1967, Lisboa, 1964.



Receita de Viagens e Turismo nas contas exteriores de Portugal


O título do post devia ser “Receita de Viagens e Turismo no Saldo Acumulado das Balanças Corrente e de Capital" (a seguir “o Saldo”, na linguagem de pau do Banco de Portugal, porque é disso que se trata. Quando está em causa a sustentabilidade do País na sua relação com o mundo em que se insere, este ‘saldo’ e tão ou mais importante que do que o “saldo das Contas Pública” (vulgo déficit público). É possível que a mais importante contribuição do turismo para a Economia seja a sua contribuição decisiva para este saldo. A contribuição para o PIB é abordada em post a publicar ainda em 2018.

Neste post percorremos o caminho para chegar a este “saldo acumulado das balanças corrente e de capital”. Enjoy!


1.Despesa de Viagens e Turismo e a chamada Balança Turística

*Sobre a Despesa de Viagens e Turismo e a Balança Turística
Neste documento,

-autonomizamos e damos prioridade à Receita de Viagens e Turismo, como atividade geradora de transferência de recursos do exterior e contributo positivo para “o Saldo”,

-autonomizamos a Despesa de Viagens e Turismo, como atividade geradora de transferência de recursos para o exterior e contributo negativo para “o Saldo”.

Recusamos a noção de Balança Turística por

-resultar da diferença de duas dinâmicas económicas diferentes, a de transferir recursos do exterior e a de transferir recursos para o exterior

-escamotear o verdadeiro contributo positivo e negativo do Turismo para a Balança de Pagamentos,

-não fazer sentido, como não faria a de Balança Vínica ou Sapática.

Dito isto, é inquestionável que o Banco de Portugal contabilize débito e crédito da de Viagens e Turismo e apresente o saldo. Faz parte da sua missão.

Em 2017 temos (gráfico 1):

-a economia do turismo exporta €15.153 milhões de serviços de viagens e turismo, em deslocações a Portugal por residentes no estrangeiro.

-Portugal importa €4.293 milhões de euros de serviços de viagens e turismo, em deslocações ao estrangeiro por residentes em Portugal.

O turismo interno (residentes em Portugal em deslocação turística no País) pode representar alguma substituição de importações, mas não abordamos este aspeto.

O gráfico 1 ilustra a evolução da Receita e Despesa de Viagens e Turismo na Balança de Pagamentos. Constatamos que a Receita é mais importante do que a despesa e cresce a ritmo mais rápido,

Gráfico 1 – Evolução da Receita e Despesa de Viagens e Turismo


Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal BPStat

O gráfico 2 apresenta a percentagem da Despesa de Viagens e Turismo na Receita. Esta percentagem

-diminui entre 1996/2004, aumenta até 2010 e diminui de maneira sustentada desde então,

-não tem grande significado por resultar muito do crescimento da Receita.

Gráfico 2 – Percentagem da Despesa de Viagens e Turismo na Receita

Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal BPStat





O gráfico 3 ilustra a evolução das Exportações e Importações de Bens e tem sobretudo a ver com a atividade da Agricultura e Indústria.

Gráfico 3 – Exportações e Importações de Bens



O gráfico 4 ilustra a evolução das Exportações e Importações de Serviços, entre os quais Viagens e Turismo.

Gráfico 4 – Exportações e Importações de Serviços


*Receita de Viagens e Turismo na Exportação de Bens e de Serviços
A comparação entre Receita e valor das Exportações de Bens (gráfico 10) dá uma ideia dos valores em causa e do potencial de crescimento para ambos. Esta comparação tem interesse

-para compreender as Exportações fora do dilema em que as meteram: fazer crescer as Exportações de Bens é ‘de direita’ e o Estado endividar-se para injetar dinheiro na economia e aumentar o poder de compra é ‘de esquerda’,

-por o crescimento das Exportações de Bens e da Receita de Viagens e Turismo ter sinergia a que voltaremos.

O gráfico 5 ilustra a Percentagem da Receita de Viagens e Turismo na Exportação de Bens. Destacamos,

-estabilidade entre 1996/2013 e crescimento da percentagem a partir desse ano, por a Receita de Viagens e Turismo crescer mais do que as Exportações de Bens,

-este fato reforça a importância do Turismo e dá a medida da crítica de ‘Portugal ficar reduzido ao Turismo’, quando as Exportações também crescem.

Momento para situar o Turismo como exportador de Bens in situ:

-a garrafa de vinho vendida à exportação a €2, pode ser vendida num restaurante a €10, com muito maior Valor Acrescentado nacional … mas com os €10 contabilizados na Receita de Viagens e Turismo.

Gráfico 5 – Percentagem da Receita de Viagens e Turismo na Exportação de Bens


Fonte: Elaboração própria com base em BPStat e https://ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=cn_quadros&boui=220637315

O gráfico 6 ilustra a Percentagem da Receita de Viagens e Turismo na Exportação de Serviços e dá outro aspeto da evolução que observamos.

Gráfico 6 – Percentagem da Receita de Viagens e Turismo na Exportação de Serviços


Fonte: Elaboração própria com base em BPStat e https://ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=cn_quadros&boui=220637315


*Receita Viagens e Turismo e Saldo externo de Bens e Serviços
Por fim o gráfico 7 ilustra a evolução do Saldo externo de Bens e Serviços. Este saldo é elemento importante da relação entre Portugal e o Exterior, que inclui ainda movimento de capital e outros (ver figura 1). Para obter este saldo somamos exportações de Bens e de Serviços e diminuímos a sua importação.

Gráfico 7 – Saldo externo de Bens e Serviços


*Receita de Viagens e Turismo no saldo da Balança de Serviços
Vimos antes (gráficos 5 e 6) como a Receita de Viagens e Turismo influencia o saldo da Balança de Serviços na Balança Corrente. O gráfico 8

-compara o Saldo Externo de Bens e Serviços com a Receita de Viagens e Turismo – notar que esta Receita vem a Crédito no cálculo deste Saldo,

-mostra a importância da Receita neste Saldo e, por esta via no Saldo Acumulado das Balanças Corrente e de Capital (figura 1).

Gráfico 8 – Saldo Externo de Bens e Serviços e Receita Viagens e Turismo


Fonte: Elaboração própria com base em INE – Contas Nacionais.


4.Receita de Viagens e Turismo no saldo acumulado das balanças corrente e de capital

A finalizar, a figura 1 ilustra a evolução do Saldo Acumulado das Balanças Corrente e de Capital desde 2008. Não conseguimos aceder a informação estatística até 1996, pelo que nos limitamos a copiar a figura publicada pelo Banco de Portugal.

Figura 1 – Decomposição do saldo acumulado das balanças corrente e de capital


Fonte: Recortado de NOTA DE INFORMAÇÃO ESTATÍSTICA 19|2018, Balança de pagamentos, Dezembro de 2017 21 de fevereiro de 2018 (5).

Desta figura, destacamos:

-um Saldo negativo até 2011, que atinge o equilíbrio em 2012 e é positivo desde 2013 até à atualidade,

-um contributo fortemente negativo da Balança de Bens e Serviços (esta inclui a Receita de Viagens e Turismo), que passa a positivo a 2013 e é, de facto, o fator que determina esta evolução,

-a importância da sustentabilidade deste Saldo para a reputação de Portugal nos mercados em que Republica e empresas se financiam e junto das instituições internacionais pertinentes.


A Bem da Nação

Lisboa 13 de Setembro de 2018

Sérgio Palma Brito

Evolução da Receita de Viagens e Turismo entre 1996/2017


Neste post situamos a importância e crescimento da Receita de Viagens e Serviços, com destaque para o do ano de 2017. Comparamos a evolução da Receita de Viagens e Turismo e da Exportação de Bens, mostrando como estas últimas têm potencial de crescimento e este crescimento é indispensável ao do PIB de Portugal. Por fim, comparamos a Receita de Viagens e Turismo e o PIB, em Portugal e outros países europeus.

1.Evolução da Receita de Viagens e Turismo 1996/2017

* Receita de Viagens e Turismo
Os gráficos 1 a 3 ilustram a evolução da Receita de Viagens e Turismo entre 1996/2017. Observamos,

-crescimento sustentado até 2008, queda de 7,2% em 2009,

-arranque do crescimento em 2010 para um primeiro patamar e em 2014 para um mais elevado,

-um crescimento atípico em 2017, a exigir explicação que abordamos no post Crescimento excecional da Receita de Viagens e Turismo em 2017.

Gráfico 1 – Evolução da Receita de Viagens e Turismo em €milhões


Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal BPStat


Gráfico 2 – Variação anual da Receita em €milhões



Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal BPStat


Gráfico 3 – Evolução da variação anual da Receita em percentagem



Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal, Balança de Pagamentos.

*Um ano atípico
O valor extraordinário do crescimento da Receita de Viagens e Turismo em 2017 deveria ter levado Banco de Portugal, Turismo de Portugal ou uma universidade a responder a duas perguntas pertinentes:

-a que se deve o crescimento de 19.5%, numa série que tem crescimento sustentado desde 2010, mesmo se a ritmo a ritmo menor?

-qual a parte destes €2.473milhões no crescimento do Consumo Privado no PIB de 2015.

O gráfico 4 compara as taxas de crescimento anual de Receitas de Viagens e Turismo, do total de Passageiros em Lisboa, Porto e Faro, e das Dormidas na Hotelaria. Destacamos uma evolução muito próxima dos três indicadores, com divergências recentes:

-o já muito conhecido surto de crescimento do número de Passageiros a partir desde 2015,

-o crescimento regular de Dormidas na Hotelaria, mas com baixa em 2017,
-o crescimento atípico da Receita de Viagens e Turismo em 2017, superior ao da Receita e com a da taxa de variação das Dormidas a diminuir.

Gráfico 4 – Receita, Passageiros e Dormidas – variação anual em %



Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal, Balança de Pagamentos, ANA Aeroportos e Destaques da Hotelaria, INE.

A divergência entre o crescimento da Receita, quando comparado com o dos Passageiros em Lisboa, Porto e Faro, e Dormidas na Hotelaria pode resultar do feito conjugado de:

-perda das Dormidas na Hotelaria compensada pela conjugação de Alojamento Local,

-Receita gerada por emigrantes portugueses que se deslocam em automóvel e alojam em casa própria ou de Familiares e Amigos,

-estadias longas de titulares de vistos Gold e de ‘reformados fiscais’ em suas casas.


2.Receita de Viagens e Turismo e Exportações de Bens e de Serviços

*Comparar Receita de Viagens e Turismo e Exportação de Bens
O gráfico 5 ilustra a percentagem da Receita de Viagens e Turismo na Exportação de Bens. Destacamos a estabilidade entre 1996/2013 e crescimento da percentagem a partir desse ano, por a Receita de Viagens e Turismo crescer mais do que as Exportações de Bens,

Esta evolução mostra a falta de base da conhecida afirmação ‘Portugal não pode ficar reduzido ao Turismo’. As Exportações de Bens são bem mais importantes do que a Receita, apesar da evolução desta de 2013 para cá.

Gráfico 5 – Percentagem da Receita de Viagens e Turismo na Exportação de Bens


Fonte: Elaboração própria com base em BPStat e https://ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=cn_quadros&boui=220637315

É o momento de situar o Turismo como exportador de Bens in situ. Podemos multiplicar exemplos, mas damos apenas um:

-a garrafa de vinho vendida à exportação a €2, pode ser vendida num restaurante a €10, com muito maior Valor Acrescentado nacional … mas com os €10 contabilizados na Receita de Viagens e Turismo.

*Despartidarizar o crescimento das Exportações de Bens
Procuramos compreender as Exportações fora do dilema em que a guerra político partidária as meteu: fazer crescer as Exportações de Bens é ‘de direita’ e o Estado endividar-se para injetar dinheiro na economia e aumentar o poder de compra é ‘de esquerda’.

O gráfico 6 ilustra as exportações em 2016 em alguns países. Não incluímos a Alemanha porque os $1.341 milhares de milhões ‘rebentam a escala’ e o gráfico não ilustraria a diferença entre os outros países.

Gráfico 6 – Exportações em 2016 em alguns países em $1.000milhões

Fonte: Elaboração própria com base em http://worldstopexports.com/top-european-export-countries/

Deste gráfico, destacamos:

-o caso da Holanda, que exporta mais do que o Reino Unido e Bélgica,

-Portugal ao nível Finlândia, mas com 10.5 milhões de habitantes contra 5.4 milhões da Finlândia, e abaixo da Roménia.

Em nossa opinião, Portugal

-é um País pobre, entre outros, por exportar pouco – só vendendo no mercado externo as empresas localizadas em Portugal aumentarão significativamente a sua produção, isto é, o crescimento do PIB passa também pelas Exportações,

-tem potencial de crescimento nas exportações (ver casos de Bélgica e Holanda), o que exige empresas competitivas num País competitivo.


3.Comparar Receita de Viagens e Turismo e PIB

*Receita de Viagens e Turismo em percentagem do PIB
O Gráfico 7 compara a evolução da percentagem da Receita de Viagens e Turismo no valor do PIB durante o mesmo período. Esta percentagem
-não representa a contribuição da Receita de Viagens e Turismo para o PIB a Receita é uma ‘venda’ e o PIB assenta em Valor Acrescentado,

-apenas dá ideia da importância relativa da Receita na Economia e permite comparações internacionais [ver a seguir].

Destacamos:

-entre 1996/2009 a percentagem é estável e de valor modesto,

-a partir de 2009 cresce de maneira sustentada e duplica, com o esperado destaque entre 2016/17.

Gráfico 7 – Receita de Viagens e Turismo em percentagem do PIB


Fonte: Elaboração própria com base em Pordata e BPStat

O gráfico 8 compara, em valores de 2016, a percentagem da Receita no valor do PIB em alguns países. Destacamos

-grupo de quatro pequenos países onde o turismo é muito importante,

-Portugal e Grécia em patamar intermédio entre este grupo e o grupo de países onde o turismo é muito importante, mas com economia muito importante também.

Gráfico 8 – Percentagem da Receita no PIB em alguns países


Fonte: Elaboração própria com base em Eurostat, Tourism Statistics


A Bem da Nação

Lisboa 11 de Setembro de 2018

Sérgio Palma Brito