Procura-se gente com conhecimento para comentar a TAP, SA


António Pedro de Vasconcelos publica opinião no Publico (a tornar-se num albergue espanhol ou novel banda da Salvada) que diz mais sobre a sua pessoa do que sobre a TAP. Hoje é o suplemento Economia do semanário de referência a contribuir para a entropia do Universo*. Precisamos de gente que saiba da poda para comentar TAP e transporte aéreo.

1.Tensões entre acionistas é o grande título. O texto nada acrescenta ao que se sabe sobre a tensão que o ministro Pedro Nuno Santos veio introduzir na relação Estado e privados ao trazer para a praça publica assunto interno da empresa e assim mostrar a sua falta de preparação para exercer a função acionista e o perigo da extrema esquerda do PS, quando fora de controlo. O texto não informa que o acordo entre Estado e privados assenta em a gestão privada da empresa pela Comissão Executiva. Sobre a tensão entre privados nada de concreto diz e não põe o cenário que é possível pôr: agora que é cidadão comunitário, quererá Neeleman livrar-se de Humberto Pedrosa?.

2.David Neeleman continua a ser desconhecido por quem escreve sobre a TAP, a entrevista à Revista do Expresso passa ao lado e a entrevista na SIC Notícias chega para enterrar o casalinho de jornalistas que o entrevistou. Com Jane Morris, fundou a Morris Airways que vendeu à Southwest Airways, foi cofundador da West Jet hoje a terceira companhia aérea do Canada, uma empresa sua inova com o bilhete eletrónico, funda a Jet Blue nos EUA uma low cost inovadora na cabine e animação, no Brasil funda a Azul pioneira do transporte low cost e, depois de ter recolhido financiamento de   $100 milhões, prepara atualmente uma companhia revolucionária, a Moxy, que voará a partir de 2021 nos EUA com base no novo Airbus 220, vocacionado para o mercado dos 120-160 lugares. 

Neeleman é um nome conhecido, respeitado, que atrai financiamento e apoio e que assume o risco da Moxy. Este é o homem que discretamente acompanha o dossier TAP, não precisa que nenhum ministro lha venda e a vai salvar da falência no final de 2015. Este é o homem que está na moda denegrir e caluniar.

3.O acordo de reversão da privatização da TAP negociado por Diogo Lacerda Machado dá 50% do capital ao Estado mas retira-lhe direitos económicos (fica com 5%) e cria obrigações que levam o Tribunal de Contas a a considerar que “Não conduziu ao resultado mais eficiente. Com efeito, não foi obtido o consenso necessário dos decisores públicos, tendo as sucessivas alterações contratuais agravado as responsabilidades do Estado e aumentado a sua exposição às contingências adversas da empresa.”. 

Para grande desgosto do arvorado acionista que representa o Estado português partidarizado, o acordo impede o Estado de demitir a Comissão Executiva, o que em Portugal é condição mínima da gestão. PNS não lê o Financial Times e ainda menos o de 2012.07.17 que refere Neeleman ter aprendido a lição com a Jet Blue e na Azul ter apenas 15% do capital, mas não poder ser demitido pela administração.

4.Ainda é cedo para avaliar a gestão privada da TAP, mas já é possível e justo tirar-lhe o chapéu. O artigo cita ‘fontes’ que reconhecem “a ‘liderança’ de Neeleman na empresa é natural — e até desejável — porque com os seus conhecimentos e contactos no mundo da aviação a TAP só pode sair beneficiada.”. Vamos por partes, que o texto ignora. 
Ao lançar o hub Lisboa nos EUA Neeleman gera a receita que evita a falência e cria base para o futuro e ao juntar o stopover Lisboa dá-lhe a dimensão turística que Fernando Pinto ignora em 2000 quando lança o hub Brasil … ao qual Neeleman acrescenta o stopover Rio – há diferença entre um gestor e um acionista.
Reformula a frota da TAP, saindo da esparrela dos Airbus A350-900 difíceis de rentabilizar, indo para os 330neo mais ágeis e sobretudo o A321LR que rentabiliza rotas para a costa Este e Nordeste do Brasil – a renovação da frota está em curso (os 4 Airbus A340 de 1994 ainda voam até Dezembro) e reduz o custo estrutural do fuel. Parece simples, mas só quem sabe e tem amigos é que consegue.

5.A história da HNA está muito mal contada, quando exige ser conhecida e o importante não é, de certeza, “os chineses da HNA entraram na TAP se falou na possibilidade de a prazo substituírem Neeleman, pelo menos parcialmente”. Em Julho de 2015, a americana United investe $100 milhões no capital da Azul.  Em Novembro de 2015, a HNA adquire 24% do capital da Azul o que exige longas negociações prévias. Parece ser DN quem os atrai para a TAP, que financiariam, com base no hub de Lisboa concorrer com o de Vancouver na ligação entre China e América Latina. 
Em Setembro de 2016 David Neeleman refere HNA Airlines como “É bom ter um tio rico”. No início de 2018, quando a HNA é obrigada a liquidar sonhos e sai da Azul e TAP, Humberto Pedrosa afirma "Se HNA não investir na TAP será preciso outro parceiro", acrescenta “estava também previsto que a HNA pudesse investir ainda mais na TAP, em termos até de empréstimos, se houvesse dificuldades. Daria uma ajuda bastante valiosa. Não se estava a contar com a situação em que a HNA está hoje.” e interrogado sobre um Plano B, conclui “Não tenho, mas vamos ter de encontrar.”. 

Em tudo isto, como no passado e no futuro com a Moxy, David Neeleman é o driver e o homem a reter.

6.Não podemos voltar ao ridículo de 2012 quando fomos bombardeados com o interesse das grandes companhias aéreas pela TAP de maneira provinciana e ficámos reduzidos ao Efromovitch. O texto do Expresso dá voz a “vários protagonistas do sector” que “com a tendência de consolidação do sector na Europa, não enjeitam a possibilidade de a Lufthansa vir a olhar para a TAP, que tem como grande atrativo para a companhia alemã o mercado africano e o Brasil.”. Nas notícias sobre transporte aéreo, não há qualquer referência ao assunto e, quando se conhece a história recente da Lufthansa e perspetivas de futuro, a TAP não encaixa. E então o político que o Estado português partidarizado vai arvorar em acionista ainda menos.

7.Este post vai ser fundamentado por trabalho em curso sobre a privatização da TAP em 2015, o antes e o depois. As afirmações mais firmes são justificadas em posts anteriores sobre a TAP.


A Bem da Nação

Lisboa 13 de Julho de 2019

Sérgio Palma Brito


*Ver

-Não TAP os olhos: o “rei” Neeleman vai nu!

-Turbulência entre acionistas da TAP


Comentários sobre “ALGARVE: É PRECISO PENSAR ALÉM DO TURISMO”


Com este título, o Publituris a 1 de Julho de 2019 publica um texto de opinião de Luís Coelho*,  presidente do Secretariado da Delegação Regional do Algarve da Ordem dos Economistas. Acompanho com a atenção possível a opinião das novas gerações sobre a procura/oferta de turismo no Algarve, desde este caso até à série Lugar a Sul e outros. Comento este texto por ser uma boa base.

Comecemos pelos erros mais frequentes:  

-O texto apenas considera a indústria da Hotelaria e ignora haver no Algarve cerca de 120.000 alojamentos (apartamentos e vivendas) que são investimento de famílias nacionais e estrangeiras – são utilizados pelo proprietário ou colocados no mercado do holiday rental, agora batizado de Alojamento Local. 

-A história de sucesso do turismo do Algarve começa a ser escrita a partir de 1962, quando a decisão de Salazar sobre o aeroporto de Faro desencadeia grandes projetos, de Vale do Lobo a Penina, passando por Vilamoura, Alvor etc. Facto positivo e raro, o autor reconhece que a prosperidade de que o Algarve beneficia (segunda região do País em PIB per capita) se deve ao turismo. 

-Quanto à volatilidade da procura turística, a evolução 1966/2018 dos passageiros no aeroporto de Faro mostra crescimento sustentado com curtas crises conjunturais rapidamente ultrapassadas – tudo menos volatilidade. O problema não é esse. É nós não sermos capazes de criar governação e regulação públicas que permitam a adaptação da oferta à procura.


A preocupação com a dependência do Algarve em relação ao turismo remonta ao IV Plano de Fomento e suscita abundante publicação de relatórios por CC(D)RA e outros. Quase todos apresentam a diversificação da economia em ‘alternativa’ ou mesmo ‘contra’ o turismo. Nenhum considera aquilo que está já timidamente no terreno, as infraestruturas do turismo e sobretudo o cosmopolitismo gerado serem incubadoras de atividades. Se a malta nova permite um conselho, vão por aqui e interroguem a elite regional sobre o seu falhanço e interroguem-se porque diabo nenhuma das propostas foi implementada.


Os impactes negativos do turismo não são inerentes ao turismo. Resultam de sucessivas políticas e intervenções da Administração Central e autarquias pertinentes assegurarem a regulação do turismo. Brevemente virei a público com trabalho de fundo sobre isto.


Por fim atribuir ao turismo a desgraçada realidade da “total incapacidade do Algarve para se afirmar no contexto nacional” é passar ao lado da questão, mas a conversa seria longa e penosa.


Completamente de acordo com “encetar um esforço sério com vista à diversificação da base económica da Região procurando um posicionamento na cadeia de valor internacional que deixe mais riqueza no Algarve”, mas seguido de uma implementação concreta por agentes públicos claramente responsabilizados por políticas que atraiam pessoas, atividades e empresas ‘aos montes’ porque sem isso a tal diversificação será fracota. Avante.


A Bem da Nação

Lisboa 2 de Julho de 2019

Sérgio Palma Brito


Ou aqui [destaques nossos]:
O Algarve assume-se como a capital turística de Portugal, pretensão que encontra eco numa miríade de argumentos como sejam as suas extensas paisagens naturais, o seu clima temperado mediterrânico ou a magnífica linha de costa que serve a Região. Dados oficiais do Instituto Nacional de Estatística revelam que, em 2018, a Região registou 18,8 milhões de dormidas na sua hotelaria classificada (i.e., um terço do total nacional) e um volume de negócios de 1,081 milhões de euros. Esta é a página mais recente de uma história de sucesso que começou a ser escrita em 11 de Julho de 1965, dia em que o Aeroporto de Faro começou a operar, e que permitiu que Algarve se transformasse na segunda região mais rica do País em termos de produto interno bruto por habitante.
Podemos então contar com o turismo para assegurar o futuro da Região? Gostaria de salientar três aspectos-chave neste contexto. O primeiro diz respeito ao risco que resulta de ter a economia regional totalmente dependente do fenómeno turístico. Historicamente, mais de 60% do Valor Acrescentado Bruto gerado pelo Algarve está concentrado em torno de sectores como o Comércio por grosso e a retalho, os transportes e armazenagem, as actividades de alojamento e restauração e a promoção imobiliária. Este padrão de especialização é único no País, sendo gerador de uma economia marcada pela sazonalidade e dependência de factores externos, assente num mercado de trabalho repleto de peculiaridades e idiossincrasias. Um segundo aspecto prende-se com os impactos negativos do turismo, nomeadamente em matéria ambiental e de (des)ordenamento do território e, bem assim, com o efeito inflacção – local e regional – que é ditado pela procura turística. O terceiro e último aspecto merecedor de destaque é, quiçá, o mais importante e está relacionado com a total incapacidade do Algarve para se afirmar no contexto nacional. Em particular, é notório que os problemas estruturais da Região nunca são prioridade para os diferentes governos, algo bem visível na questão da construção do novo Hospital Central e na total falta de investimento na rede de transportes que serve o Algarve.
Que balanço podemos então fazer? Há que reconhecer que o turismo tem e terá um papel importante na economia do Algarve, razão pela qual deverá ser sempre acarinhado. Dito isto, é fundamental encetar um esforço sério com vista à diversificação da base económica da Região procurando um posicionamento na cadeia de valor internacional que deixe mais riqueza no Algarve. Só assim será possível criar mais emprego qualificado, melhor remunerado e mais estável, ao mesmo tempo que se mitiga o risco resultante da volatilidade da procura turística mundial. Este é o caminho que temos de percorrer para que possamos responder afirmativamente às legítimas aspirações de todos os que vivem e trabalham no Algarve. Hoje e, sobretudo, no futuro.
Por Luís Coelho, presidente do Secretariado da Delegação Regional do Algarve da Ordem dos Economistas

Beja - “Há uma força que trava os investimentos na região e que eu não consigo explicar”


É mau começar por mim, mas tem que ser. Aljustrel está a 35km de Beja e Beja é parte da minha infância, adolescência (sexto ano do Liceu e primeiro namoro) e juventude de antes do exilio (foi de Beja que telefonei para o Porto poucos dias antes do exilio). Já nessa altura, Évora era outra cidade e eu ficava entre o triste e o revoltado por Beja ficar para trás. Antes de tudo o mais, nos últimos anos vivo com tristeza o atraso que Beja acumula e que é tão bem sintetizado na frase de Florival Baiôa Monteiro*.

*Os dois erros fatais da petição que só cria ilusão
Há tempos, não assinei a petição da Plataforma Alentejo sobre Estratégia Integrada de Acessibilidade Sustentável do Alentejo nas ligações Nacional e Internacional** – aqui Alentejo é sobretudo o Baixo Alentejo de Beja. Não assinei por ter visto muitos documentos e estudos (quantos estudos foram para o lixo?) como este – uma espécie de carta de criança ao Pai Natal com enorme lista de projetos não estudados, não justificados e sem qualquer hipótese de financiamento. Teria sido mais fácil assinar e não apanhar pancada por não o fazer, mas sou assim.

Ao erro Pai Natal junta-se o inevitável erro aeroporto: “Recorde-se que o aeroporto de Beja representa uma vantagem para os voos intercontinentais com destinos a estas regiões [Lisboa, Algarve, Andaluzia e Estremadura espanhola] que não dispõem de aeroportos para este efeito, como suporte à economia do Alentejo, em crescimento, sendo sempre uma resiliência e suplemento para o Aeroporto de Lisboa.” – isto é pura fantasia e descredibiliza qualquer documento em que apareça.

Tudo bem, dois erros, mas Que Fazer, como se interrogaria Lenine se estivesse entre nós?

*Lisboa e Faro, aeroportos de Beja para atrair pessoas, atividades e empresas

Aeroporto de Lisboa a 174 km e o de Faro a 147km não faz do alegado aeroporto de Beja (na realidade, pequeno terminal civil) uma alternativa ou complemento a estes aeroportos. Faz muito, mas muito mais, põe Beja acessível pela enorme conectividade aérea destes aeroportos. Esta vantagem comparativa tem de virar competitiva por duas ações: ferrovia e rodovia à partida de Lisboa e rodovia à partida de Faro (aqui esqueçam a ferrovia).

Esta vantagem competitiva na acessibilidade só se traduz em criação de riqueza se Beja iniciar um baby system (no sentido em que começa pequeno e vai crescendo) de atração de pessoas, atividades e empresas. A experiência da Hi Fly potenciada pela promoção da ANA, uma parceira importante e não inimiga por cegueira ideológica) ajuda o baby a crescer. Mas é preciso que a Câmara tome as medidas para as pessoas poderem vir para Beja – alojamento e serviços. A Câmara deve ser a dinamizadora deste projeto.

Neste contexto e com este argumento, as forças vivas de Beja têm de concentrar esforços na eletrificação da via férrea (mais Intercidades) e rodovia, ambas um escândalo inaceitável. O governo vai ter de ceder.

O aeroporto? Esqueçam de vez o terminal em espaço rural. Concentrem toda a energia na reconversão da Base Aérea em plataforma de empresas e serviços que necessitem de uma boa pista.

Fecho com nota pessoal. Para este projeto, contém comigo para apoiar, manifestar ou atirar tomates aos governantes que venham a Beja sem ser para formalizar a rodovia e ferrovia.


A Bem da Nação

Lisboa 26 de Junho de 2019

Sérgio Palma Brito


*Expresso de 22 de Junho de 2019




Mercado emissor do Reino Unido de 1980 na véspera do Brexit


O mercado emissor do Reino Unido é o segundo mais importante da Europa, depois da Alemanha, o mais importante para Portugal e o decisivo para o Algarve. A evolução deste mercado vai depender em boa parte de fatores ligados ao Brexit. Em qualquer das modalidades faladas, o Brexit pode diminuir a propensão para viajar e o desempenho da economia (recessão), pode desvalorizar a libra e gerar medidas de estupidez burocrática de consequências difíceis de prever. Este post é baseado em macro informação estatística até 31.12.2018, aceite como de boa qualidade. Não serve como business intelligence, mas ajuda a observar o que se passa. O essencial do post é resumido em quatro gráficos, os outros são publicados mais tarde e apoiam a base analítica do que aqui se afirma.

A evolução do número Total de deslocações ao estrangeiro mostra crescimento sustentado até ao plateau entre 2006-2008, seguida de queda brutal em 2009, com réplica em 2010. Depois começa a recuperação que em 2016 ultrapassa 2008 (oito anos depois), pequeno crescimento em 2017 e queda em 2019. Por outras palavras, o mercado sofre queda brusca com a Crise de 2008/09, mas recupera até à crise possível do Brexit. Esta terá lugar? Será mais violenta do que a anterior? E a recuperação mais lenta? Quem viver, verá.



Fonte – Elaboração pessoal com base em Office National Statistics – Travel Trends 2018.

O gráfico seguinte ilustra a taxa de variação anual do Total das Deslocações ao estrangeiro desde 1981. Salta à vista que esta taxa varia com as vagas da sociedade e da economia, mas é consistentemente positiva. Conhece pequenos valores negativos de quedas conjunturais, rapidamente recuperadas. A taxa ilustra a seriedade dos efeitos da Crise de 2008/09, com o mercado a recuperar menos rapidamente, mas a recuperar. Por outras palavras, o mercado é resiliente e a volatilidade reside na taxa de crescimento. Esclarecimento importante para muita da inteligência nacional que fala da volatilidade do turismo com o significado de queda estrutural e até irreversível.



Fonte – Elaboração pessoal com base em Office National Statistics – Travel Trends 2018.

O Total de deslocações é segmentado segundo três critérios: motivo da deslocação, área geográfica de destino e modo de transporte. No seio de cada um destes três critérios, há uma variável que domina: deslocações por holiday (o lazer, recreio ou férias do INE), com destino à Europa e em avião. O gráfico seguinte ilustra a parte de cada uma destas variáveis no número Total de Deslocações. Para Portugal interessa saber que o destino Europa cai do pico de 88,8% (1985) para o atual 79,9%, e o motivo Holiday cai para 65,6%. Como se verá no próximo post, Portugal concorre sobretudo no segmento ‘Holiday, Europa, Avião’.  


Fonte – Elaboração pessoal com base em Office National Statistics – Travel Trends 2018.

O gráfico seguinte ilustra a evolução recente da taxa de variação anual no Total de Deslocações e das variáveis dos critérios de segmentação que interessam a Portugal. A queda dos quatro indicadores é evidente e não é o pequeno valor positivo do motivo holiday que nos alegra.


Fonte – Elaboração pessoal com base em Office National Statistics – Travel Trends 2018.

Este post é um alerta sobre o que se tem estado a passar no mercado emissor mais importante do turismo português. Cabe a cada um segundo as suas responsabilidades dar segundo as suas possibilidades. O problema é quando as possibilidades estão a milhas das necessidades.


A Bem da Nação

Parque das Nações 5 de Junho de 2019

Sérgio Palma Brito


A Avó de todos os debates sobre Alojamento Local


Não, não é a Mãe. É mesmo a Avó, mas avozinha com garra, genica e ‘potencial’, como agora se diz. Esta Avó são os números do Recenseamentos da Habitação de 2011. Enquadram todo o debate sobre Alojamento Local.

O gráfico 1 ilustra as tês utilizações dos Alojamentos Familiares Clássicos (exclui barracas & similares) existentes em Portugal: Residência Principal, Uso Sazonal e Vagos. As noções são intuitivas, mas importa esclarecer

-a Residência Principal (3.929 milhares) pode ser em Alojamento arrendado ou de propriedade de quem lá vive,

-Alojamentos de Uso Sazonal (1.099 milhares) e Vagos (704 milhares) exigem que o proprietário tenha Residência Principal em Portugal, na mesma região ou não, ou no estrangeiro.

Gráfico 1 – Utilização dos Alojamentos Familiares Clássicos em 2011


Fonte: Elaboração própria com base em INE, Recenseamento da Habitação

Quando uma família é proprietária de um Alojamento de uso Sazonal ou Vago, está interessada na sua utilização ou arrendamento residencial ou turístico. O interesse concretiza-se quando há procura.

Em Portugal,

-esta família muito raramente escolhe entre uso residencial ou turístico por faltar confiança no investir para arrendamento residencial.

-na esmagadora maioria dos casos, só a possibilidade de arrendar a turistas explica o investimento privado em reabilitação destes Alojamentos,

-destruir procura por arrendamento de curta duração a turistas para aumentar a oferta para arrendamento residencial é prova de ignorância, que até pode ser compreensível, ou de má fé por quem quer, de fato, minimizar o turismo.

Em 2011 (INE), há em Portugal Continental, um milhão de alojamentos de uso Sazonal (1.099 milhares ou 19%) e 704 mil Vagos (12%). O argumento de haver Alojamentos disponíveis para ‘alojar todos os que de alojamento carecem’ ignora a divergência geográfica entre procura e oferta e, sobretudo, a desconfiança pelo arrendamento residencial.

A criação de valor a partir destes 1.8 milhões de Alojamentos passa por outras vias. Ver posts a seguir.


A Bem da Nação

Lisboa 18 de Setembro de 2018

Sérgio Palma Brito


Cadeia de valor da imobiliária turística - o muito especial caso do Concelho de Loulé


No dia 17 de Setembro de 2018 participei no Think Tank – Alojamento Local, Autarquias e Turismo, em Loulé, com uma apresentação sobre a cadeia de valor da imobiliária turística no muito especial caso do Concelho de Loulé (figura 1).

Figura 1 – O evento de Loulé



Os slides que seguem são de apoio à minha intervenção no Think Tank. O texto é sintético e pode induzir ideias que não são as minhas:


Ponho a realidade da imobiliária turística no centro de uma apresentação sobre Alojamento Local para realçar uma das mais importantes funções da legislação aprovada:

-Prioridade total: integrar a cadeia de valor da I-T na oferta de turismo e não termos mais a oferta de I-T do Algarve demonizada como ‘imobiliária’ e ‘camas paralelas’ ou ‘clandestinas’.

Dada a importância e atualidade do tema que se designa genericamente por Alojamento Local, publicarei uma série de textos mais claros e precisos sobre os pontos mais importantes.


A Bem da Nação

Lisboa 18 de Setembro de 2018

Sérgio Palma Brito



Receita de Viagens e Turismo por mercados emissores e prioridades políticas


No presente post mostramos como os diferentes mercados emissores contribuem para a Receita de Viagens e Turismo. É tempo de insistir que todas as estatísticas de turismo assentam em ‘país de residência’ e não ‘nacionalidade’. Em termos práticos, a consequência mais importante é a de ser contada a despesa em Portugal por emigrantes portugueses em deslocação turística ‘à terra’ – insisto por ainda haver muito a noção de turismo ser o exclusivo de ‘camones a alojar na hotelaria’. Assim como também conta a despesa dos turistas que alojam na sua ‘casa de férias’ ou em Alojamento Gratuito por Familiares e Amigos. Por fim e no caso de Espanha, há importantes núcleos de excursionismo (sem pernoita) junto a algumas fronteiras terrestres.


1.Introdução

*Ranking países em 2017
Recordamos a evolução da Receita de Viagens e Turismo entre 1996/2017 e voltamos a destacar o crescimento atípico de 2017, a culminar um crescimento sustentado desde 2009.

Gráfico 1 – Receita de Viagens e Turismo entre 1996/2017


Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal BPStat

Do ranking de países em 2017 (gráfico 2), retemos:

-tudo indica que os quatro grandes mercados emissores continuarão a destacar-se, não havendo ‘Belenenses à vista’, isto é, nenhum destes mercados baixará ao nível a que estão os EUA,

-os EUA podem vir a ser um caso atípico, abaixo dos quatro grandes mas acima dos outros mercados agora no grupo de ‘mais de €400 milhões’,

-que mercados poderão subir acima da fasquia de €800 milhões?

-qual a performance futura da China e Polónia?

Gráfico 2 – Receita em 2017 – ranking por países


Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal BPStat

*Algum detalhe sobre a variação da Receita entre 2016/17
Da variação da Receita entre 2017/17 (gráficos 3 e 4), destacamos EUA e Brasil nos lugares cimeiros, seguidos por médios e pequenos contributos de vários países.

Gráfico 3 – Variação da Receita entre 2016/2017 – ranking por países


Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal BPStat

Gráfico 4 – Variação da Receita entre 2016/17 – parte dos países na variação


Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal BPStat

*Algum detalhe sobre a variação da Receita entre 2009/17
Da variação da Receita entre 2009/17 (gráficos 5 e 6), destacamos a liderança dos ‘quatro grandes’, um segundo grupo com Brasil Holanda e Bélgica, mais Suíça, Angola, Irlanda, Canadá e Itália num grupo à volta dos €200 milhões.

Gráfico 5 – Variação da Receita entre 2009/2017 – ranking por países


Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal BPStat

Gráfico 6 – Variação da Receita entre 20º9/17 – parte dos países na variação



Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal BPStat


2.Os quatro grandes mercados emissores

A parte dos quatro grandes mercados emissores no total da Receita de Viagens e Turismo cresce até 2005, diminui de maneira sustentada até 2013, para subir de novo até 2016 e descer em 2017 Receita (gráfico 7). Destacamos a nossa incapacidade em explicar esta evolução, sobretudo a queda sustentada entre 2005/13. Falta análise mais profunda.

Gráfico 7 – Quatro grandes mercados emissores em % da Receita


Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal BPStat

No grupo de mercados com receita superior a €4.000 milhões (gráfico 8),
-França é o que mais cresce, num misto de franceses e portugueses emigrantes,
-o Reino Unido, depois da queda de 32,2% entre 2007/2009, cresce lentamente até 2013 e 16,1% entre 2013/2014, com o valor de 2014 (€1.748 milhões) ainda abaixo dos €1790 milhões de 2007,
-a Alemanha quase ultrapassa a Espanha, mas Portugal tem a obrigação de fazer melhor no mais importante mercado emissor da Europa [ver a seguir].
Gráfico 8 – Evolução da Receita nos quatro grandes mercados emissores

Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal BPStat


Gráfico 9 – Parte da Receita nos quatro mercados emissores no total da Receita de Portugal
Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal BPStat

3.Outros mercados emissores

Os gráficos que seguem visam apenas sensibilizar o leitor sobre a evolução de mercados que, por várias razões, são pertinentes.

*Mercados emissores com receita superior a 400 milhões de euros
No grupo de mercados com receita superior a €400 milhões (gráfico 10),
-EUA confirmam a posição de rizing star,
-Holanda confirma a subida ao grupo e aumento do ritmo de crescimento sustentado que vem de 2003,
-Brasil a crescer em 2017 e Bélgica a recuperar do valor de 2000.
Gráfico 10 – Evolução da Receita nos mercados com >€400milhões
Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal BPStat
*Mercados emissores com receita entre €300 e €400milhões
Do grupo de mercados emissores com receita entre €300 e €400milhões (gráfico 11). Destacamos o caso especial de Angola onde a questão é saber como e quando volta a crescer. Depois Suíça, Irlanda e Itália têm evolução próxima, com ligeira tendência de maior crescimento dos dois primeiros mercados. O grafismo de que dispomos não nos permite inserir rótulos de dados.
Gráfico 11 – Evolução da Receita nos mercados entre €300 e €400 milhões
Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal BPStat
*Mercados emissores com receita entre €200 e €300milhões
Do grupo de mercados emissores com receita entre €200 e €300 milhões (gráfico 41), destacamos a recuperação e potencial de crescimento do Canada e o Luxemburgo muito ligados a emigrantes portugueses.
Gráfico 12 – Evolução da Receita nos mercados entre €200 e €300 milhões

Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal BPStat

*Mercados emissores especiais: Polónia e China
Por fim, destacamos os mercados emissores da Polónia e China (gráfico 13), diferentes na dimensão e no potencial de crescimento e a justificar acompanhamento.
Gráfico 13 – Receita de dois mercados emissores especiais
 Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal BPStat

9.Notas finais
*Receita de Viagens e Turismo por Continentes
Comecemos por situar a origem da Receita de Viagens e Turismo por Continentes dos mercados emissores (gráfico 14).

Gráfico 14 – Receita de Viagens e Turismo – parte dos continentes no total

 
Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal BPStat

Destacamos:

-estabilidade da Receita com origem na Europa em que fica por saber a parte atribuída a emigrantes portugueses que se deslocam a Portugal,

-estabilidade aparente da América, com pico em 2013, queda até 2016 e recuperação em 2017 por via de Estados Unidos e Brasil, como vimos antes,

-África com pico em 2013 e queda desde então e crescimento lento, mas crescimento sustentado da Ásia que, em condições normais, ultrapassará África pelo efeito China.

*Receita em percentagem da Despesa de Mercados Emissores
O gráfico 15 ilustra a Despesa de Viagens e Turismo em mercados emissores importantes para Portugal e o gráfico 16 a parte da Receita de Viagens e Turismo de Portugal na Despesa de cada País (9). Destacamos:

-Alemanha com a Despesa de longe mais importante e em antepenúltimo lugar da percentagem – mercado a gritar para Portugal o levar a sério,

-Espanha com Despesa inferior às de Bélgica, Holanda e Suíça, mas com a percentagem mais alta – porventura por proximidade geográfica e cultural mais excursionismo,

-Bélgica tem Despesa superior à da Holanda, mas 2.2% de percentagem contra 3.3% da Holanda – o posicionamento do Algarve parece explicar a diferença,

-Polónia com percentagem já superior à de Itália, mas Despesa de um terço da de Itália – pode ou não ser mercado de crescimento?

Estas e mais questões podem ser levantadas e de maneira mais profunda (série 1996/2017) por quem tenha acesso à base de dados do FMI. Certo é não podermos ignorar esta dimensão no branding dos Destinos Regionais e Marketing & Vendas da Oferta.

Em 1989, a então Alemanha Ocidental passa a ser o mercado mais importante do turismo internacional na Europa, acabando com o domínio do Reino Unido que datava do século XVIII. A reunificação no que é a atual Republica Federal da Alemanha reforça esta liderança.

Gráfico 15 – Despesa por mercado emissor em 2016


Fonte: Elaboração própria com base em Eurostat.

O gráfico 16 ilustra a percentagem da Receita de Portugal na Despesa de mercados emissores em 2016. De memória de homem, nunca o vimos publicado, ainda menos analisado e nem por sombras tido em conta no marketing & vendas da nossa oferta de turismo. A parte da Espanha é uma surpresa e a da Alemanha um desastre para nós.

Gráfico 16 – Percentagem da Receita de Portugal na Despesa de mercados emissores em 2016

Fonte: Elaboração própria com base em Eurostat.

*Receita do Turismo, Políticas Públicas e o exemplo de 1964
Parece ser consensual que o Saldo acumulado das balanças corrente e de capital é decisivo para a sustentabilidade da Economia e Sociedade do País. Já será menos consensual, mas é nossa opinião que

-as políticas publicas de Turismo e de Transversalidade do Turismo devem dar prioridade ao crescimento do contributo da Receita de Turismo para o superavit do Saldo, antes até da importante contribuição do turismo para o PIB.

Mais concretamente e face a estes números,

-a prioridade das Políticas Públicas consiste em facilitar e fomentar a competitividade de empresas e estabelecimentos que estão na base das deslocações a Portugal por residentes no estrangeiro,

-estas Políticas devem também ser avaliadas pela sua capacidade em contribuir para a Receita de Turismo na Balança de Pagamentos.

*O exemplo de 1963/64
Perdemos a clarividência de 1964, quando o País enfrenta problemas cambiais porventura mais graves dos de hoje e quando o Turismo acaba por ser integrado nos trabalhos preparatórios do que virá a ser o Plano Intercalar de Fomento para 1965-1967. Citamos:

-“houve um critério que esteve sempre presente: o de que se deve dar prioridade às medidas destinadas a fomentar o turismo de estrangeiros, mesmo quando isso implique um certo sacrifício nas atuações orientadas no sentido do turismo interno.”*.


A Bem da Nação

Lisboa 14 de Setembro de 2018

Sérgio Palma Brito

*Presidência do Conselho, Relatório do Grupo de Trabalho nº 13, Turismo dos trabalhos preparatórios do Plano Intercalar de Fomento para 1965/1967, Lisboa, 1964.