Porque razão faz sentido o Grupo Lufthansa adquirir a TAP e quais as implicações para a TAP?

 

Apresentamos factos com indicação de fonte e limitamos o comentário ao mínimo, mas temos opinião.

A possível integração da TAP no Grupo Lufthansa

-exige que a Deutsche Lufthansa AG, cotada na bolsa de Francoforte, detenha uma maioria qualificada do capital da TAP,

-implica reestruturação a sério da TAP, nomeadamente mas não só, alteração profunda do Acordo de Empresa, com quase certo conflito laboral intenso,

-salva a TAP da insolvência a que está destinada se continuar a ser companhia ‘independente’, no sentido de não integrada no seio de um dos três Grupos da consolidação de Full Service Carriers na Europa,

-é benéfica para o País.

 

1.Contexto competitivo na Europa

Na Europa há três grandes grupos da consolidação de Full Service Carriers

-International Airlines Group (British Airways, Iberia, Vueling, AerLingus e Air Europa pendente).

-Lufthansa Group (Lufthansa German Airlines), SWISS, Austrian Airlines, Brussels Airlines e Euro Wings) – a seguir também referido como Grupo,

-Groupe Air France/KLM.

IAG e Lufthansa Group são os grupos mais importantes, dinâmicos e competitivos. No caso da TAP é isto que está em causa.

 

2.Qual a razão do Grupo Lufthansa querer adquirir a TAP?

*Efeito da aquisição da Air Europa pelo IAG – novembro 2019

No início de novembro de 2019, o IAG anuncia a aquisição da Air Europa, uma companhia privada espanhola com forte ligação à América Latina.

Esta aquisição insere-se na estratégia do IAG fazer de Madrid um hub capaz de rivalizar com Londres, Paris, Amesterdão e Frankfurt (ver Fonte da Figura 1 e IAG – Annual Report and Accounts 2020, p. 6)

A figura 1 ilustra a parte de mercado dos três grupos mais LATAM e TAP nas rotas entre Europa e América Latina. Constatamos:

-o Grupo Lufthansa com parte de mercado inferior às dos concorrentes, e ainda menor após a aquisição da Air Europa pelo IAG,

-o contributo que a aquisição da TAP pelo Grupo para a atual parte de mercado.

Por esta altura David Neeleman procura comprador para a sua posição no Consórcio a que se poderia associar Humberto Pedrosa.

Pelo que consta, o Grupo Lufthansa manifesta interesse e está então disposto a pagar um preço de oportunidade para vir a adquirir a TAP.

Figura 1 – Mercado Europa-América Latina


 Fonte: https://www.ft.com/content/6c28f107-8156-4a97-a2ba-2662104f6871 Financial Times cuja assinatura recomendamos.

*Efeito da aquisição da Air Europa pelo IAG na atualidade

Entre o final de 2019 e o de 2021, este contexto evoluiu:

-perante o investimento que a Air Europa exige e a alternativa do IAG começar de novo, mais as exigências da Comissão Europeia em defesa da concorrência no aeroporto de Madrid, o IAG desistiu da aquisição,

-o custo de oportunidade para o Grupo Lufthansa é menor, mas a TAP capitalizada e com redução de custos é mais interessante do que a de 2019.

Há aqui duas questões cuja resposta não pode ser ignorada:

-o mercado da TAP é o Brasil e não a América Latina, vai o Grupo expandir as rotas da TAP?

-o hub Lisboa no Europa/América do Norte interessa ou não ao Grupo para vender destinos a oeste de Francoforte?

*América Latina – continente ausente na estratégia global do Grupo

A figura 2 mostra como a América Latina não conta para o recuperar do longo curso do Grupo no após Pandemia

Figura 2 – Rede Global do Grupo Lufthansa e recuperação do tráfego longo-curso

 

Fonte: Luftahnsa Group, Accelerating our Transformation, apresentação em junho de 2021, slide 13.

*América Latina – continente ausente na recuperação do Grupo

A figura 3 mostra como só a Asia conta para a recuperação futura do tráfego inter-continental do Grupo. A América Latina não é refrida.

Figura 3 – Ausência da América Latina na recuperação do tráfego intercontinental do Grupo

 

Fonte: Luftahnsa Group, Accelerating our Transformation, apresentação em junho de 2021, slide 12.

 

*Em síntese

-o hub de Lisboa e TAP podem responder a estes pontos fracos do Grupo Lufthansa?

-o Grupo está mesmo interessado pela TAP ou as noticias na comunicação social não têm fundamento?

-está o governo consciente da perda de influência politica sobre a TAP se esta for integrada no Grupo?

 

3.Como pode o hub de Lisboa integrar-se no Grupo

*Parece interessante adicionar o hub de Lisboa aos do Grupo

A figura 4 ilustra como a estratégia multi-hub do Grupo responde à procura do seu mercado doméstico.

Figura 4 – Lisboa na rede de hubs do Grupo Lufthansa

 


Fonte: Luftahnsa Group, Accelerating our Transformation, apresentação em junho de 2021, slide 11.

A procura pelo hub de Lisboa é apoiada por mercado doméstico com muito menor poder de compra, mas justifica-se pela capacidade de atrair tráfego intercontinental.

 

4.Como pode a TAP integrar-se no Grupo Lufthansa

Nota - A recente proposta da Lufthansa e MSC adquirirem cerca de 85% da ITA é um precedente que abre uma hipótese de o acordo entre o Estado Português e a Lufthansa não seguir o modelo que descrevemos aqui (editado em 2022.02.03).

*Transformação em curso da estrutura do Grupo Lufthansa

A figura 5 ilustra a evolução da estrutura do Grupo Lufthansa para estrutura mais ligeira e flexível que tem sido vantagem competitiva do IAG.

Nesta nova estrutura

-a Lufthansa German Airlines passa a estar ao mesmo nível operacional das outras companhias do Grupo,

-uma organização em matriz nas áreas funcionais maximiza as sinergias geradas pelas companhias operacionais,

-a parte operacional e de Ganhos & Perdas está nas companhias operacionais,

-a Gestão do Grupo está acima e focada na estratégia, alocação de capital às companhias operacionais e gerar melhoria na remuneração do capital.

Figura 5 – Desenvolvimento da organização do Grupo

 


Fonte: Luftahnsa Group, Accelerating our Transformation, apresentação em junho de 2021, slide 21.

 

*A TAP é obrigada a acompanhar a margem operacional do Grupo

A figura 6 ilustra a evolução da margem operacional dos três grupos e compra com uma margem operacional da TAP que foi de -0,8% em 2018 e 1,4% em 2019.

Daqui resulta

-grande pressão do Grupo para a TAP aumentar a sua margem operacional de modo a não enfraquecer a do Grupo, sujeito a controle rigoroso por acionistas exigentes,

-problemas com a inevitável revisão do Acordo de Empresa, como nunca houve na TAP.

Figura 6 – Evolução da margem operacional dos três grupos

 


Fonte: https://www.ft.com/content/6c28f107-8156-4a97-a2ba-2662104f6871 Financial Times cuja assinatura recomendamos.

*A remuneração do capital investido na TAP

Nos primeiros anos da gestão de Fernando Pinto (2001 e seguintes) o Relatório Anual da TAP (ainda não havia Grupo TAP) mencionavam a obrigação remunerar o capital investido pelo Estado. Esta menção levou sumiço rapidamente e até hoje.

Ignoramos o que a Decisão da Comissão (ainda não divulgada!!!) exige a este propósito, mas sabemos que o Grupo fará esta exigência à TAP.

A figura 6 mostra como as companhias europeias só remuneram o capital a partir de 2015.

É mais uma fonte de pressão sobre a gestão da TAP integrada no Grupo.

Figura 6 – Evolução da rentabilidade das companhias aéreas

 


*A sonhada injeção de capital na TAP ou não há almoços grátis

A tão sonhada injeção de capital do Grupo Lufthansa na TAP implicará a curto ou médio prazo:

-a TAP/Portugal passar a ser mais uma companhia operacional do Grupo,

-poder do Grupo para definir estratégia, aumentar capital e melhorar a remuneração do capital, esta remuneração sendo até agora terreno virgem para a TAP.

O montante que o Grupo paga pelas ações que o governo português detém na TAP

-é pago em cash, em ações da Deutsche Lufthansa AG ou numa combinação dos dois?

*Nota sobre a organização em matriz do reestruturado Grupo  (texto editado em 28 de janeiro 11:35)

Desconhecemos com o modelo de matriz será implementado no Grupo.
Com base na ideia que temos deste modelo, de alguns anos a dirigir uma companhia operacional de multinacional a funcionar em Matriz e consselho de amigo que trabalha com este modelo, posso dar exemplos do que, muito provavelmente, virá a acontecer.
O presidente da TAP companhia operacional faria parte do group management da Lufthansa, com report directo ao CEO do grupo.
Em Portugal teria uma posição mais de General Manager da companhia, com uma postura muito mais operativa do que a atual estrutura de corporate governance da TAP SA.
Caber-lhe-ia
-a implementação de procedimentos e métodos de trabalho do grupo Lufthansa na TAP companhia operacional.,
-‘entregar’ à Deutsche Lufthansa AG os Profits & Losses (EBIDTAR) da companhia portuguesa,
O atual Chief Financial Officer da TAP SA
-passaria a Controller da TAP companhia operacional com report ao CFO do grupo,
-ao nível local e interno da TAP companhia operativa teria responsabilidades de direção financeira, uma vez que incluiria funções específicas do país como impostos, report financeiro e regulamentações locais etc
O mesmo acontecerá com marketing e vendas, recursos humanos etc


Lisboa 27 de janeiro de 2022

Sérgio Palma Brito

Pressão competitiva e concorrência entre companhias low cost e companhias de hub

 

0.Distinguimos entre

-pressão competitiva, quando a companhia low cost não concorre diretamente numa rota, Lisboa/Bruxelas Zaventhem, mas fixa um preço mais baixo na rota Lisboa/Bruxelas Charleroi,

-concorrência direta quando companhia low cost e companhia de hub operam a mesma rota.

O ministro das Infraestruturas Pedro Nuno Santos declarou:

-“O negócio ponto a ponto, o que tem mais sucesso no aeroporto do Porto, está perdido para as companhias de bandeira, porque não conseguimos fazer os mesmos preços, como nenhuma outra companhia de bandeira. (1).

Em três pontos mostramos que esta perda não é total e não é assim tão simples

-reação das companhias de hub à pressão competitiva e concorrência das companhias low cost,

-evolução 2009/2019 da parte de mercado de companhias low cost e full service nos aeroportos da União Europeia,

- parte de mercado das companhias low cost na conectividade direta dos aeroportos da União Europeia.


1.A reação das companhias de hub ou full service à concorrência das companhias low cost data de há cerca de dez anos e assume duas formas.

A primeira é a da redução dos custos unitários para poder competir com as companhias low cost em rotas de lazer, em que o ícone é a AerLingus, e o caso de maior sucesso é o do IAG,

A segunda passa pela integração de uma companhia low cost no grupo, com dinâmica e sucesso diferentes:

-Transavia no Grupo Air France/KLM,

-Vueling no International Airlines Group (IAG),

-Germanwings, depois Eurowings no Grupo Lufthansa.

Se tivermos disponibilidade, divulgaremos um Nota Técnica sobre este tema.


2.No caso da da parte de mercado das companhias low cost na conectividade direta dos aeroportos da União Europeia (gráfico 1)

-as companhia low cost ganham parte de mercado sobretudo nos aeroportos dos Grupos II e III, que não incluem os hubs principais porque todos estão no Grupo 1 com mais de 25 milhões de passageiros,

Gráfico 1 – Evolução 2009/2019 da parte de mercado de companhias low cost e full service nos aeroportos da União Europeia



3.O gráfico 2 analisa a evolução 2009/2019 da parte de mercado de companhias low cost, da companhia do hub e das outras companhias não low cost nos hubs principais (2).

Gráfico 2 – Parte de mercado de três tipos de companhias nos aeroportos dos seis hubs principais da Europa

 


Lendo o gráfico da direita para a esquerda, temos Lufthansa, KLM, Air France, Turkish Airlines, Lufthansa e British Airways.

Neste caso as companhias low cost concorrem diretamente com as rotas que alimentam o hub e criam um problema conhecido às companhias de hub, que as levam a reagir como referimos no ponto 1.

-diminuir custos para rentabilizar a rota ou, talvez o mais frequente, minimizar prejuízos.

Vejamos o caso de cada um dos aeroportos:

-em Frankfurt a parte das companhias low cost aumenta, mas para número modestos, ilustrando a dificuldade que estas companhias enfrentam para se implantar no mercado da Alemanha, se bem que Munique apresente tendência diferente,

-Schipol (Amesterdão) é o hub onde a parte das companhias low cost é mais importante,

-o crescimento da parte de mercado das companhias low cost em Charles de Gaule é de assinalar.

-Istambul é um caso diferente e os slots em Heathrow estão entre o bloqueado e o excessivamente caro o que explica a pequena parte de mercado das companhias low cost e sua estagnação.

É nestes aeroportos que será mais interessante seguir a tendência referida no ponto 4 de as companhias low cost serem as primeiras a recuperar dos efeitos da Pandemia e aumentar a sua parte no modelo de negócio ponto a ponto.


4.Notas Finais

Não temos números para Lisboa e Lisboa é caso especial por os slots estarem bloqueados e por o aeroporto estar congestionado. Veremos qual a companhia que ganha os 18 slots que a Comissão Europeia obrigou a TAP a ceder.

Apesar da enorme incerteza que a Pandemia gera no transporte aéreo na Europa, há quase unanimidade em as companhias low cost

-serem as primeiras a recuperar dos efeitos da Pandemia e aumentar a sua parte no modelo de negócio ponto a ponto,

-aumentarem a pressão competitiva sobre os voos de médio curso das companhias de hub, em geral e, em particular, nos que alimentam o tráfego do hub.

Esta previsão tem a ver com a flexibilidade do modelo de negócio e capacidade de acionistas, gestores e trabalhadores, e também com a evolução desta concorrência entre 2009/2019.

 

Lisboa 4 de janeiro de 2022

Sérgio Palma Brito

 

(1)Eco, 23.12.2021 https://eco.sapo.pt/entrevista/faz-sentido-dar-mais-apoios-nos-voos-para-o-porto/ .

(2)Ver http://sergiopalmabrito.blogspot.com/2022/01/para-conhecer-o-basico-sobre-hubs.html

Nota – Este post é baseado em ACI - Airports Council International – Europe – Airport Industry Connectivity 2019.

 

Para conhecer o básico sobre hubs aeroportuários na Europa

 

1.Hub

A palavra hub entrou no português corrente, não figura bos dicionários e é frequentemente utilizada a desproposito. Este post pretende explicar os rudimentos do hub na Europa e dar uma ideia da rede de hubs no Continente.

Na Europa, o hub faz-nos recuar aos primórdios do transporte aéreo, isto é, antes do Mercado Único de 1992 e da Liberalização de 1993:

-em cada País, há uma verdadeira companhia de bandeira com uma base na capital, onde estacionam todos os aviões e da qual partem todas rotas, com pouca ou nenhuma coordenação de horários entre elas;

-a transformação da base em hub, simplificando muito, pela estruturação dos horários em ondas temporais que permitem ao passageiro tomar outros avião com espera máxima de três horas … o que nem sempre acontece.

Em Lisboa,

-a passagem da base de Lisboa a hub é iniciada em 1999 por técnicos destacados pela Swissair em vias de adquirir participação no capital da TAP,

-a partir de 2001, Fernando Pinto utiliza o modelo de hub para captar tráfego intercontinental entre a Europa/Brasil e vice versa,

-em 2016, David Neeleman utiliza o modlo de hub para captar tráfego intercpntinental entre Europa/América do Norte e vice versa,

-a privatização de 2015 assenta em financiamento da TAP pelo grupo chinês HNA e com o hub a ligar a China a Brasil e América do Norte com a Hainan Airways a ligar a China a Lisboa.

O hub pode operar como

-mero transporte aéreo com os passageiros a não saírem sequer do aeroporto Humberto Delgado, o modelo de Fernando Pinto,

-contribuir para o turismo em Portugal, fomentando visita a Portugal entre dois voos, o modelo de David Neeleman.

Digo Europa por no EUA ser frequente a mesma companhia aérea ter mais de um hub.

2.Os hubs na Europa

O gráfico 1 ilustra a dispersão de hubs na Europa, classificando-os em três categorias e acrescentando os aeroportos e acrescentando uma quarta categoria de que não nos ocupamos para não alongar o texto.

Há três grandes categorias de hubs na Europa.

Nos seis hubs Principais, destacamos

-Frankfurt e Munique, com a Lufthansa em via de concentrar todo o tráfego de hub no primeiro,

 

-o grupo AF/KLM a integrar os dois hubs de importância logo a seguir a Frankfurt,

-Istambul, na Europa, mas com tráfego muito específico,

-Londres Heathrow em sexto lugar, talvez muito pela demora em construir uma nova pista.

Nos hubs Secundários distinguimos

-Madrid que o International Airlines Group pretende promover a Principal,

-Viena e Zurique, hubs do Lufthansa Group,

-Helsínquia até há pouco classificado como hub de Nicho,

-Roma Fiumicino (FCO) que parece resistir às peripécias da Alitalia/Ita,

-Moscovo Sheremetievo (SVO) que não consideramos.

Nos hubs de nicho distinguimos

-Lisboa a liderar o pelotão da frente,

-Bruxelas do Lufthansa Group,

-Dublin do IAG,

Gráfico 1 – Classificação dos hubs da Europa (clicar na imagem)


3.Ranking de hubs aeroportuários da Europa e evolução entre 2009/2019

O gráfico 2 ilustra o ranking dos hubs da Europa e a variação da conectividade de hub entre 2009/2019.

Os hubs estão ordenados segundo métrica do ACI - Airports Council International para a conectividade de hub, na qual confiamos e não detalhamos para não sobrecarregar o post.

Destacamos

-o crescimento de Istambul entre 2009/2019 contras com a perda de Charles de Gaule e a estagnação de Heathrow.

-Dublin ainda é um hub menor, mas os 408,8% de crescimento resultam muito da integração no IAG, o que desmente a teoria da British Airways o desnatar, quando é a BA que também o utiliza para ultrapassar as limitações de Heathrow.

Não detalhamos o crecimento de Varsóvia, Domodedovo Internacional (DME), Ataturk em Istambul (SAW) e KEF (Helsinquia), justificando este uma nota história a publicar quando tivermos disponibilidade

Gráfico 2 – Ranking dos hubs da Europa (clicar na imagem)



4.Consolidação de companhias aéreas e hubs da Europa

As companhia aéreas da Europa não conhecem, nem de perto nem de longe, a consolidação por que passam as suas congéneres dos EUA, fator frequentemente citado como um dos que explicam a sua menor rentabilidade em relação às congéneres dos EUA.

As mais variadas previsões sobre uma ‘vaga de consolidação’ não se concretizam.

A consolidação de hubs na Europa começa a ser o segundo monstro de Loch Ness (parece que existe, mas ninguém ainda o viu …)

5.Curta nota final sobre Lisboa

Qualquer referência ao hub de Lisboa tem de ter em conta este panorama e, entre outros,

-a competitividade da TAP neste panorama de concorrência,

-a possível integração da TAP e hub de Lisboa num dos três grupos da consolidação do transporte aéreo não implicar a sua canibalização, antes poder potenciar o seu crescimento,

-salvas as devidas proporções e como no caso de Heathrow, a maior ameaça ao hub de Lisboa resultar da limitação do aeroporto Humberto Delgado e da estatização da TAP com o peso que tal acionista representa para a empresa (ver o post http://sergiopalmabrito.blogspot.com/2021/07/tap-so-sobrevive-privatizada-em-80.html ).

Voltaremos ao assunto.

 

Lisboa 3 de Janeiro de 2022

Sérgio Palma Brito

 

Nota - Ver ACI - Airports Council International – Europe – Airport Industry Connectivity 2019

 

TAP e Alitalia – o contribuinte é que paga!

 

TAP e Alitalia – o contribuinte é que paga

Este post inclui o texto da terceira entrevista que dei ao Sol. Alterei a edição, mas não o texto.

Concluímos assim uma série de três entrevistas que tentaremos sintetizar num só texto de mais fácil leitura.

 

-Muito se tem falado recentemente sobre Alitalia e TAP, o que têm em comum?

Alitalia e TAP são objeto de reestruturação elaborada por políticos locais e funcionários da Comissão e foram renacionalizadas contra corrente da Liberalização de 1993 que criou mercado muito competitivo concebida para companhias privadas capazes de se adaptar às regras da concorrência e às exigências da procura. A Liberalização desfavorece companhias estatais e politizadas como Alitalia e TAP ‘antigas’ ou ‘novas’, mesmo reestruturadas. Em síntese, TAP e Alitalia têm em comum Estado acionista, prejuízos a mais e o contribuinte é que paga.

-Mas então, o que há de estruturalmente diferente entre TAP e Alitalia?

Alitalia e TAP são diferentes

-na gravidade da situação económica e financeira: entre outros, o resultado líquido acumulado na Alitalia entre 2009 e 2017 é de €-2.603 milhões na Alitalia e €16 milhões na TAP;

-na estratégia empresarial: a Alitalia não opera hub que dê massa crítica à sua rede intercontinental, enquanto a TAP opera hub intercontinental que tem permitido a sua sobrevivência:

-na aplicação da Regulação Europeia: a Comissão demora quatro anos (não é gralha) a decidir sobre a Alitalia e menos de ano e meio no caso da TAP, refletindo ter havido dois pesos e duas medidas, que detalhamos a seguir.

-no tráfego doméstico que representa mais de 50% dos passageiros da Alitalia. Não é tráfego rentável, mas contribui para a importância da Alitalia no país. Em Portugal, a TAP é irrelevante em Faro e no extraordinário crescimento do tráfego no Porto, na RA dos Açores há a SATA e na RA da Madeira abundam queixas.

-Onde estamos na reestruturação da Alitalia?

Para já, temos um happy end. Em dois comunicados de imprensa de 10 de setembro a Comissão Europeia

-conclui que o empréstimo do Estado Italiano à Alitalia em 2017 é ilegal e deve ser devolvido … uma conclusão patética ao fim de quatro anos, por ser empresa renacionalizada e em insolvência a devolver ao Estado,

-considera que a Italia Trasporto Aereo S.p.A. (“ITA”) não é a continuidade da Alitalia e que a injeção de capital publico de €1.350 milhões respeita as regras do mercado.

Entre a carta rigorosa da Comissão de 8 de janeiro de 2021 (ver a seguir) e este comunicado de imprensa teve de haver intensa negociação entre Itália e a Comissão, que só conheceremos com a publicação da Decisão da Comissão, que já tarda. Não escondo recear um compromisso medíocre.

-Mas, afinal o que é a Alitalia e qual o contexto político?

Ultrapassamos a atribulada evolução da Alitalia desde o início do milénio. Partimos de agosto de 2014, quando Alitalia e Ethiad dos Emirados Árabes Unidos assinam acordo que é suposto dar estabilidade financeira à Alitalia e é parte da estratégia da Ethiad para “construir uma aliança de companhias aéreas suscetíveis de alimentar com passageiros a sua frota de longo-curso em crescimento rápido”.

Em 1 de janeiro de 2015, o negócio é transferido para uma nova companhia, a Alitalia - Società Aerea Italiana S.p.A. (Alitalia SAI), de capital italiano privado e 49% (€387,5 milhões) da Ethiad. O acordo prevê uma reestruturação da Alitalia com perda de 2.000 postos de trabalho, 16% do total.

Este é período em que o Crude Oil Brent desce para valores em volta de $50 e a subida de 2017 coincide com a desvalorização do dólar. Mesmo assim, o resultado líquido negativo da Alitalia é €-199 milhões em 2015 e €-410 milhões em 2016, ano em que a margem operacional é de -19%, quando devia ser entre 5% (Lufthansa Group) e 11% (IAG)

O que segue é indissociável do contexto político da Itália, dominado pela crescente influência política de dois partidos: o Movimento 5 Estrelas de Luigi Di Maio, que é anti sistema, e La Liga de extrema-direita de Matteo Salvini. Os dois são antieuropeus e fonte de instabilidade para a economia da Itália, com reflexo no euro e União Europeia. E estamos na Europa em que, a 23 de junho de 2016, o Reino Unido votou o Brexit por 52% contra 48%.

A insolvência começa pelo Natal de 2016, quando o Presidente da Alitalia pede apoio político ao governo para evitar que os acionistas da empresa quebrem o acordo que faz a empresa funcionar. O acordo com os sindicatos reduz para 1.700 lay-offs e 8% de redução no salário. Em 24 de abril de 2017, “Os trabalhadores escolhem o suicídio e recusam o sacrifício”. Em 2 de maio a Alitalia entra em insolvência e continua a operar graças a empréstimo intercalar do Estado de €600 milhões e não notifica a Comissão.

Neste contexto, uma intervenção rigorosa e transparente da Direção Geral da Concorrência provocaria a insolvência da Alitalia o que reforçaria o sentimento antieuropeu e poderia desestabilizar uma das mais importantes economias da União Europeia.

-E depois?

Em maio de 2017, a Alitalia é renacionalizada, em outubro de 2017 o Estado concede novo empréstimo intercalar de €300 milhões e volta a não notificar a Comissão. O governo adia a venda da Alitalia para depois das eleições legislativas de março 2018.

A Comissão recebe várias queixas sobre a Alitalia e não ignora a história da empresa. Margarethe Vestager acaba por reconhecer que a Alitalia está sob investigação desde 2017. Entre outros, a Comissão fica preocupada por o empréstimo de maio de 2017 ser reembolsável em dezembro de 2018, muito para além do limite de seis meses imposto pelas orientações em vigor. É neste contexto de queixas e segredos de Polichinelo que, em janeiro de 2018 a Itália notifica a Comissão sobre o empréstimo de €900 milhões, mas a Comissão só reage depois das eleições próximas.

-E que acontece depois das eleições de 2018?

O Movimento 5 Estrelas (32,6%) e La Liga (35,7%) ganham as eleições de 4 de março de 2018. De outsiders, Luigi Di Maio e Matteo Salvini passam a governo e o sentimento antieuropeu ganha expressão política maioritária. O governo de coligação não traz estabilidade política, ao ponto de os dois partidos coligados votarem um contra o outro no Parlamento, mas o sentimento antieuropeu continua vivo.

O governo tenta vender a Alitalia, mas os compradores (entre outros, easyJet, Delta, China Eastern, Lufthansa Group) desistem face por motivos diversos com base comum, a impossibilidade política de reestruturar a Alitalia.

A 23 de março de 2018 a Comissão anuncia “investigação aprofundada” sobre se o empréstimo de €900 milhões constitui Auxílio de Estado e se respeita as Orientações a Regulação Europeia sobre a matéria. Passaram mais de 10 meses sobre o primeiro empréstimo, durante os quais se sucederam queixas de partes interessadas. Dado o cadastro da Alitalia, seria a mais fácil das investigações da Comissão, mas arrasta-se quase três anos e meio até à confirmação da sua ilegalidade a 10 de setembro de 2021.

A Comissão decide mais de quatro anos depois do primeiro empréstimo e dois anos e meio de “investigação aprofundada” sobre caso mais do que evidente. O processo da Alitalia é mancha indelével na reputação de independência da Direção Geral da Concorrência e da comissária Margarethe Vestager.

-E como surge e se forma a ITA?

Em 5 de setembro de 2019, Giuseppe Conte continua primeiro-ministro, mas de Executivo de coligação entre o Movimento 5 Estrelas e o Partido Democrático, mais pró-europeu do que o anterior. O sentimento antieuropeu diminuiu e diminui ainda mais quando Giuseppe Conte é substituído por Mario Draghi a 13 de fevereiro de 2021.

É neste contexto político que, em 10 de outubro de 2020 o governo italiano decide que a Alitalia se reorganize como Italia Trasporto Aereo S.p.A (ITA). Não temos acesso a informação sobre os antecedentes desta decisão. Margrethe Vestager anuncia que a Comissão analisa a existência de continuidade entre a Alitalia e a ITA e tudo isto acontece com a “investigação aprofundada” de 2018 a decorrer. Parece haver compromisso político da Comissão, porventura por identificar a ITA como a maneira menos perturbadora de levar a Alitalia à insolvência.

-Mais concretamente que faz a Comissão?

Em 8 de janeiro de 2021, a carta da Comissão impõe duas condições à ITA, com inúmeras exigências sobre o Plano de Negócio apresentado pela Empresa. A ITA é a Alitalia reestruturada, mas com descontinuidade entre as duas empresas. Entre outras condições, muito menos aviões, trabalhadores com “novos contratos de trabalho” e em “número significativamente reduzido”, compra da marca Alitalia em concurso publico, redução de slots, controle do crescimento até 2025 e por aí adiante.

A ITA deve respeitar o Market Economy Operator Principle (MEOP), em síntese avaliar se um investidor privado operando em condições normais do mercado faria o mesmo investimento. Destacamos o capital do Estado (€1.350 milhões) ser remunerado como se fosse um investidor privado.

-Que ilações podemos tirar sobre a TAP?

A primeira é a impossibilidade prática de transformar a reestruturação da TAP em curso em nova empresa marcada pela descontinuidade com a TAP. E … continuaríamos a ter nova empresa publica organizada por políticos portugueses e funcionários da Comissão.

A Alitalia beneficia de aplicação desvirtuada da Regulação Europeia e a TAP não, mas pode ser objeto de Decisão da Comissão de compromisso medíocre com a realidade como acontece com a ITA entre a carta de 8 de janeiro e o comunicado da Comissão de 10 de setembro.

-E em conclusão?

Manter o foco na próxima Decisão da Comissão e consequências a tirar, por empresa estatal e politizada ter dificuldade acrescida face às exigências da procura no mercado aberto e competitivo do transporte aéreo na Europa.

O problema de compromisso medíocre com a realidade, mencionado antes, é que esta acabar por impor novo Auxílio de Estado à TAP reestruturada o que é excluído nos dez anos até 2031.

Muito mais importante, a TAP não foi reestruturada, foi depenada a eito e a sua competitividade continua a ser roída pelo tumor maligno não extirpado.

Sérgio Palma Brito, Analista Sénior de Turismo e Transporte Aéreo, autor do livro TAP que futuro? – como chegámos aqui.

 

 

O hub intercontinental de Lisboa e a viabilidade da TAP

 

O hub intercontinental de Lisboa é decisivo para o futuro da TAP, mas nenhuma das partes interessadas publica estatísticas ou elabora estudos que nos informem sobre o que é este hub. Compreendemos o silêncio de TAP e ANA Aeroporto, já não aceitamos o da ANAC como Autoridade (ou falta dela) Reguladora e o de universidades.

Quebramos este silêncio com um post que tem o mérito de existir. Tem erros? Tem. É insuficiente? É.  Convidamos os críticos a informar as pessoas interessadas melhor do que nós.

O ‘hub and spoke’ é um modelo de operação de rotas aéreas que visa aumentar a oferta de destinos ao consumidor via transferência de voos num aeroporto central onde minimiza o tempo de espera do passageiro. Na realidade, é introduzido em Lisboa durante o período em que a Swissair, no âmbito da privatização em curso da TAP, já influenciava a operação da TAP e, entre outros, contrata a equipa de Fernando Pinto.

A partir de 2001, a inovação de Fernando Pinto consiste em captar o tráfego Brasil/Europa para a TAP e hub de Lisboa, por conhecer o mercado e tirar partido da falência da Varig. Neste modelo, o passageiro de hub apenas fz escala em Lisboa.

A partir de 2016, a inovação de David Neeleman consiste em captar o tráfego EUA/Europa para o hub de Lisboa, muito com base em acordo com a JetBlue e seus hubs em Kennedy e Boston. E passa a valorizar a escala em Lisboa.

A privatização de 2015 incluía financiamento pelo grupo chinês HNA e Lisboa hub nas rotas China com as Américas. Estes projetos falham com os problemas do Grupo HNA.

*Tráfego de hub intercontinental no aeroporto de Lisboa

Partimos

-da estimativa que 20% do tráfego de passageiros no aeroporto de Lisboa tem origem no hub intercontinental e que esta percentagem é constante no tempo,

-do facto de um turista a utilizar o hub representa 4 passageiros para as estatísticas aeroportuárias (dois desembarques/embarques, incluindo equipagens e passageiros que geram ou não receita para a companhia aérea).

O tráfego de hub intercontinental acelera o crescimento a partir de 2014 em linha com o tráfego intraeuropeu. Desconhecemos a origem deste acelerar do crescimento.


 
Fonte: Elaboração própria com base no tráfego do aeroporto de Lisboa (ANA Aeroportos) e estimativa pessoal.

Este tráfego é decisivo para a TAP e muito importante para a ANA Aeroportos, por ser 200% a pagar taxas elevadas e a fazer compras na zona comercial do aeroporto.

*Importância do hub intercontinental de Lisboa para TAP

A importância do hub intercontinental para a TAP tem duas dimensões:

-a mais importante e de muito longe é a de viabilizar a TAP pelo resultado operacional e líquido que gera – sem o tráfego de hub, a TAP não é viável,

-a de contribuir para viabilizar rotas que não seriam rentáveis apenas com o tráfego ponto a ponto de origem e destino Portugal.

Tem efeito marginal de permitir tráfego de carga no porão, gerando receita e resultado positivo (a verificar).

Um turista de hub representa 2 Passageiros TAP (dois embarques de passageiros que geram receita). No caso presente incluímos também os passageiros que não geram receita, como equipagem e convidados, por dividirmos os passageiros ANA Aeroportos por 2. Aeroportos e companhias aéreas têm métodos diferentes de contagem estatística.

 

Fonte: Elaboração própria com base no tráfego do aeroporto de Lisboa (ANA Aeroportos) e estimativa pessoal.

*Importância do hub intercontinental de Lisboa para a oferta de turismo do País

O passageiro de hub

-nada contribui diretamente para a oferta de turismo de Lisboa ou do País quando se limita a fazer transferência entre voos no aeroporto,

-contribui se for incentivado a fazer uma escala de um ou mais dias em Lisboa,

-contribui indiretamente por viabilizar rotas e frequências com trafego ponto a ponto, sem o qual a rota não seria rentável e seria cancelada.

Um turista de hub representa 2 Passageiros TAP (dois embarques de passageiros que geram receita). Aeroportos e companhias aéreas têm métodos diferentes de contagem estatística.

  


Fonte: Elaboração própria com base no tráfego do aeroporto de Lisboa (ANA Aeroportos) e estimativa pessoal.

*Receita de Viagens e Turismo em parte gerada pelo hub

A Receita de Viagens e Turismo na Balança de Pagamentos gerada por residentes nos Brasil e EUA tem duas origens:

-tráfego da TAP que, no caso do Brasil é dominante e de muito longe, gerado direta ou indiretamente pelo tráfego de hub,

-tráfego de companhias aéreas desses países que, no caso dos EUA tem algum significado.

Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal

Na base deste tráfego está a capacidade de atração de destinos turísticos do País, com destaque para Lisboa, mas não só.

A Receita de Viagens e Turismo na Balança de Pagamentos ilustra

-o evidente efeito do hub EUA/Europa a partir de 2016, combinado com o crescente poder de atração do destino Lisboa,

-no caso do Brasil, o crescimento da Receita pode em boa parte ser fruto da qualificação da oferta da TAP que começa em 2016 e arranca depois com os Airbus 330neo e 320 LR.

A TAP opera no Brasil por ser indicada como uma das duas companhias que o Acordo Bilateral de 2007 (melhorado recentemente) – é um ativo do País e da TAP a que acresce o valor da marca TAP no Brasil. Em caso de insolvência da TAP, este valor não tem alternativa low cost e exige ponderada consideração.

No caso dos EUA e apesar de haver companhias americanas a operar, o crescimento do tráfego a partir de 2016 resulta muito do hub EUA e do code-share que David Neeleman acorda rapidamente com a Jet Blue. Em caso de insolvência da TAP, este tráfego pode ser visto como concorrente ou complementara ao de outras companhias full service a operar no Atlântico Norte. Não será um ativo tão seguro como o do Brasil.

*Dormidas na Hotelaria e Alojamento Turístico de Lisboa em parte geradas pelo hub

Nos gráficos que seguem,

-Hotelaria é limitada aos Estabelecimentos Hoteleiros.

-Alojamento Turístico inclui Estabelecimentos de Alojamento Local com mais de 10 unidades.

As Dormidas de residentes do Brasil e EUA nas outras unidades de Alojamento Local não é considerada, mas parece ser considerável.

Nem todas as Dormidas são geradas por passageiros TAP, mas uma boa parte é. No cenário de insolvência da TAP, este é o negócio que tem de ser acautelado.

 


Fonte: Elaboração própria com base em INE via Associação Turismo de Lisboa.

 


Fonte: Elaboração própria com base em INE via Associação Turismo de Lisboa.

 

*Nota Final

A finalizar esta informação rudimentar sobre o hub intercontinental de Lisboa, apenas um apelo:

-que muitos façam mais e melhor do que eu.

 

Lisboa 1 de setembro de 2021

 

Sérgio Palma Brito

 

"TAP só sobrevive privatizada em 80%"

 

Esta é a solução apontada por Sérgio Palma Brito para que a companhia aérea possa sobreviver no mercado após pandemia. O especialista em aviação aponta o dedo ao trabalho feito pelo Governo considerando que está ‘a descolar da realidade e a entrar em delírio, com a oposição a andar lá perto, apenas se notando menos’.

Nota – Este é o texto da entrevista conduzida por Sónia Peres Pinto e publicada online ( https://sol.sapo.pt/artigo/741633/tap-so-sobrevive-privatizada-em-80-?fbclid=IwAR2PbexfPho8v50fRBvXoVeZQVSvR03oO4lCd_ASdt5ejHXQLZteOqKUjfo).

Fizemos correções menores e introduzimos parágrafos para aligeirar o texto. No título, a palavra ´sobrevive’ deve ser substituída por ‘viável’.

 

O que está a falhar na gestão da TAP?

O Estado português continua a administrar e gerir a TAP SA segundo a cultura e dinâmica da política partidária nacional. Acontece que a empresa opera no âmbito da liberalização gerada pela regulação europeia do transporte aéreo, concebida para empresas privadas ligeiras e flexíveis na adaptação às exigências de um dos mercados mais competitivos da Europa, o do transporte aéreo. Em mercado competitivo, a cultura e ação da gestão sobrepõe-se à cultura e ação da política partidária como a conhecemos em Portugal. Acontece que o plano de reestruturação prevê que a participação do Estado no capital da TAP atinja mais de 90%, em choque quase frontal com as exigências da liberalização e adaptação à competitividade do mercado.

A Comissão Europeia não parece convencida com o plano de reestruturação apresentado, tanto que anunciou que ia avançar para investigação aprofundada…

Apesar de só ser conhecida pelo comunicado de imprensa, a decisão da Comissão Europeia revelada a 16 de julho vem mostrar como a intervenção do Estado na TAP tem divergido das empresas cotadas, direta ou indiretamente, em bolsa. A prazo, os contribuintes pagarão estas opções. Recorde-se que a 9 de junho de 2020, Portugal notifica a Comissão da sua intenção de dar um apoio de à TAP de 1.200 milhões de euros para fazer face a urgentes problemas de liquidez. No dia seguinte, a Comissão decide autorizar auxílio de emergência, reembolsável em seis meses ou gerando pedido de Auxílio de Estado com base num plano de restruturação. Em dezembro de 2020, Portugal apresenta o plano de reestruturação da TAP, com Auxílio de Estado até 3.700 milhões. A 19 de maio de 2021 o Tribunal Europeu de Justiça, perante queixa da Ryanair anula a decisão de 10 de junho de 2020 e dá prazo de dois meses para a Comissão agir. A 16 de julho, a Comissão confirma o Auxílio de Emergência e decide ‘investigação’ que deverá tomar entre três a quatro meses. Voltamos a esta sucessão de datas. Uma vez expurgada de aspetos confidenciais, a decisão de 16 de julho será publicada no jornal oficial da União Europeia para consulta pública e será então objeto de comentário nosso. A decisão final será tomada mais tarde, tendo em conta a consulta publica e, essa sim, é a decisiva.

E com isto a TAP vive uma situação de impasse….

A TAP atrasa o poupar da tesouraria e a elaborar o plano de reestruturação por saber que tem o apoio do Estado. Volto a citar o primeiro-ministro no Parlamento: ‘Haja o que houver, a TAP continuará a voar com as cores de Portugal e continuará a cumprir missões absolutamente essenciais como assegurar a continuidade territorial, a relação com a nossa diáspora e os serviços de interesse público que presta no Continente e na ligação com as duas regiões autónomas’. É o equivalente de um filho que se droga ouvir do pai “serás sempre meu filho e terás o dinheiro que precisares”.

Mas não é uma política seguida só pela TAP?

A partir de março de 2020, poupar na tesouraria tem sido a preocupação principal de todas as companhias aéreas, o que implica reduzir custos de pessoal. Têm tido auxílios de Estado da linha covid, mas no âmbito de gestão rigorosa. Os Estados da Dinamarca e Suécia detêm 29,66% do capital da SAS, que é cotada em bolsa. Em março de 2020, a administração já tinha decidido despedir 5.000 trabalhadores. Em junho de 2020, mais de 4.000 despedimentos estavam concretizados e reduziu queimar tesouraria. Entre 31 de dezembro de 2019 e de 2020, o pessoal ativo da TAP passa de 9.006 unidades para 8.106  –  de acordo com os relatórios da TAP SA, no site da CMVM – menos 900 unidades ou 10%. No entanto, o essencial dos cortes de salários só acontece em março de 2021. O Governo atrasa os custos políticos e sociais de corte rápido e importante de pessoal, ignorando a realidade que o CEO da SAS não ignora, mas com confiança no futuro ‘I’m truly looking forward to once again welcoming you on board a SAS flight in the near future’. O Governo português aumenta o valor do Auxílio de Estado que vai ter de compensar a 50%.

Por outro lado, a capitalização que a TAP carece implica o aumento de capital com o Auxílio de Estado e é inevitável o plano de reestruturação da TAP. Deixamos de parte a descapitalização da TAP até à privatização de 2015. O grupo chinês HNA é o financiador da TAP privatizada, mas entre 2016/17 desaparece. A TAP da reversão da privatização passa a necessitar de recapitalização com Auxílio de Estado e reestruturação, necessidade reforçada pelos maus resultados de 2018-2019 (58,1 e 95,6 milhões de euros, respetivamente) e previsão negativa em 2020. O Governo ilude esta necessidade por ter custos políticos e sociais, e agravando a situação financeira da empresa. Por fim, a pandemia torna este auxílio imperioso em março de 2020, mas ainda assim, a Comissão só é notificada em 9 de junho de 2020.

O plano vai ser elaborado por uma estrutura acionista, administração e gestão desestabilizadas a partir de junho de 2020, quando o ministro traz para a praça pública os prémios de gestão. Os atrasos no poupar na tesouraria e o elaborar o plano e a inoportuna desestabilização têm consequências negativas e resultam de gestão político partidária da TAP. Situações que não aconteceriam com gestão privada, mesmo com participação minoritária do Estado como acontece na SAS. 

Acha que o Governo ilude-se e ilude portugueses em relação à aprovação do plano?

A Comissão recebe o plano de reestruturação no limite do prazo de 10 de dezembro de 2021. Apesar das férias e do timing próprio às decisões da Comissão, o Governo envia primeira mensagem de otimismo: ‘Plano aprovado antes do fim de março’. Depois, será aprovado em abril, ou logo a seguir maio. Em 21 de fevereiro, o presidente da TAP afirma ‘Não me passa pela cabeça que o plano não seja aprovado em Bruxelas’. Algum egocentrismo faz-lhe esquecer que a cabeça que vai decidir está em Bruxelas.

Finalmente, a decisão chega em 19 de maio de 2021, mas é a sentença do Tribunal Europeu de Justiça que desmente a ilusão do Governo. Isto porque, anula a decisão da Comissão de 10 de junho de 2020, a qual dá prazo de dois meses para tomar nova decisão e/ou seguir a via da investigação para esclarecer dúvidas sobre a compatibilidade da decisão com as regras sobre auxílios estatais, com um prazo razoável. O ministro liga esta investigação a interesses comerciais de concorrentes, nomeadamente da Ryanair. Para o primeiro-ministro, ‘aparentemente é a Comissão Europeia que tem de prestar informações complementares’ e acrescenta: ‘Para já, não tem consequência nenhuma. Não significa nada, nenhum atraso. Vamos continuar a executar tudo como temos estado a executar.’. O não significar nenhum atraso é um erro crasso. Nesta fase, o pico da ilusão é atingido pelo Presidente da República ao chamar de ‘monitorização’ a decisão da Comissão de 16 de julho de 2021 ‘we have also opened an investigation into the restructuring aid notified by Portugal’.

Agora, a anedota. O ministro é suposto conhecer o prazo que o Tribunal fixou à Comissão e a certeza de haver notícias até ao dia 19 de julho. Na entrevista de Miguel Sousa Tavares refere que o plano já não está em negociação e espera que a breve prazo – dias ou poucas semanas – seja aprovado pela Comissão. A 16 de julho, a decisão da Comissão implica que a decisão final sobre o plano de reestruturação demore mais de três meses. O ministro mostra ignorar a evolução do processo em Bruxelas ou não diz a verdade aos portugueses. Em 20 de julho no Parlamento, o ministro reduz a ‘investigação aprofundada’ e ‘consulta publica’ a ‘dar robustez jurídica ao que estamos a fazer’. Omite ser quase certo que ‘investigação aprofundada’ e ‘consulta publica’ terão consequências gravosas para a TAP, que admite ao referir que ‘a redução que foi feita não é suficiente’.

A cultura e dinâmica da política partidária permite que o Governo se iluda e iluda os portugueses sobre aprovação do Plano. Nada disto seria possível numa empresa cotada em bolsa, sob o controle de acionistas que seguem o valor das suas ações. 

Acha que o Governo omite os custos da reestruturação? 

O Governo só agora refere explicitamente três componentes do plano de reestruturação que podem ser muito gravosas para os portugueses. A mais simples e mais forte é a de que, após um auxílio de Estado, não poder haver outro durante dez anos. Trata-se de assegurar que o dinheiro dos contribuintes não é desbaratado em apoios sucessivos a companhias aéreas inviáveis em mercado aberto. Mais concretamente, após o auxílio previsto no plano de reestruturação, a TAP não poderá contar com outro antes de dez anos. Se precisar … é a falência.

A segunda componente é a da contribuição da própria empresa dever pagar 50% do custo da reestruturação em dinheiro real e não em previsões criativas. Só agora é que sabemos que o valor proposto pelo Governo é insuficiente. Segundo a comunicação social, o Governo começa por recusar ‘cortes nos salários, despedimentos ou venda de mais aviões’ e admite quatro alternativas complementares. Baixa o auxílio nos 512 milhões de garantia bancária, imaginando que a TAP se poderá financiar no mercado, aumenta o risco da ajuda insuficiente e aí a TAP não sobrevive. Pode ainda esperar que os montantes da ajuda que a TAP recebeu na covid não contem. Por fim, tem o ‘trunfo na manga’ da Lufthansa entrar no capital da TAP em posição minoritária, havendo aparente interesse recíproco. Dito isto, no Parlamento a 20 de julho, o ministro já admite: ‘Um dos nossos riscos é que a redução que foi feita não é suficiente’ e, segundo a imprensa, ‘a investigação aprofundada que Bruxelas abriu à reestruturação da TAP pode levar a mais saídas de pessoal da companhia’.

A terceira componente do plano de reestruturação é o esforço da companhia para limitar as distorções à concorrência que o auxílio de Estado implica e passa pela redução de atividades rentáveis. É o caso de redução da frota e das rotas – medida em oferta de lugares/quilómetro, indicador que a TAP esconde –  além, da redução de que a TAP necessita para otimizar a sua operação no caminho para a viabilidade. Daqui decorre, entre outros que desconhecemos, a venda de slots em aeroportos congestionados – ‘coordenados’ no jargão técnico –, como são, entre outros, Lisboa ou Heathrow.

Mas esses dados têm sido omitidos …

Esta omissão de factos gravosos por parte do Governo e da TAP é um exemplo menor de comportamento inaceitável de não disponibilizar aos contribuintes a informação mensal, trimestral e anual que as companhias cotadas em bolsa prestam aos acionistas e público. Houvesse esta informação e os atrasos na reestruturação e no poupar na tesouraria não teriam sido possíveis. 

Considera que o Estado só reestrutura e capitaliza a TAP sob pressão externa?

Entre 1975/1994 o Estado injeta na TAP 929 milhões de euros de 2020, mas fá-lo sem planeamento e com atrasos. Em 1993/94 a pressão europeia obriga a um plano de reestruturação e auxílio de Estado de injeção de capital e garantia bancária de cerca de 1.500 milhões de euros de 2020 cada. Entre 1991/97 a TAP perde 5.509 postos de trabalho ou 31,7% ao passar de 11.076 para 7.567 trabalhadores, mas o essencial não foi reestruturado. A TAP volta a ter prejuízos e, entre 2000-2001, está à beira da solvência que a gestão de Fernando Pinto e o hub Brasil conseguiu evitar.

E em 2021? Vai ser diferente? Entre 2001/15, Fernando Pinto conseguiu gerir a descapitalização e a falta de reestruturação até ao ponto extremo de que iria falir, segundo várias opiniões, como a de Miguel Frasquilho. O Governo Passos Coelho privatiza a TAP com base em financiamento pelo grupo chinês HNA e com o hub de Lisboa alargado à China. Em dezembro de 2016, David Neeleman fala de sete voos semanais para a China e referindo-se ao grupo HNA: “É bom ter um tio rico”. Entre 2017, falha a injeção de capital chinês e, em 2018 e 2019, agravam-se os resultados. O acionista Estado não impõe a reestruturação que já se impunha. Em meados de 2019, Pedro Nuno Santos abre escarcéu público sobre os prémios de gestão ao gosto da política, mas omite a reestruturação que a gestão empresarial impõe. Em dezembro de 2019, a TAP necessita de reestruturação e de capital. A pandemia obriga o Governo a reestruturar a TAP, mas escamoteia a verdadeira reestruturação que se impõe desde 2018. O ministro expulsa David Neeleman, o único que conhece a fundo o transporte aéreo e aumenta a parte do capital do Estado para 72,5%. A TAP é nacionalizada e o ‘tio rico’ deixa de ser chinês e passa a ser o Estado.

 Este cenário é impensável numa empresa cotada em bolsa. Em Portugal acontece por a TAP ser pública e a cultura e dinâmica da política dominar sobre a da gestão empresarial.

Mas a privatização da TAP era inevitável? 

Em 1993, quando da elaboração do plano de restruturação que permite o auxílio de Estado de 1994, os consultores reconhecem que a TAP por si, e mesmo reestruturada, não tem massa crítica para enfrentar a concorrência gerada pelo mercado único de 1992. O Governo aprova a privatização a partir de 1997.

Em 2016 a reversão da privatização de 2015 é o primeiro passo da estratégia que o ministro vem a liderar: nacionalizar a TAP com expulsão do acionista privado incómodo e o aumento de capital para mais de 90% que o acionista privado tranquilo não acompanha. A preocupação com uma ‘Tapezinha’ medida pelo número de aviões deve dar lugar a três perguntas sobre se a TAP –inclui TAP Express– mesmo reestruturada e financiada:

-terá massa crítica para sobreviver no mercado único do após pandemia que exige robusto investimento em revenue management, na distribuição proativa pelo site e na digitalização?;

-Tem cultura empresarial, imagem no mercado e finanças para atrair o pessoal qualificado nestas áreas e proporcionar-lhes os meios necessários?;

-Tem a garantia de que as decisões da gestão com base neste input, entre outras sobre rotas e preços, são aplicadas e não alteradas por decisão politica? 

Mas que força tem a CEO Christine Ourmières-Widener para impor respeito à intromissão do bulldozer da politica que é o ministro que tutela?

Tanto quanto sabemos, as perguntas não são formuladas e as respostas não são dadas no plano. A ideia de uma participação minoritária, repito minoritária, do grupo Lufthansa na TAP surge agora, desgarrada de visão estratégica e como ‘trunfo na manga’ no plano B da TAP para facilitar a aprovação do plano pela Comissão, como vimos antes. Estamos longe da estratégia sedimentada de 1993/1994.

Acha que o Governo está a ser pouco realista nesta matéria?

Ignoramos se há uma psiquiatria política, mas em tudo isto também há muito do Governo descolar da realidade e entrar delírio, com a oposição andar lá perto, apenas se notando menos.

O Mercado Único do Transporte Aéreo data de 1992 e a Liberalização é de 1993, mas algumas das suas disposições ainda são ignoradas. Isto faz algum sentido? A mais básica é evidente. A liberalização de 1993 fez do mercado europeu do transporte aéreo um dos mais competitivos do mundo. Nele só sobrevivem empresas ligeiras em custos e capazes de antecipar as novas exigências dos consumidores. Por outras palavras, a liberalização é concebida para empresas privadas.

A poltica de renacionalização da TAP com origem em 2016 vai contra a corrente. Na resposta a Michael O’Leary, CEO da Ryanair, o ministro usa argumentos anacrónicos e apanha com a resposta ‘a isso chamamos concorrência’. Parece ignorar que o mercado único do transporte aéreo assenta na concorrência leal e aberta. Deixa de haver companhias de bandeira sob controle e influência do Estado para haver transportadoras aéreas europeias que operam em intensa concorrência. Isto implica o Governo não poder escolher políticos para cargos técnicos, criar jobs for the boys and girls ou nomear administradores não executivos ignorantes do transporte aéreo; obrigar a TAP ou TAP Express a operar rotas não rentáveis com a preocupação da coesão territorial pelo reforçar da operação no Porto, Faro e arquipélagos da Madeira e dos Açores. O ministro tem de perceber que companhias com marca nacional de valor – como a Iberia, British Airways etc. – são apenas ‘companhias operacionais’ consolidadas em grupos cotados em bolsa e que definem a sua estratégia sem intervenção do Governo do país em causa. Têm o apoio do Governo por serem importantes para a economia, mas o ministro não as pode pôr no mesmo saco da TAP. A contribuição da TAP para a economia portuguesa tem de ser avaliada por escola de economia de primeira linha. Para a conhecermos e a salvaguardar no caso da insolvência ordenada da TAP. O ministro perde credibilidade quando agita 3.000 milhões de euros de exportações sem considerar as exportações. Ou perda total de 1.200 euros de compras a empresas nacionais porque outras empresas as assegurariam em boa parte.

A privatização até 80% será inevitável. E se não houver interessados?

A viabilidade da TAP exige uma reestruturação que minimize a diferença entre a empresa estatizada e as concorrentes cotadas em bolsa na cadeia acionista, administração e gestão. A continuidade da cadeia que já conduziu a TAP estatizada várias vezes ao tapete (1993, 2000, 2015 e 2019) não permite a sua metamorfose em modelo de excelência que viabiliza a empresa no mercado ainda mais competitivo do após-pandemia. Há, isso sim, o risco da insolvência desordenada da TAP. ´

O exemplo da Iberia e de outras companhias aéreas confirma que a reestruturação eficaz passa por liderança esclarecida que lidera conflito social intenso, culminando em compromisso histórico com sindicatos sobre reformas profundas. A reestruturação da TAP de 2021 vai falhar por não satisfazer sequer uma das condições. De tudo isto resulta a nossa proposta de privatizar a TAP a 80%. Com 20% do capital, o Estado Soberano pode acompanhar a administração e gestão da TAP, não as pode dominar ou bloquear.

O ponto fraco desta proposta é poder não haver comprador para a TAP. A alternativa é a insolvência ordenada que salva o essencial da criação de valor pela TAP. Desde logo a base em Lisboa, o que é fácil por as companhias concorrentes instalarem dezenas de aviões em Lisboa. Mais difícil e muito mais importante é o hub entre a Europa e EUA/Canada, Brasil e África Ocidental, mas esta operação cria valor que pode atrair interessados, nomeadamente a Lufthansa para fazer face à aquisição da espanhola Air Europa pelo IAG da British Airways, Iberia, AerLingus, Vueling e Air Europa.

Tudo parece apontar para o reforço da nacionalização da TAP e o estilo do ministro levarem a empresa ao desastre. Porque fariam diferente do que o Estado tem feito desde a nacionalização de 1975? O erro do Estado acionista foi ter conduzido a TAP a este beco sem saída ou de saída muito apertada.

Como vê a situação na Groundforce?

A Groundforce é a mais importante companhia de assistência em terra do país. É fornecedor quase exclusivo em cerca de cem milhões de euros da TAP e a TAP representa 70% das suas vendas da. A regulação europeia impede a TAP de deter 100% do capital, o que explica haver o acionista privado Passogal SA com 50,1% do capital e a TAP com 49,9%.

No entanto, há uma interdependência pouco transparente entre as duas empresas. Vejo como mais um exemplo das consequências da cultura e dinâmica da política. Duas perguntas: Como foi reconhecido em 2016, a Groudforce fatura ou não à TAP 15% acima do que faturaria a concorrência? O atual contrato entre TAP e Groundforce resulta ou não da muito forte pressão sindical sobre o governo da geringonça e deste sobre a gestão da TAP?

Os problemas estruturais da Groundforce são uma espécie de furúnculo. Em boa gestão o acionista Estado teria rebentado o furúnculo entre dezembro/janeiro, com os aeroportos paralisados para mitigar as consequências da forte reação sindical. Não o fez e a situação apodreceu ao ponto da recente greve ser justa, mas não esclarecedora dos problemas estruturais. Quem viver, verá.