Privatização da ANA (4) – Leitura Crítica do “Quadro Jurídico Geral”


Introdução

*O “quadro jurídico geral da concessão de serviço público aeroportuário”

No âmbito da privatização da ANA, o Governo acaba de aprovar o “quadro jurídico geral da concessão de serviço público aeroportuário” (Link). Este decreto-lei 

-é uma sistematização de toda a legislação sobre a matéria, com uma excepção significativa, que analisamos a seguir,

-republica disposições sobre “taxas a cobrar” (1), quase ao nível de Decreto Regulamentar,

-salvo análise mais profunda clarifica os poderes do Estado, que são concedidos à ANA,

-arruma em duas penadas, três temas fundamentais: o do Contrato de Concessão entre o Estado e a ANA, o do Serviço Público Aeroportuário e o da Regulação Económica (2) da Gestão dos Aeroportos de Portugal, pela futura ANA privatizada.

*Um filho do que há de errado no Processo de Privatização da ANA

O presente decreto-lei tem de ser compreendido no quadro do que há de errado no processo de privatização da ANA

-desde o Programa do Governo, o calendário da privatização da ANA reduz-se a seguir o da TAP, numa óptica que apenas visa o encaixe,

-em ano e meio o Governo não faz o trabalho de casa: aprovar o Decreto-Lei das Bases do Contrato de Concessão a estabelecer com o Concessionário, aprovar a sua minuta em Resolução do Conselho de Ministros, implementar a Regulação Económica e da Qualidade de Serviço (definida em 2009) e criar a verdadeira «entidade reguladora independente», então prevista,

-mais concretamente, o Governo não se ocupa do que o seu Programa prevê em relação com a privatização da ANA: o “reenquadramento regulatório do sistema aeroportuário”,

-uma demora do Governo, que se arrasta e um súbito apressar do processo, nitidamente por pressão de UE/BCE/FMI,

-um inusitado acelerar do apressar do processo, quando a receita da Concessão pode contribuir para minorar o deficit das Contas Públicas.

Só no futuro saberemos o preço a pagar, porque é certo termos de o pagar, por este processo atribulado em si e pela ponta final da sua ligação ao minorar do deficit público de 2012.

*Uma Leitura Crítica

Apesar de não dispormos de muita da informação que devia ser pública, arriscamos fazer uma leitura crítica do decreto-lei sobre o “quadro jurídico legal” de que vamos depender.

Assumimos este trabalho, A Bem da Nação, na perfeita consciência de estarmos a viver mais um exemplo de uma prática nacional que temos de alterar:

-contrariamente a excelentes exemplos de outros países (brevemente divulgaremos os do Reino Unido, Irlanda e França), em Portugal, Parlamento, Governo e INAC não fomentam o debate sobre decretos-leis importantes para o País, e sobre a preparação de diplomas comunitários, mais a sua transposição para o ordenamento jurídico nacional.

Do outro lado, Universidades, Associações ou Confederações, como as do Turismo e Industria, mantêm um silêncio que se vai traduzir em prejuízos futuros. E quando se manifestam, como é o caso das forças vivas do Porto, há, salvo o devido respeito, excesso de regionalismo e falta de preparação técnica, sem a qual não há intervenção positiva e frutuosa.

*Uma Pergunta Repetitiva

De cada vez que analisamos e criticamos uma disposição do decreto-lei, o leitor DEVE ASSUMIR QUE FORMULAMOS SEMPRE A MESMA PERGUNTA:

-QUAL O GANHO QUE A DISPOSIÇÃO REPRESENTA PARA O INTERESSE PUBLICO?

Suspeitamos, mas não podemos provar, que a resposta conduz sempre a uma noção de Interesse Público que se identifica com o “aumentar o encaixe, por via de dar liberdade ao concessionário”. Cada leitor avaliará se esta liberdade corresponde à sua noção de Interesse Público.

 

a)Curta Introdução à Regulação Económica dos Aeroportos de Portugal

*Mercado Cativo, Mercado Competitivo e Regulação Económica da Gestão dos Aeroportos de Portugal

Mercado cativo é o forçado a utilizar os Aeroportos de Portugal: a quase totalidade dos residentes no país e alguns não residentes (entre outros, viagens de negócios, de emigrantes e de proprietários de residências do tempo livre), mais os exportadores.

Mercado competitivo é o de não residentes, que têm a possibilidade de escolher o destino da sua viagem: na esmagadora maioria, são os turistas estrangeiros, que rentabilizam a Oferta de Turismo do País.

A Regulação da Gestão dos Aeroportos de Portugal é um instrumento fundamental para garantir que

-o mercado cativo não é vitima de excessos da gestão de um monopólio natural, como é o caso de cada um dos Aeroportos de Portugal,

-a acessibilidade aérea a Portugal contribui para a competitividade do sucesso da Oferta de Turismo, comercializada no mercado competitivo.

Por fim, mas não menos importante, esta Regulação é o instrumento que evita a captura da legislação por interesses de subsectores ou de empresas, como aconteceu, ao longo de anos, com a TAP pública.

Esta é a Procura/Oferta que está na base das viagens dos passageiros das Companhias Aéreas e dos serviços das Companhias de Assistência em Escala. A Regulação Económica

-ocupa-se da relação comercial entre estas companhias e a ANA, como gestora aeroportuária,

-deve, em nossa opinião, ter em conta a Procura/Oferta, sem a qual ... não há aviões a voar nem serviços de assistência em terra.

Como veremos a seguir, o decreto-lei de 2009, sobre Regulação Económica e da Qualidade de Serviço, abre uma janela para este mundo, quando prevê que, no Procedimento regulatório, o INAC consulte outras organizações, para além das companhias aéreas e de assistência em escala.

*Regulação Económica e Privatização da ANA

Desde os primórdios até 2009, a fixação das Taxas a Cobrar, resulta de um mecanismo rudimentar e estatizado:

-a iniciativa de alterar as taxas é do “accionista Estado (Ministério dos Transportes)” ou do “gestor Estado (ANA)”, e o montante a cobrar é fixado pelo “accionista Estado (Ministério dos Transportes)”, depois de parecer do “supervisor Estado” (INAC).

A partir de 2009, o montante do essencial das Taxas a Cobrar passa a estar sujeito a Regulação Económica, que assenta em dois grandes princípios

-após consulta alargada aos Utilizadores (3) dos aeroportos e Partes Interessadas (por exemplo, a Confederação do Turismo Português, CIP e outras), o Regulador Independente fixa, para um período de cerca de cinco anos, o “nível da receita média máxima por passageiro,

-após consulta aos Utilizadores dos aeroportos, a ANA fixar, anualmente, os montantes das Taxas a Cobrar.

Três observações:

-esta Regulação Económica implica um Regulador Independente, que só pode ser o INAC se este passar por profunda transformação cultural e de capacidade de intervenção independente do poder politico e interesses económicos,

-o modelo de “nível da receita média por passageiro” (o “cap”, em inglês) não é único, e qualquer dos modelos implica sempre definir um nível de remuneração do capital investido pela ANA,

-o decreto-lei de 2009 (4) introduz a Regulação da Qualidade de Serviço, que analisamos a seguir.

A decisão política de 2009 integra o então processo de privatização da ANA, no respeito do que já é uma boa pratica internacional:

-a Regulação Económica é importante para uma ANA pública e indispensável para uma ANA privatizada.

Analisamos a seguir a não aplicação da legislação de 2009 e do projecto politico sobre o INAC.

 

b)Contrato de Concessão Entre o Estado e a ANA Privada

*Colmatar o Atraso Inaceitável

Em 1998, é criada a ANA - Aeroportos de Portugal, SA, à qual “é atribuída a concessão de serviço público aeroportuário de apoio à aviação civil”. Factos a reter, de governos anteriores:

-entre 1998 e 2010, em violação das boas práticas nacionais e internacionais, nenhum Governo acorda o Contrato de Concessão com a ANA,

-em 2010, no âmbito da Formalização da Privatização da ANA, o Governo aprova “as bases da concessão do serviço público aeroportuário de apoio à aviação civil”,

-em 12 de Maio de 2010, um grupo de Deputados do PSD pede a Apreciação Parlamentar ao Decreto-Lei,

-ainda em 2010, uma Resolução do Conselho de Ministros aprova a Minuta do Contrato de Concessão (5). 

Em 2010, há um Decreto-Lei, há tempo para a sua Apreciação Parlamentar e há uma Minuta do Contrato de Concessão, aprovada por Resolução de Conselho de Ministros. O inaceitável atraso no acordar o Contrato de Concessão só não é completamente colmatado porque acaba por não ser assinado.

*A Pressa Inaceitável

Factos a reter do actual Governo:

-em 2011 o Programa do Governo da Coligação PSD/CDS prevê a privatização da ANA, com clara prioridade ao encaixe financeiro,

-apesar de conhecer a inexistência do Contrato de Concessão, o Governo não faz aprovar o Decreto-Lei que normalize a situação,

-a privatização da ANA é quase ignorada até ter ser apressada pela pressão de UE/BCE/FMI e a pressa acelerada, quando a receita passa a “contar para o deficit das Contas Públicas” de 2012,

-só em 29 de Outubro e com evidentes lacuna na sua Formalização, sobretudo em comparação com a de 2010, o Governo “Aprova o processo de privatização da ANA - Aeroportos de Portugal, S. A.” (Link).

Neste contexto de pressa e de pressa acelerada e sem qualquer consulta pública ou debate, é publicado o actual decreto-lei de 2012, a cuja contextualização e leitura crítica procedemos.

*Uma Realidade Não Menos Inaceitável

As disposições sobre “concessão do serviço público aeroportuário”, do decreto-lei de 2012, não são o equivalente da aprovação das Bases do Contrato de Concessão entre o Estado e a ANA, como é o caso de 2010.

Por outro lado, o Governo não desmente as notícias segundo as quais os candidatos à privatização da ANA já discutem com o Governo os termos do Contrato de Concessão – uma situação que nos parece anómala.

Admitindo que a Negociação Particular definida em Decreto-Lei (Link) permite esta proximidade, não é menos certo que teria sido mais transparente o Governo

-aprovar, por Resolução do Conselho de Ministros, uma Minuta do Contrato de Concessão e conduzir a negociação nessa base.

 

c)Sobre o Serviço Público Aeroportuário

*Uma Inaceitável Limitação ao Serviço Publico Aeroportuário

As disposições sobre Serviço Público Aeroportuário (Artigo 6º) dão força de lei à Clausula 8 da minuta do Contrato de Concessão aprovada em 2010 (Link). Citamos o número 4 do Artigo 6º:

-“4 – A Concessionária pode recusar a utilização das infra-estruturas aeroportuárias nos seguintes casos:

a) Às pessoas ou às entidades que não preencham as condições legais e regulamentares fixadas para esse efeito;

b) Aos utilizadores e aos utentes adicionais em caso de incapacidade das Infra-Estruturas Aeroportuárias disponíveis para suportarem a prestação de serviços.”.

O poder de recusar, legitimado pela alínea b), é inaceitável a três títulos

-em termos gerais, por atribuir à Concessionária um poder excessivo e susceptível de abuso que só tardiamente poderia ser sanado pela Autoridade da Concorrência,

-em termos substanciais, por já haver situações de aparente ou possível congestionamento do Aeroporto da Portela, que justificam intervenção acima dos interesses das partes,

-com as demoras habituais, estar em preparação um Regulamento Comunitário, que contribui para um exercício equilibrado do poder excessivo que o Estado concede à Concessionária [ver a seguir].

Em nossa opinião, a alínea b) do número 4 do Artigo 6º deve ser eliminada.

*”atribuição de faixas horárias em aeroportos congestionados”

Em 20 de Julho de 2012, este assunto já foi objecto de um post (Link) e a ”atribuição de faixas horárias em aeroportos congestionados” é objecto de um Decreto-Lei de 2008 (Link). É significativo que no decreto-lei de 2012

- não figure o Decreto-Lei de 2008, na lista de diplomas legais revogados,

-esta importante modalidade de Regulação Económica seja ignorada.

Actualmente, a regulação da gestão de slots é objecto de uma proposta da Comissão da União Europeia (Link), no âmbito do Better Airport Package, de 1 de Dezembro de 2011 (Link). Entre outros, o que está em causa é [o sublinhado é nosso]:

-More transparency about which airlines hold/use which slots and which slots are available. Greater independence for the authorities that allocate slots.

Sejamos concretos:

-a utilização de recursos limitados do Aeroporto da Portela por novas companhias (admitindo que as existentes não criariam problemas) e a crescente procura do hub da TAP deve ser objecto de Regulação Económica Independente e não deve poder ser decidida pela Concessionária, nos termos da referida alínea b) do nº 4 do Artigo 6º do decreto-lei de 2012.

Ao nível dos princípios, mantemos as duas propostas do post de Julho de 2012 e acrescentamos uma terceira:

-“a coordenação dos slots no aeroporto da Portela passa a ser da competência de Entidade Coordenadora Independente e não da ANA, com a sua tecnoestrutura e dependência do Governo”,

-as disposições legais em vigor “ poderem vir a tornar-se numa “renda de privilégio”, incluída no Perímetro da Privatização da ANA e fonte de conflito futuro com Companhias Aéreas,

-o decreto-lei de 2012 deve ser alterado de modo a incluir disposições que consagrem esta modalidade de Regulação Económica e antecipem o espírito do Regulamento Comunitário em preparação.

 

d)Regulação Económica

*O Resto e o Essencial

O Decreto-Lei de 28 de Novembro, preocupa-se com o facto da regulação relativa à gestão do sector aeroportuário se encontrar “dispersa por vários diplomas, situação que, atentas elementares razões de política legislativa, designadamente de segurança jurídica, importa minorar com a aprovação do presente decreto-lei”. Neste quadro, revoga uma alcatreva de diplomas legais, com a significativa excepção do mencionado na alínea anterior.

Feito este esforço, reduz as disposições sobre Regulação Económica a duas das quinze páginas que o texto do Decreto-Lei ocupa no Diário da Republica. Acontece que

-não se trata de um esforço de síntese clarificadora da legislação em vigor, cuja difícil leitura reconhecemos,

-é inaceitável minimização de disposições legais do decreto-lei de 2009.

Não dispomos de meios para analisar em detalhe esta minimização, mas podemos dar alguns exemplos significativos.

*Âmbito Reduzido da Consulta

O decreto-lei de 2012 introduz uma dupla redução da “consulta aos utilizadores”.

A primeira redução tem a ver com a eliminação da intervenção do INAC, ao qual, nos termos do decreto-lei de 2009 compete o iniciar do processo – no decreto-lei de 2012, o INAC deixa de ter esta iniciativa.

A segunda é a de reduzir a consulta a um diálogo entre a ANA e os utilizadores, definidos como “os operadores aéreos e os agentes de assistência em escala”. Esta opção é uma má tradição da Aviação Civil em vários países, na medida em que

-ignora Partes Interessadas relevantes, como é o caso da Confederação do Turismo Português, para o tráfego de passageiros e a Confederação da Industria Portuguesa, para o da Carga.

Com efeito o decreto-lei de 2009 previa, no processo de “Revisão da receita média máxima por passageiro” (Artigo 23º), a consulta

-“junto de outras estruturas organizativas de carácter representativo ou entidades, de nível local ou regional, que possam ter interesse legítimo nas decisões a tomar.”.

Que ganha o interesse publico com o suprimir a consulta mais alargada? 

*Remuneração do Concessionário

Uma privatização que visa “maximizar o encaixe” deve

-considerar a correspondente remuneração do capital investido por quem maximiza o encaixe,

-estabelecer mecanismos de Regulação Económica, para tornar transparente esta remuneração.

O decreto-lei de 2012 elimina muitas das disposições legais do de 2009, que contribuíam para esta transparência, de entre as quais destacamos

-fixar o modelo de single till e toda a detalhada metodologia de fixação do nível de receita média máxima por passageiro (o “cap”),

- valorizar e definir detalhadamente o “Procedimento Regulatório”.

Sabemos que o sucesso de qualquer legislação técnica, como é o caso, depende muito da sua aplicação. Dito isto, entre as disposições do decreto-lei de 2009 e o quadro minimalista do de 2012, o interesse público está, à partida, melhor definido se houver disposições legais explicitas a cumprir.

*Níveis de Qualidade de Serviço

O decreto-lei de 2009 incluía uma secção inovadora sobre “Regulação da qualidade de serviço” e limitada a dois artigos. O Decreto-Lei de 2012 suprime o Artigo 22º (Qualidade de serviço), do qual citamos:

-“1 — O INAC, I. P., estabelece para cada aeroporto, para outro aeródromo ou para cada rede aeroportuária abertos ao tráfego comercial, um conjunto de indicadores e de níveis de qualidade de serviço a atingir em cada período de regulação. […]

3 — Os indicadores de qualidade previstos no presente artigo respeitam aos procedimentos de check -in, do controlo de segurança e de passaportes, de recolha de bagagens, tempos de ligação entre voos, entre outros, praticados em cada aeroporto ou aeródromo.”.

O decreto-lei de 2012 remete o assunto para o diálogo entre ANA e Utilizadores, eliminando a fixação pelo INAC de níveis de serviço para indicadores precisos, como os explicitados no nº 2 do artigo 22º.

Repetimos a pergunta: que beneficia o interesse publico com a eliminação deste Artigo a definir a Qualidade de serviço?

Importa não esquecer que a inexistência de regulação destes indicadores de qualidade de serviço contribui muito para a dramática degradação do serviço de Assistência em Escala, no Aeroporto da Portela, em 2006/2007.  

*A “autoridade reguladora independente”

O preâmbulo do decreto-lei de 2009 começa por situar o novo quadro jurídico da Regulação Económica, MAS, e é um grande MAS, explicita uma proposta politica adicional, a desenvolver, em paralelo no tempo:

-“ O prosseguimento destes objectivos requer não só uma alteração ao quadro legal vigente, como a criação de um novo regime autónomo, no âmbito da qual se definam e delimitem, com precisão, as funções de regulação económica, que são atribuídas ao Instituto Nacional da Aviação Civil, I. P., que exercerá as correspondentes funções de autoridade reguladora.”.

Retemos dois factos:

-entre Setembro de 2009 e Novembro de 2012, os Governos de José Sócrates e de Pedro Passos Coelho partilham o mesmo desígnio: não implementar a Regulação Económica e não criar o referido “novo regime autónomo” do INAC,

-em Novembro de 2012, o Governo de Pedro Passos Coelho limita-se a dispor que o INAC é a “Autoridade reguladora independente”, para efeito da Regulação Económica, consagrando o esquecer do projecto politico de 2009.

Conhecedores da frustrante experiência nacional em matéria de Regulação, acreditamos que o Decreto de 2012, porventura sem consciência disso, abre a via para a captura do frágil INAC por interesses em presença, no novo cenário da Aviação Civil em Portugal.

*Intervenção da Autoridade da Concorrência

Começamos por uma constatação (6):

-“from the interdependencies between regulation and competition in the field of “airport-policy” it follows that a high degree of co-operation between the authorities in charge of competition law enforcement is necessary. Combining regulatory and competition policy competencies concerning airports might be the best institutional design.”.

Quase tudo do que segue tem a ver com Regulação e Aeroportos. Devemos ter em conta dois aspectos de uma visão mais larga do que nos ocupa:

-“inter-airport competition has effect on inter-airline competition and vice versa. Effective competition in the market of air transport requires functioning competition in both markets […]. This high mutual dependence of the two markets makes an “air transportation authority” superior to a narrowly defined (industry-specific) “airport regulatory authority”

-“Although the air transportation market is a specific market in that sense that other forms of transportation are no (close) substitutes, assigning regulatory law and competition law enforcement to the general competition authority might be advantageous.” (p. 226).

O assunto exige ponderação, que é incompatível com a «pressa acelerada» do processo em curso da privatização da ANA. Levantamos questões a considerar:

-é ou não necessário definir o âmbito da intervenção da Autoridade da Concorrência na Regulação Económica da Aviação Civil, em termos gerais ou em casos particulares como os da Assistência em Escala, onde está em causa o acesso ao mercado por empresas prestadoras de serviços?

-com a sua longa tradição de estatização e de falta de afirmação, será o INAC a entidade reguladora da Regulação Económica da Aviação Civil, ou não será de considerar integrar esta entidade reguladora na da Concorrência ou na prevista para os Transportes?~

Sem nos alongarmos sobre um tema de importância crucial, citamos uma referência à experiência internacional em matéria de alargar o âmbito de intervenção da Entidade Reguladora Independente da Aviação Civil:

-“Generally, the narrower the industry coverage of a regulatory agency the higher the probability te regulator is captured by the regulated firms.” (p. 222).

 

*A Questão de Fundo

Este ou próximo Governo terão de consagrar força politica à resposta a uma questão de dimensão cultural, politica, administrativa e empresarial:

-como enxertar mecanismos de cariz liberal num Sistema de Relações pouco aberto e transparente e muito estatizado, como tem sido e é o da Aviação Civil em Portugal.

 

A Bem da Nação

Albufeira 29 de Novembro de 2012

Sérgio Palma Brito

 

Referências

 (1)A expressão “taxas aeroportuárias” é utilizada na linguagem corrente como as taxas que são cobradas a actividades económicas que têm lugar no perímetro de um aeroporto. Na legislação nacional e comunitária, Taxas Aeroportuárias tem, pelo menos em três casos, uma definição legal. A expressão “taxas a cobrar” é utilizada por vários diplomas legais, para designar o que são, de facto, taxas a cobrar e evitar utilizar a expressão “taxas aeroportuárias”, e induzir em erro com a sua definição legal.

(2)Regulação Económica está definida no Artigo 4º do Decreto-Lei nº 217/2009, de 4 de Setembro (designado por “decreto-lei de 2009”) e pelo Artigo 66º do Decreto-Lei nº 254/2012, de 28 de Novembro (designado por “decreto-lei de 2012”). Fora deste contexto legal Regulação Económica designa a Regulação Pública (e não pelo Mercado) de actividades económicas, que podem ser a Gestão dos Aeroportos de Portugal, o Transporte Aéreo de Passageiros ou a noção mais abrangente da Aviação Civil em Portugal.

(3)O decreto-lei de 2012 define Utilizadores  como “os operadores aéreos e os agentes de assistência em escala”.

(4)Ver, na Nota (2), a origem das designações  “decreto-lei de 2009” e “decreto-lei de 2012”, criadas para evitar repetir o enunciado formal.

(5)O Decreto-Lei n.º 33/2010, de 14 de Abril “Aprova as bases da concessão do serviço público aeroportuário de apoio à aviação civil, compreendendo o estabelecimento, o desenvolvimento, a gestão e a manutenção das infra-estruturas aeroportuárias dos aeroportos de Lisboa, do Porto, de Faro, de Ponta Delgada, de Santa Maria, da Horta, das Flores e do Terminal Civil de Beja, bem como de novos aeroportos, incluindo o novo aeroporto de Lisboa”;

-A Resolução do Conselho de Ministros n.º 34/2010, de 6 de Maio “Aprova a minuta do contrato de concessão do serviço público aeroportuário de apoio à aviação civil a celebrar entre o Estado Português e a ANA - Aeroportos de Portugal, S. A.”.

Em 12 de Maio de 2010, um grupo de Deputados do PSD pede a Apreciação Parlamentar deste Decreto-Lei. Em 16 de Julho de 2010 é aprovada a Lei nº 29/2010, de 2 de Setembro, da Assembleia da República sobre “Primeira alteração, por apreciação parlamentar, ao Decreto -Lei n.º 33/2010, de 14 de Abril”.

Ver o Documento de Trabalho do post “Privatização da ANA, SA (2): Quinze Anos de Privatização e Dois Para Vender” (Link).

(6)Bernhard Duijm, On the Institutional Setting of Ex-Post REgulation in Regulated Industries, em The Economic Regulation of Airports, Edited by Peter Forsyth, David W. Gilen, Andreas Knorr,  Otto G. Mayer, Hans-Martin Niemeier and David Starkie, Ashgate, 2004, (p. 213/229)

Nos Quarenta Anos do Grupo Pestana


Em 2007, a quando dos 35 anos do Grupo, escrevi um texto que reproduzo na íntegra, por manter a actualidade:

-“Em 1986, conheci o que é hoje o Grupo Pestana. Durante vinte anos, lidei com os responsáveis e muitos dos seus colaboradores. Conheci concorrentes do Grupo, em Portugal e no estrangeiro. O Grupo Pestana pertence ao clube, muito restrito, dos que fazem as coisas certas nos momentos certos e as continuam a fazer da maneira certa.

O historial do Grupo e as iniciativas em curso confirmam a previsão de uma década de sucesso continuado e sustentável.

O nome Pestana já é uma marca da indústria da hospitalidade. Será cada vez mais conhecida, a referência a Portugal manter-se-á e será uma contribuição relevante para a imagem do País.”.  

Há semanas, no Congresso da Associação da Hotelaria de Portugal, Dionísio Pestana reconheceu que, em 2011, 55% das receitas do Grupo são Hotelaria. A internacionalização e os 45% com origem no Timeshare, Golfe e Imobiliária ilustram uma visão larga da indústria da hospitalidade, contribuem para a resiliência do Grupo em tempos de crise.

Os meus parabéns a todos os colaboradores do Grupo Pestana e ao Dionísio Pestana, muito em particular.

 

A Bem da Nação

Albufeira 20 de Novembro de 2012

Sérgio palma Brito

Rui Rio quer cláusulas para proteger Aeroporto Sá Carneiro depois da compra da ANA - Economia - PUBLICO.PT

Rui Rio quer cláusulas para proteger Aeroporto Sá Carneiro depois da compra da ANA - Economia - PUBLICO.PT


Privatização da ANA – A Junta do Porto e Decisões do Governo

Reconheço não compreender a maneira como a ANA está a ser privatizada, ou, pior, começar a compreender que o Governo vai tomar decisões que me parecem altamente questionáveis.

O Contrato de Concessão ente o Estado e a ANA é determinante do valor do encaixe da ANA, mas é sobretudo determinante da maneira como a futura ANA privatizada contribui para a competitividade da Economia do País. O Governo e todos nós temos de nos preocupar com a competitividade da Economia e não com uma prioridade total e cega ao encaixe.

Aviso à navegação: quanto maior for o encaixe, melhor a ANA privada terá de trabalhar, mas mais altas serão as Taxas que vai Cobrar. Não há milagres e só assim a empresa remunera o capital investido.

Este Contrato tem de ser precedido por

-Decreto-Lei que aprove as Bases do Contrato de Concessão,

-Consulta Pública e consulta de Partes Interessadas, e não apenas da Junta Metropolitana do Porto.

Aparentemente, o Governo prepara-se para ultrapassar o que parece considerar de minudências legais.

Fico embasbacado com afirmações de Sérgio Monteiro (cito o Publico): “as taxas do Aeroporto Sá Carneiro vão ficar congeladas durante “dez anos” após a privatização e as do aeroporto de Lisboa subirão 40% no mesmo período”. Com efeito estas afirmações

-violam o espirito e da letra de disposições legais em vigor sobre Regulação Económica e da Qualidade de Serviço, a menos que, à partida, o Governo introduza uma decisão politica que condiciona a Regulação futura ao respeito destas decisões,

-revelam uma capacidade de «determinar o futuro» que seria impressionante, se não fosse, pura e simplesmente, ilusória e eventual fonte de conflitos políticos e contratuais futuros – quem pode garantir, hoje, que as Taxas do Aeroporto Sá Carneiro ficam congeladas durante dez anos?.

A cereja no topo do bolo vem a seguir (cito o Publico): “O governante, que falava numa iniciativa do PSD-Porto, afirmou, também, que o aeroporto Sá Carneiro beneficiará mais com a privatização em bloco da ANA do que com uma alienação separada, porque desse modo poderá continuar a beneficiar do que designou por “subsidiação cruzada”.

Acontece que

-a menos que os neoliberais que nos governam queiram manter uma prática errada dos governos socialistas (em violação das recomendações da Organização da Aviação Civil Internacional), a subsidiação cruzada entre aeroportos de uma Rede Aeroportuária, como é o caso da gerida pela ANA, tem de ser transparente e a subsidiação cruzada não pode ser estrutural, mas responder a casos bem precisos.

A privatização da ANA está a desenvolver-se a um ritmo que não respeita formalismos legais, base da Democracia, e com o anúncio de cláusulas contratuais que o Governo até poderá impor (a ver vamos, porque há mecanismo de controle), mas que causam a maior das preocupações.

Estas e outras questões são o objecto de próximo post:

- Privatização da ANA, SA (3): “No Airport Privatization Without Regulation”.

O leitor poderá compreender melhor o que está em causa.

 

A Bem da Nação

Albufeira 18 de Novembro de 2012

Sérgio Palma Brito

Privatização da ANA (3) – Primeiros Factos Oficiais


O Decreto-Lei n.º 232/2012, de 29 de Outubro “Aprova o processo de privatização da ANA - Aeroportos de Portugal, S. A.” (Link). É um diploma importante, mas insuficiente.

É importante, porque parece regular todo o processo de privatização: o articulado apenas menciona “resoluções do Conselho de Ministros que venham a estabelecer as condições finais e concretas das operações necessárias à sua execução”.

É insuficiente, porque, entre outras razões, não vemos como o Governo

-possa aprovar o Contrato de Concessão entre o Estado e a ANA privatizada, sem aprovar um Decreto-Lei sobre as Bases desse Contrato,

-não defina, por Decreto-Lei, as modalidades futuras da Regulação que a ANA deve respeitar e o quadro de intervenção da Autoridade da Concorrência.

Antes de analisar o Decreto-Lei, descrevemos a herança de governos anteriores

 

1.Herança de Governos Anteriores

*Ausência de Definição Política e da Transparência do Contrato de Concessão

A Aviação Civil, a exemplo do que acontece em outros sectores de actividade económica do País, não assenta num acordo político nacional, capaz de estruturar o que há de aleatório na política partidária e consequente instabilidade governativa. Este facto explica que, no caso da ANA, SA, não haja um entendimento das funções que a empresa desempenha para

-assegurar a competitividade do Turismo e do Comércio Externo no que esta depende da gestão dos aeroportos,

-a partir desta competitividade, Turismo e Comércio Externo permitirem a dinamização das mais diversas actividades económicas, sociais e culturais.

A privatização da ANA seria hoje mais transparente e eficiente se, a quando da entrega da gestão aeroportuária a uma empresa (a ANA, EP de1979 e a ANA, SA de 1998), o Governo tivesse sido capaz de

-definir um conjunto coerente e simples de Orientações Estratégicas para a Empresa, no âmbito de todo o sector da Aviação Civil,

-formalizar um Contrato de Concessão entre o Estado concedente e a Empresa concessionária.

Na ausência destas duas definições, entramos num processo de privatização sem ter a consciência

-da substância económica, social, politica e cultural da gestão pela ANA dos Aeroportos de Portugal (Link),

-da realidade da gestão de aeroportos, só possível de conhecer por via da transparência de um bom Contrato de Concessão entre Estado e Empresa.

*Aspectos da ANA da Actualidade e da sua Envolvente

Em 2011, a ANA tem um resultado líquido positivo de cerca de € 200 milhões e uns EBIDTA que fazem o Ministro das Finanças sonhar com o encaixe da sua venda e deste o primeiro Objectivo Politico a atingir com a privatização. Antes de analisarmos esta política, vejamos algumas das suas origens.

Não podemos ignorar um longo período de «o Estado a negociar com o Estado» e um Estado muito diferente do que o Mundo de 2012 nos exige:

-ANA, SA, criada em 1998, assume privilégios da ANA, EP, criada em 1979,

-em 1979 e 1998, há definições legais gerais sobre domínio público e serviço aeroportuários, mais o exercício de poderes do Estado, cuja actualidade exige cuidadoso exame económico, financeiro e legal – uma ANA privada não pode ter os mesmos direitos de uma ANA pública, criada e recriada no referido ambiente de «o Estado a negociar com o Estado»

-as «empresas do Estado» fixam tarifas e níveis de serviço segundo um sistema de “regulação” muito rudimentar,

-a Regulação Económica e da Qualidade de Serviço definida em 2009 não chega a ser aplicada,

-a já mencionada ausência de um Contrato de Concessão que formalize a relação entre Estado e ANA, seja ela EP ou SA.

Estes factos só são possíveis pela natureza da envolvente em que se formam e actuam os elementos do Sistema Politico, Administrativo e Empresarial da Aviação Civil e das relações entre eles. Voltaremos a este Sistema, no qual se integrarão a TAP e ANA privatizadas e no âmbito do qual devemos analisar e avaliar a sua actividade futura.

*Privatização da ANA, SA – O Ímpeto Político de 2005

Vimos como a privatização da ANA, SA, é decidida antes da sua criação, no âmbito de um processo, todo ele concebido em função do financiamento do Novo Aeroporto de Lisboa (Link). Neste processo, destacamos o Ímpeto Político de 2005, no qual há quatro passos da Formalização do Processo de Privatização

-2007: definição do enquadramento politico da privatização – consideramos este enquadramento insuficiente, mas é muito mais vasto e ambicioso do que a da privatização de 2012, dominada pelo “encaixe”,

-2009: Decreto-lei sobre a Regulação Económica e da Qualidade de Serviço,

-2010: Decreto-Lei que define as Bases do Contrato de Concessão

-2010: Resolução do Conselho de Ministros que define a Minuta do Contrato de Concessão. 

*Espaço Para Oposição Política (2010)

Nesta Formalização da Privatização da ANA, SA, há espaço para a oposição politica se manifestar – esta é uma lição que a actual coligação deve reter.

Em 14 de Abril de 2010, no dia da Publicação do Decreto-Lei que aprova as Bases do Contrato de Concessão, deputados do PSD pedem a Apreciação Parlamentar 36/XI ao Decreto-Lei n.º 34/2010, de 15 de Abril (Link).

O Debate sobre a Apreciação Parlamentar ilustra políticas partidárias instáveis e incoerentes, ditadas pela oportunidade do momento. O PSD critica duramente a Privatização da ANA SA “em bloco”:

-“o modelo para o qual as Bases agora aprovadas apontam, ao definir uma privatização em bloco, vai no sentido de impedir a livre concorrência entre os aeroportos do País.”.

A intervenção termina com pedido firme: “o PSD proporá a revogação do presente diploma.”.

Em 2012, o PSD está convertido às virtudes da Privatização da ANA “em bloco”. Sejamos justos: durante o mesmo debate, o PS também dá prova de instabilidade e incoerência nas posições que defende.

Em 2010, a Formalização da Privatização e o espaço para a intervenção da Oposição dão uma base transparente ao processo de privatização da ANA.

*Regulação da Gestão de Aeroportos e Seu Regulador

O Decreto-Lei nº 217/2009, de 4 de Setembro “Define o modelo de regulação económica e da qualidade de serviço do sector aeroportuário nacional” e posiciona a privatização da ANA, SA ao nível das melhores práticas internacionais:

-a privatização é acompanhada de Regulação Económica, mas esta é alargada à Regulação da Qualidade de Serviço.

Na pior tradição nacional, apesar do Decreto-Lei entrar em vigor no dia seguinte ao da publicação, não temos notícia da sua aplicação, nem da definição do novo regime autónomo, nele previsto, para as funções de regulação económica atribuídas ao Instituto Nacional da Aviação Civil (INAC).

 

2.Propostas do Governo (2012/2013)

*Objectivos da Privatização da ANA, SA

Destacamos dois dos objectivos da Privatização da ANA, fixados pelo Governo:

-maximização do encaixe financeiro,

-reforço da posição competitiva, do crescimento e da eficiência da ANA, S. A., em benefício do sector da aviação civil portuguesa, da economia nacional e dos utilizadores e utentes das estruturas aeroportuárias geridas pela ANA.

Estes objectivos justificam duas observações:

-a ANA privada terá tendência a fixar as taxas e a qualidade de serviço de acordo com a “melhor remuneração possível” do capital investido para assegurar a “maximização do encaixe financeiro” pelo Governo – daí a importância da Regulação Económica e da Qualidade de Serviço supervisionada e/ou regulada por um INAC renovado e reforçado,

-na péssima tradição de Governos anteriores, o Governo não dá prioridade ao que a “competitividade, crescimento e eficiência da ANA” representa para o sucesso da Oferta de Turismo e da Exportações de Mercadorias – este devia ser o primeiro fim a realizar pela ANA privada e factor político condicionante de todo o processo de privatização.

*”um ambiente legal e regulatório adequado”

O Governo tem ainda em vista três “aspectos”. Dois destes “Aspectos” são irrelevantes, salvo saber como o Governo pretende assegurar as condições para o “aumento da capacidade aeroportuária na região de Lisboa”.

O outro “aspecto” consiste em “Definir um ambiente legal e regulatório adequado”. Este “aspecto” é a envolvente dos dois “objectivos” da privatização antes mencionados. O panorama é preocupante porque, entre outros, está em causa a indefinição sobre realidades da maior importância:

- fixação das Taxas sujeitas a Regulação Económica, fixação de parâmetros da Qualidade de Serviço, revisão do sistema de gestão de slots (em particular no Aeroporto de Lisboa),

-definição da Supervisão/Regulação pelo INAC e intervenção da Autoridade da Concorrência.

Analisamos estas e outras realidades em próximo post sobre a Privatização da ANA: “No airport privatization without regulation”.

*Concessão do Serviço Público Aeroportuário à ANA – Proposta do Governo, em 2012

O preâmbulo do Decreto-Lei de Outubro de 2012 refere as bases da Concessão, que foram estabelecidas pelo Decreto-Lei n.º 33/2010, de 14 de Abril – «o tal» que o PSD quis revogar. Ficamos sem saber se o Governo baseia a sua proposta neste Decreto-Lei, que foi elaborado em função do financiamento do Novo Aeroporto de Lisboa.

Em qualquer dos casos, o clausulado do Contrato de Concessão determina grande parte do valor da ANA para o adquirente e para o País. O panorama é preocupante:

-ao longo de mais de um ano de governação, o actual Governo não altera e aprova a Minuta do Contrato de Concessão, de 2010,

-chega a hora da privatização e não há uma ponderação calma e objectiva dos interesses nacionais a acautelar e um consenso sobre o contrato que os acautele,

-o Governo privatiza a empresa com base num Contrato de Concessão, ainda desconhecido e que não passou pelo teste da experiência da sua aplicação

Esta realidade não é brilhante, mas há pior. O preâmbulo do Decreto-Lei parece implicar que o Governo não segue a via democrática de aprovar novo Decreto-Lei a definir as Bases do Contrato de Concessão e nova minuta deste Contrato. Com efeito,

-o Governo opta por “uma operação de venda por negociação particular, a um ou mais investidores”,

- “no âmbito da qual se prevê a possibilidade de negociação dos termos e condições do contrato de concessão de serviço público aeroportuário com os referidos investidores”. 

O articulado confirma esta negociação.

Admitimos sermos um dos “completamente ignorantes” do País, mas não vemos como o interesse do País é acautelado com esta metodologia, susceptível de maximizar o encaixe, mas podendo ter consequências perversas sobre o que verdadeiramente conta para o País.

*”hub de Lisboa”, Concorrência e Regulação

O preâmbulo do actual Decreto-Lei de 2012 exige “respeitar a importância estratégica do chamado «hub de Lisboa»”. Disposição idêntica figura no caderno de encargos da privatização da TAP e no Programa do Governo. Esta opção política do Governo tem consequências a explicitar.

No Aeroporto de Lisboa, já há tensões entre as exigências da TAP e o crescimento do tráfego de companhias low cost, que são fundamentais para a Oferta de Turismo de toda a área de influência do Aeroporto. Este tipo de tensão deve ser dirimido com recurso

-à Autoridade da Concorrência, em termos a definir pela futura Regulação da Gestão dos Aeroportos de Portugal,

-a mecanismo regulador da Gestão de Slots e independente das partes envolvidas – o sistema em vigor deve ser alterado, em ligação com a Privatização da ANA (Link).

A operação do hub de Lisboa tem de ser assegurada, mas não pode dar azo a «abuso de direitos adquiridos» por parte da TAP, deve sair da esfera politica e exige regulação adequada, mais a possível intervenção da Autoridade da Concorrência.

*Aeroportos das Regiões Autónomas

O Governo «esquece» que o seu Programa prevê a “transferência dos aeroportos da Madeira e dos Açores para a respectiva tutela”. A ANA está a ser privatizada de acordo com as definições legais em vigor. Em 2009

-é definida legalmente a Rede Aeroportuária gerida pela ANA: os três grandes aeroportos do Continente (mais o chamado “aeroporto de Beja”, então na crista da onda politica) e os três aeroportos da Região Autónoma dos Açores, dependentes de “subsídios cruzados”, no seio da Rede,

-é omitido o caso dos Aeroportos da Região Autónoma da Madeira, concessionados à ANAM, SA, mas cujo Capital Social é Detido pela ANA (70%), Estado (20%) e Região (10%), havendo um aeroporto estruturalmente subsidiado (Porto Santo) e outro endividado em cercad de € 200 milhões (Santa Catarina),

-estes importantes “subsídios cruzados” entre aeroportos do Continente e das Regiões Autónomas fazem da ANA um instrumento da Politica de Coesão do País.

Esta realidade parece exigir que o Governo

-confirme ter ouvido os Governos Regionais e reveja o imbróglio legal de 1977/1979, na criação da ANA, EP,

-avalie e reveja a transparência sobre a maneira como a ANA privatizada assegura os confusos mecanismos que são sedimentados durante os anos de «o Estado a negociar com o Estado».

 

3.Tentemos Ser Práticos

*O Déficit das Contas Públicas em 2012

De repente e segundo a comunicação social, o Governo precisa que, ainda em 2012, a ANA, SA, “pague” ao Estado a formalização da Concessão, que data de 1998, ou, para ser preciso, de 1979.

Posteriormente, o adquirente da ANA, SA pagará um valor que será o valor de mercado. Para abate à Dívida Pública, o Estado encaixa este valor, menos a dívida contraída pela ANA para pagar ao Estado os preciosos € 600 milhões a reduzir ao deficit de 2012.

Esta manifestação de Criatividade nas Contas Públicas põe o Governo a negociar sob stress e condiciona o que está em causa: alienar, em 2013, as “participações sociais representativas do capital social da ANA”, de acordo com as exigências de competitividade do Turismo e Exportações.

*Valores Mínimos a Respeitar

1 – O Governo deve respeitar a formalização democrática da aprovação do Contrato de Concessão: Decreto-Lei a aprovar as Bases e Resolução do Conselho de Ministros a aprovar a Minuta. O processo deve ser público e transparente. Os Anexos ao Contrato de Concessão devem ser disponibilizados na Internet. Esta é garantia indispensável de uma boa defesa do Interesse Público.

Durante a negociação particular poderá haver alterações a este Contrato, mas elas serão claras, porque a sua publicidade a isso obriga.

2 – O Governo deve esclarecer a teia de relações existente entre os aeroportos do Continente e os das Regiões Autónomas, antes de a due dilligenge da empresa adquirente venha a levantar o problema,

3 – O Governo tem de informar os concorrentes que a ANA privatizada irá actuar num ambiente regulatório diferente do actual e que inclui

-um sistema de Supervisão/Regulação do Desenvolvimento e Gestão dos Aeroportos e um quadro institucional, que beneficiem das melhores práticas europeias, e das disposições existentes sobre Qualidade de Serviço,

-clarificar as áreas de intervenção da Entidade da Concorrência e a relação desta com o quadro institucional da Supervisão/Regulação da Economia e da Qualidade de Serviço.

4 – Mais concretamente, deve ficar claro no Contrato de Concessão que

-serão respeitadas as disposições legais de 209/2011 (do anterior Governo) sobre Regulação Económica e da Qualidade de Serviço,

-é alterado o actual regime de coordenação da atribuição de slots nos Aeroportos onde tal se justifique, com prioridade total ao da Portela

-o respeitar a importância estratégica do hub de Lisboa, não exclui, antes pelo contrário, justifica a intervenção da Regulação da gestão dos Aeroportos e da Autoridade da Concorrência,

-são aplicadas as Recomendações da OACI (Organização da Aviação Civil Internacional ou ICAO) sobre Transparência na gestão aeroportuária, com destaque para a Exploração da Rede Aeroportuária, com subsídios cruzados entre Aeroportos e mecanismo de single till.

*Estamos a Exagerar?

Não estamos a exagerar. O leitor cidadão deve considerar o seguinte:

-até á privatização da TAP e ANA, todos os elementos do Sistema Politico, Administrativo e Empresarial da Aviação Civil e as relações entre eles, funcionam em ambiente pouco transparente e com «o Estado a negociar com o Estado», com destaque para a raquítica Regulação assegurada pelo actual raquítico INAC,

-com a TAP e ANA privatizadas, há uma transformação radical deste sistema e o que NÃO PODE ACONTECER AO PAÍS é a captura, pela TAP e ANA privadas, das actuais relações entre os elementos do Sistema.

A homeostasia do Sistema é muito forte e a captura dos elementos e relações mais importantes será um acto corrente e de boa gestão pelas empresas privadas. Esta captura criará problemas ao interesse nacional se não for equilibrada pelo Contrato de Concessão, intervenção da Autoridade da Concorrência e uma Regulação em vários domínios, para além da Económica e da Qualidade de Serviço – este é o tema do próximo post.  

 

A Bem da Nação

Albufeira 5 de Novembro de 2012

Sérgio Palma Brito

Privatização da ANA (2):
Quinze Anos de Privatização e Dois Para Vender


Este post é apoiado pelo Documento de Trabalho “ANA-Aeroportos de Portugal, SA – Notas Genealógicas”
A consulta deste Documento é obrigatória, por fundamentar as afirmações que seguem, e a leitura aconselhada, por conter informação útil ao espírito curioso.
Este post integra um trabalho sobre a Aviação Civil em Portugal (1) e dá continuidade aos seguintes



Sugerimos ao leitor mais curioso a leitura de



Índice

Introdução

Primeira Parte – Quinze Anos de Privatização e Dois Para Vender (1996/2013)

1.1. Dos Primórdios à Decisão Politica de 2000
1.2. O Interregno e o Ímpeto Político de 2005
1.3. Formalização da Privatização da ANA, SA e a Actualidade
1.4. Dois Anos a Vender a ANA, SA
1.5. Notas Sobre a Actividade Empresarial da ANA, SA

II Parte – Actualidade do Passado (1946/1998)

2.1. Gestão de Aeroportos Pela Administração Pública (1946/1979)
2.2. Gestão de Aeroportos pela ANA, EP – Empresa Pública Aeroportos e
      Navegação Aérea (1979/1998)
         a) ANA, EP – A Confusão Excessiva
         b) A Empresa Pública (1979/1998)


Introdução

O presente post é estruturado em duas partes. Na primeira, analisamos

  • os quinze anos de propostas politicas de privatização da ANA, SA (1996/2011), 
  • como esta privatização é, ou passa a ser, um efeito colateral da edificação do Novo Aeroporto de Lisboa e um requisito do seu modelo de financiamento, 
  • como a ANA, SA continua a sua actividade e a dar lucros crescentes, 
  • como estes lucros estão na origem da venda da ANA, SA, em 2011/2013.

Na segunda parte analisamos como

  • as raízes da actual ANA, SA, remontam à Empresa Pública Aeroportos e Navegação Aérea (ANA, E. P.), criada em 1979,
  • a criação da ANA, EP e os anos até 1998 são marcados por confusão excessiva na definição de Administração Publica, Regulação e Actividades Empresariais,
  • importa ter em conta, na Privatização de 2011/2012, estas raízes e confusão excessiva. 
  • a Direcção Geral da Aeronáutica Civil dos anos 1947/1979 ajuda a perceber o período que vem até à actualidade, e de que é ícone o ainda não haver um Contrato de Concessão entre o Estado e a ANA, SA.

A evolução que vem de 1979 à actualidade pode permitir um “encaixe” razoável na Venda da ANA, SA, em 2011/2013. Esta circunstância resulta da ANA, EP e a ANA, SA terem uma desenvolvido uma assinalável proactividade na condução dos seus negócios. Ambas beneficiam do monopólio do Desenvolvimento e Gestão dos Aeroportos de Portugal e de uma Regulação Económica quase inexistente, mas o mérito é inegável.

Primeira Parte – Propostas de Privatização (1996/2011)

1.1. Dos Primórdios à Decisão Politica de 2000

Março de 1996: Privatização da Futura ANA, SA e Sua Criação

Em Outubro de 1995, o Programa do XIII Governo Constitucional prevê um Programa de Privatizações e “Definir a localização do novo aeroporto que servirá a área metropolitana de Lisboa”.
Em Março de 1996, o Programa de Privatizações para 1996/1997 prevê a privatização parcial das actividades desenvolvidas pela ANA-Aeroportos e Navegação Aérea, E. P., o que implica separar “as actividades típicas de política aérea (relativamente à qual terá de existir um controlo público) das demais áreas de actividade.”. Em síntese, propõe privatizar as actividades de Desenvolvimento e Gestão de Aeroportos.
Em Abril de 1997, o Programa de Privatizações para 1998/1999 integra

  • “a primeira fase de privatização da ANA [na realidade, ANA, EP], sem prejuízo da manutenção na esfera do sector empresarial do Estado das actividades de navegação aérea. Simultaneamente, serão concentradas numa autoridade aeronáutica as funções de regulamentação, fiscalização, certificação e supervisão de todo o sector da aviação civil.”.

Como veremos a seguir [ponto 2.1], esta é a proposta do IV Plano de Fomento Para 1974/1979, aprovado em Dezembro de 1973 e frustrado pelo 25 de Abril.
Em 1996/1997, ainda existe uma única Empresa Pública que assegura as “actividades típicas de política aérea” (na realidade, Navegação Aérea) em conjunto com o Desenvolvimento e Gestão de Aeroportos, que devem ser privatizados.
Sinal premonitório de desenvolvimentos futuros, o Governo decide privatizar a ANA, SA antes da sua criação, que só ocorre cerca de dois anos depois da decisão de privatização.

Abril de 1998: NAER - Novo Aeroporto, S. A.

Em Abril de 1998, o Governo cria a NAER, SA. É uma subsidiária da ANA, EP (que, inicialmente, detém 90% do capital social), com o objectivo de “proceder ao desenvolvimento dos trabalhos necessários à preparação e execução das decisões referentes aos processos de planeamento e lançamento da construção de um novo aeroporto em Portugal continental.” (2).
Em Março de 1998, ainda antes da sua criação formal, a NAER, SA encomenda aos consultores dos Aéroports de Paris o estudo : “Novo Aeroporto Internacional – Relatório Para a Preparação de Uma Proposta de Escolha de Local” (3).

As Instituições de 1998

Em 1998, a estrutura Administrativa e empresarial da Aviação Civil passa pela transformação profunda de que carece e é proposta desde a elaboração do IV Plano de Fomento para 1974/1979.
Primeiro, são criadas duas instituições que resultam directamente de medidas do Programa do Governo:

  • em Abril de 1998, é criada a NAER - Novo Aeroporto, S. A., 
  • em Maio, é criado o Instituto Nacional de Aviação Civil e extinta a Direcção-Geral da Aviação Civil, 

Em Dezembro de 1998, a partir da ANA, EP, são criadas duas empresas não mencionadas no Programa do Governo:

  • a ANA - Aeroportos de Portugal, S. A.,  
  • a Empresa Pública Navegação Aérea de Portugal, NAV, EP.

Quando a ANA, SA é criada, os consultores dos Aéroports de Paris trabalham afanosamente no Estudo que vai influenciar as futuras propostas da sua privatização.
No final de 1998, depois de anos e anos de falta de rumo e de confusão institucional, Portugal dispõe de instituições especializadas em i) Administração Pública e Regulação, ii) Desenvolvimento e Gestão de Aeroportos, iii) Navegação Aérea.

Os Relatórios Que Preparam a Decisão Politica

Em Agosto de 1999, das Recomendações dos Consultores dos Aéroports de Paris, citamos:

“2.Como todos os estudos realizado desde 1969, o nosso estudo de síntese põe à cabeça o sítio de Rio Frio 08/26, que é satisfatório em relação à maioria dos critérios excepto o ambiente “natural”, porque se trata de um sítio totalmente artificial mas agrícola […]

3.Ao dar o seu acordo sobre os termos do relatório da “CAIA” [Comissão de Avaliação de Impacte Ambiental], o Ministro do Ambiente decidiu em 5 de Julho de 1999, como a lei portuguesa lhe dá poder, de não considerar possível o sítio de Rio Frio, considerando que a realização de um aeroporto criaria aí prejuízos “não minimizáveis, irreversíveis e não compensáveis”.


4.Nestas condições, a única recomendação que o Consultor pode formular concerne a viabilidade do sítio da Ota e esta recomendação é favorável.”

Esta é a base do Relatório da NAER, SA, de Outubro de 1999. Não temos acesso a este Relatório mas conhecemos os seus “objectivos e orientações preconizados”.

2000: Aeroporto da Ota e Privatização da ANA, SA – Decisão Política

Em Abril de 2000, a Resolução do Conselho de Ministros n.º 18-B/2000, de 27 de Abril “Aprova o desenvolvimento dos processos relativos à construção do novo aeroporto na Ota”. O Governo decide “promover, de imediato, as acções necessárias para concretizar os objectivos e orientações preconizados” [no Relatório da NAER, SA]. Estes objectivos e orientações figuram no preâmbulo da Resolução:

  • “Estabelecimento de uma parceria público-privada que articule a contratação da concepção, construção, financiamento e exploração da nova infra-estrutura com a entrada de accionista privado de referência no capital da ANA, mediante aumento de capital;
  • Escolha de parceiros privados através de um procedimento concursal, a estabelecer em regime jurídico específico;
  • Encerramento do Aeroporto da Portela aquando do início de actividade do novo aeroporto (em virtude da comprovada falta de dimensão do tráfego para manter dois aeroportos tão próximos e da absoluta necessidade de libertar a cidade de Lisboa dos malefícios ambientais ao nível de ruído e poluição e ainda por razões de segurança).”.


Uma Pergunta

A partir de Abril de 2000, a Privatização da ANA, SA de Março de 1996, é indissociável do Novo Aeroporto de Lisboa por ser, simultaneamente, um efeito colateral e um requisito do financiamento da sua edificação.
Em Outubro de 1995, o Programa do Governo prevê o Novo Aeroporto, mas não prevê o que a realidade económica exige: cindir as duas actividades empresariais amalgamadas na então ANA, EP.
Em Março de 1996, é previsto privatizar o que vem a ser a ANA, SA.
Em Abril de 2000, a privatização da ANA, SA é um requisito indispensável à edificação do Novo Aeroporto.
A pergunta é: de quando data esta ligação entre edificação do Novo Aeroporto e Privatização da ANA, SA? De Outubro de 1995, de Março de 1996, da preparação da Resolução de Abril de 2000? A resposta tem algum interesse.

1.2.O Interregno e o Ímpeto Político de 2005

O Interregno – De Abril de 2002 a Março de 2005

O XV Governo toma posse a 6 de Abril de 2002. O seu Programa prevê:

  • “os estudos relativos ao aeroporto da Ota prosseguirão de modo a poder caracterizar adequadamente o empreendimento; a sua concretização não é prioritária e ele não arrancará na presente legislatura; isso não impede que se mantenham as medidas de salvaguarda relativas aos terrenos, nem que se aprofundem outros aspectos relativos à construção do aeroporto, nomeadamente quanto à data de início da sua realização, tendo em atenção a capacidade do aeroporto da Portela;”.

O XVI Governo toma posse a 27 de Julho de 2004. O seu Programa prevê:

  • “prossecução dos estudos relativos ao aeroporto da Ota, de modo a poder caracterizar adequadamente o empreendimento. No entanto, a sua concretização não é prioritária e ele não arrancará na presente legislatura;”.

O Desenvolvimento do Aeroporto da Ota conhece um interregno e a NAER, SA gere o impasse. Obviamente, a privatização da ANA, SA sai da agenda política.

O Ímpeto Politico de 2005

Em 2005, o processo de desenvolvimento do Novo Aeroporto de Lisboa retoma força e vigor. Como em 2000, a privatização da ANA, SA continua a ser efeito colateral do Novo Aeroporto de Lisboa e requisito do financiamento da sua construção. Em Março de 2005, o Programa do Governo prevê

  • “Retomar o processo relativo ao novo Aeroporto da Ota, redefinindo o respectivo calendário à luz dos dados actuais sobre o desenvolvimento expectável do tráfego e tendo em conta a disponibilidade de financiamento comunitário para a programação do projecto;”.

Em Novembro de 2005, oito meses depois da tomada de posse, o Governo organiza uma grande sessão de informação, motivação e propaganda sob o tema sugestivo de “Lisboa 2017: Um Aeroporto Com Futuro”.
Sem termos acesso às apresentações oficiais, citamos um testemunho oficial da sessão que decorreu “com a presença do Primeiro-Ministro, Engº José Sócrates, do Ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, Engº Mário Lino, e de um grupo alargado de participantes de diferentes sectores de actividade, para além de consultores e de especialistas nacionais e estrangeiros.
No encontro foram explicados os fundamentos que presidiram às decisões e opções tomadas quanto ao Novo Aeroporto de Lisboa, tendo sido enfatizada a necessidade premente da respectiva construção até 2017.” (4).

O Programa de Privatizações para o biénio de 2006-2007 dispõe:

  • “A decisão sobre a privatização da ANA-Aeroportos e Navegação Aérea, S. A., deverá ser tomada tendo em consideração a opção sobre o modelo de contratualização do novo aeroporto de Lisboa. Esta privatização poderá efectuar-se seja através da alienação de capital a privados seja através da concessão a privados da exploração de infra-estruturas aeroportuárias sob sua gestão.”.

Com esta disposição, deixa de haver limite de privatização do capital social da ANA, SA.

A Decisão Politica de Fevereiro de 2007

A Resolução do Conselho de Ministros n.º 20/2007, de 14 de Fevereiro “Estabelece o modelo de transacção do novo aeroporto de Lisboa, determinando que a privatização da ANA, S. A., e a contratação da concepção, construção, financiamento e exploração do novo aeroporto de Lisboa, a localizar na Ota, serão efectuadas através de uma operação única que conjugue aquelas duas componentes”.
De entre os diplomas que ocupam dezenas de milhares de páginas do Diário da República, este é um dos de leitura indispensável: define orientações políticas e inicia a Formalização da Privatização da ANA, SA.
Citamos frases chave:

  • “a exploração do serviço público aeroportuário será efectuada em regime de concessão, no quadro de um modelo regulatório adequado, tendo em vista a prossecução do interesse público e a salvaguarda de objectivos de eficiência e competitividade”,
  • “ Manutenção da coerência do sistema aeroportuário nacional, […] e a sua competitividade no contexto internacional”,
  • “Definição dos resultados de desempenho do sistema aeroportuário nacional pretendidos, com inclusão obrigatória de parâmetros de avaliação adequados, em termos de eficiência, equidade, segurança e qualidade”,
  • “Viabilidade do projecto do novo aeroporto de Lisboa, num contexto de limitação de fundos públicos, nacionais e comunitários, restrito a um máximo de 600 milhões de euros”,
  • “Distribuição optimizada e equitativa de riscos e benefícios, entre o Estado e o privado a seleccionar, garantindo a minimização dos encargos para o Estado”,
  • “Ponderação adequada entre o encaixe financeiro para o Estado, proveniente do preço das acções da ANA-Aeroportos de Portugal, S. A., assim como das contrapartidas pela cedência do serviço público, a qualidade do projecto apresentado a concurso e a salvaguarda de objectivos estratégicos de eficiência e competitividade do sistema aeroportuário nacional.”.

Em 2012, estas orientações permanecem válidas e parecem não estar a ter a atenção que exigem.

Da Ota a Alcochete

Em 2007, depois de dezenas de anos de estudos sobre a localização do Novo Aeroporto de Lisboa, é apresentada uma nova localização, até aí nunca considerada, por não estar disponível: o Campo de Tiro de Alcochete.
Este tema está fora do âmbito do presente trabalho. Apenas recordamos:

  • em Maio de 2008, o Governo “confirma a aprovação da localização do novo aeroporto de Lisboa na zona do Campo de Tiro de Alcochete”.


1.3 Formalização da Privatização da ANA, SA e a Actualidade

Importância da Formalização Politica da Privatização

O actual processo de privatização da ANA, SA

  • começa mal, com a prioridade dada ao valor do encaixe na privatização da ANA, SA e sem considerar a competitividade da Oferta de Turismo do País,
  • parece continuar pior, com a urgência da integração desse encaixe nas Contas Públicas de 2012.
Neste contexto, importa ainda mais destacar a Formalização da Privatização da ANA, SA, no quadro do Ímpeto Politico de 2005. Podemos aprender com a estrutura e conteúdo deste processo.

A Formalização Politica

A formalização política da Privatização da ANA, SA começa pela já referida Resolução do Conselho de Ministros de 2007. Em 2012, não temos uma decisão equivalente e indiciadora de haver uma clara orientação politica no processo.
A formalização continua, em 2009 e 2011, com diplomas indirecta ou directamente ligados à Regulação Económica e da Qualidade de Serviço do sector aeroportuário nacional. Estes diplomas estão em vigor e o que está em causa é a capacidade de Governo e INAC assegurarem a sua aplicação.
A formalização é fechada com o Decreto-Lei que “aprova as bases da concessão do serviço público aeroportuário de apoio à aviação civil” e a Resolução do Conselho de Ministros que “Aprova a minuta do contrato de concessão do serviço público aeroportuário de apoio à aviação civil a celebrar entre o Estado Português e a ANA - Aeroportos de Portugal, S. A.”.
Não compreendemos como o Governo pode privatizar a ANA, SA sem aprovar diplomas que alterem significativamente os de 2010, por i) ser necessário maior liberalismo no sistema (sem piadas de mau gosto), ii) os diplomas de 2010 serem concebidos em função do financiamento do Aeroporto de Alcochete.
Há, ainda, tempo para uma manifestação da oposição política, quando, em 12 de Maio de 2010, um grupo de Deputados do PSD pede a Apreciação Parlamentar ao Decreto-Lei n.º 33/2010, de 14 de Abril.

Ausência de Politicas Partidárias Estáveis e Coerentes

O Debate sobre a Apreciação Parlamentar ao Decreto-Lei n.º 33/2010, de 14 de Abril ilustra o que são políticas partidárias instáveis e incoerentes, ditadas pela oportunidade do momento.
Por um lado, o Secretário de Estado Adjunto, das Obras Públicas e das Comunicações (Paulo Campos) faz magnífica defesa da importância do Contrato de Concessão, esquecendo que a sua inexistência dura desde 1998 (criação da ANA, SA) e é sobretudo da responsabilidade de Governos do Partido Socialista. Paulo Campos refaz a virgindade perdida do PS, ao ser o maior defensor do Contrato de Concessão:

  • “O que estamos a fazer neste momento é a atribuir o contrato de concessão, perante uma concessão já atribuída anteriormente, para definir os direitos e as obrigações da concessionária. Ao impedir o avanço deste Decreto-Lei [o PSD] está a pôr-se em causa um acto fundamental de transparência, que é a definição destes direitos e obrigações,”.

Por outro lado, a crítica fundamental do PSD é feita ao modelo da Privatização da ANA SA “em bloco”:

  • “Pelo contrário, o modelo para o qual as Bases agora aprovadas apontam, ao definir uma privatização em bloco, vai no sentido de impedir a livre concorrência entre os aeroportos do País.”.

A intervenção termina com pedido firme:

  • “Por isso, porque o modelo proposto não é claro ao criar uma concentração que poderá durar até 50 anos, ampliando desequilíbrios e perturbações no desenvolvimento da rede aeroportuária nacional e alienando a oportunidade de estabelecimento de uma rede moderna e concorrencial, o PSD proporá a revogação do presente diploma.”.

Em 2012, o PSD está convertido às virtudes da Privatização da ANA, SA “em bloco” e ocupado a refazer a sua virgindade.

Disposições Legais Pertinentes em Tempo de Privatização

Em tempo de privatização total da ANA, SA e a título de mero exemplo, é oportuno lembrar algumas das disposições do Decreto-Lei fundador, de Dezembro de 1998:

  • “Continuação da personalidade jurídica” da ANA, EP, o que obriga a ter em conta o disposto no Decreto-Lei que cria a ANA, EP, em 1979, concebido para um tipo de relação entre Estado e Empresa Pública em contexto completamente diferente do que vivemos na actualidade,
  • à ANA, S. A., é “atribuída a concessão de serviço público aeroportuário de apoio à aviação civil”, nunca precedida de Definição Politica e tardiamente formalizada em Contrato de Concessão, mas orientado para o financiamento do Aeroporto de Alcochete e nunca assinado, 
  • a ANA, SA deter “os poderes e prerrogativas do Estado” nomeadamente, quanto “ao licenciamento e concessão, nos termos da lei aplicável à utilização do domínio público aeroportuário”,
Ao longo de dezenas de anos em que “tudo se passa entre Estado”, pelo que, a título de exemplo, há que ter extremo cuidado em identificar o “domínio público aeroportuário” e conhecer o inventário do “domínio público privado”, transferido ou não para a ANA, EP e SA.

Uma Observação de Princípio e Dispersas 

Dito isto, há uma observação de princípio:

  • as Bases do Contrato de Concessão devem ser aprovadas por Decreto-Lei, sujeito a escrutínio público e do Parlamento.

A título de mero exemplo, formulamos duas observações dispersas sobre o nunca assinado Contrato de Concessão de 2010.

Observação Sobre Serviço Público

Citamos:
“8.4 — A Concessionária pode recusar a utilização das Infra -Estruturas Aeroportuárias nos seguintes casos:
a) Às pessoas ou às entidades que não preencham as condições legais e regulamentares fixadas para esse efeito;
b) Aos Utilizadores e aos Utentes adicionais em caso de incapacidade das Infra-Estruturas Aeroportuárias disponíveis para suportarem a prestação de serviços.”.

Nota – A disposição da alínea b) é inaceitável, pelo poder discricionário de que a Concessionária passa a dispor. Remetemos o leitor para o post


Observação Sobre Direitos Aeroportuários

Citamos:
“9.2 — A Concessionária deve estabelecer critérios justos, razoáveis e objectivos para a atribuição, a renovação e a extinção de Direitos Aeroportuários às Entidades Terceiras.”.

Nota 1 – Estes critérios devem ser estabelecidos antes da assinatura do Contrato.
Nota 2 – Dada a falta de experiência na intervenção da Autoridade da Concorrência e na aplicação das disposições sobre Regulação Económica e da Qualidade de Serviço, o Governo deve mencionar explicitamente e de maneira adequada, a possibilidade de intervenção futura da Entidade Reguladora e/ou Autoridade da Concorrência, de maneira mais larga e intensa do que tem vindo a acontecer.

Proposta Sobre os Anexos à Minuta do Contrato de Concessão

O Quadro 1 apresenta a Lista de Anexos ao Contrato de 2010. O Estado deve assegurar a divulgação pública na Internet dos Anexo ao futuro Contrato de concessão. Não há que recear o escrutínio público e este pode ser particularmente relevante e útil, para detectar erros e omissões.

Quadro 1 – Quinze Anexos Que Fazem Parte Integrante do Contrato

a) Anexo n.º 1 Perímetros dos Aeroportos;
b) Anexo n.º 2 Parâmetros Sectoriais de Serviço Público;
c) Anexo n.º 3 Estatutos da Concessionária;
d) Anexo n.º 4 Lista de bens afectos à Concessão;
e) Anexo n.º 5 Lista dos bens a desafectar do domínio público e a transferir para a Concessionária;
f) Anexo n.º 6 Requisitos técnicos mínimos operacionais, normas de qualidade, método de avaliação de desempenho e penalidades, e regras de intervenção nas infra -estruturas;
g) Anexo n.º 7 Plano de Encerramento do Aeroporto de Lisboa e Plano de Transferência de Actividade do Aeroporto de Lisboa (Portela) para o NAL; 
h) Anexo n.º 8 Reduto ANA e activos que permanecem afectos à Concessão após o encerramento do Aeroporto de Lisboa (Portela);
i) Anexo n.º 9 Regulamento de Gestão de Segurança;
j) Anexo n.º 10 Regulamento de Gestão Ambiental;
l) Anexo n.º 11 Regulamento das Entidades Públicas;
m) Anexo n.º 12 Regulação Económica do Serviço Público Aeroportuário concessionado à ANA, S A;
n) Anexo n.º 13 Novo Aeroporto de Lisboa (NAL);
o) Anexo n.º 14 Política de capitalização e regras de amortização dos bens afectos à base de activos regulados;
p) Anexo n.º 15 Parcerias Públicas Regionais

1.4. Dois Anos a Vender a ANA, SA: Meados de 2011 a Início de 2013

A Decisão Politica Que Falece à Aviação Civil em Portugal

Em Junho de 2011, o Programa do XIX Governo prevê a articulação dos modelos de privatização da TAP e ANA, “ponderando, no caso da ANA, a transferência dos aeroportos da Madeira e dos Açores para a respectiva tutela.”. Prevê, ainda, reavaliar “a oportunidade de construção de um novo aeroporto na Área Metropolitana de Lisboa”. O Memorando de Entendimento reforça a decisão de privatizar a ANA, SA.
A privatização deixa de estar ligada ao financiamento do Novo Aeroporto de Lisboa, para ser instrumento da redução da Dívida Pública, por via do encaixe que representa. A articulação das duas privatizações traduz a ideia do assumido sucesso da privatização da TAP, com o seu hub de Lisboa a valorizar a empresa que o gere.
Os Governos do PS, por duas vezes, e o XIX Governo não reconhecem nem garantem o essencial:

  • a Rede Aeroportuária gerida pela ANA, SA, desempenha papel central na Competitividade da Acessibilidade Aérea a Portugal, pela sua relação com as Companhias Aéreas, e a Oferta de Turismo do País entendida como «actividade exportadora».

Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores

O Programa do Governo menciona a “transferência dos aeroportos da Madeira e dos Açores para a respectiva tutela”, mas não explicita:

  • o seu deficit estrutural e os subsídios cruzados com os aeroportos do Continente, o que faz da ANA, SA, um instrumento de transferência de recursos entre a República e as Região Autónoma dos Açores;
  • os problemas resultantes dos dois aeroportos da Região Autónoma da Madeira não serem explorados directamente pela ANA, SA, mas sim por uma subsidiária, na qual o Estado e a Região também participam no capital social [ver alínea a) de 2.2].

O Governo parece não estar consciente da dificuldade e/ou impossibilidade de implementar esta proposta em tempo útil.


“Redesenho e reenquadramento regulatório do sistema aeroportuário”

O Programa do XIX Governo menciona, ainda, o “redesenho e reenquadramento regulatório do sistema aeroportuário”. Como veremos em outro post, a privatização da empresa que desenvolve e gere os Aeroportos de Portugal deve ser acompanhada de

  • Regulação Económica e da Qualidade de Serviço, já definida entre 2009/2011,
  • um Supervisor/Regulador forte e independente, o que implica alterar o estatuto e, muito mais difícil, a cultura e o posicionamento do INAC,
  • definição do quadro de intervenção da Autoridade da Concorrência.

De uma maneira geral, o Governo parece não ter consciência da falta de transparência estrutural nas relações entre instituições do Sistema da Aviação Civil e da total ausência de uma cultura e experiência de Regulação Independente.

Uma Estranha Formalização do Processo de Privatização

O presente texto é finalizado quando

  • ainda não foi promulgado o Decreto-Lei que define a modalidade da privatização da ANA,
  • há notícias, de redacção algo desconchavada, da ANA, SA “comprar” a Concessão ao Estado, o encaixe ser Receita Pública de 2012 (e não Divida Pública) e, posteriormente, a ANA, SA “vender” a concessão … para recuperar os fundos pagos ao Estado.

No ponto anterior, sobre Formalização da Privatização da ANA, SA e a Actualidade, indicamos alguns das etapas da formalização de um processo que não é simples e tem uma componente política, que parece escapar ao Governo e aos assessores financeiros e jurídicos.

Voltaremos ao assunto.

1.5. Notas Sobre a Actividade Empresarial da ANA, SA

Números do Sucesso

O Gráfico 1 ilustra a evolução do Resultado Líquido da ANA, SA, entre 2000 e 2011. Estes números devem ser compreendidos como o fruto do Desenvolvimento e Gestão dos Aeroportos de Portugal pelo Grupo ANA (5), como descrito aqui.

Em 2011, não considerámos o “reconhecimento de uma imparidade no montante de 46 milhões de euros, relativa à participação da ANA na NAER”. Com efeito, não se trata da consequência de um risco empresarial, mas da imputação, pelo Governo, dos custos resultantes do alimentar uma sua amante [a NAER, SA].

Gráfico 1 – Evolução do Resultado Liquido da ANA, SA (2000/2011)

Fonte: Elaboração própria com base em Relatórios e Contas do Grupo ANA

O Possível Sucesso da Politica de Maximizar o Encaixe

Em 2011, o Grupo ANA alcança “um volume de negócios total de 425 milhões de euros, um EBITDA de 200 milhões de euros”.
Em teoria, é possível admitir que a sua privatização se traduza num encaixe significativo.

II Parte – Actualidade do Passado (1946/1998)


2.1.Gestão de Aeroportos Pela Administração Pública (1946/1979)

Organização da Direcção Geral da Aeronáutica Civil (1947)

A DGAC é formalmente criada em 1946. A definição legal da sua Organização data de 1946. Para além do exercício das funções de Administração Pública, a DGAC assegura as actividades de natureza empresarial que hoje designamos por Desenvolvimento e Gestão de Aeroportos e por prestação de Serviços de Assistência à Navegação Aérea.

Alguma Transparência

O Gráfico 2 ilustra a Receita e Despesa dos três mais importantes aeroportos geridos pela Direcção Geral da Aeronáutica Civil. Sem ofensa, omitimos o Aeroporto do Porto, com 35 e 752 contos de Receita e Despesa.
Por vezes, algo atrasa o Progresso: desde há muitos anos que a ANA, SA omite o detalhe da Receita e Despesa por Aeroporto. É certo que, na década de 1950, não há opinião pública que possa criticar o Governo por os aeroportos de Santa Maria e Sal subsidiarem os de Lisboa e Porto.

Gráfico 2 – Receita e Despesa de Exploração, por Aeroporto (1954) (Milhares de Escudos)

Fonte: Elaboração própria, com base em DGAC, Anuário 1951/1954

Inadequação Institucional e Propostas Para o Futuro

O desenvolvimento, mesmo pacato, do Transporte Aéreo em Portugal põe em evidência a inadequação da estrutura da DCAC para responder às exigência que a Aviação Civil faz à Administração Pública e para exercer funções empresariais, a ser remuneradas pelos utilizadores.
Em 1973, o IV Plano de Fomento para 1974/1979 propõe

  • a “reorganização da DGAC, como órgão da administração pública responsável, em âmbito nacional, pela execução da política aérea estabelecida, e fiscalização das actividades das empresas, tanto do ponto de vista da segurança da navegação aérea como da economia da exploração do transporte aéreo.”;
  • a “adopção de fórmulas de gestão do tipo empresarial para o sistema aeroportuário principal e para o controle do tráfego aéreo e das telecomunicações aeronáuticas”, com a “criação de duas empresas públicas”.

Esta estrutura demora quinze anos a implementar, com as decisões tomadas em 1998.

2.2. Gestão de Aeroportos pela Empresa Pública Aeroportos e Navegação Aérea (ANA, E. P.)

a) ANA, EP – A Confusão Excessiva

Uma Empresa e Duas Funções

Apesar da bondade das propostas do IV Plano de Fomento, em 1976 e 1978, os Programas do I e II Governos propõem “uma empresa pública responsável pelo planeamento e gestão dos aeroportos nacionais e pela navegação aérea”. Desde a sua criação, a ANA, EP, integra duas actividades empresariais específicas e que justificam uma empresa cada.

Legislar Sem Cuidado

O Decreto-Lei n.º 122/77, de 3 de Março “Cria na dependência do Ministério dos Transportes e Comunicações a Direcção-Geral da Aviação Civil (DGAC) e a Empresa Pública Aeroportos e Navegação Aérea (ANA, E. P.).”
A Resolução n.º 136/78, de 9 de Setembro do Conselho da Revolução “declara, com força obrigatória geral, a inconstitucionalidade” normas contidas no Decreto-Lei n.º 122/77.
A Resolução n.º 154/78, de 17 de Outubro, “Nomeia uma comissão para desempenhar transitoriamente as atribuições que haviam sido cometidas à empresa pública Aeroportos e Navegação Aérea”.
Em 1979, a criação da ANA, EP, sana este incidente, revelador de alguma falta de cuidado.

Confusão Entre Entidade Reguladora e Empresas Reguladas

O IV Plano de Fomento propõe, ainda, a “reorganização da DGAC, como órgão da administração pública responsável, em âmbito nacional, pela execução da política aérea estabelecida, e fiscalização das actividades das empresas, tanto do ponto de vista da segurança da navegação aérea como da economia da exploração do transporte aéreo.”.
Na estrutura da ANA, EP de 1979, não é clara a separação entre a empresa pública a fiscalizar e a administração pública que a fiscaliza.

Desenvolvimento e Gestão dos Aeroportos da Região Autónoma da Madeira

A autonomização dos aeroportos da Região Autónoma da Madeira começa na década de 1980. Em 1991, a criação da ANAM – Aeroportos e Navegação Aérea da Madeira, SA culmina este processo, ao “mediante concessão, encarregar-se da exploração das infra-estruturas aeroportuárias e promover as obras da sua ampliação.”. Em 2012, a ANAM, SA é detida pela ANA, SA (70%), Região (20%) e Estado (10%).
O Contrato de Concessão é assinado em 1993 e o Aeroporto de Santa Catarina é ampliado. O financiamento da obra gera uma dívida, actualmente na ordem de 200 milhões de euros. A ANAM negoceia a prorrogação do prazo de concessão até 2053, de modo a garantir o seu equilíbrio financeiro.
O exercício de 2011 encerrou com um Resultado Líquido positivo de € 5,6 milhões. A exploração do Aeroporto de Porto Santo é estruturalmente deficitária e subsidiada pelo Aeroporto de Santa Catarina.
Se esta estrutura não for alterada, e não é fácil de alterar, quem comprar a ANA, SA passa a ser “sócio” do estado Português e do Governo da Região Autónoma da Madeira. Tem ainda uma dívida relevante, um prazo de concessão a negociar e a obrigação de gerir um pequeno aeroporto, estruturalmente deficitário.

1994: Agravar a Confusão

Em 1994 (6), está em causa cometer à ANA, EP, “as competências residuais que, em matéria de aeroportos, aeródromos, servidões aeronáuticas e navegação aérea, ainda se mantinham transitoriamente na DGAC após a criação da ANA, E.P.”. Em 1998 (7), o Governo reconhece que “Esta situação, além de indesejável pela falta de transparência que encerra no plano da organização e separação do exercício de funções estatais, é, ademais, incompatível com a prevista privatização da ANA, E. P.”.

b) A Empresa Pública de 1979

Poderes do Estado e a Actual Privatização

Vimos como a ANA, EP é criada sem o devido cuidado a legislar e com confusão entre a Regulação e o Ser Regulada. Esta confusão ainda se manifesta em 1994, quando os tempos conturbados de 1977/1979 já estão longe.
As disposições do Decreto-Lei e dos Estatutos da ANA, EP, assim como a maneira como são aplicados, justificam uma análise cuidadosa neste tempo de Privatização de 2011/2012, dominada pelo objectivo de obter um “encaixe” significativo.
A nova Empresa Pública tem “os poderes do Estado” em vários campos e estes poderes são assumidos pela ANA, SA, criada em 1998. A confusão que descrevemos na alínea anterior, entre outros, ilustra algo que, na actualidade, pode passar despercebido:

  • a informalidade da relação entre Estado e Empresa Pública, sobretudo durante os longos anos de instabilidade politica (na realidade, até ao primeiro Governo de maioria absoluta de Aníbal Cavaco Silva): entre Governo, Administração Pública e Gestão de Empresa Pública pode haver muitas tensões, mas há um sentimento de “tudo é Estado”.

Em 2012, vale a pena ver “isto” de bem perto.

Uma Empresa Publica Rentável

A ANA, EP distingue-se por não dar prejuízo e por o seu Resultado Líquido cedo mostrar uma evolução positiva e significativa – o Gráfico 3 ilustra esta evolução.
Este período coincide com o acumular de prejuízos pela Transportadora Aérea Nacional, financiada pelo contribuinte. Sem rigor científico, mas com o tempo vivido, podemos afirmar que, durante muitos anos, a Politica de Transporte Aéreo do “accionista Estado” teve a preocupação imediata de encaixar os lucros da ANA (EP e SA) e pagar os prejuízos da TAP (EP e SA).

Gráfico 3 – Evolução do Lucro Líquido da ANA, EP (1982/1998) (milhões de contos)

Fonte: Elaboração própria, com base em ANA, EP, Relatório e Contas de 1998 (p.34) e de 1991 (p.26)

Este período coincide com o acumular de prejuízos pela Transportadora Aérea Nacional, financiada pelo contribuinte. Sem rigor científico, mas com o tempo vivido, podemos afirmar que, durante muitos anos, a Politica de Transporte Aéreo do “accionista Estado” consiste em encaixar os lucros da ANA (EP e SA) e pagar os prejuízos da TAP (EP e SA).


A Bem da Nação
Albufeira 9 de Outubro de 2012
Sérgio Palma Brito

Notas

(1) O nosso objectivo é ajudar o leitor a compreender o Processo em Curso de Privatização da ANA, SA, tema de que nos ocuparemos no último post desta série.
Tudo o que publicamos antes deste último post visa informar o leitor e, sobretudo, situar o contexto em que se situa o referido processo.
O presente post completa os seguintes
-Privatização da ANA (1): Turismo, Transporte Aéreo e Grupo ANA (6 de Agosto de 2912)
-Portela 2012 – Imparcialidade, Transparência e Não Descriminação na Atribuição de Slots (23 de Julho de 2012)
Muito brevemente, publicaremos posts sobre o INAC – Instituto Nacional da Aviação Civil e a pouco conhecida evolução do Licenciamento de Actividades e Fixação das Taxas nos Aeroportos.
Podemos, depois, passar
-ao post sobre Regulação Económica e da Qualidade de Serviço,
-e ao que, finalmente, analisa o actual Processo em Curso de Privatização da ANA, SA.
Havendo força e alento, estamos em condições de analisar o Sistema Politico Administrativo e Empresarial da Aviação Civil em Portugal. Não é fácil, mas é a base do conhecimento para construirmos a futura Administração e Regulação da Aviação Civil e podermos lidar com a gestão privada de ANA, TAP e, quem sabe, da NAV, EP.
Entretanto, sugerimos ao leitor mais curioso a leitura de
-Privatização da TAP Air Portugal: de Salazar à Actualidade
(2) Apresentamos as nossas desculpas pelo tecnocratês, então florescente.
(3) Aceder ao estudo em: https://docs.google.com/open?id=0Bwm0NmwjZfYiejI3QXh5OXZVNE0
(4) “Nota do Presidente”, Relatório da ANA, SA, referente a 2005.
(5) Esclareçamos a possível confusão. Por uma questão de coerência da série, remonta a 1982, referimos sempre os números da ANA, SA, que não compreendem os da sua subsidiária ANAM, SA, a qual está incluída no Grupo ANA.
(6) Decreto-Lei n.º 121/94, de 14 de Maio “Aprova a Lei Orgânica a Direcção-Geral da Aviação Civil e altera o Estatuto da ANA, E. P., aprovado pelo Decreto-Lei n.º 246/79, de 25 de Julho”.
(7) Preâmbulo do Decreto-Lei nº 133/98, de 15 de Maio que, cria o INAC.