Privatização da TAP (2) – O Sucesso da TAP no Futuro


Depois do anticlímax que culmina com a conclusão do processo de privatização da empresa, a 20 de Dezembro de 2012, o que agora está em causa é o Sucesso da TAP no Futuro.

Este é o tema ponto da nossa análise, (1) feita em termos crus e apoiada por uma síntese da situação actual da empresa [ver o Ponto 1 do Documento de Trabalho].

Depois, analisamos o processo de privatização da TAP (2), entre o Memorando de Entendimento, de Maio de 2011, e a decisão do Conselho de Ministros de 20 de Dezembro de 2012.

Esta decisão, mais do que o concluir um processo, é o ponto de partida para o Sucesso da TAP no Futuro.

 

A análise do presente post deve ser integrada no contexto mais vasto do post de 21 de Setembro de 2012:

-“Privatização da TAP Air Portugal (1) - De Salazar à Actualidade”


O Documento de Trabalho, com as notas e textos que sustentam as afirmações do post, pode ser consultado em:

 https://docs.google.com/file/d/0B9yEd1P9CtlCcjN2MU5RUC1lVUE/edit


 
Índice

1.O Sucesso da TAP no Futuro

1.1.Factores Condicionantes do Sucesso da TAP no Futuro

1.2.Actores do Sucesso da TAP no Futuro

2.À Politica o Que é da Politica

3.Processo Formal de Privatização da TAP

3.1.Decreto-Lei de Agosto/Setembro de 2012

3.2.Caderno de Encargos: 19 de Outubro de 2012

3.3.Admissão do Potencial Investidor e Decisão do Conselho de Ministros

Notas

 

1.O Sucesso da TAP no Futuro

1.1.Factores Condicionantes do Sucesso da TAP no Futuro

*Sustentabilidade do Hub de Lisboa

Ignoramos a verdadeira dimensão das vantagens comparativas da localização geográfica do aeroporto de Lisboa para o hub da TAP captar tráfego entre Europa, América do Sul e África. Na concorrência com outros aeroportos, algumas vantagens deve ter.

Mesmo que as tenha, a sustentabilidade do hub depende de vantagens competitivas, que se medem

-pela procura endógena, formada a partir de viagens de residentes nos países mais importantes (Portugal, Brasil, Angola e Moçambique), procura reforçada pela actual prosperidade de Brasil e Angola e pelo potencial de Moçambique, que gera turismo (3), e o empobrecimento de Portugal, que gera a emigração, a qual gera mais turismo,

-pela procura exógena, formada a partir da capacidade da TAP captar tráfego entre Europa e América do Sul e África, que “passa por Lisboa” como poderia passar pelo hub de Madrid ou viajar ponto a ponto – a maior pressão da concorrência ao hub de Lisboa reside nesta procura, que dispõe de mais liberdade de escolha.

As vantagens competitivas do hub resultam de duas dinâmicas:

-a de Portugal, com destaque para Lisboa, passar a ser competitivo na atracção de empresas e negócios, que aumentem a procura endógena – é aqui que se situa o projecto, de “Portugal/Lisboa, plataforma intercontinental”, como realidade concreta e não apenas fantasia politica, 

-a da TAP ser competitiva, o que exige um novo accionista, como demonstramos a seguir (4).

Criar estas vantagens competitivas é condição necessária para a sustentabilidade do hub de Lisboa. Não é condição suficiente porque, num mercado com muita concorrência, nenhuma procura é um “direito garantido”.

*Sem o Hub de Lisboa, a TAP Não é Viável

A sustentabilidade do hub de Lisboa condiciona o Sucesso da TAP no Futuro. Com efeito, sem o hub, a TAP não é viável e está condenada à insolvência, porque

-fica reduzida ao tráfego de, e para Portugal, na sua maioria intra-europeu, mais algumas rotas de longo curso, com poucas frequências – é um regresso à TAP de “antes da Estratégia de 2001”, mas em mercado muito mais competitivo por via das mais diversas companhias low cost,

-o indispensável downsizing da sua estrutura é legalmente difícil e politicamente quase impossível, o que conduz a TAP à insolvência, cuja burocracia a mata, na ausência um Chapter Eleven português.

Só o hub garante o volume de tráfego de longo curso, que pode rentabilizar a TAP e justificar a rede intra-europeia. Em qualquer dos casos, esta rede terá de passar por reconversão similar às que estão a ter lugar em algumas congéneres de referência.

*Financiamento a Assegurar Pelo Accionista Privado

O Sucesso da TAP no Futuro e a experiência do falhado processo de privatização mostram que Governo e Comprador têm de ser rigorosos sobre a Proposta Financeira. Entre outros casos, lembramos

-o novo accionista substituir-se ao “accionista Estado”, na garantia à dívida de cerca de € 1.2 mil milhões,

-a recapitalização da TAP, SGPS, SA, em função do valor acumulado no fim do Exercício de 2012 e das necessidades do funcionamento da empresa,

-o financiamento da renovação da frota, que garanta a competitividade e o crescimento da TAP,

-o encaixe líquido da venda não é o argumento da decisão de vender, nem critério fundamental na escolha do comprador.

O rigor da proposta financeira do novo accionista não é tudo, mas sem ela, a TAP pública está condenada, a prazo.

*Valor da Marca TAP Portugal

Se o hub de Lisboa e a TAP forem sustentáveis e o financiamento garantido pelo novo accionista, manter a Marca TAP Portugal faz sentido e é parte da lógica do negócio. Não dispomos de informação sobre o valor da Marca TAP Portugal, mas

-há manifestações claras de uma Imagem de Marca favorável em segmentos importantes da procura endógena,

-no caso da procura exógena, deve haver uma graduação, desde a mera Market Awareness à Imagem de Marca positiva.

A garantia de continuidade da Marca TAP Portugal reside na sua capacidade de criar valor para a empresa, por via de vendas mais fáceis e rentáveis – mais uma vez, a continuidade depende de nós.

O tempo contratual que possa proteger a Marca é sempre efémero, porque

-se não houver criação de valor, a Marca desaparece – quem se lembra da Pan American?,

-apesar do valor que a Marca possa criar, há sempre o perigo de ser eliminada pelo ego de accionista entrepreneurial, ou pela consistency da política de grande companhia, mesmo se for um erro.

Na maior parte dos casos, o discurso politico e romântico sobre manter a Marca TAP Portugal ignora a nudez crua desta realidade do mercado (5).

*A Privatização da TAP é Indispensável e Boa Para o País

Desde 2001, a TAP é uma «empresa pública» diferente, porque

-o seu maior ponto fraco não é a “Gestão Pública”, mas sim o “accionista Estado”,

-o que está em causa não é a mezinha tradicional de “substituir o gestor público”, mas a receita inovadora de encontrar o novo accionista privado, que assegure a sua sustentabilidade.

Não podemos ignorar que o “accionista Estado”

-apoia mais de vinte e cinco anos da TAP constantemente deficitária “transportadora aérea nacional”, para a qual nomeia gestores de génese politica e/ou partidária,

-quando garante o saneamento financeiro de 1994 (injecção de capital de 180 milhões de contos e garantias a empréstimos até 169 milhões), cedo vê os esforços gorados: em 1999 e 2000, o Resultado Líquido da TAP é negativo em 20 e 25 milhões de contos, pondo a empresa de volta ao caminho para a falência,

-é inconsistente no apoio à Gestão Profissional que lidera a TAP a partir de 2001, por não haver policie consensualizada que lhe permita fazer melhor – a nomeação do Presidente Cardoso e Cunha, em 2003, é ícone desta inconsistência, 

-não pode desempenhar as funções de accionista, pela falta de capacidade financeira e de decisão politica, mais as regras da União Europeia – a actual descapitalização da empresa é o ícone desta incapacidade.

Esta realidade exige uma transformação profunda que evite a insolvência e encerramento da TAP. Pode ser a privatização a 100% ou outra, que desconhecemos.

Defendemos a privatização da TAP, mesmo a 100%, por razões que têm a ver com esta incapacidade do “accionista Estado” e com a capacidade que exigimos ao novo accionista:

-conhecer o Transporte Aéreo,

-recapitalizar a empresa e financiar o seu funcionamento,

-apoiar a sua competitividade e crescimento por renovar e expandir a frota,

-ser capaz de capaz de fomentar uma renovada e profícua relação com os gestores e os trabalhadores.

Esta é a via para dar sustentabilidade à TAP, ao hub e à Marca. A sustentabilidade da contribuição da TAP para a Economia resulta da privatização e é comprometida pelo continuar na “TAP pública”.  

*Uma Discordância com o CEO da TAP

Entre muitas, lembramos duas declarações de Fernando Pinto (6):

-no início de Outubro, interrogado sobre “Mas manter-se a TAP como empresa pública não faria sentido. É isso?”, Fernando Pinto responde “Saber se a TAP sobrevive assim, claro que sim. Mas não é a situação ideal. O ideal é mesmo que receba capital para poder ter uma vida normal.” [o sublinhado é nosso].

-em 21 de Dezembro, afirma que “privatização da TAP é uma oportunidade, mas não uma necessidade”, acrescenta que “a privatização é uma oportunidade importante para [a empresa] ter acesso a capital, maior velocidade de crescimento e para se posicionar ainda melhor no mercado” e volta a sublinhar que a venda “não é uma necessidade de sobrevivência” [o sublinhado é nosso].

Salvo o devido respeito, que até é mesmo muito, Fernando Pinto não diz quanto tempo sobreviveria esta TAP, sem ser privatizada.

A nossa discordância com o «a TAP poder sobreviver», mantendo o “accionista Estado”, resulta da incapacidade intrínseca deste e da relação medíocre que estabelece com a Gestão Profissional e, por via dela, com os Trabalhadores. O accionista de que a TAP necessita não pode deixar

-descapitalizar a empresa ao ponto em que está, deve é ter a força para exigir que a Gestão remunere o capital investido – esta pode ser a afirmação que nunca vimos ser feita por nenhum dos “accionistas” de passagem,

-envelhecer a frota e não a expandir, dificultando a sua eficiência e a qualidade de serviço que captam passageiros,

-arrastar a reconversão de estatutos do pessoal (de que a Grounforce é exemplo icónico) e limitar-se a tentar impor cortes cegos na massa salarial.

Esta estranha relação entre accionista incapaz e Gestão Profissional não está em condições de assegurar a sustentabilidade da TAP. Ignoramos durante quanto tempo pode a TAP “sobreviver”, mas sabemos que é pouco e desejamos algo de muito melhor para Portugal. Os «defensores da TAP pública» não têm o exclusivo da defesa dos interesses do País.

*Lidar Com Pontos Fracos

No futuro próximo somos obrigados a lidar com três pontos fracos, que já influenciam negativamente o processo de privatização que termina a 20 de Dezembro.

-continuamos a não ter, para a Aviação Civil em Portugal, uma política, de policie e não de politics (7), na qual a TAP se integre [ver a seguir],

-não parece possível que Governo e PS construam um consenso sobre a privatização da TAP e corremos o risco do Governo não corrigir erros que cometeu no processo anterior,

-a Opinião Pública contra a privatização da TAP não se vai alterar significativamente. Mesmo que o Governo assegure uma informação e comunicação de elevado nível, boa parte da Opinião Pública não a terá em conta. Mesmo que a comunicação social seja mais objectiva, um outro caso do género Relvas/Dirceu é suficiente para criar um clima de suspeição sobre quem vende e quem compra.

*Rever Equívocos Sobre a TAP

Desde as decisões comunitárias que abrem a concorrência no Espaço Aéreo da Comunidade Europeia e proíbem ajudas do Estado à TAP (1994), e a Nova Estratégia da Gestão Profissional (2001), a TAP deixa de ser a Transportadora Aérea Nacional, com a possibilidade de manter rotas e frequências estruturalmente deficitárias.

No caso da Diáspora Portuguesa (8),

-a TAP não voa para países com importantes “comunidades portuguesas” (Canadá e África do Sul),

-na Europa, as rotas das companhias low cost servem melhor as “comunidades portuguesas”, por serem mais variadas e competitivas, e a TAP dar a prioridade a passageiros que utilizem o hub do qual a sua sustentabilidade depende.

Na Acessibilidade Aérea, a percentagem de Passageiros que Desembarcam em aeroportos do Continente e viajam em companhias estrangeiras é

-em 2011, 58% do Total, 96% em Faro, 70% no Porto e 38% em Lisboa,

-em 2001, 54% do Total, 91% em Faro, 43% no Porto e 52% em Lisboa.

Entre 2001 e 2011: a percentagem do Total e em Faro aumenta, a do Porto aumenta e a de Lisboa diminui significativamente. A evolução de Lisboa é explicada pelo hub da TAP e no Porto pelas companhias low cost.

Estes números incluem, também, passageiros residentes em Portugal, na sua viagem de regresso e os não residentes que visitam Portugal ou utilizam o hub só em trânsito. Se considerarmos apenas os não residentes (os tais que geram procura para bens e serviços transaccionáveis), a parte das Companhias Estrangeiras será maior (9).

Compete ao Estado fazer com que a acessibilidade aérea a Portugal seja competitiva. Em nossa avaliação,

-a acessibilidade aérea depende cada vez mais de companhias aéreas estrangeiras,

-uma TAP privada serve melhor esta função do Estado, do que a TAP pública serviu desde 1975 e mesmo do que a da Gestão Profissional, desde 2001.

A contribuição da TAP para a Economia (Balança de Pagamentos, Produto, e Emprego) depende da sustentabilidade do Sucesso da TAP no Futuro e esta TAP será privada.

*Declarações do Primeiro-Ministro a 21 de Dezembro de 2102

A 21 de Dezembro, um dia depois do anticlímax do encerrar da privatização da TAP, o Primeiro-Ministro reconhece:

-“A TAP tem um passivo superior a 1500 milhões de euros, precisa de renovar a frota para permitir ganhos operacionais superiores a 20% na poupança de combustível, mas também para ter novas rotas, para acrescentar valor à operação da TAP. Nada disto o Governo está em condições de fazer”.

-“Não podemos disfarçar as dificuldades em que a TAP vive e a necessidade que temos em termos de gestão para poder controlar os custos da TAP, e limitar os estragos para a divida da TAP que a actual situação comporta”.

Por fim, o Primeiro-Ministro deixa uma garantia:

-“Assim que for oportuno colocaremos de novo a privatização da TAP em cima da mesa”.” (10).

O Sucesso da TAP no Futuro começa aqui.

1.2.Actores do Sucesso da TAP no Futuro

*O Accionista Privado

É errado deixar arrastar a situação actual, em que temos:

-Governo enfraquecido, gestores “pendurados”, concorrência a aumentar, frota a envelhecer, problemas financeiros que se agravam, quase impossibilidade da União Europeia aceitar uma “ajuda extraordinária do Estado” e de o Estado a poder conceder.

Quanto mais deixarmos degradar a TAP, mais difícil será a sua privatização. O processo de privatização encerrado em Dezembro de 2012 mostra que

-a procura pela aquisição da TAP se reduz a um único comprador,

-a Proposta Estratégica é excelente, mas a Financeira é recusada.  

A procura do Accionista Privado deve ser intensa e realista, porque compradores para a TAP não abundam e a Proposta Financeira não é fácil. Não podemos repetir a Grande Ilusão [ver a seguir].

*Gestores

Sem pôr em causa o melhor que, desde a nacionalização de 1975, cada um dos gestores faz ao longo de mais de vinte e cinco anos, a TAP só tem uma verdadeira Gestão Profissional desde 2001.

Entre a actualidade e a privatização, que não deve demorar, o Governo

-deve manter e motivar a actual equipa liderada por Fernando Pinto, pela sua experiência e por o “accionista Estado” muito dificilmente a poder substituir em prazo útil e sob a incerteza da decisão do novo accionista,

-tem de matar à nascença qualquer ideia de gestores de génese politica e partidária – o cenário de 2003, com Cardoso e Cunha, não se pode repetir.

Em 21 de Dezembro de 2012, Fernando Pinto declara:

-a permanência na TAP “Depende da vontade do governo, da minha e da equipa que está aqui” e “Depende de como se vai conversar, esta é uma nova fase da empresa”,

-“se for vontade das duas partes ficamos” (11).

Dito isto, é novo accionista quem escolhe dos Gestores da TAP privada.

*Trabalhadores

Imaginamos que um número crescente dos Trabalhadores da TAP está consciente que a fatal insolvência da empresa deixou de ser uma impossibilidade politica e passou a ser uma possibilidade do mercado.

Neste cenário, os Trabalhadores são parte da construção de uma solução de futuro, apesar de haver sempre a minoria irredutível na oposição à privatização. O patético caso de 20% do capital para os pilotos, ícone supremo do irrealismo, é o passado, deixou de ser parte do problema e nunca foi parte da solução.

Um accionista exigente, como é Efromovitch, reconhece que a TAP está “enxutinha”. Tal parece excluir uma privatização com decisões dramáticas a nível laboral, mas a reconversão nas rotas intra-europeias vai ser dura.

*”Avec le temps ... Avec le temps va, tout s’en va”

O tempo tudo resolve, mas o resultado pode ser péssimo. Na ocorrência, o tempo joga a contra a privatização da TAP, porque favorece a inercia do que há de negativo na politics, na opinião pública e nos interesses que sentem a sua zona de conforto ameaçada.

Quando o tempo joga a favor do nosso insucesso, a liderança é urgente. Viabilizar a TAP passa por privatização bem conduzida e melhor decidida.

 

2.À Politica o Que é da Politica

*Insucesso de uma Privatização Não Prestigiante Para o País

A TAP não é vendida porque apenas é reconhecido um comprador potencial e este não presta as “garantias adequadas” (12).

Com a não venda da TAP, há quatro perdedores e há uma perda que é comum a todos nós:

-a privatização da TAP falha de maneira não prestigiante para o País.

Registamos que as notícias do Diário de Noticias e Publico sobre contactos entre Governo e Comprador, enquanto decorre a reunião do Conselho de Ministros de 20 de Dezembro, são desmentidas pelo Primeiro-Ministro, na Assembleia da República. A terem ocorrido o desprestígio atingiria o nível de escândalo (13).

Depois, o primeiro e mais importante perdedor é a TAP. O regozijo dos que se opõem à sua venda ou a esta venda esquece que, a partir de agora,  

-é uma TAP ainda mais enfraquecida que vai ser confrontada com a dura realidade do mercado,

-agrava-se o que, desde a nacionalização de 1975, tem sido uma das maiores fraquezas da TAP: a incapacidade do ”accionista Estado” desempenhar o seu papel, de que a incapacidade do “gestor Estado”, de antes da Gestão Profissional de 2001, é apenas um aspecto.

Depois desta perda para o País e para a TAP,

-o Governo perde, por não atingir um objectivo, pela responsabilidade no processo de privatização não prestigiante e pelo prejuízo causado ao País.

-Fernando Pinto, o rosto da Gestão Profissional, perde quando o mercado nega a sua avaliação sobre o interesse na TAP e valor desta e da estratégia da Manutenção do Brasil.

Em outro plano e num crescendo com o seu anticlímax a 20/21 de Dezembro, perde o excessivo número de comentadores que opinam sobre um dossier que desconhecem e uma actividade económica que ignoram.

*Sobre “o Perder de Fernando Pinto”

A nossa posição sobre “o Perder de Fernando Pinto” nada tem a ver com o que parece ser a condenação da Gestão Profissional da TAP por “mais um politicamente correcto” do Portugal mediatizado de hoje. O reconhecimento do valor e a defesa da Gestão Profissional da TAP mantêm-se intactos, mas não impedem duas posições críticas:

-Fernando Pinto avalia mal o valor que o mercado do Após Crise de 2008/2009 atribui à TAP: há apenas um candidato a comprar e pouco mais paga do que se substituir ao “accionista Estado” na capitalização da empresa e na garantia da dívida. No próximo futuro, é pouco provável que o interesse pela TAP aumente significativamente. A explicação deste fraco interesse é, em grande parte, exógena, mas é o que é – a TAP pode valer mais, mas o Mercado não reconhece esse valor.

Sobre a polémica Manutenção no Brasil, a 14 de Abril de 2012, em entrevista a O Dinheiro Vivo, Fernando Pinto insiste: “foi e é um bom negócio”. O jornalista escreve: “As oficinas da TAP: o último desafio de Fernando Pinto”. Em nossa opinião e até agora, os números mostram que está longe de ser um bom negócio.

Na privatização da TAP, Fernando Pinto perde. Esta perda não invalida o valor do seu trabalho e o interesse em que continue a liderar a Gestão Profissional da TAP.

*Maio de 2011: Memorando de Entendimento

O Memorando de Entendimento, assinado em Maio de 2011 pelo Governo de José Sócrates e, posteriormente, pelo PSD e CDS

-menciona o “privatization programme” do Governo [de José Sócrates],

-fixa a data limite da privatização da TAP “by the end of 2011”.

Sem o acordo entre Portugal e a EU/BCE/FMI, a privatização da TAP nunca teria chegado à agenda do Conselho de Ministros, por a dinâmica endógena da política portuguesa ser incapaz de vencer as resistências internas que a têm impedido. Reconhecido este contributo, o acordo

-fixa um prazo absurdo e impossível de cumprir – não se privatiza num semestre uma companhia aérea como a TAP.

As disposições pertinentes do Memorando de Entendimento e do Programa do Governo são descritas no Ponto 4 do Documento de Trabalho.

*Junho de 2011: Programa de Governo

Em Junho de 2011, o Programa do Governo

-menciona a “frágil estrutura financeira”, a “escala reduzida no contexto europeu” e propõe a “definição de um projecto de crescimento a longo prazo para a companhia aérea”,

-prevê que o modelo de privatização da TAP inclua a manutenção da imagem de “companhia-bandeira” e das principais operações baseadas no aeroporto de Lisboa, mais o serviço de transporte aéreo para as ilhas.

O Programa prevê, ainda, que “No que diz respeito à TAP e à ANA, serão definidos de forma articulada os respectivos modelos de privatização”.

*Que Politica (policie) Para a Privatização da TAP?

A exemplo do que acontece com a maioria dos problemas do País, não há, para a Aviação Civil em Portugal, uma política (de policie e não de politics) na qual a TAP se integre.

Esta policie exige concertação entre os partidos políticos do arco do Governo. No caso da privatização da TAP tal deveria ser possível, porque é o Governo PS que a negoceia com UE/BCE/FMI e o Governo da Coligação PSD/CDS que a implementa. Fazer da ausência de policie uma arma de arremesso contra o Governo (ou contra o PS, na oposição) apenas aumenta a entropia do sistema e só atrasa a consensualização de que o País carece.

O ícone mais recente desta ausência de policie é dado pelo Ministro de Estado e das Finanças ao incluir a privatização da ANA no calendário de muito curto prazo do deficit e, por via disso, acelerar a da TAP. A decisão do Ministro confirma a nossa ideia de, no Sistema Politico, Administrativo e Empresarial da Aviação Civil em Portugal, a intervenção do Ministério das Finanças

-lidar apenas com os lucros da ANA e os prejuízos da TAP,

-afastar o Ministério dos Transportes e ignorar o da Economia.

*Lei-Quadro das Privatizações

O Ponto 4 do Documento de Trabalho descreve a maneira como o Governo lida mal com duas disposições pertinentes da Lei-Quadro das Privatizações.

No caso da Comissão Especial de acompanhamento de cada privatização, há três factos que não deviam ter ocorrido e um deles é grave:

-a Comissão não é criada pelo Decreto-Lei, que aprova a privatização da TAP, em Setembro, mas sim pelo Caderno de Encargos, em Outubro – devia ter sido criada pelo Decreto-Lei,

-a Comissão Especial é constituída por Despacho de 11 de Dezembro, publicado a 17 – devia ter sido constituída e os seus membros nomeados ainda em Setembro,

-a Comissão dá parecer sobre um dossier complexo para apoiar uma decisão do Conselho de Ministros tomada entre 9 e 3 dias depois – este prazo é inaceitável e o facto é grave por não respeitar o espírito da Lei.

No caso da disposição legal sobre a “Salvaguarda dos interesses estratégicos nacionais”, o Governo ignora o assunto, apesar

-da disposição legal datar de 11 de Dezembro de 2011, isto é, ter sido aprovada pela Coligação que suporta o Governo,

-da constante insistência do Partido Socialista sobre o seu respeito,

-de respeitar a Lei seja o mínimo a exigir a um Governo.

Nos dois casos, o Governo reforça a desconfiança em relação à privatização da TAP e a medíocre querela partidária, de que o País é vítima.

*Sobre a Intervenção do Tribunal de Contas

O Ponto 5 do Documento de Trabalho analisa a maneira como o Governo lida mal com a intervenção do Tribunal de Contas.

Não deve ser por acaso que, a 3 de Agosto (um dia depois da Aprovação do Decreto-Lei que aprova a privatização da TAP), o Presidente do Tribunal se pronuncia sobre o processo formal que então tem início:

-"A qualidade das finanças públicas e a salvaguarda da soberania têm de estar aliás intimamente ligadas, portanto, quer o Tribunal de Contas, quer o conselho de Prevenção da Corrupção, neste caso reafirmam a necessidade de haver um escrupuloso cumprimento da legislação em vigor e uma ponderação do interesse público que está em causa" (14).

Ainda que com algum atraso, o Governo parece escutar esta observação, pois o preâmbulo do Caderno de Encargos, de 19 de Outubro assume um compromisso:

-“colocar à disposição do Tribunal de Contas todos os elementos informativos respeitantes aos procedimentos adoptados no âmbito do processo de venda directa.”.

No Parlamento, no mesmo dia e em nome do Governo, o Secretário de Estado Sérgio Monteiro garante que o Tribunal de Contas vai fiscalizar o processo desde o início e não apenas no final da operação (15).

Passam dois meses e, a 18 de Dezembro (dois dias antes da decisão do Conselho de Ministros), o Presidente do Tribunal de Contas afirma que o Tribunal não teve qualquer intervenção nos processos de privatização da TAP e da ANA "até à presente data", realçando que "os prazos legalmente previstos não estão esgotados" e que "os prazos legalmente previstos [para o envio de informações sobre os processos] não estão esgotados" (16).

A 28 de Dezembro, a Resolução do Conselho de Ministros que formaliza a decisão da reunião do dia 20, estipula que

-todos os elementos informativos do processo de privatização da TAP sejam colocados à disposição do Tribunal de Contas, e arquivados por um período de cinco anos (17).

Há um equívoco a esclarecer, pois a dupla garantia de 19 de Outubro

-vai para além das disposições legais e mostra a vontade do Governo em assegurar “a absoluta transparência do processo de reprivatização”,

-as declarações do Presidente do Tribunal de Contas e a Resolução de 28 de Dezembro mostram como a declaração do Governo no Parlamento não é respeitada.

Neste contexto, há uma inaceitável falta de respeito pelo Parlamento, onde a garantia é dada, e pelo Tribunal de Contas, que é menorizado. Mais, não faz sentido que o Presidente do Tribunal lembre os prazos legais, pois não são estes que estão em causa, mas sim um compromisso do Governo.

*Atrasos, Pressa e Aceleração do Processo de Privatização

Esquecido o absurdo do prazo de 31 de Dezembro de 2011, fixado no Memorando de Entendimento, temos três ritmos no processo de privatização da TAP [ver Ponto 7 do Documento de Trabalho]. O primeiro é o do atraso na Publicação do Decreto-Lei (21 de Setembro) a aprovar a privatização da TAP e do Caderno de Encargos (19 de Outubro).

O segundo ritmo é o da Pressa, aparentemente influenciado pelo atraso na Publicação do decreto-lei e o prazo de 31 de Dezembro de 2012, para fechar o negócio. A pressa leva

-a que, durante Julho e Agosto, sem o Decreto-Lei Aprovado e/ou Promulgado, o Governo promova a venda da TAP [ver, a seguir, o item sobre “Respeito da Formalidade e Aprovação/Promulgação do Decreto-Lei”],

-ao ícone que é a aprovação simultânea do Caderno de Encargos e do convite à única Proposta vinculativa de aquisição e subscrição que é apresentada.

O terceiro e o mais criticável ritmo é o da Aceleração da Pressa, fruto da conjugação de duas decisões:

-integrar parte do encaixe com a privatização da ANA na redução do deficit das Contas Públicas de 2012,

-manter a lógica de privatizar a TAP antes da ANA, o que obriga mesmo a uma decisão até 20/21 de Dezembro, o mais tardar.

Deve haver determinação na privatização da TAP, mas este fixar de prazos é incompatível com a ponderação que as decisões exigem.

*A Opinião Pública e a Grande Ilusão

A componente política do processo de privatização da TAP não pode ignorar a influência da Opinião Pública e o que designamos de A Grande Ilusão e o seu Esvaziar [ver o Ponto 8 do Documento de Trabalho].

Na ausência de uma policie consensualizada, a privatização da TAP cai na politics nacional e passa a ser excessivamente sensível a manifestações da Opinião Publica. Não é o momento de analisar a Opinião Pública, mas podemos distinguir três dos seus elementos:

-a visão romântica de uma Transportadora Aérea Nacional que já não existe,

-o impacte de um incidente do tipo Relvas/Dirceu,

-a atenção dada ao abaixo-assinado de economistas e professores de Economia.

A Grande Ilusão e o Seu Esvaziar marca o processo de privatização da TAP em dois tempos:

-o do alimentar a Grande Ilusão sobre o grande número e o prestigio de companhias interessadas na compra,

-o do Seu Esvaziar, quando se sabe haver apenas um comprador potencial e este ser o de uma companhia pouco conhecida em Portugal.

Em 11 de Dezembro de 2012, o Publico sintetiza:

-“Desde o início deste ano foram surgindo rumores em catadupa sobre eventuais interessados. Falou-se na Qatar Airways, no grupo IAG (que junta a British Airways e a Iberia), na Lutfhansa, nas brasileiras TAM (que se fundiu com a chilena TAM) e Gol e até na portuguesa Euroatlantic. Mas, quando chegou o dia de apresentar ofertas preliminares de compra, a 14 de Setembro, apenas um investidor avançou.” (18).

Podíamos acrescentar a Emirates, a Turkish Airlines e ainda outras companhias.

A mais recente, mas ténue, manifestação da Grande Ilusão é a convicção de, no próximo processo de privatização, haver mais candidatos e o corolário de que não os houve neste, por o Governo ter optado pela Venda Directa.

 

3.Processo Formal de Privatização da TAP

3.1.Decreto-Lei de Agosto/Setembro de 2012

*Prazos do Processo Formal da Privatização da TAP

O processo formal da Privatização da TAP passa pelos seguintes passos:

-o Decreto-Lei, Aprovado a 2 de Outubro, Promulgado a 20 de Setembro e Publicado a 21 (19), permite ao Governo recolher “intenções de subscrição ou de aquisição” e, aplicando os Critérios definidos, seleccionar as que passam às fases seguintes,

-o Caderno de Encargos publicado a 19 de Outubro permite aos promotores das “intenções de subscrição ou de aquisição”, uma vez seleccionadas pelo Governo, elaborar Propostas vinculativas de aquisição e subscrição,

-as Propostas devem ser entregues até 7 de Dezembro [prazo fixado por Despacho] e, após diligências informativas, são objecto de Parecer pela PARPUPBLICA e pela Comissão Especial,

-sob Parecer da PARPUBLICA e da Comissão especial, o Conselho de Ministros de 20 de Dezembro decide qual a proposta vencedora – prazo fixado de modo a que a decisão sobre a TAP anteceda a da privatização da ANA, a ter lugar antes do fim do ano, em função do deficit das Contas Públicas de 2012.

*Respeito da Formalidade na Aprovação/Promulgação do Decreto-Lei

O Decreto-Lei que aprova a privatização da TAP conhece uma dupla demora [ver o Ponto 9.1 do Documento de Trabalho]:

-Aprovação tardia pelo Governo, em 2 de Agosto de 2012,

-demora de cerca de mês e meio para Promulgação pelo Presidente da República, a 18 de Setembro e Publicação a 21.

A ausência do decreto-Lei a aprovar a venda da TAP não impede o Governo de a promover distribuindo um Memorando of Information sobre a empresa e organizando road-shows em vários países.

Esta sobreposição de tempos não nos parece ser a melhor maneira de

-conduzir o processo no País, por não haver um decreto-lei Aprovado pelo Governo ou, havendo-o, este não ser ainda Promulgado pelo Presidente da República – os tempos de intervenção das Instituições, em particular do Presidente da Republica, devem ser respeitados,

-reforçar a venda da TAP no mercado restrito e muito bem informado em que pode ser vendida e que conhece a ausência de disposição legal às propostas iniciais que recebe do Governo. 

*Opções de Base do Decreto-Lei

-Estrutura e Clareza do Texto

Decreto-Lei e Caderno de Encargos partilham uma característica comum: um texto mal estruturado e de redacção complicada, pouco clara, omissa em aspectos fundamentais e susceptível de gerar equívocos.

Sabemos que o mesmo pode ser dito sobre muitos dos diplomas publicados no Diário da Republica, mas o próximo processo de privatização da TAP exige textos oficiais de melhor qualidade.

-Reprivatizar a TAP, SA, Por Via da Privatização da TAP, SGPS, SA,

O Governo opta por privatizar a TAP, SGPS, SA, “numa estratégia integrada de alienação, que se considera especialmente adequada a potenciar a maximização do valor da TAP.”

O Governo assim entende e não contestamos a opção. Parece residir aqui a opção pela “reprivatização indirecta da TAP, SA”, por via da privatização da TAP, SGPS, SA [ver o Ponto 2 do Documento de Trabalho].

-Lei-Quadro das Privatizações

O processo é lançado ao abrigo da Lei-Quadro das Privatizações, mas acaba por não respeitar devidamente duas disposições fundamentais: Comissão especial e Salvaguarda dos interesses estratégicos nacionais [vero ponto 1 do post e o Ponto 4 do Documento de Trabalho].

-Venda Directa

A opção pela Venda Directa é, entre outros, justificada por respeitar o prazo do Programa de Assistência Económica e Financeira, ser a mais adequada para escolher os investidores de referência e optimizar os proveitos associados à operação.

A justificação desta opção são, de facto, decisões estratégicas relevantes, que analisamos no Ponto 9.2 do Documento de Trabalho.

*Recolha Preliminar de Intenções e Critérios de Selecção

O processo de privatização começa por

-“uma recolha preliminar de intenções de aquisição ou subscrição junto de potenciais investidores”,

-selecção dos interessados que passam à fase seguinte [ver Ponto 9.2 do Documento de Trabalho].

Comentário – Há três observações:

-o texto do decreto-lei não explicita claramente os dois grandes critérios de selecção: o Estratégico e o Financeiro,

-um dos critérios de selecção surge reescrito no Caderno de Encargos e é exemplo de falta de clareza do texto [ver pontos 9.2 e 10.3 do Documento de Trabalho].

*Disposições Diversas

Há disposições com interesse especial:

-as condições finais e concretas das operações a realizar no âmbito da privatização da TAP “são estabelecidas pelo Conselho de Ministros, mediante a aprovação de uma ou mais resoluções” – com pragmatismo, evita-se o recurso a decretos-lei,

-são definidas várias delegações de competências no “Ministro de Estado e das Finanças, com a faculdade de subdelegação no Secretário de Estado do Tesouro e das Finanças” – é a expressão da prioridade à dimensão financeira e do ignorar das exigências da Economia,

-as acções transaccionadas no processo de privatização podem ser sujeitas a regime de indisponibilidade, por um prazo mínimo de 5 e máximo de 10 anos.

 

3.2.Caderno de Encargos: 19 de Outubro de 2012

*Respeito da Formalidade na Aprovação do Caderno de Encargos

A Publicação da Resolução do Conselho de Ministros a aprovar o Caderno de Encargos coincide com a da Resolução do Conselho de Ministros a admitir o potencial investidor que pode apresentar uma “Proposta vinculativa de aquisição e subscrição”. Esta coincidência

-devia ter sido evitada com a Publicação do Caderno de Encargos logo após a do Decreto-Lei,

-apesar de não ter consequências relevantes, formais ou substanciais, alimenta um incidente da luta partidária e a ideia de um processo de privatização nebuloso.

No debate na Assembleia da República, a 21 de Dezembro, o Primeiro-Ministro afirma que ”O caderno de encargos foi levantado por “diversos potenciais interessados””. É evidente que ou há equívoco com o Memoradum of Information, de Julho, ou o Primeiro-Ministro se refere a uma versão informal do Caderno de Encargos, antes da sua aprovação formal (20).

*Duas Disposições Tardias

É no Caderno de Encargos que encontramos duas manifestações tardias do Governo: a da criação da Comissão Especial e a da intervenção do Tribunal de Contas [ver Ponto 1 do presente post].

*Proposta Vinculativa de Aquisição e Subscrição

O Caderno de Encargos dispõe, entre outros, que a Proposta Vinculativa de Aquisição e de Subscrição de Acções é constituída, no mínimo, por “proposta financeira vinculativa”, “proposta técnica vinculativa”, “documentação” e “informação”. Na prática é: Projecto Estratégico, Modelo Financeiro, Documentos e Informação.

*Critérios a utilizar para a selecção

Citamos um destes critérios [ver ponto 10.3 do Documento de Trabalho], como exemplo do que consideramos ser uma redacção confusa e pelo papel que desempenha na decisão do Conselho de Ministros de 20 de Dezembro:

-“m)A ausência ou minimização de condicionantes jurídicas ou económico-financeiras do investidor interessado, nomeadamente a minimização de conflitos de interesse entre as actividades do proponente e as do Grupo TAP, bem como a mitigação de riscos para a concretização da venda directa em prazo, condições de pagamento e demais termos que sejam considerados adequados para a salvaguarda dos interesses patrimoniais do Estado, bem como para a prossecução dos objectivos constantes da alínea d).” (21).

Um critério com esta redacção permite aprovar ou excluir uma proposta, com a maior das clarezas. Lembra-nos alguns artigos dos Regulamentos dos Planos Directores Municipais.

Quando enta parte do presente post é redigida, ignoramos que é, muito em especial, ao abrigo desta alínea que o Governo toma a decisão de 20 de Dezembro de 2012. Na ocorrência, um dos parágrafos do preâmbulo da Resolução do Conselho de Ministros de 28 de Dezembro, é de cristalina clareza, quando explicita o que é a inexistência de garantias [ver o ponto 3.3 do presente post]. Em oposição ao texto do Caderno de Encargos, o do preâmbulo da Resolução do Conselho de Ministro é claro, concreto e vai ao ponto.

*Propostas Vinculativas e a Substância do Negócio

Desconhecemos a Proposta Financeira Vinculativa do Grupo Synergy Aerospace. É público ter havido equívocos sobre o ponto crucial do Financiamento a Assegurar Pelo Accionista Privado [ver Ponto 1 do presente post].

Desconhecemos a Proposta Técnica Vinculativa do Grupo Synergy, mas é público que TAP, PARPUBLICA e Governo a consideram boa (22).

*Relatório, Parecer e Escolha do Proponente

Os passos a seguir são os seguintes (23):

-após a recepção das “propostas vinculativas de aquisição e de subscrição” e audição da TAP, S. A., quanto à adequação aos interesses da sociedade das propostas vinculativas de projectos estratégicos,” a PARPÚBLICA elabora, de modo fundamentado, um relatório que, entre outros “contenha uma apreciação de cada um dos proponentes e das respectivas propostas, determinando o seu mérito relativo em função dos critérios de selecção previstos [no Caderno de Encargos];

-o Relatório é enviado à Comissão Especial, “para emissão de competente parecer a respeito da regularidade, imparcialidade e transparência observadas no processo de venda directa.”;

-com base no relatório da PARPÚBLICA e do Parecer da Comissão Especial “o Conselho de Ministros procede à apreciação de cada um dos proponentes e das respectivas propostas vinculativas apresentadas para determinar o seu mérito relativo e selecciona a proposta ou propostas de aquisição e subscrição de acções objecto de venda directa.”.

 

3.3.Admissão do Potencial Investidor e Decisão do Conselho de Ministros

*Admissão do Potencial Investidor

Na Resolução do Conselho de Ministros de 19 de Outubro, o Governo decide que a Synergy Aerospace “seja admitido a participar no momento subsequente do processo de venda directa.”.

A 23 de Outubro o Governo decide que o prazo de apresentação da proposta vinculativa termina às 12 horas de 7 de Dezembro de 2012 (24).

A PARPÚBLICA é encarregue de convidar o potencial investidor “para proceder à apresentação de proposta vinculativa de aquisição e subscrição de parte ou da totalidade das acções objecto da venda directa, em conformidade e nos termos do disposto no Caderno de Encargos […] e que regula o processo e condições aplicáveis à realização da aludida venda directa.”.

*Respeito da Formalidade no Relatório da Comissão Especial

A Comissão Especial é constituída por Despacho de 11 de Dezembro, publicado a 17 do mesmo mês [ver o Ponto 6 do Documento de Trabalho]. Citamos o Dinheiro Vivo de 18 de Dezembro:

-“Já Amado da Silva [o seu Presidente] lembrou que nestas duas vendas [a da TAP e a da ANA] “temos de falar do interesse público", mas levantou a questão "de quanto tempo vamos precisar para avaliar?". A resposta surgiu célere e frisou mais uma vez o curto espaço de tempo: "Com certeza que não é numa semana nem num mês”, garantiu (25).

O Presidente Amado da Silva acerta:

-“não é numa semana nem num mês”, pois o parecer é dado em poucos dias.

Esta parte do processo está profundamente errada, porque a Comissão Especial não dispõe do tempo necessário para elaborar o Parecer.

Com efeito, esta Comissão

-“emitiu parecer sobre a regularidade, imparcialidade e transparência do processo, nos termos e para os efeitos do n.º 2 do artigo 13.º do referido Caderno de Encargos, tendo a este respeito concluído pelo cumprimento das regras e procedimentos legais aplicáveis.” (26).

*Decisão do Conselho de Ministros de 20 de Dezembro de 2012

Com base nos Relatórios da PARPÚBLICA e da Comissão Especial, o Governo aprecia a proposta vinculativa do grupo Synergy Aerospace. O Governo entende, “desde logo”, que

-“a referida proposta não incluía elementos que permitissem ao Governo formar um juízo conclusivo quanto à existência de garantias de pagamento do preço devido pela alienação das acções, nem continha evidência da disponibilidade dos meios financeiros indispensáveis para promover a adequada recapitalização da TAP, SA, assim como para dotar a empresa dos recursos apropriados para fazer face às suas necessidades futuras de financiamento, designadamente assegurando a manutenção ou o refinanciamento da dívida actual da mesma.”.

O Governo determina a conclusão do processo de venda directa com a rejeição da proposta apresentada. A decisão é tomada com base nos Critérios de selecção (Artigo 5º do Caderno de Encargos), “em particular os constantes das alíneas m) e n)” [ver o Ponto 3.2 do presente post].

*Como é Possível?

A 19 de Outubro, o grupo Synergy Aerospace sabe que é o único a poder apresentar uma Proposta Vinculativa e a 23 sabe que tem de o fazer até 7 de Dezembro. Depois de 7 de Dezembro, há tempo para esclarecer dúvidas que a proposta suscite. É evidente que

-a Proposta Financeira Vinculativa tem de responder às exigências já referidas e que são públicas e notórias,

-ao não responder a estas exigências, os Assessores do Governo e/ou a PARPUBLICA teriam de esclarecer a questão, antes de se criarem expectativas sobre o desfecho da privatização e antes da reunião do Conselho de Ministros, a cuja reunião a Proposta não deveria sequer ser apresentada.

O que o Conselho de Ministros diz é que, depois de todo este processo, a Proposta Financeira Vinculativa não inclui as “garantias adequadas”.

Há qualquer coisa de errado e de não prestigiante em todo este processo.   

*Quando Uma Decisão Correcta é o Pior dos Desfechos

Pode uma decisão politica correcta ser o pior dos desfechos? Pode, quando

-não é a que a substância do problema exige, mas a que as circunstâncias impõem,

-resulta directamente de má preparação do dossier sobre o qual é tomada,

-tem consequências para a imagem do País e para a imagem e futuro da companhia,

-põe em evidência que o Plano B do Governo se reduz a deixar a TAP numa situação enfraquecida, à espera da abertura de um novo processo de privatização, que tenha sucesso.

 

A Bem da Nação

Albufeira 2 de Janeiro de 2012

Sérgio Palma Brito

 

Notas

(1) Declaração de Interesses: Defendemos, desde há muito, a privatização, se necessário, total da TAP. O texto que segue procura assentar em factos, mas não deixa de ser influenciado por esta posição.

(2)A nossa referência a TAP e a privatização é a da linguagem corrente – os aspectos jurídicos desta designação são detalhados no Ponto 2 do Documento de Trabalho. 

(3)A avaliação da Economia do Turismo é feita a partir da procura de Não Residentes (estrangeiros ou portugueses) e da transferência de recursos do exterior que gera. Esta é a definição da Comissão de Estatísticas da ONU, da União Europeia, FMI e Eurostat e implica que os emigrantes portugueses de visita a Portugal (mesmo alojando em Casa Própria ou a convite de Familiares e Amigos) são considerados turistas.

(4)De acordo com a Declaração de Interesses, antecipamos a necessidade de um novo accionista, posição que justificamos a seguir.

(5)Numa situação diferente da TAP, mas já vimos a marca Condor ser substituída por Thomas Cook e … o erro ser corrigido.

(6)Dinheiro Vivo de 3 de Outubro de 2012. Ver


Público de 21 de Dezembro de 2012. Ver


(7)É significativo que, em português, politica designe policie e politics e, na maior parte dos casos, esteja reduzida a este último significado.

(8)O conceito de Diáspora é mais adequado a realidade económica, social e cultural em cauda do que o de Comunidades Portuguesas ou Emigração.

(9)Dois esclarecimentos. Segundo o Relatório do Grupo TAP referente a 2011, entre 2001 e 2011, o contributo do hub para o aumento de passageiros no Aeroporto de Lisboa é de 57%. Os indicadores do INE não permitem quantificar esta afirmação, mas, no cado dos Não Residentes, não contabilizamos os residentes que regressam e os dos voos internos (muito importantes na TAP), nem os passageiros que apenas passam pelo hub de Lisboa para “desembarcar e embarcar”.

(10)Jornal de Negócios de 21 de Dezembro, Debate na Assembleia da Republica. Ver


(11)Jornal de Negócios de 21 de Dezembro de 2012. Ver


(12)A expressão “garantias adequadas” é utilizada insistentemente pela Secretária de Estado Maria Luís Albuquerque, na entrevista a Mário Crespo na SIC Noticias, no dia 20 de Dezembro, quando o Conselho de Ministros decide a conclusão do processo de privatização. A expressão reconhece que há vários tipos de garantias a prestar e não apenas Grantias Bancárias.

(13)“Li hoje num jornal diário que a meio do Conselho de Ministros ainda tentámos que o concorrente pagasse. O delírio neste processo tem sido imenso mas não é suscitado por iniciativa do Governo. Esses episódios não existiram nunca durante o processo de privatização” – Jornal de Negócios de 21 de Dezembro.


(14)Dinheiro Vivo de 3 de Agosto de 2012. Ver


(15)Jornal de Notícias de 19 de Outubro de 2012. Ver


 (16)Expresso online de 18 de Dezembro de 2012. Ver


(17)Resolução do Conselho de Ministros nº 111-B/2012, de 28 de Dezembro. Ver


(18)Publico de 11 de Dezembro de 2011. Ver


(19)O que designamos por Decreto-Lei de Agosto/Setembro de 2012 e a envolvente pertinente são descritos em detalhe no ponto 9 do Documento de Trabalho. Sobre o formalismo legal ver o Ponto 2 do Documento de Trabalho.

(20)Jornal de Negócios de 21 de Dezembro de 2012. Ver


(21)A alínea em causa é: d) A salvaguarda dos interesses patrimoniais do Estado, nomeadamente no que respeita ao encaixe financeiro decorrente da venda directa.

(22)Ver várias declarações da Secretária de Estado Maria Luís Albuquerque e do Primeiro Ministro, este durante o debate na Assembleia da Republica, a 21 de Dezembro.

(23)Descrevemos o modelo teórico, que figura no Caderno de Encargos. Como há uma só Proposta vinculativas de aquisição e de subscrição, o que está em causa é TAP, PARPUBLICA e Comissão Especial validarem essa Proposta.

(24)Despacho nº 13719-A/2012, citado pelo Jornal de Negócios de 24 de Outubro (edição papel).

(25)Dinheiro Vivo de 18 de Dezembro. Ver


(26)Preâmbulo da Resolução do Conselho de Ministros n.º 111-B/2012, de 28 de Dezembro, referente à Reunião do Conselho de Ministros, que tem lugar a 20 do mesmo mês.

 

Privatização da ANA: Contrato de Concessão entre o Estado e a ANA


O Governo aprovou “a celebração do contrato de concessão de serviço público aeroportuário relativo aos aeroportos situados em Portugal Continental e na Região Autónoma dos Açores entre o Estado Português e a ANA - Aeroportos de Portugal, S.A.” (Link).

O leitor que deseje conhecer os antecedentes desta decisão deve consultar o Post:

Privatização da ANA (4) – Leitura Crítica do “Quadro Jurídico Geral” (Link)

Sublinhamos “celebração do contrato de concessão” porque o procedimento mais correcto seria, depois de um verdadeiro Decreto-Lei a aprovar as Bases do Contrato, o Governo

-aprovar a “Minuta do Contrato de Concessão, a celebrar etc.” e NÃO a “celebração”.  

Deparamo-nos com uma situação, pelo mínimo, estranha:

-com base num recente e insuficiente Decreto-Lei (Link), o Governo determina que os Ministros das Finanças e da Economia representem o Estado na “celebração de um contrato de concessão”, que o Governo, o Parlamento e os Portugueses desconhecem.

Com efeito, os negociadores

-dispõem do texto de um Contrato, que têm vindo a negociar com os quatro candidatos à compra da ANA e a alterar em função dessas negociações,

-ao aprovar a “celebração do contrato de concessão”, o Governo permite que os dois Ministros assinem o que é, de facto, um contrato sigiloso.

Quando os mais diversos políticos (da Maioria à Oposição) e a sociedade civil conhecerem o que foi contratado … tal é um facto consumado.

Acontece que o Contrato de Concessão é, na fase actual, o instrumento que define

-a ordem de valor que o Estado encaixa,

-a contribuição da Gestão Privada dos Aeroportos de Portugal para a Competitividade da Economia do País.

Neste contexto, o País teria ganho com o escrutínio politico e público do Contrato de Concessão entre o Estado e a ANA.

Quem viver, verá!

 

A Bem da Nação

Albufeira 12 de Dezembro de 2012

Sérgio Palma Brito

 

PS (1) – Nenhum texto legal explicita o caso dos Aeroportos da Região Autónoma da Madeira, concessionados à ANAM, SA, cujo capital social é detido pela ANA (70%), Estado (20%) e Região (10%). Esta omissão é, no mínimo, estranha.

PS (2) – Para os mais coca-bichinhos, lembramos as decisões do Governo de José Sócrates sobre a Privatização da ANA. Podemos discordar do seu conteúdo (e nós discordamos de boa parte), mas o processo é exemplar ao ponto de incluir um Pedido de Apreciação Parlamentar, por Deputados do PSD, ao Decreto-Lei das Bases da Concessão. Citamos as decisões formais:

-A Resolução do Conselho de Ministros n.º 20/2007, de 14 de Fevereiro “Estabelece o modelo de transacção do novo aeroporto de Lisboa, determinando que a privatização da ANA, S. A., e a contratação da concepção, construção, financiamento e exploração do novo aeroporto de Lisboa, a localizar na Ota, serão efectuadas através de uma operação única que conjugue aquelas duas componentes”.

-Em 7 de Maio de 2009, o Ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações afirma que o processo legislativo em curso (Decretos-Lei de 2009 e de 2010) assenta num pressuposto: “Construção do Novo Aeroporto de Lisboa e Privatização Parcial da ANA”.

-O Decreto-Lei nº 217/2009, de 4 de Setembro “Define o modelo de regulação económica e da qualidade de serviço do sector aeroportuário nacional”. Com a aprovação deste Decreto-Lei, a Privatização da ANA, SA é acompanhada de um regime inovador não apenas de Regulação Económica, mas também de Qualidade de Serviço

Nota – Este importante Decreto-Lei é revogado pelo actual Governo e a Regulação enfraquecida, no texto legal e na ausência de um projecto de renovação do INAC, como Entidade Reguladora Independente.

O Decreto-Lei n.º 33/2010, de 14 de Abril “Aprova as bases da concessão do serviço público aeroportuário de apoio à aviação civil, compreendendo o estabelecimento, o desenvolvimento, a gestão e a manutenção das infra-estruturas aeroportuárias dos aeroportos de Lisboa, do Porto, de Faro, de Ponta Delgada, de Santa Maria, da Horta, das Flores e do Terminal Civil de Beja, bem como de novos aeroportos, incluindo o novo aeroporto de Lisboa”;

-A Resolução do Conselho de Ministros n.º 34/2010, de 6 de Maio “Aprova a minuta do contrato de concessão do serviço público aeroportuário de apoio à aviação civil a celebrar entre o Estado Português e a ANA - Aeroportos de Portugal, S. A.”.

-Em 12 de Maio de 2010, um grupo de Deputados do PSD pede a Apreciação Parlamentar deste Decreto-Lei. Em 16 de Julho de 2010 é aprovada a Lei nº 29/2010, de 2 de Setembro, da Assembleia da República sobre “Primeira alteração, por apreciação parlamentar, ao Decreto -Lei n.º 33/2010, de 14 de Abril”.

Marca Portugal e Marca Algarve como Destino Turísticos


A Marca Portugal como Destino Turístico está na ordem do dia, por via de declarações como

  • a da união de esforços “para promover uma única marca, Portugal”,  
  • a de “Um país com 10 milhões de habitantes não pode ter sete marcas a comunicar de forma distinta” (1).

A Procura e Oferta de Turismo do Algarve estão na ordem do dia, pela menos promissora das vias

  • os conflitos de interesses que as companhias Low Cost contribuem para pôr à luz do dia.

Estes dois temas serão, brevemente, analisados neste vosso blogue.
O presente post tem um objectivo:

  • contribuir para que a construção da Marca Portugal e das Marcas dos grandes Destinos Turísticos Regionais evite o perigo da versão centralista e centralizadora de uma política de “unicidade da Marca Portugal”. 

Esta contribuição é descrita em quatro passos:

  • reconhecer que a maioria dos turistas “não vem a Portugal”, mas a um dos grandes Destinos Regionais de Portugal, mais concretamente: Lisboa, Algarve, Madeira e Porto/Douro.
  • a valorização das Marcas dos grandes Destinos Regionais (2) é a base da valorização da Marca Portugal como Destino Turístico, por sua vez umbrela valorizadora das Marcas Regionais em que assenta – todo este processo é conduzido a nível nacional com concertação a nível regional, 
  • o Marketing & Vendas da Oferta de Turismo de cada Destino Regional só é eficiente se estiver apoiada pela Marca desse Destino – este processo é em grande parte conduzido a nível regional, com concertação a nível nacional entre SET/TdP e Confederação do Turismo Português,
  • a operacionalização destas orientações exige uma alteração cultural profunda e adaptação institucional, por parte da Intervenção Pública e da Iniciativa Privada – a estabilidade das Marcas e a profissionalização das Direcções Executivas, até ao mais alto nível, são apenas dois exemplos desta transformação.

Na Economia do Turismo, há 5% de Estratégia e 95% de Execução. Vale a pena discutir e consensualizar a estratégia, de modo a evitar o desperdício de recursos numa execução errada à partida.
O que afirmamos sobre a Marca Algarve é aplicável, com as devidas adaptações, a Lisboa e Porto e já aplicado na Madeira.
Não ignoramos os outros Destinos Regionais, mas a acessibilidade rodoviária e a modalidade de oferta exigem uma aproximação diferente. Não repetimos o erro mais profundo da Proposta de Lei sobre as Entidades Regionais de Turismo e tratamos de maneira diferente o que é diferente.

1.“Decisões do Mercado”

*Concentração da Procura e Oferta de Turismo em Destinos Regionais 

Nunca é demais lembrar ser o “Mercado a decidir”. É a Procura que faz com que a Oferta de Turismo do País integre dois grandes tipos de Destinos Regionais, que aqui e ali se sobrepõem:

  • os da Concentração da Oferta, na área de acolhimento dos grandes Aeroportos de chegada dos turistas: Lisboa, Faro, Funchal e Porto – o que designamos de grandes Destinos Regionais resulta da interligação Aeroporto/Oferta, 
  • os da dispersão de uma Oferta mais ligeira, fruto da acessibilidade rodoviária: Alentejo, Centro e Norte (3).

Por muito que falemos de Portugal como um todo e é um todo, a maioria dos turistas

  • “vem ao Algarve ou à Madeira” para estanciar – o turismo do Algarve só se desenvolve, se tirar partido do vasto potencial da “viagem para estanciar”,
  • “vem a Lisboa” e “começa a vir ao Porto/Douro”, dando ou não voltas, mais ou menos largas – as cidades, com grande destaque para Lisboa, beneficiam da vaga crescente de estadias urbanas multifacetadas.

Portugal existe como Destino Turístico, integrador dos Destinos Regionais.

*Procura de Residentes em Quatro Países, pelos Destinos Regionais  

O Gráfico 1 ilustra a repartição de Dormidas de Não Residentes em quatro países, pelos Destinos Regionais. Os quatro países foram escolhidos segundo um critério:

  • no seu conjunto, representam 74% das Dormidas de Não Residentes no Algarve (4).
Registamos:
  • o Algarve recebe quase 80% das Dormidas dos residentes na Irlanda, quase 70% no caso do Reino Unido e quase 40% no da Alemanha,
  • no seu conjunto, Algarve, Lisboa e Madeira recebem entre 90%, ou mais, das Dormidas dos residentes nos quatro países.

Esta concentração da Procura e Oferta tem de ser tida em conta quando,

  • o Estado fomenta a Valorização da Marca dos Destinos Turísticos Regionais, sob a umbrela do Destino Turístico Marca Portugal,
  • a Iniciativa Privada implementa os seus programas de Marketing & Vendas da Oferta.

Salvo o devido respeito, esta realidade não é devidamente tida em conta pelo discurso dominante e pela política de Turismo.

Gráfico 1 – Repartição das Dormidas do Residentes em quatro países pelos grandes Destinos Turísticos Regionais

Fonte: Elaboração própria com base em INE – Estatísticas de Turismo

2.Marca Portugal, Como País e Destino Turístico, e Marcas de Destinos Turísticos Regionais

*Marca Portugal Como País e Como Destino Turístico

Marca Portugal, como País, e Marca Portugal, como Destino Turístico são conceitos interligados, mas diferentes.
Sobre a Marca Portugal como País, citamos o que Simon Anholt afirma sobre países, regiões e cidades (5):

  • “they can’t usually be branded: at least not in the way that products, services or companies can”,
  • “In short, nobody doubts that places (6) have their brand images, and that those images are critical to their success in the many international contests that characterize the modern economy. It’s only when people start talking about branding rather than brand that the problem starts.”.

O mais recente e polémico exemplo do erro de “nation branding campaign” é a Portugal – Europe’s West Coast. Muito brevemente, publicamos neste seu blogue um post sobre o tema.
Na valorização da Marca País, o Turismo, no sentido da visita de estrangeiros, é um dos grandes factores que contribuem para a formação da Imagem de Marca do País.
No caso da Marca País como Destino Turístico, há uma diferença relevante:

  • “a clearer distinction between selling campaigns wich as tourism and investment promotion – wich may well improve sales within their specific sectors and among their specific audiences but may have little or no effect on the overall image of the country – and so-called nation branding campaigns.”.

*Marca Portugal e Marca Algarve – a Caixa de Chocolates

Contrariamente à Marca País, a que não se aplicam as técnicas de branding desenvolvidas para produtos, serviços e empresas, é possível (e necessário, como veremos a seguir) desenvolver campanhas de branding de Destino Nacional e/ou de Destinos Regionais.
É neste quadro que se põe a questão da relação entre Destino País e grandes Destinos Regionais. Recorremos a Simon Anholt, para dar uma base objectiva à tomada de decisão

  • “When dealing with markets for tourism, investment and exports, the question of wether to represent and promote the nation as a single entity or as a series of “sub-brands” really depends on the audience familiarity with that nation”.
  • “In the end, countries like Britain need to adopt what I call a “box of chocolates” brand architecture. 

The brand on the outside of the box is “Britain”, and when familiarity is low, we should market the box.
When familiarity is higher, we can open the box and introduce the individual chocolates; each one is distinctive with its own flavours and appearances, but bearing a strongly family resemblance and clear connection to each other and to the brand on the box.”

Segundo os mercados e a sua familiaridade com os grandes Destinos Regionais, assim se promove

  • a marca Portugal (a marca da caixa de chocolates), em mercados onde os Grandes Destinos Regionais não são familiares (China, por exemplo) – neste caso, Lisboa é um caso á parte, porque é a capital e a porta de entrada no País, 
  • marcas de um ou mais dos grandes Destinos Regionais (os sabores da caixa, que se abriu), quando estes são familiares (o caso dos quatro países mencionados antes) – alguém imagina promover o Destino Portugal no Reino Unido, Irlanda e Holanda, omitindo uma referência muito expressiva ao Algarve. 

Em conclusão:

  • a Imagem de Marca dos grandes Destinos Regionais é um dos comunicadores da Marca Portugal, como Destino Turístico,
  • sem Marcas fortes dos grandes Destinos Regionais, não há uma forte Marca Portugal como Destino Turístico.

No caso concreto de Portugal e Algarve,

  • a notoriedade do Algarve nos quatro mercados em causa justifica que se abra a “caixa de chocolates” e se faça o destination branding do Algarve. 
  • Grandes Orientações Sobre a Valorização das Marcas

No Congresso da APAVT de 2008, Jorge Sampaio sugeriu que, para além de mantermos o logotipo de José Guimarães, nos inspirássemos do “modelo espanhol”, na medida em que este

  • qualifica a decisão sobre Marca Destino e retira-a da instabilidade da decisão politica.

No fundo, as decisões sobre grande orientações da Marca Destino são tomadas por uma plataforma da sociedade civil, sob o patrocínio do Rei.

Detalhes em próximo post.

3.Marca do Destino Turístico e Promoção Turística Tradicional 

*Destination Branding e Ordinary Tourism Promotion

Esclarecida a relação entre Destino Portugal e grandes Destinos Regionais, passamos à relação entre Marca do Destino e Promoção Turística do mesmo. Simon Anholt esclarece a relação entre Destination Branding e Ordinary Tourism Promotion” (7):

  • -“The idea of destination branding is important because it takes into account these important questions related to the capture and accumulation of reputational value. Ordinary tourism promotion, when it’s carried out with no particular long term national strategy in mind apart from growth, is an endless cycle wich may or not lead to real progress in the longer term.

Unlike brand management [de país, região, cidade], it’s mainly about selling. It can be certainly effective at doing this, but unless the selling is directed and driven by an underlying brand strategy, there is little chance that the country as an whole will acquire any substantial brand equity, and so the promotional task never gets easier or cheaper, and there is little chance that a price premium will ever be justified in the eyes of the consumer (8).
The basic principle of destination branding is that every act of promotion, exchange or representation needs to be seen not as an end in itself but as an opportunity to build the country’s image and reputation.”.
Com efeito, “a destination with a powerful and positive image needs to do less work and spend less money on promoting itself to the market place, because the marketplace already believes what is telling them. It merely has to help buyers find and purchase the product.”.

*Da Promoção Turística a Valorização das Marcas e Marketing & Vendas da Oferta de Turismo

  • Chegados aqui, temos de ultrapassar o conceito de Promoção Turística Tradicional (com a dualidade “produto” e “destino”), tal como a conhecemos, e passar a considerar duas actividades distintas e interligadas
  • a da Valorização das Marcas – a de Portugal como Destino Turístico e a dos grandes Destinos Regionais, da responsabilidade da Intervenção Pública, por via do Turismo de Portugal,
  • a do Marketing & Vendas da Oferta, da responsabilidade a Iniciativa Privada, com facilitação/apoio do TdP e operacionalizada a nível regional, depois de concertada a nível central.

Esta proposta não é apenas uma questão de semântica. Apesar de muitos progressos, o modelo da Promoção Turística Tradicional está inadequado da realidade e não permite a mais eficiente intervenção no terreno.

4.A Difícil Operacionalização de Orientações Simples

*Duas (Impossíveis?) Aplicações da Lei de Pareto

A Lei de Pareto (9), ou “princípio 80-20” é o reconhecimento de, para muitos fenómenos, 80% das consequências resultarem de 20% das causas. O exemplo típico é o de 20% dos clientes representarem 80% das vendas, o que leva a empresa a concentrar os seus esforços nos 20% e pensar menos nos 80%.
No caso da Promoção Turística, há muitos exemplos da Politica de Turismo seguir o inverso da Lei de Pareto:

  • concentrar 80% da sua atenção em Destinos que, no seu conjunto representam 20% da Oferta, para “combater” as “assimetrias regionais” e a “concentração da Oferta” (10).
  • Mesmo no caso do Algarve, este enunciado não pode ser aplicado cegamente à Procura/Oferta de Turismo:
  • a prioridade do Marketing e Vendas iria para os quatro países que representam 74% das Dormidas,
  • no caso dos 26% restantes, há que distinguir a dispersão esterilizante de esforços do investimento selectivo e consistente em dois ou três novos mercados.

*Proposta Para os Grandes Destinos Regionais

Do que expusemos antes, resulta a seguinte proposta de operacionalização para os grandes Destinos Regionais:

  • Valorização da Marca e Marketing & Vendas da Oferta são sempre concertados a nível central, com a Confederação do Turismo Português, tendo em conta as associadas pertinentes,
  • os Planos, Programas e Acções de Valorização das Marcas, pelo profissionalismo e recurso que exigem, são operacionalizados a nível central.
  • os Planos, Programas e Acções de Marketing & Vendas são concertados a nível central, mas operacionalizados a nível regional, por Agência Regionais, privadas, profissionalizadas e ultra ligeiras.

Todo o sistema funciona na base da Justificação dos Orçamentos, Avaliação dos Resultados e Sanção (positiva ou negativa) dos Responsáveis.
Em condições normais, as “autarquias estratégicas” (com destaque para Lisboa) são integradas no sistema, no respeito da sua autonomia.
Dada a confusão reinante e a transformação que está em causa,

  • é imprescindível que, em concertação com a Iniciativa Privada, o Turismo de Portugal obtenha conselho profissional, por entidade com provas dadas a nível internacional e não ligada à “feitura e venda de marcas” (11).

Este não é “mais um estudo”. É o conselho qualificado que faz falta.

*Proposta Para o Destino Turístico Algarve

O Destino Turístico Algarve tem uma especificidade que não cabe nos cânones da Politica de Turismo Tradicional – basta lembrar as cerca de 140.000 casas de férias e empreendimentos que “não são turismo oficial”, como a maior parte de Vale do Lobo, Quinta do Lago e Vilamoura.
Mesmo ao nível a que nos situamos, o das 100.000 camas de Alojamento Turístico Classificado, Valorização da Marca Algarve e Marketing & Vendas da Oferta têm especificidades a não ignorar, antes valorizar.

Este é tema para próximos posts.


A Bem da Nação
Albufeira 10 de Dezembro de 2012
Sérgio Palma Brito

Notas
(1)Respectivamente, Pedro Costa Fereira, Presidente da APAVT, e Luis Matoso, Administrador do INE, em Publituris.
(2)Como explicamos no ponto 3, consideramos que a Promoção Turística dá lugar a duas áreas de intervenção interligadas, mas diferentes: a Valorização das Marcas e o Marketing & Vendas da Oferta de Turismo.
(3)Ver o post Vinte Anos Passados: Repetir um Erro Estrutural? (Link).
 (4)A escolha dos Países não ignora que, no seu conjunto, estes países representam 48.1% das Dormidas em Portugal. O que se afirma sobre o Algarve é válido para Lisboa e Madeira e para o emergente Porto.
(5)Muito do modelo conceptual do post assenta na nossa experiência e na análise e propostas de Simon Ahholt, em Competitive Identity – The new Brand Mangement for Nations, Cities and Regions (2007) e Places – Identity, Image and Reputation (2010).
(6)Na ocorrência, places designa Países, Regiões e Cidades.
(7)Traduzimos ordinary por tradicional.
(8)No caso em apreço, parece haver uma grande proximidade entre a Imagem de Marca, um dos quatro elementos de uma Marca, e o Posicionamento, um dos três elementos do Marketing Estratégico – sem querer entrar numa guerra de conceitos, analisamos este caso no próximo conjunto de posts sobre Marca e Marketing.
(9)A informação da Wikipedia http://pt.wikipedia.org/wiki/Princ%C3%ADpio_de_Pareto é útil e fácil.
(10)Há aqui uma pesada herança cultural, de que o post da Nota (3) é a ponta do iceberg. Dar a conhecer o iceberg às novas gerações tem algum interesse, mas não está nas nossas prioridades.
(11)Está em causa um conflito de interesses: se a actividade do consultor é a de criar marcas do tipo das de produtos, serviços e empresas, não podemos esperar uma avaliação desinteressada sobre uma acção de valorização da marca que não privilegie o “«branding» is roughly synonymous with advertizing, graphic design, promotion, public relations (PR) or even propaganda”, citando, mais uma vez, Anholt.

A Cátedra André Jordan na Universidade do Algarve


A notícia vem no Sul Informação (Link), sob o título:

-“Cátedra André Jordan coloca UAlg na vanguarda da investigação em turismo”

Entre muitos, esta iniciativa merece ser destacada por dois motivos:

-o apoio de André Jordan, exemplo a seguir por outros empresários,

-a ligação entre a Universidade do Algarve e a Economia do Turismo.

Lembramos parte da Declaração de Interesses deste Blogue:

-“O Blogue pretende abordar de uma maneira crítica e positiva o discurso politicamente correcto sobre turismo. Na ocorrência, politicamente correcto não é pejorativo, porque resulta das normais limitações profissionais, sociais, culturais e políticas 

-de muitas das propostas da Política e Administração do Turismo, limitadas a uma parte da Economia do Turismo,

-de intervenções e propostas sobre aspectos parcelares do turismo, fruto de legítimos interesses empresariais, corporativos, ou profissionais,

-de textos que são fruto de cânones universitários ou da investigação científica sobre turismo, […].”

Não ignoramos, antes apoiamos iniciativas como a Cátedra Andre Jordan.

 

*A Notícia do Sul Informação

"Uma cátedra André Jordan vai ser criada na Universidade do Algarve para colocar esta academia na vanguarda da investigação sobre turismo em Portugal e a nível internacional.

O projecto da cátedra passa por fomentar a investigação aplicada no turismo e vai ser financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, bem como por empresas. Assim, contará com a parceria de uma rede de empresas ligadas ao setor, que está ainda a ser definida, revelou esta quinta-feira, em mais uma sessão do evento «Inovar Algarve», João Albino Silva, professor da Faculdade de Economia da Universidade do Algarve.

O objetivo, disse, é «ligar a teoria à prática, assumindo o carácter de empreendedor e de inovação no Turismo em Portugal e no Algarve que reconhecemos na figura de André Jordan», patrono da cátedra.

Para essa cátedra, que tem como consultor científico internacional o professor Jafar Jafari, serão atraídos «os melhores investigadores», de modo a «conferir-lhes a maior capilaridade com o setor privado e o tecido empresarial», acrescentou João Albino Silva, que esta quinta-feira fechou a sessão sobre «Turismo: Modalidades, Destinos, Produtos e Comportamentos», da iniciativa «Inovar Algarve» que está a decorrer desde dia 5 e termina hoje na Faculdade de Economia da Universidade do Algarve, nas Gambelas (Faro).

Este professor disse ainda que se pretende «promover, através de uma cátedra académica, o Silicon Valley do turismo em Portugal»., bem como «aprofundar a relação entre os setores público e privado, na gestão do turismo (modelo de negócio, modelo de análise e informação de gestão), para torná-la mais sofisticada e competitiva.

A cátedra, anunciou João Albino Silva, terá uma duração de três a cinco anos e irá começar em 2013, contando com financiamento privado e público, através de empresas e da FCT. Contará com três a cinco investigadores ou bolseiros, que formarão uma equipa fixa de investigação aplicada no turismo.

Para operacionalizar a cátedra, será também criado um Conselho Consultivo, que envolverá outras universidades, muitas delas estrangeiras, bem como empresas, ligadas aos mais diversos setores, da hotelaria aos transportes, da animação à distribuição, entre outros.

Haverá uma grande aposta na difusão do conhecimento e da investigação produzida no âmbito dessa cátedra, até porque se trata de investigação aplicada, prevendo-se, nomeadamente, a organização de uma grande conferência internacional, entre muitos outros eventos e iniciativas.

«A cátedra é uma tentativa de integrar um conjunto de conhecimentos fundamentais para as empresas do turismo», acrescentou João Albino Silva em declarações ao Sul Informação, no fim da sessão.

Por seu lado, Ifigénio Rebelo, também professor na Faculdade de Economia e moderador da sessão paralela sobre Turismo, comentou: «somos líderes na investigação em turismo e a Cátedra André Jordan pretende exatamente reforçar essa liderança».”.

 

A Bem da Nação

Albufeira 9 de Dezembro de 2012

Sérgio Palma Brito

Pena Furada – Oscar Niemeyer no Algarve


O local é a Pena Furada, a Norte de Vila do Bispo. O terreno é um rectângulo “deitado”, entre a Estrada Nacional e o mar.

O “memorial descritivo do projecto do Algarve” ocupa vintena de páginas. A capa é a panorâmica de um empreendimento turístico, de harmonia rara no urbanismo e indicações de arquitectura cuja beleza sentimos.

É exemplo magnífico das ideias que, em 1970, Conceição e Silva defende, quando critica a política oficial de “considerar que a integração dos edifícios na paisagem, deva necessariamente corresponder ao seu não aparecimento volumétrico nessa paisagem”, política que “parece ter conduzido alguns serviços ligados ao turismo a considerarem os edifícios como indesejáveis e o seu aparecimento como uma acção destruidora da paisagem existente”. Conclui que “A paisagem não foi suficientemente valorizada e a arquitectura que em todos os tempos teve uma das maiores acções culturais, cede a favor da paisagem algarvia. Não houve assim uma desejável contribuição da arquitectura e a correspondente valorização da paisagem.” (1).  


*Março de 1966 – “Memorial descritivo” do Empreendimento da Pena Furada

O texto é manuscrito e completado com esboços de desenhos, que o completam. É escrito no Rio de Janeiro, em 14 de Março de 1966. Com base da observação e sem sermos especialistas, a caligrafia é de quem assina Oscar Niemeyer e de Niemeyer parecem ser os desenhos que o ilustram (2).

Citamos o início:

-“O projecto que apresentamos se adapta à topografia da Pena Furada, aproveitando os contrastes surpreendentes que esse local oferece. Evitamos que a solução atingisse as áreas em declive – oneroso de construir –e que ocupasse demasiadamente o terreno (desenho 1) tirando-lhe as características de amplitude e beleza que tanto o valorizam.

Isso explica os núcleos compactos que constituem os blocos de habitação e que situados à via principal conferem à mesma, como prevíamos, o aspecto variado – o contraste de áreas construídas e espaços livres desejável (desenho 2).

Fixados este critério, começamos a marcar o zoneamento procurando localizar cada sector de acordo com suas solicitações, sem criar acessos em demasia, procurando ao contrário simplifica-los, adaptando-os às curvas de nível.”.



*Agosto de 1966 – a “Explicação necessária”

Uma outra vintena de páginas tem o carimbo de “Entrada” na Direcção Geral dos Serviços de Urbanização, com data de 30 de Agosto de 1966.

O “memorial descritivo” é antecedido por uma página, também manuscrita, de “Explicação necessária”. Desta, citamos:

-“Sob o ponto de vista arquitectónico, nossa intenção é encontrar uma solução que exprimindo a técnica contemporânea, se adapte e se harmonize com a natureza e a arquitectura local. Não pretendemos certamente copiá-la. Seria um desvio vvv que o gosto e o respeito pela tradição devem repelir. Nossa ideia é apenas manter nas novas construções do Algarve, o espírito da velha arquitectura portuguesa que nos sugere as soluções simples e construtivas, mas também as fantasias bbb que o concreto armado hoje, generosamente, nos oferece.”.

 

*Nota Final

Consagrei muito tempo da minha vida, na frustrada tentativa de dar uma base sólida ao discurso dominante, mas superficial e errado, sobre a transformação da paisagem cultural da economia e sociedade tradicionais do Algarve e a formação da paisagem cultural da economia turístico residencial, em polos de uma estreita faixa do Litoral (3).  

Entre 2005/2006 passei dias no Arquivo da CCDR do Algarve, a consultar dossiers (4). O Arquivo é profissional, com a excepção dos “atados”, armazenados numa espécie de mezanine – são, literalmente, montes de peças por arquivar, atados com baraço. Percorri, peça a peça, os “atados”. Lá pelo meio, encontrei os originais (originais!) assinados da Pena Furada, de que fiz fotocópia. A minha iniciativa, inteiramente pro buono, foi frustrada e já não iniciei a investigação no armazém da Cagalhota (desculpas pelo nome!). É possível que lá estejam as peças escritas e desenhadas que não encontrei.

 
A Bem da Nação

Albufeira 6 de Dezembro de 2012

Sérgio Palma Brito

 

Referências

(1)Arquitecto Conceição e Silva, Parecer para a empresa Salvor, de 29 de Abril de 1970.

(2)O Memorial descritivo inicial é apenas assinado por Niemayer. A versão de Agosto de 1966 é, também, assinada pelos Arquitectos Viana de Lima e Hans Gerorg Muller.

(3)Ainda publiquei o livro Território e Turismo no Algarve (Link) e Portugal ficou mais rico por o trabalho não ter continuado.

 (4)Reafirmo toda a minha gratidão ao Presidente Campos Correia e ao Arquitecto Jorge Eusébio, pela ajuda que recebi e a confiança que tinham em mim – no dia da festa de Natal, fiquei só no edifício, deixando as chaves em sítio seguro.

 

Algarve – Sazonalidade e Low Cost, na Procura e Oferta de Turismo


Este post resulta directamente das declarações de Pedro Santos Ferreira, Presidente da APAVT, ao Expresso de 1 de Dezembro. O agora Presidente, quando era gestor, habituou-nos a intervenções bem estruturadas, quantificadas e de nível muito superior ao que assistimos na maioria das reuniões sobre Turismo.
O texto do Expresso, a exemplo de anteriores declarações em Janeiro de 2012, parece ser mais dominado pela intervenção associativa, com o seu ritual e linguagem, o que se compreende em vésperas do Congresso da APAVT.
A nossa análise assenta numa base mais larga do que é a dos legítimos interesses empresariais das Agências de Viagens. Abordamos cinco pontos:

  • recordar e contextualizar as declarações,
  • percorrer temas a não ignorar,
  • confrontar as declarações com a realidade da sazonalidade,
  • situar os problemas do Turismo do Algarve que estão em causa,
  • conhecer o potencial do Brasil para a Oferta de Turismo do País.

O que segue completa e é completado por um post, de 2 de Fevereiro de 2012 Link. (1)

a) As Declarações do Presidente da APAVT

*Aposta Cega nas Low Cost” 

Citamos o Expresso:

  • “Temos de abandonar a última moda no país, a aposta cega nas companhias low cost, que se revelou catastrófica para regiões como o Algarve”,
  • é um contrassenso “terem-se incentivado os privados a investir em hotéis de cinco estrelas e campos de golfe (e hoje somos o melhor destino europeu de golfe) e ao mesmo tempo matarem-se as linhas regulares e os charters dos operadores turísticos. O resultado é que a sazonalidade aumentou e o inverno algarvio passou a ser um deserto.”.

*"no polo oposto"

Segundo o Expresso, “no pólo oposto” PSF enaltece:

  • “as enormes vantagens na construção de fluxos turísticos que para Portugal com voos que a TAP lançou para Florida (EUA), Rússia ou Rio Grande do Sul (Brasil), projectos que foram desdenhados e até combatidos pelos decisores políticos.”,

Depois de defender os mercados tradicionais, como a Alemanha e o Reino Unido “que não devemos abandonar”, acrescenta que o foco também deve ir para os emergentes, com destaque para o Brasil, cujos turistas crescem em Portugal a dois dígitos:

  • “É um mercado ainda com um enorme potencial. A nossa China é o Brasil”.

*Declarações a Não Ignorar

Estas declarações não devem ser ignoradas, pois

  • têm o mérito de pôr em debate publico temas relevantes e adormecidos ou varridos para debaixo do tapete,
  • obrigam a rever algumas das ideias correntes sobre a intervenção do Estado e dos Privados na solução de alguns dos estrangulamentos da Procura/Oferta do Turismo do Algarve.


b) Notas Sobre Temas a Não Ignorar

*Dois Pontos Prévios

Esclarecemos dois pontos prévios. O primeiro tem a ver com uma atitude muito corrente nas tomadas de posição sobre Turismo e, em particular, sobre o Turismo o Algarve:

  • os interlocutores são “contra ou a favor”, quando postos perante dois modelos de negócio concorrentes: começou por ser “turismo versus imobiliária”, passou por “hotelaria versus timeshare” e, mais recentemente “charters versus low cost” (2).

Quando somos confrontados com estas alternativas fechadas, a nossa posição é diferente:

  • identificar os conflitos dos interesses subjacentes a cada um dos modelos de negócio que se excluem, e dar prioridade às sinergias que a conjugação de ambos pode gerar, 
  • daí tirar partido, em benefício dos interesses privados envolvidos, e sobretudo em função do interesse da Região e do País – posição facilitada por não representarmos interesses empresariais específicos.

Não estamos sós. Na actividade empresarial, muitos operadores turísticos já utilizam as Low Cost para os seus holiday package e Meet Industry, com a excepção da Ryanair (até ver). Outro exemplo é o do sucesso do Grupo Pestana assente, entre outros, na conjugação de hotelaria, timeshare, imobiliária e golfe.

O segundo ponto prévio é o de, neste post, limitarmos a nossa análise ao Alojamento Turístico Classificado, quando este é uma parte da Economia do Turismo do Algarve. O sucesso das Low Cost assenta em vários factores relacionados com a Procura, mas importa destacar o Alojamento Turístico que não é classificado pelo Turismo de Portugal:

  • estas companhias são de crucial importância para a utilização das Casas de Férias pelos seus proprietários, para o sucesso da exploração das que estão no mercado turístico e para a atracção de reformados a residir em permanência.

Esta realidade está sempre em pano de fundo da nossa análise. Para a compreender, o leitor mais curioso pode percorrer o post: A Politica Que Falta à Economia do Turismo do Algarve Link.

*Aposta Cega nas Low Cost e Responsabilidades Empresariais 

De uma assentada, a referência a “aposta cega” levanta duas questões da maior relevância. A primeira é a nível do País e passa por duas reformas

  • a primeira é interna ao Turismo de Portugal e consiste em os Incentivos a Companhias Aéreas saírem da área do Planeamento Estratégico do Turismo para a da Promoção Turística do Turismo de Portugal – a Acessibilidade Aérea é indissociável do Marketing & Vendas da Oferta de Turismo,
  • a segunda é de fundo, e consiste em TODA a politica de Promoção Turística ser concertada entre SET/Turismo de Portugal e a Confederação do Turismo Português, abandonando a actual “Concertação” limitada à Promoção Externa Regional (26.7% do Orçamento da Promoção Turística, sem os custos da estrutura central).

A segunda questão põe-se a nível do Algarve e tem a ver com a participação das Associações Empresariais na Direcção da Associação Turismo do Algarve. Com efeito AHETA e APAVT (3),

  • participam na Direcção da ATA desde 2003 (4), mas consentem que os representantes da ERTA sejam os reais Dirigentes e Executivos da Associação – este duplo erro contribui para o definhamento da ATA,
  • não podem continuar alheadas da Politica Regional de Transporte Aéreo, de que são responsáveis, porque a ATA participa, com o Aeroporto de Faro e o Turismo Portugal, na comissão que define e implementa essa política,
  • não podem permitir que a avaliação desta Politica, feita por um Centro da Universidade do Algarve, seja confidencial, quando devia ser pública e discutida.
AHETA e APAVT estão muito bem posicionadas para
  • levar a CTP a obter do Governo uma verdadeira Concertação Estratégica a nível de TODA a Promoção Turística, em ruptura, aliás, com a politica dos governos anteriores,
  • concertar, no seio da CTP, uma intervenção positiva e real da “ATA a reconstruir” (5) na Politica Regional de Transporte Aéreo, que integre os três modelos de negócio: Low Cost, Charters e Full Service Carriers. 

Esta dupla concertação (a nível nacional e regional) é a alternativa que falta à Região e ao País.

*A Catástrofe do Algarve

A afirmação que a “aposta cega” se “revelou catastrófica para regiões como o Algarve”

  • parece-nos exagerada e, mesmo em termos associativos, excessiva,
  • carente da apresentação de uma via alternativa – o tempo de só denunciar está ultrapassado.

*Contrassenso (I): Incentivar Golfe e Hotéis de Cinco Estrelas

A afirmação de “terem-se incentivado os privados a investir em hotéis de cinco estrelas e campos de golfe” exige autópsia em vida. Com as muito poucas excepções que só confirmam a regra,

  • desde o 25 de Abril e até ao primeiro Governo de José Sócrates, nunca o Governo incentivou o investimento em campos de golfe no Algarve,
  • pelo contrário, muitos Governos e departamentos da Administração Pública criaram as maiores e mais absurdas dificuldades ao seu licenciamento.

Por outro lado, muitos dos jogadores de Golfe viajam em Low Cost e estas companhias permitem a sua vinda mais frequente à Região (6).
Aqui não houve “contrassenso”, mas sim hostilização no investimento em campos de golfe e ignorância das sinergias com o transporte low cost.

Quanto a “terem-se incentivado os privados a investir em hotéis de cinco estrelas”, há a considerar

  • este discurso ser, de facto, uma “politica nacional” (sic), cujo resultado mais evidente é termos alguns falsos cinco e quatro estrelas e o drama de hotéis com “custos de quatro estrelas, serviço de três e preços de duas” (7),
  • no Algarve, Manuel Pinho ter querido “multiplicar por dois o número de cinco estrelas”, com o Governo a meter o bedelho onde não é chamado – assistmos a um hoteleiro a sério, o Jorge Rebelo de Almeida, responder “Queres ser tu a dizer-me como eu invisto?” e a construir um verdadeiro quatro estrelas na Meia Praia.

Aqui não houve “contrassenso”, mas talvez falta de algum senso, e certamente de visão a prazo, por parte de alguns “hoteleiros” mais sensíveis a conversa politica.

*Contrassenso (2): Matar Linhas Regulares e Charter

A evolução ilustrada pelo Gráfico 1 suscita dois tipos de questões. A primeira tem a ver com as “linhas regulares”:

  • é evidente que as Low Cost não mataram as “linhas regulares”, pois o valor da sua parte de mercado é estável,
  • desde há pelo menos trinta anos, que “se propõe” a ligação de Faro a grandes aeroportos europeus (os hubs de hoje) por "linhas regulares", mas ninguém fez nada de concreto, fora o ruminar do problema em congressos e colóquios,
  • em 30 de Maio, a AHETA apresentou ao Turismo de Portugal a versão draft de um projecto para ultrapassar este impasse e a actualização deste projecto está em curso (8).

A segunda tem a ver com os “operadores turísticos” e, em particular, os que operam com voos charters. Aqui há três aspectos a considerar

  • esta questão foi analisada na alínea c) do já referido post de 2 de Fevereiro de 2012 e para ele remetemos o leitor, com a garantia de valer a pena ler Link,
  • durante todos estes anos, na Direcção da ATA, AHETA e APAVT não fizeram propostas concretas para implementar mais cedo o que já é realidade: o alargar a operadores turísticos da politica de incentivos a companhias aéreas, 
  • em Junho de 2012 e a pedido do Turismo de Portugal, a AHETA apresentou o draft de um Projecto para relançar a venda do Algarve por operadores turísticos de países como Alemanha e Holanda. 

Uma vez dito tudo isto, há uma questão a esclarecer:

  • terá a Intervenção Publica distorcido a concorrência entre modelos de negócio e prejudicado o País?


c)Análise Rudimentar da Sazonalidade

*Termos de Comparação

Nesta análise rudimentar da sazonalidade (9), comparamos os números de dois anos críticos:

  • 1998, quando ainda não há tráfego Low Cost, 
  • 2011, quando a divergência entre o Tráfego Low Cost e o Charter atinge o valor máximo.

Limitamos esta análise rudimentar à evolução

  • do número total de Dormidas no período que, em cada ano, vai de Novembro a Março, mais Novembro e Dezembro
  • da concentração do número de Dormidas durante os meses de Julho e Agosto.

A análise é rudimentar, mas esclarecedora da tese que defendemos:

  • o aumento do tráfego das Companhias Low Cost não dá fundamento à declaração: “a sazonalidade aumentou e o inverno algarvio passou a ser um deserto”.

*Sazonalidade da Época Baixa

O Quadro 1 mostra a comparação do número de Dormidas em 1988 e 2011, durante os meses da Época Baixa. Constatamos:

  • uma diminuição de 526 milhares de Dormidas, o que é 21.8% em relação a 1998,
  • uma diminuição de 3.0% da percentagem do valor que a Época Baixa representa, o que é 14.0% em relação à percentagem de 1998,
  • a percentagem de diminuição em quantidade é superior à diminuição da percentagem da diminuição em percentagem, porque o valor do total de Dormidas diminui. 

No melhor dos casos, os cinco meses da Época Baixa somam 2.417 milhares de Dormidas, o que representa 21.5% do número total de Dormidas.

Temas para discussão:

  • na estrita óptica do Produto e dada a capacidade de alojamento inaproveitada, há um grande potencial de crescimento durante os meses da Época Baixa,
  • mas, na óptica do Mercado e dados os preços praticados mais as vantagens comparativas do Algarve (10), é difícil à Oferta do Algarve competir no mercado do Winter Sun, 
  • ainda na óptica do Mercado, a estratégia parece passar por captar mais Procura de Golfe, Meet Industry, Turismo Médico e outras estadias, todas com mais valor acrescentado do que as do Winter Sun.

Quadro 1 - Avaliação da Época Baixa em 1998 e 2011

Fonte: Elaboração própria com base em INE – Estatísticas de Turismo

*Concentração da Procura em Julho e Agosto

O Quadro 2 compara a concentração da procura em Julho e Agosto. A comparação entre 1998 e 2011 mostra que o número de Dormidas é estável, mas a percentagem que representa do número total de Dormidas aumenta 12%, dada a diminuição do total.

Quadro 2 - Avaliação da Concentração da Procura em Julho e Agosto 

Fonte: Elaboração própria com base em INE – Estatísticas de Turismo

Desconhecemos estudos sobre a Procura, mas o reforço desta concentração em Julho/Agosto parece ter a ver com o mercado. É sempre possível afirmar que. havendo mais operações de Holiday Package, estas tenderiam a diminuir a concentração. Sen investigação de mercado e sem números, não nos pronunciamos.

*O “Deserto” do Inverno e o “Inferno” de Agosto

A Oferta de Turismo do Algarve é a de uma Área Turística do Mediterrâneo, criada em torno de um aeroporto construído de raiz, numa Região cuja população é inferior à do Concelho da Amadora – a presença/ausência de turistas é facilmente notada.
Em 2011, nesta Área Turística, há cerca de 100.000 camas no Alojamento Turístico Classificado, e cerca de 140.000 de Casa de Férias (de moradias e apartamentos). Apesar de esforços concretos de muita gente, e independentemente do repetitivo discurso politico, há a difícil gestão de uma realidade conhecida:

  • largos meses de muito baixa ocupação dos dois tipos de alojamento,
  • uma concentração da Procura em Julho e Agosto, com um pico de 15 a 15 de cada um destes meses.

Esta é uma realidade do negócio, que cada empresa gere o melhor que sabe e pode:

  • a Meet Industry cria alguma ocupação nos hotéis e o Golfe em hotéis e Casas de Férias,
  • apesar da concorrência, o Winter Sun ainda atrai turistas, 
  • há surpresas como o surf.  

O urgente melhorar desta situação exige muito profissionalismo e clarividência da Politica nacional e municipal. Uma coisa é certa, só perde com os discursos não suportados pela realidade e sem propostas concretas.

d) Notas Sobre Procura/Oferta no Alojamento Turístico Classificado

*Acessibilidade Aérea ao Algarve

Do post de 2 de Fevereiro, recuperamos o Gráfico 1, sobre “Passageiros do Aeroporto de Faro, por Modelos de Negócio do Transporte Aéreo”. Registamos:

  • o crescimento, entre 1998 e 2011, do número total de Passageiros, a um ritmo diferente do dos anos anteriores, mas “crescimento”,
  • a estabilidade do tráfego das Full Service Carriers,
  • a divergência entre a diminuição do tráfego das Companhias Charter e o crescimento das Companhias Low Cost.

Gráfico 1 – Aeroporto de Faro: Modelos de Negócio do Transporte Aéreo

Fonte: ANA, SA

*O Algarve – O Problema de Fundo

O Gráfico 2 ilustra a evolução do número total de Dormidas de Não Residentes, no Alojamento Turístico Classificado.
Registamos

  • crescimento do número de Dormidas até ao ano 2000, 
  • entre 2000 e 2011, o Algarve perde dois milhões de Dormidas.

Estes números, rudimentares mas esclarecedores, são utilmente completados pela visita ao sítio da AHETA.
Destes números resulta que no Algarve,

  • o principal problema a enfrentar é o da diminuição das Dormidas de Não Residentes,
  • atenuar a Sazonalidade da Época Baixa pode ser importante para alguns empreendimentos turísticos, mas é um objectivo colectivo secundário em relação ao anterior.

A abordagem das consequências negativas na sazonalidade nestas unidades deve ser objecto de um programa especifico de Marketing e Vendas.

Gráfico 2 – Evolução do Número de Dormidas de Não Residentes no Alojamento Turístico do Algarve


Fonte: Elaboração própria com base em INE – Estatísticas de Turismo

O Gráfico 3 ilustra a repartição da perda de dormidas, por país de residência dos hóspedes, entre o ano 2000 (pico da procura) e 2011 (último ano).

Gráfico 3 – Repartição do Número de Dormidas Pelos Top 5 Países de Origem


Fonte: Elaboração própria com base em INE – Estatísticas de Turismo

O que está em causa é reagir, com um atraso de vários anos, a

  • uma perda de dois milhões de Dormidas entre 2000 e 2011,
  • 1,6 milhões de Dormidas perdidas no mercado da Alemanha e 500.000 no do Reino Unido.

De facto, como afirma Pedro Costa Ferreira, “não devemos abandonar” os mercados da Alemanha e Reino Unido.
Para o leitor compreender melhor o que está em causa, aconselhamos a leitura de:

  • Algarve, Grande Bretanha, Alemanha, Golfe e o Mercado, Pá? Link.
  • Alemanha Mercado Prioritário Para a Oferta de Turismo de Portugal Link.

e) ”No polo oposto”

*A Declaração

Relembramos a declaração de que nos ocupamos:

  • “as enormes vantagens na construção de fluxos turísticos que para Portugal com voos que a TAP lançou para Florida (EUA), Rússia ou Rio Grande do Sul (Brasil), projectos que foram desdenhados e até combatidos pelos decisores políticos.”.

Quatro comentários

  • há uma diferença enorme entre os fluxos de Miami/Moscovo e os do Brasil - no caso de Moscovo, o INE não explicita as Dormidas de Residentes da Russia, dada a sua pouca importância,
  • quanto a “decisores políticos”, ignoramos o que está em causa, mas até houve um apoio à TAP pela abertura da rota de Moscovo,
  • há uma realidade que escapa à declaração de que nos ocupamos: estes fluxos não têm importância significativa para o Algarve e reforçam a nossa tese de devermos analisar a Procura/Oferta com base nas áreas de influência dos aeroportos de chegada,
  • subliminarmente surge uma rivalidade/concorrência, que deve ser explicitada e abordada em função do Mercado: TAP versus Low Costs, caso de que nos ocuparemos em próximo post.


*Brasil

Das “enormes vantagens”, ocupamo-nos da que é, no jargão politico da actualidade, verdadeiramente enorme, robusta e colossal: a procura com origem no Brasil.
O Gráfico 4 ilustra as Dormidas de Residentes no Brasil no Alojamento Turístico Classificado.
Registamos:

  • o crescimento do número total de Dormidas entre 2010/2011,
  • o sucesso de dois factores: Lisboa como destino e a Diáspora no Norte e Centro de Portugal,
  • o pouco significado dos outros Destinos Regionais, “liderados” pelo Algarve, onde o número de Dormidas corresponde a um terço do Centro e um sétimo do Norte.

A menos que nos enganemos muito, este padrão de destinos regionais não é susceptível de grande alteração, por via da Promoção Turística.

Gráfico 4 – Dormidas de Residentes no Brasil no Alojamento Turístico Classificado


Fonte: Elaboração própria com base em INE – Estatísticas de Turismo

É com esta nova e importante realidade do Mercado que fechamos a nossa análise das declarações do Presidente da APAVT.

A Bem da Nação
Albufeira 4 de Dezembro de 2012
Sérgio Palma Brito

Referências

(1) Do post de 2 de Fevereiro de 2012, respigamos parte da Declaração de Interesses:
- “A nossa reflexão sobre a Economia de Turismo e a relação entre Politica de Turismo e Iniciativa Privada está acima de escaramuças “em curso e futuras”, com a Secretaria de Estado, e da agenda política de quem quer que seja (…incluindo a nossa!).”.
(2) No contexto do Aeroporto de Faro, a designação Low Cost designa todas as que não são Full Service ou de voos Charter. Na realidade, no contexto do discurso corrente, uma única companhia conserva as características das low cost originais (a Ryanair) e atrai muito da imagem negativa de quem é “contra as low cost”. A EasyJet evoluiu para um modelo mais sofisticado e está a ser mais aceite. Depois há um misto de situações, em geral ignoradas pelo discurso corrente.
(3) A AHISA integra a Direcção da ATA – Associação do Turismo Algarve, mas não a consideramos por ter deixado de ser filiada na CTP – Confederação do Turismo Português e ser a CTP que está em causa, quando consideramos a iniciativa privada.
(4) A actual da Direcção da APAVT deixou de estar representada na Direcção da ATA, mas esse facto não invalida a afirmação.
(5) “ATA a reconstruir” designa a futura associação de empresas privadas que contratualizará a Promoção Turística Regional, no quadro da nova legislação em preparação.
(6) Mais não dizemos, por mais não sabermos e não sabemos por os estudos de avaliação serem confidenciais.
(7) Esta brilhante síntese da realidade de algum investimento hoteleiro tem autor, cujo anonimato respeitamos.
(8) Declaração de interesses: somo o autor da versão de base da versão Draft deste Projecto e do mencionado a seguir.
(9) O leitor mais curioso deve consultar o sitio e as publicações da AHETA. Os números que apresentamos pretendem apenas dar uma ideia do que está em causa.
(10) A titulo de mero exemplo, o clima de Tenerife dá mais garantias de Sol e amenidade do que o do Algarve, ao ponto de poder evitar o investimento e funcionamento do aquecimento dos empreendimentos.