Porque razão faz sentido o Grupo Lufthansa adquirir a TAP e quais as implicações para a TAP?

 

Em janeiro de 2022 publiquei no blogue uma análise sobre

-“Porque razão faz sentido o Grupo Lufthansa adquirir a TAP e quais as implicações para a TAP?”.

Ver http://sergiopalmabrito.blogspot.com/2022/01/porque-razao-faz-sentido-o-grupo.html

Divulgo agora sem as alterações da ultima hora.

Este texto não inclui declarações do Grupo Lufthansa sobre interesse na TAP, na TAP e na ITA e só na ITA, em que Roma seria o hub para África e América Latina.

Pelo que leio, o Grupo Lufthansa terá mudado de opinião e está de novo interessado na TAP SA.

A figura seguinte ilustra a política multi hub do Grupo Lufthansa

 


O hub de Lisboa é importante para o Grupo Lufthansa

-pelo tráfego Brasil,

-pelo tráfego EUA por evitar a ida ao centro da Europa e regressar a Madrid, Marrocos etc.

Este último elemento pode ser muito importante na decisão do governo.

 

O governo tem de retomar o Acordo de janeiro 2019, com adequação das obras no AHD e construção do aeroporto Montijo

 

Depois da escolha dos aeroportos, o segundo “Problema de decisão” da Comissão Técnica Independente é o da Escala do tempo.

1.A “escala do tempo” no “Problema de decisão” da CTI

Um singelo e pacato slide sintetiza uma das mais importantes decisões em todo este processo.

 


A CTI admite que a “solução estratégica exige um prazo de execução alargado (pelo menos 10 anos)” e admite em 2023.07.31 (Relatório da Fase II, pp. 8-9):

- o longo prazo, correspondente ao prazo operacional aeroportuário de 50 anos

- o curto prazo, correspondente à resposta imediata através de medidas de melhoria de eficiência operacional

- o período de transição, correspondente ao desenvolvimento de uma situação intermédia que será necessariamente dual, combinando o AHD com outra solução.”.

 

2.O curto prazo, uma prioridade falhada no tempo e sem substância

*A estranha prioridade ao curto prazo

Em 2023.04.27, «Comissão técnica vai propor solução para problemas de curto prazo no aeroporto de Lisboa».

Citamos a presidente, Maria do Rosário Partidário:

-“Tivemos hoje uma reunião na NAV e ficámos ainda mais conscientes dos sérios constrangimentos que existem no Aeroporto Humberto Delgado. No nosso trabalho nós queremos atender ao curto prazo. O que pode ser feito para minimizar os constrangimentos a curto prazo“.

“Porque qualquer solução tem um período de construção e desenvolvimento, consideramos que devemos atender também a uma solução para um período de transição, que terá de ser relativamente curto e corresponder a fase em que a solução definitiva ainda não está em operação” (Eco).

Em 2023.07.25, quatro meses depois, «Rosário Partidário explicou ao Negócios que estão a ultimar as propostas para aliviar a Portela, "mas com as férias" e os atrasos oriundos dos estudos necessários, só devem divulgar as conclusões em setembro. As opções identificadas pela CTI depois terão que passar ainda pela ANA – Aeroportos de Portugal, pelo Governo e, dependendo das opções propostas, também pela NAV Portugal.

Nesse sentido, o documento vai "incluir propostas de investimento com o objetivo de melhorar a operação do aeroporto Humberto Delgado e aliviar a situação", acrescentou, sem dar mais pormenores sobre as opções em cima da mesa.» (JNegócios).

*O contexto da prioridade ao curto prazo

Vejamos o contexto:

-o AHD é gerido pela ANA SA, no respeito do Contrato de Concessão, por equipa com know how internacional e inserida na Vinci,

-em janeiro de 2008, Governo e ANA SA acordam investimento de €bb milhões no AHD

-em hhhh, esta parte do Acordo é revista jjjj. Estão previstas investimento de

-há tensão entre governo e ANA SA sobre acordo de conjunto sobre Montijo.

E eis que surge a CTI com “propostas de investimento com o objetivo de melhorar a operação do aeroporto Humberto Delgado e aliviar a situação".

*Duas perguntas sobre o papel da CTI

-esta intromissão na gestão do AHD cabe dentro da missão de uma CTI mandatada para elaborar uma Avaliação Ambiental Estratégica?

-que know how tem a CTI para dialogar com empresa integrada na Vinci Aéroports que gere 140 aeroportos e aeródromos no mundo?

Isto não faz sentido e, admitindo a prioridade ao curto prazo, a demora da CTI ainda menos.

3.Importância crucial do ignorado aeroporto de transição

*Custo para País, Cidade e Economia, se não houver aeroporto de transição

Se a CTI insistir em reprovar um Aeroporto de Transição no Montijo

-o crescimento do tráfego em Lisboa fica estrangulado entre 10 a 15 anos e não sabemos como vai recuperar,

-teremos enorme perda de receita, degradação da imagem de marca (reputação) do País, da Cidade e da Economia, turística e não só.

Nos seus trabalhos a CTI ignora esta realidade dramática, sem exagero na palavra.

E ignora o efeito colateral sobre a sua previsão de tráfego em Lisboa em 2050.

*Projeção (errada) do crescimento de tráfego em Lisboa

A CTI

-prevê um tráfego entre 52 e 67 milhões de passageiros em 2050,

-erra ao prever um crescimento gentil como ilustrado no gráfico seguinte.


-é elaborado com “Projeção, sem restrições, da procura agregada de passageiros no AHD, 2023-2050”,

-mas não pode ignorar uma restrição que é endógena à CTI, a recusa de aeroporto complementar no Montijo.

*Projeção de tráfego corrigida

Com efeito, o crescimento será representado pelo segundo gráfico que incorpora

-o período de estagnação, ainda assim com crescimento otimista de 250.000 passageiros por ano,

-um salto entre 19 e 34 milhões de passageiros em 2050.


*Em síntese que vai desagradar à CTI

 O crescimento do tráfego será representado pelo segundo gráfico que incorpora

-o período de estagnação, ainda assim com crescimento otimista,

-um salto entre 19 e 34 milhões de passageiros em 2050, o que é irrealista.

Na realidade,

-aeroporto de Transição no Montijo reduz tempo de estrangulamento e as consequências dramáticas para o País, a Cidade e a Economia turística e não só,

-a cultura da liderança da CTI é preconceito da hostilidade ao aeroporto do Montijo,

-a exclusão, com bases falsas, do modelo Dual da CTI é, em grande parte, para eliminar Montijo.

*Que fazer?

A CTI não é um quarto poder constitucional nem o governo passou uma procuração irrevogável para escolher Alcochete.

O prejuízo para o Pais, Cidade e Economia exige intervenção do governo que retome o Acordo de janeiro de 2019, com as alterações no AHD.

 

Lisboa 25 de setembro de 2023

Sérgio Palma Brito

 

 

 

 

 

Não haverá Cidade Aeroportuária da “creative class” para justificar o aeroporto de Alcochete

 

Comissão Técnica Independente justifica investimento em Alcochete com a formação de um ‘hub’ (update da Cidade Aeroportuária de 2008). É uma ilusão que importa desmontar.

O problema para a CTI é que, sem a Cidade Aeroportuária, não consegue justificar o aeroporto de Alcochete.

1.1.Retomamos o primeiro slide o Problema de decisão

Slide 1.1.1

 


Resolução Conselho de Ministros não explicita “hub intercontinental”, mas a Comissão Técnica Independente justifica esta extrapolação e faz do ‘hub’ a grande justificação do novo aeroporto que será mais do que um mero aeroporto.

A CTI deveria ter evitado a palavra ‘hub’, que designa o modelo de negócio da TAP, criando confusão, e a Cidade Aeroportuária de 2008, talvez para não acordar as criticas de então, hoje em hibernação.

Vejamos a sucessão de slides e texto que explicitam a noção de ‘hub’

1.2.Um segundo slide representa a escolha da CTI, mas o “Hub intercontinental” é aqui apenas o modelo de negócio da TAP.

Slide 1.2.1



1.3.Dito isto, o ‘hub’ da CTI é sintetizado num slide

Slide 1.3.1

 


1.4.E o “planeamento do hub” no slide seguinte

Slide 1.4.1

 


1.5.No Relatório da I Fase (Ponto 6 – Aeroporto Ideal) há a definição do “Aeroporto Ideal” [sublinhado nosso]:

-“Um aeroporto hub garante uma elevada conectividade nas ligações intercontinentais e europeias, e assegura uma elevada capacidade de movimentos para potenciar a sua competitividade internacional. Assegura uma área de potencial expansão de pelo menos 1000 hectares, e flexibilidade para uma evolução modular, projetando o seu crescimento à medida que a procura cresce, tornando-se economicamente viável ao longo das várias fases de crescimento. Uma elevada conectividade contribui para a competitividade do país e para o crescimento das exportações, constituindo um gerador de economias de aglomeração. A elevada conectividade e diversificação de destinos e de receitas, aeronáuticas e não aeronáuticas, contribui para a resiliência do modelo de negócio do aeroporto e da economia, nomeadamente no contexto de eventos disruptivos, como o da pandemia Covid-19.”.

Mais explicitamente, na mesa temática “Que modelo de aeroporto?” é definido como

-“Novo aeroporto deve ser visto como um atractor de serviços de valor acrescentado no âmbito de um ecossistema social e económico.” (Relatório Fase I, p.19).

1.6.Sem querer sermos exaustivos, da temática “Que modelo de aeroporto?”, citamos da mesma fonte

-“Foi consensual que, no longo prazo, a região de Lisboa deverá ser servida por um único aeroporto hub. A existência de um único aeroporto é necessária para permitir a concentração de serviços e atividades numa única região e, desta forma, maximizar os benefícios do hubbing [entendemos hubbing como atração de atividades para a Cidade Aeronáutica].

1.7.Do Relatório da Fase I (p.27), citamos:

-“ Por último, na análise da capacidade aeroportuária é necessário considerar também a capacidade de expansão do aeroporto para além da operação aérea strictu sensu, isto é a cidade aeroportuária. A Figura 20 apresenta a dimensão da área global dos principais aeroportos Europeus, que nos permite ter uma estimativa das áreas necessárias.

E eis que surge formalmente a “cidade aeroportuária”!

Slide 1.7.1

 


2.Fernando Alexandre e tirar a economia portuguesa da estagnação pela alteração de paradigma do “Do made in ao created in”.

2.1.O estudo para a Fundação Francisco Manuel dos Santos

Acelerar a mudança de paradigma da economia portuguesa

Slide 2.1.1

 


Slide 2.1.2

 


2.2.O aeroporto de Alcochete como indutor da mudança de paradigma

Em linhas gerais concordamos com a análise de Fernando Alexandre e com a proposta de alteração de paradigma “Do made in ao created in”.

Fernando Alexandre não é o primeiro a propor soluções deste tipo, que morrem na praia por nunca ocorrer a alteração radical de políticas publicas que impedir a alteração de paradigma e antes a apoiem com toda a firmeza.

Receamos que a proposta de Fernando Alexandre morra na praia, mas ultrapassamos este receio.

No estudo publicado pela FFMS não há qualquer referência a aeroportos em geral e ao de Lisboa em particular. E não há por os atuais aeroportos não estarem no caminho critico da mudança de paradigma.

Ao integrar a Comissão Técnica Independente Fernando Alexandre cauciona o modelo do novo aeroporto ser gerador da formação da Cidade Aeroportuária, no espaço rural em que se insere?

2.3.Admitamos que, em 2038, quando Alcochete abra ao tráfego aéreo, a Economia e Sociedade portuguesas estejam a atrair a “creative class” que contribui decisivamente para a alteração de paradigma.

Haverá em Portugal, várias localizações a competir para atrair esta gente. Têm escolas internacionais, acesso fácil a golf e surf, pacote de oferta cultural acessível, etc.

-qual é a competitividade de uma ‘cidade aeroportuária’ em formação, no meio do campo e longe de tudo, só porque está a 10 minutos do novo aeroporto de Lisboa?

2.4.Em nossa opinião, zero, mas a nossa opinião não conta.

Rosário Macário é co-autora de artigo científico publicado em 2011: Critical  Factors for de the development of Airport Cities

http://web.tecnico.ulisboa.pt/~vascoreis/publications/2_Conferences/2011_1.pdf

Citamos o Abstract:

-“This paper addresses the recent trends of airport-centered real-estate development, with emphasis in the concept of airport city. Airport cities are major economic hubs exhibiting over the past decades substantial growth and profits. However, the process of evolution towards an airport city revealed being difficult, as airports worldwide have failed in the attempt.

The purpose of this research was to identify the essential conditions or critical factors necessary for the emergence of an airport city. The authors conducted a key informant survey to thirty respondents complemented with personal interviews to eight of them.

The results suggest the existence of four main critical factors for the development of an airport city, being:

-the connectivity of the airport and its surroundings;

-the economic potential of the hinterland;

-a sustainable development context;

-a commercial attitude by the airport operator.

O espaço rural em que o novo aeroporto se insere não responde aos três critérios decisivos – ver slide 2.5.1

 

2.5.A Cidade Aeroportuária de 2008

Na preparação do aeroporto de Alcochete de 2008 há um estudo da consórcio Augusto Mateus & Associados, Bruno Soares Arquitectos e DHV/FBO

-“ O relatório procura sistematizar quer as grandes tendências de evolução do transporte aéreo e dos aeroportos, quer os grandes eixos do conceito de cidade aeroportuária, nascido de respostas diferenciadas aos grandes desafios colocados por aquelas tendências, para reflectir sobre o enquadramento do NAL neste modelo de aeroporto.”.

Slide 2.5.3.Mateus.2008



O estudo de 2008 reproduz uma figura de 2000 sobre as cidades aeroportuárias de Schipol e Milão.

Em nossa opinião e senso comum esta imagem destrói a ideia de transpor para o Portugal atrasado de 2023 e para o espaço rural de Canha um conceito que nasce em duas das zoas mais desenvolvidas do Pentágono Europeu.

O Centro de Tiro de Alcochete está situado num descampado.



Estra transposição é de um irrealismo que importa denunciar, antes que os seus defensores criem mais um elefante branco.

Vai forçosamente haver desenvolvimento urbano na vizinhança do aeroporto de Alcochete para alojar os que aí trabalham.

No contexto desta urbe pode haver instalação de alguns serviços.

 

Lisboa 24 de setembro de 2023

Sérgio Palma Brito

Explicação do erro da Comissão Técnica Independente sobre aeroporto Dual em geral e sobre Portela + Montijo em Particular

 

1.A Comissão Técnica Independente comete erro grave ao excluir o Modelo Dual de um aeroporto

‘Modelo dual’ é a operação na mesma de um aeroporto principal e de outro secundário.

1.1.Um primeiro slide retoma o Problema de decisão


 

1.2.A CTI considera o Modelo Dual ineficiente

 


1.3.E o modelo Dual não é recomendável

 


1.4.Nas Conclusões Gerais do Relatório da Fase l (p.78). Temos

-“Pode ainda concluir-se que as opções duais não são recomendáveis pelas seguintes razões:

Significam partição de tráfego, diminuindo o potencial hub;

Não evitam um tempo de espera até à construção da nova infraestrutura

aeroportuária;

Não garantem capacidade no horizonte de 50 anos, requerendo a construção de um

terceiro aeroporto;

Não são mais económicas em termos de investimento e operação/manutenção;

Tendem a aumentar o congestionamento do Sistema de tráfego aéreo.” (p.78).

1.5.Mais argumentos no Planeamento e Desenvolvimento Aeroportuário no Relatório da Fase I

II. Implicações do aeroporto Dual

Da revisão de literatura e de casos práticos foi possível concluir que o conceito de dual implica duas infraestruturas fisicamente separadas, mas que funcionam com uma gestão articulada.

Um modelo dual pode ser operacionalizado em diferentes formas, baseado em opções

greenfield (nova infraestrutura) ou brownfield (aproveitamento de infraestruturas

existentes).

Foram avaliadas as vantagens e inconvenientes das opções duais, e concluiu-se que este modelo é gerador de diversas ineficiências, segundo diferentes perspetivas:

a) Da gestão da infraestrutura, pela duplicação de serviços e equipamentos,

impossibilitando economias de escala;

b) Das companhias aéreas que, mesmo não dividindo a sua operação, ficam limitadas na interação entre companhias, tanto da mesma aliança, como de alianças diferentes;

c) Dos utilizadores individuais, pois dificulta, senão mesmo impossibilita, o transfer entre voos que estejam em diferentes infraestruturas, por exemplo transitar de um voo ponto-a-ponto, para um voo em hub.

 

2.Afinal, qual é o problema?

2.0.A CTI ignora a segmentação do tráfego em Lisboa e outras cidades da Europa:

-tráfego intraeuropeu ponto a ponto de companhias low cost e

-tráfego de hub da companhia nacional mais o de outras companhias full service.

O problema é que este erro de base elimina a exclusão do modelo dual pela CTI.

O problema é os cientistas da Universidade ignorarem a realidade sobre a qual se pronunciam.

Citamos o Estudo ANAC/Roland Berger de 2016 que a CTI é suposta ter lido.

2.1.Há diversas cidades europeias onde coexistem duas ou mais infraestruturas aeroportuárias


 2.2.Os aeroportos secundários tendem a ser impulsionadores de crescimento de tráfego – LCC como principal motor

 


2.3.Uma boa estratégia associada a aeroportos duais tende a fomentar o crescimento de tráfego alavancando nas LCC

 


2.4.Last but not the least – investimento da ANA SA em Portela + Montijo

Em janeiro de 2019, Estado e ANA SA acordam investimento de €1.300 milhões no aeroporto dual Portela + Montijo, previsto para 50 milhões de passageiros em 2050, sem recurso a fundos públicos e com acesso fácil pelo Tejo e acesso dedicado à Ponte Vasco da Gama.

A CTI ignora o compromisso da Vinci em aeroporto Dual.

3.Conclusão

A CTI ignora a realidade.

A CTI toma decisão estruturante com base nesta ignorância.

Que consequências tem este desastre para a validade da Avaliação Ambiental Estratégica?

E para Montijo, aeroporto de transição?


Lisboa 22 setembro de 2023

Sérgio Palma Brito

A infeliz intervenção do Bastonário da Ordem dos Engenheiros no Negócios da Semana de 25 de julho de 2023

 É preciso ver o video (editado) até ao fim.







1.A pessoa no vídeo é o eng.º civil Fernando de Almeida Santos, fundador e CEO da TABIQUE (importante empresa de engenharia) e Bastonário da Orem dos Engenheiros.

Neste vídeo, caricatura o passageiro de hub da TAP que chega ao Montijo em low cost e tem de ir apanhar o avião da TAP ao Aeroporto Humberto Delgado (AHD).

A intervenção demonstra ignorância da realidade que caricatura, com final de defesa da Pátria que só agrava o caso.

Como é possível um profissional do gabarito de Fernando de Almeida Santos criticar realidade que desconhece?

A nossa explicação é a da sua ignorância resultar das pessoas com que lida na CTI e na Ordem e nas quais confia.

Acontece que a cultura da CTI assenta em desconhecimento da realidade que intervenções como esta reforça, em espiral negativa à qual é necessário por cobro.

Por outras palavras, FdeAS tem a noção que conhece o assunto que critica, quando apenas conhece a realidade virtual em que boa parte das gentes da CTI vivem.

Segue a explicação.

2.Entre outros, a CTI critica a solução dual (duas infraestruturas fisicamente separadas, mas que funcionam com uma gestão articulada) com base em “Problemas de ineficiência” de que destaca:

-“Dos utilizadores individuais: dificulta, senão mesmo impossibilita, o transfer entre vôos que estejam em diferentes infraestruturas, por exemplo transitar entre um voo ponto-aponto e um voo em hub.”.

A CTI mostra desconhecer a realidade da procura para o aeroporto da Portela o que é grave por a procura ser o fator que condiciona a sua expansão.

A procura da Portela pode ser segmentada entre

-voos intercontinentais de hub da TAP ou não e voos de medio curso de companhias que optam por voar para a Portela, as full service mais easyJet e pouco mais,

-os voos de médio curso intraeuropeus em que dominam as companhias low cost, mas não só.

São estas que voam para o Montijo.

Nenhuma destas companhias alimenta o hub da TAP.



“Está em marcha uma campanha orquestrada para descredibilizar a Comissão Técnica Independente”.

 

Segundo este ex-Bastonário da Ordem dos Engenheiros,

-“Está em marcha uma campanha orquestrada para descredibilizar a Comissão Técnica Independente” (CTI).

E acrescenta,

-“É altura de colocar um ponto final e deixar a comissão trabalhar em paz e sossego".”

O ex-bastonário não arranja melhor do que criar o inimigo externo, orquestrado por desígnios malignos, e quer ponto final nas críticas.

A isto respondemos com Umberto Ecco no Construir o Inimigo:

– “para manter o povo sob controlo é necessário inventar constantemente inimigos, e pintá-los de maneira a inspirarem medo e repugnância”.

Por coincidência, é a partir de hoje que iniciamos a publicação de posts a analisar o trabalho da CTI

Como sempre as nossas críticas assentam em factos, respeitam as pessoas e estão sujeitas a contraditório.

E contribuiremos para a CTI trabalhar melhor, não insistindo em erros crassos que tem vindo a cometer.

A opinião do ex-bastonário será analisada em post próprio.



Aeroporto de Lisboa: os custos que Governo e Comissão escondem

 Texto do artigo publicado no Sol em 21 de julho de 2023



Não vai ser fácil. Basta percorrer o Portugal da expansão urbana que segue a migração da população rural para as grandes cidades do litoral, desde os anos cinquenta. Na esmagadora parte dos casos não houve planeamento urbano.

 

por Sérgio Palma Brito

Autor de TAP, €3.200 milhões depois, que futuro? Militante do Partido Socialista

 

Portugal, Lisboa e o Aeroporto Humberto Delgado não podem esperar 10 ou 12 anos pelo novo aeroporto e sua Cidade Aeroportuária. É preciso um aeroporto de transição. O novo aeroporto tem custos escondidos.

 

1. Interesse do país impõe rápido ‘aeroporto de transição’ 

*‘aeroporto de transição’ 

e ‘infraestruturação urbana muito próxima’

O novo aeroporto demora 10 a 12 anos e prolonga a perda de receita turística, e degradação da imagem de marca (reputação) do país e do destino Lisboa.

Está em causa o interesse nacional, que exige um compromisso sobre medidas excecionais para apressar a entrada em serviço de ‘aeroporto de transição’. 

O ‘aeroporto de transição’ é o projeto Portela + Montijo, acordado entre Estado e ANA em janeiro de 2019, financiado por esta, sem custo para o contribuinte, e com Declaração de Impacte Ambiental aprovada. Repito, sem custo para o contribuinte.

Em entrevista recente, Gonçalo Byrne é claro: «Se a solução, por exemplo, for como aquela que está, Portela e Montijo, já há infraestruturação urbana muito próxima. Agora, se for para Alcochete, se for para Pegões… o que eu sei é que vai resultar numa pressão urbanística brutal. E os municípios, que estão articulados, já sabem disso. Vemos já enormes pressões urbanísticas». (Público, 2023.07.02).

 

*Coragem política 

- precisa-se

O ordenamento do território tem base cultural sólida. Foi a aplicada no Algarve pelo Plano Dodi, inspirado pelo ministro Arantes e Oliveira, e formalizada mais tarde por Ian McHarg. Na quintessência, compatibiliza diversos graus de exigências de preservação e de desenvolvimento.

O ‘aeroporto de transição’ responde positivamente a esta análise. Tem impactes ambientais, mas cria valor para a cidade e país, isto é, para os portugueses.

Vai ser combatido pelo ambientalismo radical de fachada mais ou menos científica que, na sanha de tudo afirmar proteger, desprotege o homem. Esta sanha tem de ser contrariada com argumentos de base técnica e científica do modelo ‘compatibilizar’ a apoiar forte determinação política.

Vivemos momento de verdade em que o país precisa da coragem política do primeiro-ministro e do líder do principal partido da oposição para tomar e impor esta decisão. Sem excluir, claro outras forças políticas.

Não falo em seu nome, mas estou autorizado a referir Associação da Hotelaria de Portugal e da Associação o apoio deste compromisso pela a Confederação do Turismo de Portugal, da Associação da Hotelaria de Portugal e da Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo.

2. O elefante branco na Comissão Técnica Independente 

*O hub da CTI é a Cidade Aeroportuária e não o da TAP

A cidade aeroportuária é o elefante branco nos trabalhos da Comissão Técnica Independente. Na apresentação de 2023.04.27, a CTI considera o hub intercontinental da TAP no aeroporto de Lisboa. Depois, designa hub algo de muito diferente: 

-«Um hub em Lisboa, além de ser uma entrada / saída para os nichos de mercados tradicionais de África, América Latina e América do Norte, potencia a conectividade com outros mercados, conferindo ao país maior capacidade competitiva em termos ibéricos, europeus e, fundamentalmente, Globais».

Esta definição é a da cidade aeroportuária, ausente nos trabalhos da CTI. É o que leva Gonçalo Byrne a declarar: «Quando vejo a constituição das valências desta comissão técnica, a componente urbana não está lá».

 

*Aeroporto em espaço rural exige Cidade Aeroportuária importante

A CTI utiliza ‘aeroporto greenfield’ a sublimar os aeroportos em espaço rural de Canha e S. Vicente do Paul, batizados de Alcochete e Santarém.

Ainda segundo Byrne, «a opção a conhecer em 2024 gerará operações imobiliárias brutais e teme que os instrumentos de planeamento e ordenamento do território sejam insuficientes para moderar essa pressão». 

Ambos são aeroportos em espaço rural, indissociáveis de cidade aeroportuária, fruto de duas dinâmicas. A de alojar percentagem elevada dos cerca de 12.000 trabalhadores no futuro aeroporto. E a de atrair pessoas, instituições e empresas qualificadas que vão formar o hub proposto pela CTI.

É esta cidade aeroportuária que preocupa Gonçalo Byrne e deve preocupar os portugueses. 

O planeamento urbano está ausente dos trabalhos da CTI por decisão política a que esta deu cobertura ‘técnica e científica’. Governo e CTI estão a tempo de reparar rapidamente o erro. 

 

3.Planeamento urbano prévio e custo da cidade aeroportuária

*Planeamento Urbano prévio

De novo a Gonçalo Byrne: «Mas é estranho que as outras especialidades, das arquiteturas, não estejam presentes. Não só da arquitetura como pensamento, conceção, com uma visão… diria holística, de tudo. E as consequências do que é esta ‘cidade’ aeroportuária a funcionar no futuro. Porque, se elas não são contempladas, vai acontecer aquilo que aconteceu com os outros aeroportos. O aeroporto da Portela, como cidade, é um desastre».

Não vai ser fácil. Basta percorrer o Portugal da expansão urbana que segue a migração da população rural para as grandes cidades do litoral, desde os anos cinquenta. Na esmagadora parte dos casos não houve planeamento urbano.

Se houver coragem para localizar a cidade aeroportuária em terreno público… está dado o primeiro passo do sucesso, por castrar a especulação imobiliária de transformar solo rural em urbano.

A cidade aeroportuária, indissociável do aeroporto em espaço rural, tem de assentar em planeamento urbano prévio, apesar deste prolongar os problemas atuais do AHD, do destino Lisboa e do país.

 

*Esta Cidade Aeroportuária tem custo nunca estimado

A CTI escamoteia os custos do aeroporto. Caso de aerogare, pistas etc. em terreno não preparado. Mais as infraestruturas urbanísticas públicas. E, sobretudo, acessibilidades faraónicas que incluem a terceira travessia sobre o Tejo. 

A freguesia do Parque das Nações dá uma ideia do que será a cidade aeroportuária. São 5,44 km² de área e população de 22.382 habitantes em 2021 (INE).

Para os 12.000 trabalhadores no AHD e suas famílias há custos muito importantes. Há os pessoais (reorganizar trabalho e escolas de filhos, etc.), os sociais (perda da identidade local), os económicos (habitação e outros), os macroeconómicos (alocar recursos) e os dos serviços públicos.

O investimento em infraestruturas urbanísticas e serviços públicos será investimento do Estado e da autarquia. O dos serviços será custo de empresas. O investimento da habitação fica a cargo dos particulares.

Aeroporto e cidade aeroportuária criarão as dinâmicas económicas, sociais e culturais na base do sucesso que a CTI assume? Ainda pagamos obras faraónicas sem relação com a sociedade e economia do país. O aeroporto em espaço rural e sua cidade aeroportuária correm risco sério de ser mais uma destas obras. E os contribuintes pagam.

 

4. Portugueses, acordai!