Estatísticas de Turismo – Exemplo de Avaliação Crítica

O presente post pretende apenas mostrar como aprofundar a análise de dados estatísticos pode levantar mais perguntas do que dar respostas.


Este post é o Quinto (Primeiro, Segundo , Terceiro, Quarto, Quinto, Sexto) de uma série sobre temas abordados no Relatório:

-Quantificar a Contribuição do Turismo Para a Economia

As remissões entre chavetas referem este Relatório, excepto se outro documento for mencionado. Um Glossário facilita a leitura do post.

1.Retomar o Contexto
Retomamos o contexto do Post anterior sobre a importância de Familiares e Amigos no Conceito Abrangente de Turismo [ver ponto 1.2.3 do Relatório]. O Gráfico 1 contextualiza a utilização dos diferentes Tipos da Definição Abrangente de Alojamento Turístico [ver Ponto 3 e Anexo III do Relatório] pelos Residentes em Portugal nas suas Viagens com Destino em Portugal.

Gráfico 1 – Dormidas de Residentes em Portugal por Tipo de Alojamento Turístico (2012)


Fonte: Elaboração própria, com base em INE – Estatísticas de Turismo, 2012

No Inquérito, o INE considera os seguintes Tipos de Alojamento Turístico:

1.Alojamento Turístico Colectivo
     -Estabelecimentos Hoteleiros
     -Outros Estabelecimentos de Alojamento Colectivo e Alojamento
      Especializado,

2.Alojamento Turístico Individual
     -Quartos arrendados em casas particulares
     -Apartamentos ou casas arrendadas
     -Segunda residência
     -Alojamento fornecido gratuitamente [por Familiares e Amigos]
     -Outro Alojamento Privado.

No próximo Post procuramos esclarecer algumas das questões levantadas por dois Tipos de Alojamento Turísticos:
-Apartamento ou Casas Arrendadas,
-Segunda Residência.

2.Evolução 2009/2012 do Alojamento Utilizado Por Residentes em Portugal

*Evolução 2009/2012 das Dormidas de Residentes em Portugal por Tipo de Alojamento Turístico
O Gráfico 2 ilustra a evolução entre 2009/2012 das Dormidas por Tipo da Definição Abrangente de Alojamento Turístico. A informação parece plausível:
-descida sustentada da utilização de Estabelecimentos Hoteleiros, uma descida facilmente explicável pela Crise,
-estabilidade na utilização de Outros Estabelecimentos de Alojamento Colectivo,
-na utilização da Residência Secundária, uma queda entre 2009/2010 e estabilidade depois, um padrão que encontramos em Portugal e, por exemplo, no Reino Unido,
-um crescimento do Alojamento Gratuito em Casa de Familiares e Amigos, de novo algo explicável pela Crise,
-mais estranha e sem explicação fácil é a queda abrupta entre 2011/2012 na utilização de Apartamentos e Casas Arrendados – este tema fica em suspenso.

Com base no Gráfico 3, veremos que há problemas mais importantes.

Gráfico 2 – Dormidas de Residentes em Portugal por Tipo de Alojamento Turístico, Evolução 2009/2012


 Fonte: Elaboração própria, com base em INE – Estatísticas de Turismo, 2012

*Dormidas de Residentes em Portugal por Tipo de Alojamento Turístico Classificado e Não Classificado, Evolução 2009/2012
-Nota sobre a metodologia
Começamos pelo método seguido. O Inquérito à Permanência de Hóspedes na Hotelaria e Outros Alojamentos existe desde 1965, a sua metodologia foi verificada por várias vezes e é preenchido pelos Empreendimento Turísticos do Alojamento Classificado – o número de Dormidas é, à priori, merecedor de confiança.

O Inquérito às Deslocações dos Residentes existe desde 2009, é realizado junto de Turistas, que respondem a perguntas sobre a duração da Viagem e o Tipo de Alojamento utilizado. Três observações:
-o Tipo de Estabelecimento Hoteleiro é familiar aos portugueses,
-estamos a lidar com a Definição Abrangente de Alojamento Turístico, que abrange o Alojamento Turístico Classificado,
-com excepção dos Aldeamentos Turísticos, (422 mil Dormidas em 2012), todos os Empreendimentos Turísticos do Alojamento Turístico Classificado, podem ser integrados em Estabelecimento Hoteleiro da Definição Abrangente do Alojamento Turístico.

-Realidade dos números
O Gráfico 3 compara a utilização dos dois Tipos de Alojamento Colectivo e da sua Soma com as Dormidas de Residentes no Alojamento Turístico Classificado.

Constatamos que
-o número de Dormidas no Alojamento Classificado é superior ao das Dormidas em cada um dos Tipos de Alojamento Turístico Colectivo e é também superior ao da soma dos dois,
-por Definição dos Conceitos, o número de Dormidas no Alojamento Turístico Classificado tem de, pelo menos, ser inferior ao da soma das Dormidas nos dois Tipos do Alojamento Turístico Colectivo.

Não estamos na situação em que a observação da realidade nega o modelo. Estamos perante uma contradição entre dois resultados, obtidos de maneira independente.

Gráfico 3 – Dormidas de Residentes em Portugal por Tipo de Alojamento Turístico (2012)


Fonte: Elaboração própria, com base em INE – Estatísticas de Turismo, 2012

3.Próximos Passos
Este Post ajuda a compreender a razão da análise crítica ser a primeira reacção a ter perante a informação estatística que nos chega. É o que fizemos no Ponto 2.

Uma vez detectada uma incongruência, o Primeiro Passo é verificar se não há erro nosso. Verificámos e não encontrámos erro nosso.

O Segundo Passo consiste em recorrer a um Revisor. Neste caso, pedimos aos leitores que revejam o assunto, pois mais facilmente detectam o erro do que nós próprios.

Se esta revisão confirmar o erro, passamos ao Terceiro Passo. Estamos prante um exemplo das propostas que fazemos sobre Instituições e Colaboração Entre Instituições [ver ponto 1.4 do Relatório]:
-Turismo de Portugal, INE e Banco de Portugal promovem e estão abertos ao feed back dos utilizadores, para identificar erros/omissões e melhorar a informação disponibilizada.

Com efeito, podemos estar perante erro de um dos Inquéritos do INE, ou dos dois.

A Bem da Nação

Albufeira 11 de Agosto de 2013


Sérgio Palma Brito

Como vai o Turismo e Saber Vender Portugal – Expresso de 2013.08.10


O Expresso de 10 de Agosto inclui um extenso trabalho sobre Turismo. Este Blogue não visa comentar a actualidade e ainda menos acompanhar a Comunicação Social. Dito isto, o caso em apreço justifica excepção, pelo jornal, pelos intervenientes e pela jornalista.

Na Primeira Página do caderno Economia, encontramos: “Promoção Turística de Portugal tem de mudar”. Não é falso, mas não é completamente verdade, mas não é isto que está em causa.

 

1.Página 15 – Como vai o Turismo em Portugal

Sob este título, temos uma coluna com excelente apresentação gráfica de vários indicadores. Nesta coluna encontramos o erro de base que temos vindo a analisar:

-misturar e não destrinçar os números da Industria da Hotelaria e os da Definição Abrangente de Turismo, que inclui Emigrantes Portugueses, Viagens de Visitas a Familiares e Amigos e as Residências Secundárias.

Com efeito, o texto

-utiliza sempre Nacionalidade e não Residência – como vimos no caso da França, a diferença é entre o robusto e o colossal,

-começa com a parte do Turismo nas Exportações, PIB e Emprego, isto é com valores estimados com base na Definição Abrangente de Turismo,

-continua com Portugal/Números, onde inclui Empreendimentos, Hóspedes, Dormidas e Origem das Dormidas, mais Camas, tudo já na esfera da Industria da Hotelaria e não na da Definição Abrangente,

-segue com erro maior: em vez de Proveitos da Industria da Hotelaria, porque é na sua esfera que estamos, menciona Receitas Turísticas e, em vez dos € 1.9 mil milhões de Proveitos Totais da Industria da Hotelaria, dá os € 8.6 mil milhões da Receita de Viagens e Turismo [na sua Definição Abrangente] da Balança de Pagamentos.

Já no fim, menciona 81 Campos de Golfe. Como veremos em próximo Post, salvo as muito poucas excepções que confirmam a regra, o investimento em campos de Golfe tem uma dinâmica integrada na Promoção de Imobiliária Turística, de “Residências Turísticas”.

O leitor mais curioso e desconhecedor deste Blogue deve ir ao post:

-Quantificar a Contribuição do Turismo Para a Economia


 

2.”O caminho passa por saber vender Portugal”

Este é o título das páginas 16 e 17. É coerente com a chamada da Primeira Página, mas justifica uma explicação.

Citamos o texto da introdução e felicitamos a jornalista por ter conseguido extrair os pontos mais relevantes de intervenções díspares:

“A promoção é o desafio mais crítico identificado pelas forças vivas do sector para Portugal se afirmar e mostrar o que vale no mapa do Turismo global, resolvendo os problemas actuais da sazonalidade, preços baixos ou stock de residências turísticas. Defendem um papel mais activo dos privados na promoção e uma máquina do Estado mais leve, que não atrapalhe o seu trabalho. “Portugal tem investido muito pouco e mal em promoção, sustenta André Jordan frisando que “não temos hotéis a mais, temos é turistas a menos.”.

Este texto faz lembrar Silverado, um velho Western que recupera todos os clichés de dezenas de anos de filmes do género.

Ainda aqui, este Blogue vai convidar os seus leitores a “partilhar uma maneira diferente de analisar o Viajar e o Turismo”.

Vamos iniciar uma série de posts que fazem uma abordagem integrada de temas como

-Imagem de Portugal Como País,

-Imagem de Marca e Country Branding – Os Equívocos da Campanha West Coast,

-Imagem de Portugal Como Destino Turístico e Imagem de Destinos Regionais,

-Responsabilidade Publica na Valorização das Marcas e Plataforma de Cooperação Para o Fazer,

-Marketing & Vendas da Oferta de Turismo – Responsabilidade da Iniciativa Privada e Facilitação Pública,

-Operacionalização das Propostas, com Responsabilização e Prestação de Contas.

Salvo o devido respeito, o problema não é “Vender” nem a falta de “Promoção Turística”. Os modelos mais testados de Marketing e Valorização da Marca ajudam a estruturar uma intervenção diferente. Se não o fizermos, continuamos a desperdiçar recursos, a não vender como precisamos e a queixar-nos que falta “Promoção” ou “Estratégia”. É este tema que nos propomos abordar.

 

A Bem da Nação

Albufeira 10 de Agosto de 2013

Sérgio Palma Brito

Mercado Emissor de França, Turistas e Receita de Viagens e Turismo

O presente post pretende mostrar como

-as deslocações de Emigrantes Portugueses explicam a diferença entre o número de Turistas e o de Hóspedes do Alojamento Classificado, Residentes em França,

-grande parte da Receita de Viagens e Turismo imputada a Residentes em França resulta de actividades durante as estadias dos Emigrantes, quase sempre Hóspedes do Alojamento Não Classificado.

Por fim, analisamos um caso pontual da Receita de Viagens e Turismo, Hóspedes e Dormidas apenas no Alojamento Classificado.

Este post é o Terceiro (Primeiro, Segundo , Terceiro, Quarto, Quinto, Sexto) de uma série sobre temas abordados no Relatório:

-Quantificar a Contribuição do Turismo Para a Economia


As remissões entre chavetas referem este Relatório, excepto se outro documento for mencionado. Um Glossário facilita a leitura do post.


1.Mercado Emissor de França – Turistas e Hóspedes

*Turistas e Hóspedes (2004/2007)
O Gráfico 1 ilustra a evolução 2004/2007 do número de Turistas e Hóspedes Residentes em França, no Alojamento Classificado e Não Classificado. A análise é limitada aos únicos anos em que o INE realiza o Inquérito ao Movimento de Pessoas nas Fronteiras [ver ponto 1.4 do Relatório].

Continuamos a assumir três hipóteses:

-o número de Hóspedes no Alojamento Não Classificado é igual ao número de Turistas menos o número de Hóspedes no Alojamento Classificado,

-um Turista pode originar vários hóspedes; ao considerar “um Turista, um Hóspede”, estamos a reduzir o número de Hóspedes que alojam no Alojamento Turístico Não Classificado e a correcção desta simplificação reforçaria o número de Turistas que utilizam este Alojamento,

-a união do Alojamento Classificado e Não Classificado corresponde à Definição Abrangente de Alojamento Turístico [ver Ponto 3 do Relatório].

Gráfico 1 – Turistas e Hóspedes Residentes em França no Alojamento Classificado e Não Classificado
(milhares)




Fonte: Elaboração própria, com base em INE – Estatísticas de Turismo

O Gráfico 1 mostra, para o caso de Residentes em França, a consistência de um número de Hóspedes no Alojamento Não Classificado muito superior ao do Alojamento Classificado. O número limitado de anos, a inversão de tendência no último ano e a dificuldade das contagens nas Fronteiras Terrestres impedemem análise mais profunda destes números.

*País de Residência e Consequências
O Turista é um Visitante que se desloca do seu Ambiente Habitual [ver Glosário] para o destino da Deslocação [trip, em inglês]. Estatísticas e Conta Satélite do Turismo assentam neste princípio geral. Dele resulta que os emigrantes portugueses de visita a Portugal são Turistas. Este facto dá origem de três tipos de reacção:

-a primeira é a de alguma incredulidade e resulta de visão algo romântica de Turismo e da imagem, entre o negativo e o desprezo, que muitos portugueses ainda têm dos Emigrantes de há dezenas de anos,

-a da Politica de Turismo, que deveria integrar este Segmento da Procura no seu âmbito de acção e reforçar a criação de valor gerado pelas deslocações dos Emigrantes, ligadas ao Segmento mais vasto da Diáspora,

-a terceira é a dos espíritos pragmáticos, que já operam neste mercado e acompanham a sua transformação desde há muitos anos.

Se o País dispusesse de um Inquérito aos Movimentos de Pessoas nas Fronteiras, saberíamos mais sobre o que representam estes 836.000 Turistas Residentes em França. Sem o Inquérito, estamos reduzidos a ideias, especulações, preconceitos, à mistura com estudos parcelares.

2.Mercado Emissor de França – Receita de Viagens e Turismo na Balança de Pagamentos

*Receita de Viagens e Turismo Por Dormida no Alojamento Classificado (2002/2012)
Começamos por dividir a “Receita de Viagens e Turismo imputada a Residentes em França” pelo “Número de Dormidas no Alojamento Classificado por Residentes em França”.

A partir daqui, é simples: quanto mais alta for a Receita Média obtida, mais importante é a parte da Receita de Viagens e Turismo imputável aos Hóspedes do Alojamento Não Classificado.   

O Gráfico 2 ilustra a evolução 2004/2012 desta Receita Média. Há duas realidades evidentes:

-a importância da parte da Receita imputável aos Hóspedes do Alojamento Não Classificado,

-a tendência de descida, que não podemos explicar por falta de informação.

Gráfico 2 – Receita de Viagens e Turismo Por Dormida no Alojamento Classificado
(euros)




Fonte: Elaboração própria, com base em INE – Estatísticas de Turismo

* Receita de Viagens e Turismo Por Dormida no Alojamento Classificado – Comparação de Mercados Emissores (2012)

O Gráfico 3 ilustra a comparação desta Receita Média em vários Mercados Emissores, no ano de 2012.

Gráfico 3 – Receita de Viagens e Turismo Por Dormida no Alojamento Classificado (2012)
(euros)



Fonte: Elaboração própria, com base em INE – Estatísticas de Turismo

Apenas considerámos Mercados Emissores com Receita de Viagens e Turismo superior a mil milhões de euros. Fora do caso evidente do Mercado Emissor de França, é possível identificar realidades distintas:

-no caso de Espanha, há compras de Excursionistas nas vilas fronteiriças, mas não explicam tudo e não sabemos como explicar o que falta,

-nos outros países, há um mix variável de Emigrantes e de Turistas em Residência Secundária e Alojamento Gratuito por Familiares e Amigos.

3.Receita de Viagens e Turismo, Hóspedes e Dormidas no Alojamento Classificado

*Receita, Hóspedes e Dormidas (2002/2012)
O Gráfico 4 ilustra a evolução entre 2002/2012 de

-Receita de Viagens e Turismo imputada a Residentes em França, em milhões de euros,

-Hóspedes e Dormidas no Alojamento Classificado, em milhares.

Gráfico 4 – Receita de Viagens e Turismo, Hóspedes e Dormidas (2002/2012)



Fonte: Elaboração própria, com base em INE – Estatísticas de Turismo

O INE não dá o detalhe por Mercado Emissor, dos Proveitos Totais do Alojamento Classificado. Somos obrigados a comparar números duas realidades diferentes: Receitas de todos os Turistas e Hóspedes/Dormidas apenas no Alojamento Classificado.

Registamos dois factos:

-a Subida das Dormidas é mais rápida do que a dos Hóspedes,

-a partir de 2008, os três indicadores sobem a ritmo mais intenso, que exige uma primeira análise [ver a seguir].

Um novo Inquérito ao Movimento de Pessoas nas Fronteiras e formulando as perguntas adequadas, é instrumento indicado para nos dar a macro informação indispensável à análise da dimensão económica, cultural e social da Procura de Viagens a Portugal pelo Segmento dos Emigrantes. Este Segmento é mais evidente no caso do Mercado Emissor de França, mas não pode ser ignorado em muitos outros mercados.

*Estadia Média no Alojamento Classificado
O Gráfico 5 ilustra a evolução da Estadia Média no Alojamento Classificado, entre 2002/2012. Comentário:

-a Estadia Média varia entre 2.5 e 3.4 noites, o que seria aceitável se houvesse um claro domínio da Estadias Curtas de Tour Urbano e Cultural e não o peso da Viagem de Estadia em Madeira e Algarve – este facto exige análise mais profunda.

Gráfico 5 – Estadia Média no Alojamento Classificado
(noites)



Fonte: Elaboração própria, com base em INE – Estatísticas de Turismo

*Evolução Recente da Procura (2009/2012)
O Gráfico 6 ilustra a evolução entre 2009/2012 de

-Receita de Viagens e Turismo imputada a Residentes em França, em milhões de euros,

-Hóspedes e Dormidas no Alojamento Classificado, em milhares.

Gráfico 6 – Receita de Viagens e Turismo, Hóspedes e Dormidas – Evolução Recente da Procura (2008/2012)



Fonte: Elaboração própria, com base em INE – Estatísticas de Turismo

Durante este período, Receita (26.6%), Dormidas (39.5%) e Hóspedes (31.2%) crescem a um ritmo diferente do verificado antes. O ano de 2013 é crucial para confirmar esta tendência.

*Repartição da Variação de Dormidas Por NUTs II
O Gráfico 7 ilustra a repartição da variação entre 2009 e 2012 do número de Dormidas, por NUT II. O resultado deixa perceber: i) crescimento claro de Lisboa e Madeira e evidente no Norte; ii) crescimento marginal no Centro e estagnação no Algarve. Neste crescimento, há Emigrantes portugueses, elementos da Diáspora (de segunda e terceira geração e naturalizados), mais os Franceses e outros Residentes em França.

Gráfico 7 – Variação de Dormidas por NUTs II (2009/2012)
(milhares de noites)



Fonte: Elaboração própria, com base em INE – Estatísticas de Turismo

Nota Final
O Mercado Emissor de França é um caso de estudo (e de negócio), na análise da Emigração (e Diáspora) no Turismo em Portugal. Estão em causa aspectos como: i)os Emigrantes deixarem de ser Clientes Cativos de Portugal e passarem a ser Clientes Competitivos; ii)as novas gerações; iii)para além da Segunda Residência e do Alojamento Gratuito em Casa de Familiares e Amigos, passarem a utilizar o Alojamento Classificado.

A Bem da Nação

Albufeira 4 de Agosto de 2013

Sérgio Palma Brito

Receitas de Turismo na Balança de Pagamentos


O presente post tem três objectivos:

-mostrar que parte importante da Receita da rúbrica de Viagens e Turismo na Balança de Pagamentos resulta de Consumo Turístico dos cerca de 5 milhões de Turistas que optam por utilizar o Alojamento Turístico Não Classificado,

-contribuir para que Politica de Turismo passe a integrar todos os Tipos de Alojamento do Conceito Abrangente de Alojamento Turístico [ver Glossário e detalhe no Ponto 3 e Anexo 3 do Relatório], de modo a reforçar s Receita de Turismo na Balança de Pagamentos,

-mostrar que a Receita do Turismo na Balança de Pagamentos vai para além da Receita da rúbrica de Viagens e Turismo (1).
Este post é o Segundo (Primeiro, Segundo , Terceiro, Quarto, Quinto, Sexto) de uma série sobre temas abordados no Relatório:

-Quantificar a Contribuição do Turismo Para a Economia
http://sergiopalmabrito.blogspot.pt/2013/07/quantificar-contribuicao-do-turismo.html

O Próximo post é sobre o Mercado Emissor de França e apresenta exemplos que ilustram os temas dos dois posts anteriores.

As remissões entre chavetas referem este Relatório, excepto se outro documento for mencionado. Um Glossário facilita a leitura do post.

1.Balança de Pagamentos e Quantificar a Contribuição do Turismo Para a Economia

*Estimativa de Transferências de Recursos do Exterior
O Quantificar a Contribuição do Turismo Para a Economia pela Conta Satélite deve ser completado com informação da Balança de Pagamentos.

A Balança de Pagamentos é elaborada, desde há dezenas de anos, pelo Banco de Portugal, segundo regras definidas pelo FMI. Os seus indicadores inspiram uma confiança acima da média, o que não exclui a avaliação crítica dos valores que apresentam. 
A capacidade do Turismo gerar Transferência de Recursos do Exterior é medida pela Balança de Pagamentos e é mais vasta do que a da tradicional rubrica de Viagens e Turismo [ver ponto 4].

*Prioridade Politica da Transferência de Recursos do Exterior
A importância dos indicadores da Balança de Pagamentos é directamente proporcional à Prioridade Politica dada à Transferência de Recursos do Exterior, em função do deficit externo do País. É o caso em 1964, quando o Turismo é integrado nos Trabalhos Preparatórios do Plano Intercalar de Fomento para 1965-1967:

-“houve um critério que esteve sempre presente: o de que se deve dar prioridade às medidas destinadas a fomentar o turismo de estrangeiros, mesmo quando isso implique um certo sacrifício nas actuações orientadas no sentido do turismo interno.” (2).
Apesar da gravidade do desequilíbrio nos pagamentos do País com o Exterior, ainda não encontrámos determinação idêntica à de 1964.

*Do PENT a Orientações Estratégicas Para o Turismo em Portugal
Em dia que esperamos não demore muito,

-o Plano Estratégico Nacional de Turismo (PENT) dará lugar a um conjunto de Orientações Estratégicas, concertadas entre Intervenção Pública e Iniciativa Privada, num processo aberto a Universidades e Opinião Pública,
-a Prioridade das prioridades às Receitas do Turismo na Balança de Pagamentos [ver ponto 7.3 do Relatório e ponto 4] será partilhada pela Politica de Turismo e Iniciativa Privada.

Até lá, contentamo-nos com um indicador parcelar (a rúbrica de Viagens e Turismo) e elaborado em condições questionáveis. Com efeito,

-no seguimento do Protocolo de 2004 entre DGT e INE, passam a ser feitos dois inquéritos de importância relevante para a estimativa da Receita de Viagens e Serviço: Inquérito ao Movimento de Pessoas nas Fronteiras e Inquérito aos Gastos Turísticos Internacionais,
-estes Inquéritos não se realizam desde há anos, com prejuízo da qualidade da informação utilizada na elaboração da Conta Satélite do Turismo [ver pontos 1.4 e 6.7 e Anexo ao presente Relatório 1] e da rúbrica Viagens e Turismo da Balança de Pagamentos.

*Receitas do Turismo na Balança de Pagamentos
No presente post, iniciamos a análise de quatro temas:

-o conceito de Turismo da Balança de Pagamentos é o definido pelas Instituições Internacionais e inclui receitas geradas pelo Consumo Turístico dos cerca de 5 (cinco) milhões de Turistas que escolhem utilizar o Alojamento Não Classificado [ver Post],

-repartição da receita da rúbrica de Viagens e Turismo entre Alojamento Classificado e Não Classificado,
-a Receita do Turismo na Balança de Pagamentos vai para além da Receita da rubrica de Viagens e Turismo,

-dada a sua fiabilidade e padronização internacional, indicadores da Balança de Pagamentos podem ser utilizados em Benchmarking e Rankings do Turismo Internacional.

2.A Rúbrica Viagens e Turismo da Balança de Pagamentos
*Viagens e Turismo – Débito e Crédito
O Gráfico 1 ilustra a evolução 1996/2012 das Receitas e Despesas da rubrica de Viagens e Turismo na Balança de Pagamentos. Sem cercear a liberdade de circulação dos Residentes em Portugal que dela dispõem (a grande maioria não viaja para o estrangeiro), há duas realidades a considerar:

-parte da Contribuição do Turismo Para a Economia é «Importação de Turismo», em Viagens de Negócio ou, sobretudo, de Lazer,
-parte da Oferta de Turismo desempenha a função de Substituição de Importações.

Gráfico 1 – Viagens e Turismo na Balança Corrente (1996/2012)



Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal (BPstat)
A Receita atinge quase nove mil milhões de euros, com tendência a subir. É um Indicador da maior importância e a exigir mais atenção.

A Despesa é de cerca de três mil milhões e dá uma ideia da importância da concorrência, no mercado interno, à Oferta de Turismo do País. A Despesa evolui com a Economia: depois de crescimento lento (1996/2008), desce em 2008/2009 e estabiliza entre 2010/2012, no valor de 2008.
Não consideramos a Balança Turística, pois é um conceito que apenas pode interessar a uma macro Tesouraria do Banco de Portugal. É um indicador que resulta de uma visão do Turismo virada para “o Sector do Turismo” e não para o Valor criado pela Procura de Viagens e Turismo.

*Receita de Viagens e Turismo em Percentagem do PIB
A Receita de Viagens e Turismo não é “um contributo para o PIB”, mas é possível analisar a evolução do seu montante em percentagem do PIB. O Gráfico 2 mostra que esta percentagem varia entre 4% e 5% do PIB, com tendência para crescer por a Receita aumentar e o PIB diminuir.

Gráfico 2 – Receita de Viagens e Turismo em Percentagem do PIB



 Fonte: Elaboração própria com base em BPstat e INE

3.Industria da Hotelaria na Rubrica de Viagens e Turismo
*Recordar a Macroeconomia e a Microeconomia
Há duas realidades diferentes:

-a Contribuição do Turismo Para a Economia situa-se ao nível da Macroeconomia, resulta das actividades dos Turistas alojados no Alojamento Classificado e Não Classificado, é quantificada pela Conta Satélite do Turismo e por indicadores da Balança de Pagamentos, ambas ligadas ao Sistema das Contas Nacionais,
-a Industria da Hotelaria tem dimensão qualitativa relevante, mas situa-se ao nível da Microeconomia e de uma Industria, assenta nas actividades dos Turistas alojados no Alojamento Classificado e é analisada por técnicas como a Análise Estratégica de Michael Porter – a Conta Satélite do Turismo não prevê Quantificar a sua Contribuição específica (3) Para a Economia.

Salvo melhor opinião, esta é a realidade económica a que nos devemos cingir. Como vimos [ponto 2.1 do Relatório], é inútil alimentar o equívoco de identificar a Industria da Hotelaria com Turismo, quando está em causa Quantificar a Contribuição do Turismo Para a Economia.

*Rubrica de Viagens e Turismo da Balança de Pagamentos
Está em causa conhecer a parte da Receita de Viagens e Turismo que resulta do Consumo Turístico, nos empreendimentos ou fora deles, de Hóspedes Não Residentes alojados pela Industria da Hotelaria.

Começamos pelo Gráfico 3, que mostra a evolução 2001/2012 de

-Receita de Viagens e Turismo, na Balança de Pagamentos,
-Proveitos Totais do Alojamento Turístico Classificado, de Não Residentes e de Residentes.

A percentagem destes Proveitos Totais na Receita de Viagens e Turismo varia entre 25.3% (2003) e 21.6% (2012). Esta percentagem deve ser corrigida por
-retirar aos Proveitos Totais a parte que resulta de Residentes em Portugal (Alojamento, Alimentação e Bebidas, ocupação de salas e utilização de serviços) – o actual Inquérito à Permanência de Hóspedes e Outros Dados na Hotelaria não dá esta informação,

-adicionar aos Proveitos Totais o Consumo Turístico de Hóspedes Não Residentes fora do Empreendimento em que estão alojados – como vimos no Ponto 1, foram descontinuados os dois inquéritos que poderiam dar esta informação.

Dito isto, é possível reconhecer que
-por si só, a Industria da Hotelaria não pode influenciar uma variação importante das Receitas de Viagem e Turismo da Balança de Pagamentos,

-para esse efeito, há que contar com o Consumo Turístico dos mais de cinco milhões de Turistas que optaram pelo Alojamento Não Classificado.
Gráfico 3 - Receitas de Viagens e Turismo e Proveitos Totais no Alojamento Turístico Classificado (2002/2012)
(euros)

 Fonte: Elaboração própria com base em INE – Estatísticas do Turismo e BPstat

*Contradição na Análise da Evolução Recente do Indicador
O Gráfico 4 ilustra a evolução 2008/2012 da Receita de Viagens e Turismo na Balança de Pagamentos e os Proveitos Totais do Alojamento Classificado.

Gráfico 4 – Receita de Viagens e Turismo e Proveitos Totais do Alojamento Classificado
(milhares de milhões de euros)



 Fonte: Elaboração própria com base em INE – Estatísticas de Turismo e Banco de Portugal - BPStat
Política de Turismo e empresas da Industria da Hotelaria divergem, quando a Politica justifica “o Turismo não estar em crise” com o crescimento da Receita de Viagens e Turismo e a Industria interroga “Como pode o Turismo estar bem, se as nossas empresas não estão?”.

No Gráfico 4, a divergência na evolução 2008/2009 reforça a divergência entre o crescimento da Receita e a estagnação dos Proveitos.
A querela entre Politica de Turismo e parceiros da Iniciativa Privada confirma a necessidade de qualificar o Quantificar a Contribuição do Turismo Para a Economia.

4.O Turismo em Outras Rúbricas da Balança de Pagamentos
*Outras Receitas de Turismo
O Conceito Abrangente de Turismo gera mais receitas da Balança de Pagamentos, para além das da rúbrica de Viagens e Turismo (4).

Estas receitas devem ser explicitadas e utilizadas pela Politica de Turismo e Iniciativa Privada.

*Transportes
A rubrica “Transportes” integra, entre outros, Transportes Marítimos, Aéreos, Ferroviários e Rodoviários.

Os Transportes Aéreos são particularmente relevantes, e justificam uma divulgação adequada para conhecermos actividade exportadora e importadora da TAP. Com efeito, “Os serviços de transporte internacional de passageiros entre uma determinada economia e o exterior deve ser registados na rubrica de “Transportes”, por modo de transporte, na respectiva sub-componente “Passagens” (5). A título de ilustração, citamos:

-“Em 2011, o Grupo TAP viu reforçado o posicionamento do seu contributo para o volume das exportações nacionais, com uma contribuição global de EUR 2.063,5 milhões, em vendas e prestações de serviços no mercado externo, mais 15,7% que em 2010.” (6).
O valor do “contributo para o volume das exportações nacionais” deve ser temperado pelo da Despesa com Importações, mas uma coisa é certa: não pode ser ignorado e deve ser melhor conhecido.

*Investimento de Não Residentes em Segunda Residência
Citamos o Manual de Procedimentos do Banco de Portugal:

-“722.Investimento imobiliário do exterior em Portugal Operações de aquisição/alienação, por não residentes, de bens imobiliários situados em território nacional. Não se inclui nesta rubrica a aquisição/alienação de bens imobiliários por empresas não residentes, cujo registo deve ser efectuado nas rubricas apropriadas respeitantes a operações de investimento directo, bem como a aquisição/venda de terrenos situados em território nacional por embaixadas e consulados estrangeiros,”.

A questão que se põe é a da viabilidade do Banco de Portugal divulgar informação consistente que permita conhecer a compra de Segundas Residências por Não Residentes e o valor das Transferências para a sua Administração.

*Imigração de Reformados
A Imigração de Reformados, antes da frágil entrada na agenda política, é um processo económico, social e cultural já no terreno e que se pode desenvolver, assim haja uma política adequada.

Está em causa Residência Permanente, o que escapa à definição de Turismo, mesmo no Conceito Abrangente. Dito isto, o processo não escapa nem à Economia nem à Politica e o Turismo é a tutela natural desta actividade. Estão em causa Transferências do Exterior, para financiar a residência permanente de Reformados ex Não Residentes.

5.Porventura, o Mais Interessante dos Rankings  

*O Mais Fácil e Fiável dos Rankings?
A conjugação do Protagonismo Politico com o Posicionamento Light do Turismo [ver ponto 1.1.4 do Relatório] alimenta a ideia de Portugal, “Grande Potência de Turismo” e do “Ranking de Portugal” no número de Entradas de Turistas Internacionais. O indicador do Número de Turistas Internacionais tem pouco significado e a sua quantificação levanta dúvidas em muitos países, entre os quais Portugal.

Em alternativa, a Receita de Viagens e Turismo na Balança de Pagamentos tem importante significado económico e, como vimos, elevada fiabilidade. A seguir, damos pequena ideia do que investigação profissional pode fazer, com base na Receita de Viagens e Países e Percentagem desta Receita no PIB, para utilmente comparar o Turismo de vários países.

O Gráfico 5 ilustra as Receitas de Viagens e Turismo em vários países da Europa, no ano de 2011. Em 2011, as Receitas de Portugal ainda são inferiores às da Grécia. Chipre não é comparável, a Croácia aproxima-se de Portugal e a Turquia está a meio caminho entre os “médios” os “grandes”.
Gráfico 5 - Receitas de Viagens e Turismo em Alguns Países

(milhares de milhões de euros)

Fonte: Elaboração própria com base em Eurostat (7) Nota – Turquia a valor de 2010

O Gráfico 6 completa a informação do Gráfico 7.6 e ilustra a evolução da Receita de Viagens e Turismo por alguns países nos anos 2001/2006/2011.
Gráfico 6 – Evolução das Receita de Viagens e Turismo em Alguns Países

(milhares de milhões de euros)

Fonte: Elaboração própria com base em Eurostat (9)
O crescimento da Receita na Turquia não é surpresa. O crescimento de Espanha é a assinalar, por se tratar de um mercado considerado “maduro”. O crescimento de Portugal é moderado e melhor do que a estabilidade da Grécia e da Croácia (sem o número de 2001).

A Bem da Nação
Albufeira 1 de Agosto de 2013

Sérgio Palma Brito


Notas
(1)Para o leitor menos familiarizado, citamos a estrutura da Balança de Pagamentos (BPstat)

*Balança Corrente
-Bens

-Serviços

-Rendimentos
-Transferência Correntes

*Balança de Capital
*Balança Financeira

*Erros e Omissões

Viagens e Turismo é uma das rubricas de Serviços da Balança Corrente. No ponto 4, analisamos o Turismo em outras rúbricas da Balança de Pagamentos.
(2)Presidência do Conselho, Relatório Preparatório do Plano de Investimentos Para 1965/1967, Relatório do Grupo de Trabalho nº 13, Turismo.

(3)Na elaboração da Conta Satélite do Turismo a Actividade/Indústria Hotéis e Similares [Gráficos 6.4 e 6.7 do Ponto 7 do Relatório] tem âmbito diferente do dos Empreendimentos Turísticos do Alojamento Classificado.
(4)A rubrica de Viagens e Turismo ainda inclui as verbas referentes a “296 - Trabalhadores sazonais e de fronteira”. O valor envolvido poder não ser significativo, mas exige correcção, antes de utilizar estes números no contexto da Contribuição do Turismo Para a Economia.

(5)João Cadete de Matos, Informação estatística de Viagens e Turismo na Balança de Pagamentos, Banco de Portugal, Estatísticas do Turismo - Sessão de Apresentação – Lisboa INE 11.04.07.
(6)Grupo TAP, Relatório e Contas referente a 2011, p. 30.