Aeroportos de Lisboa, Porto e Faro – passageiros em Agosto 2018


A análise conjuntural não é nem será preocupação deste blogue. Dito isto, passamos a apresentar mensalmente, para os três aeroportos do Continente, a taxa de crescimento do período entre Janeiro de 2018 e o último dia do mês em análise – na ocorrência, Agosto de 2018.

A ANA Aeroportos segue a regra universal de passageiros embarcados e desembarcados, pagantes, borlistas e convidados e equipagens (este a confirmar). Para ter uma ideia em deslocações turísticas, há que dividir por dois.

Os números são abrangentes. Incluem o tráfego outbound e inbound de residentes em Portugal. Os não residentes que viajam para Portugal são clientes da Indústria da Hotelaria, do alojamento turístico da cadeia de valor da imobiliária turística (sublimados como Alojamento Local) e do Alojamento Turístico Gratuito por Familiares e Amigos.

Os gráficos confirmam a tendência já referida em post anterior e que, não é arriscado dizer, vai ser a do ano:

-Lisboa e Porto a crescer muito bem (desde quando crescimento de dois dígitos em mercado maduro não é excelente? – ou somos todos novos ricos?), mas abaixo do ano extraordinário de 2017,

-Faro em perca muito ligeira, mas a conservar (ainda?) os ganhos atípicos de 2016 e 2017 – basta comparar com os anos anteriores para compreender.
No caso de Faro, o que mais se comenta são os números da indústria da Hotelaria e deles nos ocuparemos em próximo post.

Gráfico 1 -Aeroporto de Lisboa



Fonte – Elaboração própria com base em informação Ana Aeroportos


Gráfico 2 -Aeroportos do Porto


Fonte – Elaboração própria com base em informação Ana Aeroportos


Gráfico 3 -Aeroporto de Lisboa


Fonte – Elaboração própria com base em informação Ana Aeroportos


A Bem da Nação

Lisboa 12 de Setembro de 2018

Sérgio Palma Brito

Notas à volta de uma “inversão de ciclo” – entrevista de Bernardo Trindade


Bernardo Trindade dá uma entrevista ao Dinheiro Vivo* e, salvo o devido respeito, que até é muito, alimenta um equívoco ainda muito presente na análise do turismo. 

Madeira e Faro vivem das deslocações de estadia balnear (long stay, mais ou menos ativa nos últimos anos) e da herança de operadores turísticos de package holiday dos últimos cinquenta anos – este é o segmento de mercado que opta entre Mediterrâneo Ocidental e Algarve e Madeira. Lisboa e Porto vivem do tour urbano e cultural (city break) que só toma corpo com as low cost, fruto da liberalização do transporte aéreo de 1993. A proteção das companhias de bandeira impediu estes destinos de beneficiar dos ditos operadores turísticos e são filhos do unbundling do transporte aéreo (LCC) e alojamento (Booking).

Cito: “Depois da primavera árabe e de todos os atropelos locais que levaram a que os turistas, nomeadamente os europeus, olhassem para territórios como Portugal, estamos numa inversão de ciclo.”. Não olharam para Portugal, olharam para Algarve e Madeira. O crescimento de Lisboa e Porto não depende deste olhar.

Cito: “Portugal está mais preparado e encontrou alternativas em termos de mercados emissores de turistas. É o caso dos Estados Unidos da América, Brasil, Canadá e outros territórios longínquos onde há uma maior disponibilidade para conhecer países como o nosso, fruto também do reforço das ligações aéreas diretas.”. Estes três mercados não estão presentes no Algarve e Madeira. Todos têm muito a ver com o hub da TAP na versão Fernando Pinto (Brasil) ou David Neelemen (EUA e Canadá) e capacidade de atração de Lisboa e Porto.

Cito: “A nossa resposta à recuperação dos países da bacia do Mediterrâneo passa por termos a infraestrutura do Montijo rapidamente em funcionamento e pela requalificação do aeroporto de Lisboa.”. O aeroporto do Montijo será para tráfego ponto-a-ponto entre Europa e Lisboa. Pode aliviar a Portela e facilitar a vida à Madeira. Não tem a ver com a resposta de que fala BT.


A Bem da Nação

Lisboa 10 de Setembro de 2018

Sérgio Palma Brito


*Bernardo Trindade. “Estamos numa inversão de ciclo”, Dinheiro Vivo de 10 de Setembro de 2018, em https://www.dinheirovivo.pt/economia/bernardo-trindade/

Europa e Portugal – tráfego regular internacional e doméstico


Depois das interrogações e sua resposta em post anterior, analisamos o tráfego regular internacional e doméstico na Europa e como este tráfego se traduz nos aeroportos de Lisboa, Porto e Faro.

1.Europa

*Europa – tráfego regular internacional e doméstico
Os gráficos 1 e 2 mostram como o tráfego regular internacional da Europa é mais importante (o que é evidente) do que o doméstico e cresce mais rapidamente (em 2017, de índice 181 e 148 respetivamente).

Gráfico 1 – Europa: tráfego regular internacional e doméstico (volume)








Fonte: Elaboração própria com base em ICAO – Annual Reports.

*Europa - tráfego regular internacional
O gráfico 3 ilustra a variação anual do tráfego regular internacional da Europa. Observamos dois patamares de crescimento no gráfico 13

-o que vai de 2008 a 2014, em cerca de trinta milhões de passageiros, com o valor de 2010 1 recuperar dos anos da Crise,

-o que tem início em 2015 e que se situa em cinquenta milhões de passageiros.

Sobre o que explica esta alteração de patamar, avançamos com resposta dupla: alguma melhoria na economia da Europa e a queda do preço do fuel, aqui ilustrada pelo Brent crude oil Crude Oil Brent. A análise do impacte do preço do fuel é tema de post a publicar.

Gráfico 3 – Europa: tráfego regular internacional (variação anual)



Fonte: Elaboração própria com base em ICAO – Annual Reports.

O gráfico 4 compara a taxa de variação anual do tráfego total do Mundo, calculado no primeiro post, e do tráfego internacional da Europa,. Os indicadores têm crescimento diferente em alguns anos e muito similar em outros e deles não conseguimos tirar ilações mais interessantes.

Gráfico 4 – Europa: tráfego regular internacional (taxa variação anual)






2.Portugal na Europa e no Mundo

*Importância do tráfego aéreo oriundo da Europa
O gráfico 5 ilustra a importância do tráfego oriundo da Europa no total dos aeroportos de Lisboa, Porto e Faro entre 2001/2015: depois de queda sustentada entre 2001/2014 (de 90,2% para 86,8%), há uma recuperação em 2015* e o valor mais baixo foi 86,8% em 2014. Neste gráfico, o tráfego intercontinental para Lisboa via hubs da Europa é contado como oriundo da Europa – a verdadeira parte da Europa no total de Lisboa, Porto e Faro está alguns pontos abaixo do valor indicado no gráfico. Na ocorrência, a conclusão a tirar é a importância do tráfego intraeuropeu e a necessidade de acompanharmos a evolução do tráfego internacional da Europa.
*Não disponho de informação ANA para os anos seguintes.

Gráfico 5 – Parte dos passageiros Europa no total de Lisboa, Porto, Faro



Fonte: Elaboração própria com base em informação ANA Aeroportos.

*Tráfego de Lisboa, Porto, Faro na Europa
Os gráficos 6 e 7 quantificam duas expressões da mesma realidade:

-desde 2013, o tráfego total de Lisboa, Porto e Faro cresce mais do que o tráfego total da Europa e do Mundo,

-estes três aeroportos aumentam quota no tráfego total da Europa e do Mundo.

Gráfico 6 – Tráfego total de Mundo, Europa e de Lisboa, Porto, Faro (2007=100)



Fonte: Elaboração própria com base em ANA Aeroportos e ICAO – Annual Reports.

Gráfico 7 – Tráfego total de Mundo, Europa e de Lisboa, Porto, Faro (taxa variação anual)



Fonte: Elaboração própria com base em ANA Aeroportos e ICAO – Annual Reports.


3.E agora?

Os gráficos confirmam crescimento sustentado do tráfego aéreo regular na Europa e no Mundo e crescimento mais rápido desde 2013 em Portugal.

Em próximo post procuramos identificar a relação entre a baixa do preço do fuel e este crescimento.

O crescimento de Portugal assenta muito nos aeroportos de Lisboa e Porto – a capacidade de atração de turistas por estes dois destinos é fator a ter em conta para explicar a diferença de Portugal.

Os primeiros números de 2018 mostram poder haver diminuição do ritmo de crescimento.

Por fim, esta macro informação estatística dá a base para análises mais refinadas e no terreno. Bom trabalho


A Bem da Nação

Lisboa 10 de Setembro de 2018

Sérgio Palma Brito

Tráfego aéreo global e repartição por principais regiões do Mundo



Temos turistas a mais? Até quantos turistas podemos crescer? Crescimento, sim, mas é sustentável ou não? Antes de procurar responder, importa ter ideia do tráfego aéreo regular no mundo e sua repartição pelas principais regiões do planeta. Em outro post analisamos a realidade da Europa e de como Portugal se insere na Europa. Em qualquer dos casos, não esquecer a sabedoria de Joel Serrão “Ora, como é evidente, a síntese não é possível onde a análise mal principiou” e perorar antes de aprofundar estes e de outros temas.

1.Tráfego global – resiliência e crescimento no horizonte de 2037

*Airbus – Global Market Forecast 2018-2037
Segundo a Airbus, “Traffic has proven to be resilient to external shocks and doubles every 15 years” (1). O gráfico 1 mostra dados reais (1997/2017) e previsão até 2032 com base na observação do passado. A resiliência é um facto, a previsão de voltar a duplicar em quinze anos não parece excessiva (4,4% ao ano) se considerarmos o potencial de crescimento, entre outros, na China e Índia. O mais certo é termos crises conjunturais e este cenário exclui disrupção violenta.

Gráfico 1 – World annual traffic (trillion RPKs)



Nota da Airbus – RPK = Revenue Passenger Kilometre Source: ICAO, Airbus GMF 2018


*Resiliência do crescimento do tráfego aéreo mundial
A resiliência do crescimento do tráfego aéreo mundial é melhor ilustrada pelo gráfico 2, que situa as mais importantes crises e mostra como o seu impacte foi conjuntural e não estrutural (2).

Gráfico 2 – World Annual Traffic Expressed in Passengers Carried




*Commercial Aviation Market Dynamics
O mais recente relatório da Boeing (3) sintetiza as dinâmicas do mercado da aviação comercial (figura 1). A informação da figura fala por si, mas deve ser completada com a leitura da fonte. A Boeing sabe do que fala e o que encontramos na literatura não se afasta disto, mas há que fazer leitura crítica, como sempre – ver Alhos e bugalhos a seguir.

Figura 1 – Commercial aviation market dynamics


Fonte: Elaboração própria com base em Boeing, Commercial Market Outlook 2018–2037, p. 6.

*Alhos e bugalhos
Até a Boeing não escapa à mistura de tráfegos diferentes:

-o do total de tráfego doméstico e internacional’ nos “Economic and income growth are key drivers”, quando refere “Socioeconomic changes in large emerging markets such as China and India have been primary drivers of both global GDP growth and demand for air travel.” [Depois, acrescenta Ásia do Sudeste].

-o do exclusivo tráfego internacional na “Robust consumer spending and services growth bolster air travel demand”, quando refere “According to the World Tourism Organization, international tourist arrivals grew 7.1 percent in 2017, faster than overall GDP growth. Like air passenger traffic, overall tourism has grown substantially, with almost 350 million more international tourists in 2017 than 2010.”.

O gráfico 3 ilustra a repartição por zona geográfica da percentagem do total do tráfego aéreo regular e do tráfego regular internacional. Destacamos

-o domínio da Europa no tráfego internacional (47,6%),

-e o domínio da Ásia (36,5%) no total do tráfego aéreo.

Gráfico 3 – Tráfego aéreo regular de passageiros por regiões




O indicador número de turistas do turismo internacional é errado e induz em erro. O erro resulta da Europa ser um patchwork de países e EUA, China e India (estes dois com enorme crescimento real e potencial) enormes países. Um belga espirra, acaba no Luxemburgo e temos um turista. Um residente em Nova Iorque vai a Los Angeles (quase cinco horas de avião e três fusos horários) e não conta para o turismo mundial – não dou mais exemplos na China ou India. Então qual é o número total de turistas, doméstico e internacional, no Mundo? Felizmente ainda não houve um burocrata para o querer calcular e, calculando, qual a utilidade?

A figura 2 é publicada pela UNWTO e nela aparece a Europa a dominar o turismo internacional, de acordo com o explicado antes (4). Os números da UNWTO sobre turismo são, de facto, sobre turismo internacional.

Figura 2 – International Tourism 2016





2 – Tráfego global nas três principais regiões 2007/2017 (ICAO)

*Tráfego global
O gráfico 4 mostra o tráfego aéreo global a crescer de maneira sustentada entre 2010/17.  O ano de 2010 parece ser um ano de recuperação da queda da Crise e de início de crescimento, com os valores mais destacados a partir de 2015 (ver gráfico 5).




Fonte: Elaboração própria com base em ICAO – Annual Reports.

O gráfico 5 ilustra a evolução da variação anual em volume de passageiros e dá leitura mais rigorosa da evolução descrita antes.

Gráfico 5 – Tráfego regular de passageiros no mundo



Fonte: Elaboração própria com base em ICAO – Annual Reports.



Gráfico 6 – Tráfego internacional da Europa e total do mundo (taxa variação anual)


Fonte: Elaboração própria com base em ICAO – Annual Reports.

*Distribuição regional do tráfego global
Os gráficos 7 a 9 mostram a evolução do tráfego nas três principais regiões do mundo, em volume, índice e parte do total. O grande driver de crescimento é a Ásia Pacífico, com Améria do Norte e Europa a perderem influência, com a Europa a perder menos do que os EUA.

Gráfico 7 – Distribuição regional tráfego regular de passageiros (volume)



Fonte: Elaboração própria com base em ICAO – Annual Reports.


Gráfico 8 – Distribuição regional tráfego regular de passageiros (2007=100)


Fonte: Elaboração própria com base em ICAO – Annual Reports.


Gráfico 9 – Parte as três grandes regiões no tráfego regular de passageiros



Fonte: Elaboração própria com base em ICAO – Annual Reports.



A Bem da Nação

Lisboa 10 de Setembro de 2018

Sérgio Palma Brito


Notas

(1)Airbus, Global Networks, Global Citizens, Global Market Forecast 2018-2037

(2)European Commission, Annual Analyses of the EU Air Transport Market 2016, March 2017

(3)Boeing, COMMERCIAL MARKET OUTLOOK 2018–2037

(4)UNWTO, Tourism Highlights, 2017 Edition



O turismo visto como (quase) ninguém o quer ver


Mário Candeias trabalha agora no estrangeiro, ganhou a liberdade da palavra e está de volta. Nestes tempos de euforia e de sucessos que se sucedem sucessivamente são precisas vozes independentes que nos tragam à terra. Comento a opinião de Mário Candeias no Expresso* e recorro ao mesmo estilo telegráfico que ele utiliza.

O autor não destrinça o que na economia do turismo é indústria da Hotelaria do que é o conceito abrangente que integra a imobiliária turística e o alojamento gratuito por familiares e amigos. Nisto não se diferencia do mainstream. Que diabo, ignora Quita do Lago, Vale do Lobo & Arredores, mais Vilamoura e as zonas mais populares? E o Alojamento Local?

Cito: “Esta indústria terá começado no dia em que ele [Adolfo Mesquita Nunes] tomou posse, aparentemente.”. Admiro, respeito e gosto de AMN desde o voto no Parlamento sobre casamento de pessoas do mesmo sexo e desde o dia em que um puto com ar reguila é SET pelo CDS e defende ideias que eu defendo desde 1977. Dito isto, a indústria, seja ela a da Hotelaria ou a do ‘turismo abrangente’ não começa com AMN.

Cito: “A atual SET viu o Plano de Turismo, que erradamente rotulou de ambicioso, ser vulgarizado pela performance efetiva da indústria.”. A atual SET faz surf na onda do turismo, faz bem e não persegue pessoas. Não lhe peço mais, gosto muito do estilo, e com este ministro e esta geringonça, já muito longe foi – veja-se o Alojamento Local. Do Mário esperava palavra demolidora do próprio conceito de Plano (ou Estratégia) Nacional de Turismo, que urge dinamitar.

Cito: “O Turismo de Portugal aparenta ser um bureau meramente administrativo, sem capacidade de gerar uma única ideia disruptiva e muito menos de instigar a indústria a persegui-la. Desinspirador.”. Com as exceções que confirmam a regra, concordo mas com o atual ministro e geringonça esta cena, que dura há tempo demais, vai continuar. Há anos ainda havia um departamento de estruturação do ‘produto’, seja lá o que isto for e … o surf é o que é sem esse departamento.

Partilharia a crítica às Escolas de Turismo por na verdade pouco mais serem do que escolas técnicas, umas mais Superiores do que outras e muitas nem isso. O turismo não justifica uma Nova Tourism School, mas sim que as business schools tenham módulo facultativo sobre turismo.

Cito, concordo e bato palmas: “Os fundos de restruturação de ativos hoteleiros não acrescentaram valor ao posicionamento do país ou dos locais onde operam.”. Uma ocasião falhada para a via da consolidação da indústria da Hotelaria.

Cito: “Não houve consolidação dos players hoteleiros ou de viagens. A indústria continua demasiado fragmentada e pouco sinérgica. […].Temos receio de jogar o jogo dos grandes.”. Feita uma Análise Estratégica da indústria da Hotelaria, a politica pública deve apoiar a consolidação, libertar as barreiras à entrada e fomentar a saída de estabelecimentos obsoletos de empresários incapazes de os reinventar. O manter vivos estes estabelecimentos e proibir novos implica o que MC diz a seguir: “O resultado é termos produtos obsoletos em zonas prime ou zonas prime inexploradas e de baixo retorno.”. Isto e muito mais por a inovação ser de “Difícil de digerir para ambientalistas e para o Portugal turístico de Miguel Sousa Tavares.”.

Por fim cito: “O Banco de Portugal e o Instituto Nacional de Estatística medem a indústria de modo básico, assente em dois ou três indicadores mal apresentados e pouco consequentes. Seria assertivo saber qual a rendibilidade das receitas do turismo, por região e por segmento.”. Caro Mário Candeias, luto por isto desde 1977 quando regressei do exilio. Sabe porque diabo isto não existe? Por não haver procura de informação por governo, administração, universidade, opinião pública e também, e para nosso desgosto, da iniciativa privada. Quando não há procura, não há oferta

Parabéns pela opinião e continue. Abraço!


A Bem da Nação

Lisboa 4 de Agosto de 2018

Sérgio Palma Brito


*Turismo Quando o bom é inimigo do ótimo, Expresso 4 de Agosto de 2018, em



Receita de Viagens e Turismo, Economia e Política – Notas Trabalho


Estas Notas de Trabalho são a base analítica estruturada, destinada a facilitar o meu trabalho. Publico as Notas por poderem ser útil a quem estude, investigue ou apenas se interesse por Turismo com base em dados quantitativos. 
Eventual mérito desta minha iniciativa não anula os inconvenientes das Notas resultarem de trabalho individual, sem contato com quem no Banco de Portugal se ocupa destes temas. 
As Notas são elaboradas de boa fé, mas não foram revistas por terceiros e podem incluir erros que a nossa revisão atenta não deteta.
Se o leitor encontrar um erro ou quiser formular pergunta ou observação, pode utilizar spalmabrito@gmail.com. Lembramos o primeiro dos nossos princípios: "Se não receio o erro, é só porque estou sempre pronto a corrigi-lo" (Bento de Jesus Caraça).
As Notas podem levar o leitor a formar opinião. Sugerimos alguma prudência e investigação no terreno, antes de formular síntese. Lembramos o segundo dos nossos princípios: "Ora, como é evidente, a síntese não é possível onde a análise mal principiou" (Joel Serrão).
Estas Notas de Trabalho apenas abrangem a rubrica da Receita de Viagens e Turismo na Balança de Pagamentos. A Receita de Turismo na Balança de Pagamentos Deixamos fica para próxima edição das Notas.
Votos de boa utilização das Notas, acessíveis em:

A Nem da Nação
Lisboa 1 de Julho de 2018
Sérgio Palma Brito


A brusca travagem de crescimento do “turismo hoteleiro” (sic) e o Professor Catedrático


No Expresso de 23 de Junho de 2018 (aqui), João Duque volta a ser vítima da síndrome que afeta muitas pessoas qualificadas, na ocorrência um Professor Catedrático, quando se pronunciam sobre turismo: a sua capacidade intelectual entrega-nos opinião degradada. Está longe de ser o único, mas convém evitar.

Um professor catedrático escreve sobre a Indústria da Hotelaria, no sentido que Micael Porter dá a Indústria. Não fez, nem sequer iniciou uma Análise Estratégica desta indústria. Limita-se a vista rápida dos números do INE referentes aos quatro primeiros meses do ano, sem se interrogar se os podemos extrapolar para o ano (sazonalidade etc.). Pior, fala de um “turismo hoteleiro”, que seria monolítico e não variado em competitividade de empresas e destinos regionais ou sub-regionais.

Desta leitura rudimentar sai síntese: “o turismo hoteleiro parece estar em brusca travagem de crescimento. Isso levanta sérias precauções ao nível da rentabilidade do investimento, do financiamento e do licenciamento de novas unidades. E tendo em conta o peso da hotelaria no turismo e deste no PIB português um abrandamento do seu crescimento terá um impacto sensível no abrandamento do crescimento da economia de Portugal.”.

João Duque, esquece o sábio conselho de Joel Serrão: "Ora, como é evidente, a síntese não é possível onde a análise mal principiou" – com base na da sua leitura rudimentar de números parcelares, não há síntese possível. Comete o erro do inspetor Sachetti da PIDE quando, na véspera da deportação para S. Tomé, diz a Mário Soares: “A sua carreira política acabou para sempre” – confunde uma queda conjuntural num processo ascendente de longo prazo.

Por agora, mostramos apenas a evolução dos Proveitos da Indústria da Hotelaria entre 1996/2017, a preços variáveis e em valor e taxa de crescimento anual (gráficos 1 e 2). Neste período, há dois ciclos de crescimento. 

-primeiro, o ‘efeito Expo’: crescimento atípico em 1998, estabilidade e não queda em 1999 e crescimento a partir de novo patamar, apenas interrompido pelos anos maus do início do milénio,

-depois, o ‘efeito low cost’ com início de novo ciclo de crescimento a partir de 2004, apenas interrompido pela Crise de 2008/09. 

Se recuássemos a 1980, teríamos um ciclo de crescimento com base no Package Holiday do Algarve.

Em 2016 e 2017, os Proveitos da Hotelaria crescem à taxa anual de 17%. Não é muito frequente ter taxas destas em indústria madura a vender essencialmente num mercado maduro (a Europa). Fora queda conjuntural, é certo que esta taxa de crescimento vai baixar.



Fonte: Elaboração própria com base em Estatísticas do Turismo


Gráfico 2 – Proveitos da Hotelaria - Taxa de Variação Anual


Fonte: Elaboração própria com base em Estatísticas do Turismo

*Receita de Viagens e Turismo e economia a abrandar

Por fim, a frase “abrandamento do seu crescimento terá um impacto sensível no abrandamento do crescimento da economia de Portugal” aplica-se ainda mais à Receita de Viagens e Turismo da Balança de Pagamentos que envolve todos os não residentes em deslocação turística a Portugal.

Vejamos o seu extraordinário crescimento anual em valor (€2.473milhões em 2017) que é mesmo capaz de descer já em 2018, mas crescendo – gráfico 3. Já agora, quanto é que estes €2.473milhões contribuem para o crescimento do PIB em 2017?

Gráfico 3 – Evolução da Receita de Viagens e Turismo em €milhões


Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal BPStat

Gráfico 4 – Receita de Viagens e Turismo – variação anual


Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal BPStat



A Bem da Nação

Lisboa 23 de Julho de 2018

Sérgio Palma Brito