Indústrias europeias do transporte aéreo – de 1993 à actualidade

Apresentamos as indústrias europeias do transporte aéreo. Conhecer o que são exige leitura trabalhosa, mas para ficar com ideia do que são o texto é fácil de percorrer. É um post em que não referimos a TAP, mas o leitor deve ter sempre a TAP no espírito e interrogar-se: como a actual TAP encaixa na realidade que descrevemos?

Sugerimos consulta prévia do post ‘Indicadores correntes da performance de companhias aéreas’ em  http://sergiopalmabrito.blogspot.pt/2017/11/tap-e-indicadores-correntes-da.html

O leitor mais curioso pode aprofundar estes e outros temos no Relatório sobre Turismo e Transporte Aéreo em Portugal que publicámos no Outono 2016: Os cinco volumes estão disponíveis em http: http://www.ciitt.ualg.pt/


1.Transporte aéreo e transformação do mercado turismo europeu

*Companhias de bandeira e empresas de voos fretados (charter)

Entre a regulação do transporte aéreo internacional dos anos 1940/50 e a liberalização do transporte aéreo na Europa (1993), há duas indústrias europeias de transporte aéreo:

-a das companhias de voos regulares, em maioria estatais e de bandeira, com oligopólio formal das rotas intercidades no seio da Europa e intercontinentais (IATA), com consequente bloqueio do crescimento das deslocações de tour urbano e cultural (city breaks),

-a das companhias aéreas de voos não-regulares, quase sempre privadas, fornecedoras de operadores turísticos de package holiday, integradas ou não nestes, e elemento chave na democratização das estadias (long stays) em áreas turísticas da Bacia Turística Alargada do Mediterrâneo.

*As ‘transportadoras aéreas europeias’ da Liberalização de 1993

Em Janeiro 1993, a liberalização do transporte aéreo no que vem a ser hoje a União Europeia cria as ‘transportadoras aéreas europeias’ com regulação europeia torna e obsoleta a diferença entre ‘companhias regulares’ e ‘companhias charter’. Entre outros, esta regulação implica que estas transportadoras concorram em mercado aberto à concorrência e com proibição de Ajudas de Estado, salvo em condições excepcionais e gravosas.

Depois de 1993, as transportadoras aéreas europeias passam a integrar três indústrias (1):

-a das Full Service Carriers (ou legacy carriers ou network carriers), que têm de se adaptar à concorrência das novas LCC nas intra-europeia e das ‘companhias do Golfo (Emirates, Qatar, Ethiad) e também da Turkish Airlines nas rotas do Médio ou Extremo Oriente,

-a das Low Cost Carriers, filhas da liberalização de 1993 e que em poucos anos dominam o mercado do transporte ponto-a-ponto entre aeroportos da Europa ou próximos,

-a das Leisure Low Cost Carriers (LLCC), reduzidas praticamente às duas companhias pan-europeias que resultam da consolidação dos operadores turísticos de package holiday nos actuais TUI Travel plc e Thomas Cook Group plc.

Esta tipologia não é rígida. Há companhias ou modelos de negócio híbridos (da air berlin à AerLingus, passando pela Monarch) e companhias que são atípicas (Aigle Azur e outras).

Quando analisamos as indústrias europeias de LCC e FSC em si e na relação com Portugal, temos de partir da realidade de cada companhia e não de generalizações sobre universo tão limitado.

Neste momento não existe indústria europeia de Long-haul Low Cost Carriers (LHLCCs). Há actividade de LHLCC em que a Norwegian é pioneira incontestável, mas é actividade desenvolvida no seio de empresas existentes como é o caso de Eurowings (Lufthansa Group), Level (IAG) e em projecto projecto (Air France/KLM Group).

*Transformação estrutural do mercado do turismo europeu anos 90

A partir do início da década de 1990, o turismo na Europa passa por uma transformação estrutural, que assenta na conjugação de quatro factores, resulta da acção de três grandes agentes e traduz-se em três processos novos, todos com tempos de actuação diferentes, que se reforçam ou atenuam no tempo.

Os quatro factores são:

-mudanças na sociedade, pela interligação da personalização massificada, procura de experiências, autenticidade e realidade aumentada,

-demografia, pela crescente influência das gerações X e Y, declínio da dos baby boomers e alterações no seio de cada uma delas,

-liberalização do mercado europeu do transporte aéreo em 1993,

-progresso explosivo da tecnologia de informação e comunicação as such e conjugação deste progresso com o da utilização da internet.

Os três agentes da transformação

-o consumidor com cambiantes demográficas, psicográficas e situacionais que se alteram e cada vez mais “educated and increasingly sophisticated and internet savy comsummer” na expressão da TUI Travel plc,

-companhias low cost distinguem-se dos charters back to back do package holiday por voar para onde querem (e não apenas as praias do Sul), quando querem (fora da rigidez do charter semanal), ao preço a que querem e em seat-only,

-os online travel actors são filhos directos da internet e novos agentes no mercado – hotel bed banks (Booking.com), outras travel companies e portais de meta procura alteram profundamente a maneira de fazer negócio.

Os três processos da transformação:

-extraordinária transferência de poder, dos operadores turísticos que organizam viagens para as companhias aéreas e destas e de outros agentes da oferta para o consumidor, com crescente desintermediação e unbundling na escolha da oferta e dynamic pricing,

-crescimento acentuado das deslocações do tour urbano (city break), que beneficiam da barateza do transporte aéreo e são adequadas às novas características da procura,   


-aparente estagnação da deslocação de estadia (long stay), que cresce desde a década de 1950 pela barateza do package holiday.
Ver o documento “Transformação estrutural mercado europeu da viagem de lazer”, em preparação.


2.Mercado europeu do transporte aéreo – uma quantificação

*Tráfego regular internacional e doméstico na Europa

A quantificação do mercado europeu do transporte aéreo assenta em informação estatística do ICAO (2) e implica ter em conta que

-a região Europa integra países que escapam à nossa noção corrente da Europa: Turquia e Federação Russa, Arménia, Azerbeijão, Bielorússia, Moldávia e Ucrânia,

-tráfego internacional inclui o intra-europeu, quase sempre por companhias europeias, e o intercontinental por companhias europeias ou não.

Dos gráficos 1 e 2 destacamos: 

-o tráfego internacional é o mais importante (739 milhões de passageiros em 2016) e o que mais rapidamente cresce (69% entre 2007/16), fruto também do número de países no território da Europa – Paris/Bruxelas é voo internacional mas Nova Iorque/Los Angeles é voo doméstico.

Gráfico 1 – Tráfego regular internacional/doméstico na Europa quantidade
(milhões de passageiros)

Fonte: Elaboração própria com base em ICAO, Annual Report of the Council.

Gráfico 2 – Tráfego regular internacional/doméstico na Europa índice
(2007=100)

Fonte: Elaboração própria com base em ICAO, Annual Report of the Council.

O gráfico 3 ilustra o crescimento anual do transporte aéreo internacional e doméstico na Europa. Na evolução do transporte internacional destacamos:

-o pico de 2010 parece compensar a queda de 2009,

-no passar a patamar superior de estabilidade no crescimento (2011 a 2014) pode haver influência do crescimento do tráfego internacional na Europa Central 
de Leste,
-em 2015 e 2016 a passagem a novo patamar de estabilidade já resulta em boa parte da queda do preço do fuel abaixo da barreira de $50 o barril e crescimento da oferta de transporte aéreo, em parte por oferta ineficiente que não resiste à próxima subida do preço do petróleo.

Gráfico 3 – Tráfego regular internacional/doméstico na Europa variação anual
(milhões de passageiros)

Fonte: Elaboração própria com base em ICAO, Annual Report of the Council.

A importância da queda do preço do fuel não tem sido devidamente destacada nas notícias sobre o crescimento do transporte aéreo em Portugal. A título de informação sobre tendência, apresentamos (figura 1) a evolução do Crude Oil Brent a dez anos e a um ano (3ª). A dez anos, destacamos:

-pico de 2008, ano em que o prejuízo da TAP é de €208milhões – ver gráfico 2 de http://sergiopalmabrito.blogspot.pt/2017/11/resultados-tap-e-grupo-tap-em-2016.html,

-posterior queda brusca seguida de estabilização acima de €100,

-queda brusca iniciada em 2014, que se prolonga em 2015 e 2016.

A um ano, destacamos a recente tendência de crescimento, que deve ser seguida com atenção. A tendência é anterior aos recentes acontecimentos na Arabia Saudita e reforçada por estes em extensão que desconhecemos. Certo é estarmos em presença de tendência crescente e volatilidade que a pode reforçar ou inverter.

Figura 1 – Crude Oil Brent preço a dez anos e a um ano.

Fonte: Elaboração própria com base em NASDAQ

*Parte de mercado de Low Cost Carriers e Full Services Carriers

O gráfico 4 ilustra a evolução da parte de mercado, em número de passageiros, de FSC e LCC na Europa Ocidental entre 2002 e 2017. O crescimento da LCC é fruto de três factores

-oferta nova a preço muto mais baixo que gera procura adicional,

-ganho de quota de mercado às FSC nas rotas directas intra-europeias,

-concorrência cada vez mais forte entre as próprias LCC.

Pela sua generalidade e falta de informação sobre como é elaborado, o gráfico 4 deve apenas ser observado como tendência que exige análise adicional.

Gráfico 4 – Parte de mercado de FSC e LCC na Europa Ocidental


Fonte: Gráfico Financial Times online partilhado no Facebook ver https://www.ft.com/content/b2b79a6e-a9f9-11e7-93c5-648314d2c72

O gráfico 5 dá uma ideia da parte de mercado das LCC em vários países europeus. É um dado estático que deve ser observado com muita cautela. O dado mais interessante, para além da importância das LCC em países como a Espanha, é o potencial de expansão em outros países de que a Alemanha é exemplo (3b).

Gráfico 5 – Selected European countries' international LCC seat share Mar-2016

Source: CAPA - Centre for Aviation, OAG


3.As empresas em números

*Número passageiros

O gráfico 6 ilustra o número de passageiros em 2016 e taxa de crescimento 2015/16 do TOP20 de grupos e companhias aéreas europeias. O Lufthansa Group ainda não inclui a Brussels Airlines e a S7 Airlines é uma empresa da Rússia que está fora da nossa análise. Retemos

-é significativo que Ryanair tenha mais passageiros do que cada um dos três grupos da consolidação das FSCs, mas não estamos a comparar maçãs com maçãs – se considerarmos o Revenue Pasengers Kilometer (RPK) os três grupos são muito mais importantes que a Ryanair,

-com excepção do IAG, quatro LCCs apresentam as maiores taxas de crescimento: WIZZ, Norwegian, Ryanair e Easyjet.

Gráfico 6 – Top 20 European airline groups by passenger numbers

*Indicates 2016 passenger numbers not yet reported; figures are CAPA estimates based on Nov-2016 YTD growth or on calendar 2016 seat growth data from OAG.  ** Figures for 12 months to Sep-2016. Nota - Fora deste TOP20 encontramos, entre outras, Monarch, LOT; Virgin Atlantic, Icelandair e Volotea. Source: CAPA - Centre for Aviation, airline company traffic reports.

O gráfico 7 tem a mesma fonte e ilustra os três grupos da consolidação de FSCs. Como vimos, o Lufthansa Group integra ainda a Brussels Airlines. Destacamos:
-No seio dos três grupos da consolidação de FSCs, as respectivas LCCs apresentam as maiores taxas de crescimento em linha com Easyjet e ligeiramente abaixo da Ryanair (4).

Gráfico 7 – Top seven European airline groups and subsidiary airlines

*Indicates CAPA estimate; passenger numbers not yet reported.  **Figures for 12 months to Sep-2016.  Source: CAPA - Centre for Aviation, airline company traffic reports.


*Margem operacional de companhias aéreas europeias

Todos os anos o CAPA publica a comparação entre as margens operacionais de companhias aéreas europeias em comparação com o ano anterior. O gráfico 8 ilustra esta comparação entre 2015/16.

Gráfico 8 – Operating margins for European airline companies and subsidiaries (% of revenue) 2015 and 2016
  
Notes: calendar years except easyJet (years to Sep-15 and Sep-16; SAS (years to Oct-15 and Oct-16). 2016 figure for Alitalia not available. 
Operating margin based on operating profit before exceptional items and before equity investments. 
Source: CAPA - Centre for Aviation, airline company reports.

Comentários,

-se excluirmos a Aeroflot, o TOP5 começa com Ryanair e Wizz Air e inclui o IAG e duas companhias do IAG: AerLingus e British Airways – a performance do IAG está em linha com o passado recente, melhor que Lufthansa Group (14º) e AF/KLM Group (16º),

-as outras companhias low cost paneuropeias são Easyjet (7ª), Norwegian (15ª) e Vueling (18ª),

-no IAG e depois de AerLingus e British Airways e Vueling, a Iberia é 12ª,

-no AF/KLM Group (16º), a KLM apresenta a melhor performance (11ª), a Air France (20ª) apresenta resultados positivos mas medíocres e a Transavia (22ª) não tem o valor de 2016,

-no Lufthansa Group (14º), a SWISS lidera (8ª), seguida do Lufthansa Passengers, a Lufthansa (10º), Austrian (19º) e Eurowings (25º) em antepenúltimo lugar – a Brussels não figura no gráfico,

-nas FSCs independentes, não consideramos o caso especial da Icelandair (9ª) e temos Aegean (13ª), SAS (17ª), Finnair (21ª) e Turkish(23ª), com a TAP ausente por não divulgar informação,

-por fim airberlin (26ª) e Alitalia (27ª) nos dois últimos lugares são prenúncio dos desastres que vão vir.


4.Segmentar para analisar e importância estratégica do CASK

*Comparar/segmentar empresas “unit cost and average sector length

Para comparar e segmentar as indústrias europeias do transporte aéreo seguimos o padrão de análise mais corrente:

-“Analysing Europe's airlines according to their level of unit cost and average sector length provides a useful means of comparing and segmenting them.” (5).

A figura 2 apresenta as ‘transportadoras aéreas europeias’ quantificadas segundo estes dois critérios: CASK (eixo vertical) e average sector length (eixo horizontal).

Nesta figura destacamos o custo unitário (CASK):

-das FSCs europeias muito acima de todas as outras companhias, quer das diversas LCC quer das duas companhia do Golfo e a Turkish Airlines, com as Niche FSCs em melhor posição,

-as Leisure LCC acima de algumas LCC e a acompanhar outras,

-a divisão das LCC entre Ultra Low Cost Carriers e LCCs Pan Europeias.

Figura 2 – Cost per available seat kilometer (US cents) versus average sector length

Fonte: CAPA – Centre for Aviation, airline company data, Who has the right model for European aviation? 3-June-2015


*CASK no “The long-term history of the global airline industry”

A gestão do ‘custo unitário’ é factor crítico de sucesso ao longo dos últimos mais do que cinquenta anos. Citamos:

-“For all airlines and all markets, CASK reduction - or, at least having the most efficient level of CASK for the chosen business model - is crucial. The long-term history of the global airline industry is one of falling unit revenue in real terms. The only way that the industry has ever made a positive margin has been through lowering its CASK. This remains vitally the case as economic conditions remain soft.
After profits, CASK has become a vital focus for airline managements over recent years [o sublinhado é nosso].” (6).

A figura 3 ilustra esta evolução e relaciona-a com a da margem operacional.

Figura 3 – World airlines: total revenue per ASK (RASK) and operating cost per ASK (CASK) at constant 2015 prices (USDc) and world airline operating margin (% of revenue) 1960 to 2015



Source: CAPA - Centre for Aviation, Airline Monitor, ICAO – Ver análise CAPA 1 Junho 2016

Entre 1960/2015, “The 51% decline in real RASK was beaten by the fall in CASK, but only just. The CASK decline was 54% over the same period”. Assim:

-“ The world airline profit cycle, as illustrated by the industry's operating margin, varies from one year to the next depending on the difference between RASK and CASK in any particular year.

Just as, in aggregate, the global airline industry has struggled to sustain real RASK growth, individual airlines often find that it can be difficult to maintain a reliably profitable strategy based on unit revenue increases.
In such an industry, CASK is king.”.

*Unit costs for selected European legacy and low-cost carriers

A figura 4 ilustra os unit costs (cost per available seat kilometre) and average sector length for selected European legacy and low-cost carriers 2012 (7). Na prática, desagrega a informação da figura 1. Destacamos,

-os ultra baixos custos de Ryanair e WIZZ Air (mais Pegasus), o que lhes dá considerável capacidade competitiva,

-Transavia com custos de LCC, assim como a Monarch, mas air berlin bem acima,

-Easyjet, Vueling e Jet2.com com custos em linha,

-a informação data de 2012 e mostra que o projecto do Lufthansa Group fazer da Germanwings a sua LCC estava condenado, independentemente da tragédia nos Alpes.

Figura 4 – Unit costs and average sector length for selected European legacy and low-cost carriers 2012*

Fonte: CAPA analysis of company accounts and traffic data, CAPA, Germanwings: can a premium strategy sustain an LCC? Lufthansa would like to think so, Outubro 2013.

*Companhias aéreas da Europa

As FSCs da Europa têm em média “the highest cost airlines in the world” e são mais vulneráveis à concorrência externa (figura 4):

-“while the Big 3 US airlines operate  80% of their seats in the enclosed domestic market, where the bulk of their profits are generated, Europe's Big 3 have 80% of their capacity in international markets, where competition is intense and new entry is commonplace. It is little wonder they are searching for new ways of reinventing themselves on long and short haul routes.
Not only do the European airlines face significant price-based competition on short haul from the continent's increasingly powerful LCCs, but they also face growing competition on long haul from cost-efficient and high service quality airlines in the Middle East and Asia.”.

Em conclusão,

-“This emphasises the need for continuing further cost restructuring even by those that have already made good progress, especially if low cost long haul really does start to take a hold.” (8).



A Bem da Nação

Lisboa 25 Novembro 2017

Sérgio Palma Brito


Notas

(1)Para efeito do presente trabalho, as indústrias são definidas por extensão, com indicação das empresas que pertencem a cada uma delas. Esta classificação resulta de avaliação nossa segundo dois critérios:
-o que resulta de toda a informação que sintetizamos nesta II Parte do documento Turismo e transporte aéreo em Portugal, II Parte – Indústrias europeias do transporte aéreo http://www.ciitt.ualg.pt/02/SPB2016pdf/SPB2016ParteII.pdf

-a importância real ou do potencial futuro da companhia aérea para o turismo internacional em Portugal, com destaque para o turismo receptor.

(2)Valores anuais em ICAO, Annual Report of the Council. Sobre estatísticas, ver Doc 9060/5 Reference Manual on the ICAO Statistics Programme, Fifth Edition — 2013. Ver uma apresentação didáctica em ICAO, Introduction to Air Transport Statistics https://www.google.pt/search?q=ICAO%2C+Introduction+to+Air+Transport+Statistics&rlz=1C1GGGE_pt-PTPT471PT501&oq=ICAO%2C+Introduction+to+Air+Transport+Statistics&aqs=chrome..69i57.1697j0j8&sourceid=chrome&ie=UTF-8. O conceito de ‘internacional’ e ‘doméstico’ é simplificado para o efeito deste trabalho.


(3b)2016.03.24 CAPA Airlines in Transition. How FSCs can regain short haul share from LCCs Part 1: at the coal face

(4)A fonte dos gráficos 6 e 7 é    
2017.01.17 CAPA Ryanair's 117million pax in 2016 tops European airline groups. The first time an LCC topped rankings
A fonte do gráfico 8 é
2017.04.29 CAPA airberlin: another record loss, but "Jack of all trades" may have a chance to escape Groundhog Day

(5) A nossa classificação das companhias aéreas das indústrias europeias do transporte aéreo diverge da do CAPA ao juntar as três Ultra Low Cost Carriers (Ryanair, WIZZ e Pegasus) e as três (Easyjet, Vueling e Norwegian) no grupo restrito das cinco grandes companhias low cost pan europeias. Ver
2015.06.03 CAPA Who has the right model for European aviation? Pan-European airlines lead, but models vary

(6)2016.06.01 CAPA, CASK: Europe's Full Service Airlines have the world's highest costs, US airlines the lowest

(7)2013.10.09 CAPA, Germanwings: can a premium strategy sustain an LCC? Lufthansa would like to think so, 9 outubro 2013.

(8)2016.06.01 CAPA CASK: Europe's Full Service Airlines have the world's highest costs, US airlines the lowest

TAP SA – oito perguntas bem explicadas e a exigir resposta

É excelente que a TAP esteja fora da agenda política. É ainda melhor que a ela não volte, mas o actual silêncio pode esconder perigos. Para os minorar é importante divulgar informação sobre a empresa, mas esta não a comunica. Informação profissional divulgada a tempo e horas introduz transparência em empresa onde o Estado detém 50% do capital e põe pressão sobre governo, accionistas privados, gestores, trabalhadores e sindicatos.

Oito perguntas bem explicadas ajudam a esclarecer o que falta e está em causa. Em supersíntese

1ª.Quando é que a TAP passa a divulgar informação empresarial profissional mensal, semestral e anual (corporate information) sobre o desempenho operacional e económico da empresa, a exemplo das boas práticas internacionais?

2ª.Como conta a TAP gerir a dívida de modo a que esta não comprometa a renovação da frota? E até que ponto e em que condições o accionista HNA pode assegurar este financiamento? E qual é o plano B se a HNA não financiar?

3ª.Porque razão a TAP não informa honestamente os portugueses, dezasseis milhões de accionistas, sobre a diferença entre resultado líquido do exercício ‘com fuel baixo’ e ‘resultado sem o efeito do fuel baixo’ (ex fuel)?

4ª.Que medidas de redução de custos já tomou e vai tomar a TAP para ser rentável sem fuel baixo e fazer face à possível subida do preço do fuel, sabendo que a companhia não aguenta preço superior a $50?

5ª.Até quando conta a TAP omitir informação sobre custos unitários (CASK), cuja redução é indispensável à sobrevivência da Empresa? Está ou não em curso um esforço sustentado de redução dos custos em 150 a 200 milhões de euros até 2020, como previsto no Projecto RISE? Como conciliar a redução de custos com o contrato Groundforce depois do acordo entre governo/sindicato para evitar a greve do Natal 2016?  

6ª.Apesar do secretismo das negociações sobre o hub de Lisboa na rota China/Brasil, pode a TAP pública a 50% fornecer informação profissional sobre o assunto, dada a relevância que tem para o País?

7ª.A colocação em bolsa do capital privado da TAP está prevista na privatização de 2015 e reversão em 2016. Dada a situação económica e financeira da TAP, que sentido faz o CEO Fernando Pinto andar a referir esta operação?

8ª.Porque não têm sido os portugueses informados sobre o futuro da TAP assentar, entre outros, em três pressupostos: gestão exclusivamente privada, fora de interferências politicas e acordo accionista que tal garante? Mais concretamente, há ou não interferência política no escamotear do plano RISE de redução de custos que é decisiva para a TAP?


1.Informação corporativa profissional

Quando é que a TAP passa a divulgar informação empresarial sobre o desempenho operacional e económico da empresa, a exemplo das boas práticas internacionais? Quanto tempo temos ainda de esperar até a TAP mostrar pelos portugueses o mesmo respeito que as congéneres cotadas em bolsa mostram para com accionistas, investidores, analistas ou outros?

A TAP esteve quase falência em 1993, 2000 e 2015. O simples aumento do custo do petróleo pode criar uma situação idêntica.

O accionista Estado representa cerca de dezasseis milhões de accionistas espalhados por Portugal e Resto do Mundo. Muitos destes accionistas têm sido iludidos e intoxicados por narrativas da obsoleta transportadora aérea nacional, incompatíveis com a TAP da regulação europeia.

A TAP deve criar sistema de informação empresarial completo e profissional, como o de FSC congéneres cotadas nas bolsas europeias e adequado aos milhões de ‘accionistas’ que o Estado representa. Mais concretamente

-retomar a publicação dos relatórios anuais que vinham sendo publicados até 2015 e melhorar substancialmente o seu conteúdo,

-apresentar as contas anuais e os resultados semestrais como fazem as suas congéneres,

-publicar informação mensal sobre resultados operacionais.

A leitura do post ‘Indicadores correntes da performance de companhias aéreas’ é indispensável para compreender o que está em causa em http://sergiopalmabrito.blogspot.pt/2017/11/tap-e-indicadores-correntes-da.html

As perguntas que seguem poderiam estar melhor apoiadas por números se dispuséssemos dessa informação.


2.Dívida em geral e no financiamento da frota

Como conta a TAP gerir a dívida, de maneira a evitar que a dívida comprometa a renovação da frota? E até que ponto e em que condições o accionista HNA pode vir a assegurar este financiamento? E qual é o Plano B, se ‘o tio rico’ não financiar a sobrinha pobre?

Ainda no contexto da aquisição da maioria do capital da TAP prevista na privatização pelo governo PSD/CDS, em Junho 2015, na primeira conferência de imprensa e segundo o Observador,

-“a dupla Neeleman/Pedrosa promete investir, pelo menos, 600 milhões de euros. Este montante inclui a recapitalização da TAP, no valor de 338 milhões de euros, e o financiamento à compra de 53 novos aviões, que oscilará entre os 250 e os 300 milhões de euros. O investimento poderá mesmo ser superior, e chegar aos 800 milhões de euros, admitem os investidores.” (1).

A reversão da TAP inviabiliza este financiamento que detractores da privatização alegam nunca ter existido. Em 4 Outubro 2016 e em reunião com trabalhadores, Fernando Pinto refere “dificuldade de investimento“, agravada pela “dívida ainda elevada”. A dívida da transportadora ascende a 887 milhões de euros e está actualmente a ser renegociada, o que “limita a capacidade de investimento em novas aeronaves”. (2). Acrescenta que “A idade média da frota da TAP é 15 anos, face a uma média de oito ou nove anos dos concorrentes. Ao mesmo tempo, as tarifas que a TAP oferece são “pouco competitivas” no que toca à relação preço/serviço, reconheceu Fernando Pinto”.

No documento “Preparing for winter” (3) e sobre cost restructuring, a McKinsey propõe:

-“Purchases are cheaper than leases over the lifetime of the asset, even including the value of flexibility that leases bring. Airlines should look to buy more of their aircraft as they replace their fleet, lowering their lease costs.”.

É isto que a TAP não pode fazer pelo endividamento excessivo, fruto da descapitalização da empresa que resulta da descapitalização inicial de 2000 e da insuficiente rentabilidade desde então – ver link. A renovação da frota é indispensável para reduzir custos de operação e apresentar um produto mais competitivo ao consumidor.

Em 29 Setembro 2016 e no entusiasmo da HNA apoiar quatro voos semanais da TAP para a China, David Neeleman referindo-se à HNA Airlines: “É bom ter um tio rico”, cita o Hoje Macau.” (4). É quase anedótico mas significativo, como vemos a seguir na entrevista ao Publituris.

Em Março 2017 e em entrevista ao Publituris (4), interrogado sobre “Quanto dinheiro vai ser preciso?”, DN responde:

-“Muito. Até 300 milhões de euros. […] O capital que colocámos na empresa não será suficiente para fazermos tudo o que temos de fazer para criar uma nova TAP para o futuro.”.

Sobre “Se não é suficiente, como vão ter esse capital?”, DN responde:

-“Temos um sócio, que é a HNA, vamos discutindo com ele a melhor forma de podermos fazer esta restruturação.”.

Ficamos sem saber se esta verba é só para recapitalizar a empresa ou se também é para a renovação da frota, e sem saber se a proposta inicial cai com a reversão da privatização. Fica a ideia que o investidor será a HNA.

A 14 Junho 2017 no Jornal de Negócios, Fernando Pinto fala de: “capacidade de capital” para “investimentos adicionais”, mais do que do code share com a companhia aérea do parceiro chinês. Declara:

-“Eles têm uma capacidade de capital muito grande e isso para nós é uma tranquilidade. Se for necessário investimentos adicionais eles têm forma de ter acesso a capital. E na parte estratégica nós vamos começar a receber agora os voos a partir de Julho, vamos poder fazer ‘code-share’ e é um mercado totalmente novo para nós.” (6).


3.Encargo com combustível e resultado líquido do exercício

Em 2015 e 2016, o resultado líquido da TAP ex-fuel é de €-236,8milhões e €-193 milhões, respectivamente. Porque razão a TAP não informa honestamente os portugueses sobre a diferença entre resultado ‘com fuel baixo’ e ‘resultado sem o efeito do fuel baixo’?

Sobre a poupança da TAP em combustível em 2016 e segundo Fernando Pinto, a expectativa é que 2016 termine com lucros “muito à boleia da poupança gerada com a queda do preço do petróleo”, mas a melhoria não atingirá €220milhões, “2016 será melhor do que no ano passado, mas nem de perto será esse diferencial”, disse.”. E acrescenta, "Gostaríamos que isso representasse uma melhoria de 220 milhões nos resultados, mas não se vai traduzir, infelizmente", afirmou o presidente da TAP, Fernando Pinto durante uma reunião com trabalhadores da companhia aérea. (7). Muito fraca, esta posição do responsável pela gestão.

O gráfico 1 dá uma imagem mais profissional da relação entre encargo com combustível e resultado líquido do exercício na TAP SA. Destacamos,

-a baixa do preço do fuel que começa em 2014 (azul claro) – €353,2milhões entre 2013/2016 ou 44,3%,

-Efeito preço no custo do combustível (verde),

-Resultado líquido do exercício (amarelo torrado),

-Resultado ex-fuel = Resultado líquido mais Efeito preço (vermelho).

Gráfico 1 – TAP SA Encargo com combustível e resultado líquido do exercício


Fonte: Elaboração própria com base em Grupo TAP, relatórios anuais


4.Encargo com combustível, preço petróleo e sustentabilidade
David Neeleman reconhece que a TAP aguenta enquanto o barril de combustível estiver “abaixo de 50” euros, mas que a empresa não pode contar com isso para o futuro, porque o preço irá, inevitavelmente, subir mais cedo ou mais tarde, pelo que tem de se reorganizar desde já.”. Que medidas de redução de custos (“reorganizar”) já tomou e vai tomar a TAP para fazer face à possível subida do preço do fuel?

A importância da queda do preço do fuel não tem sido devidamente destacada nas notícias sobre o crescimento do transporte aéreo em Portugal. A título de informação sobre tendência, apresentamos (figura 1) a evolução do Crude Oil Brent a dez anos e a um ano (8). A dez anos, destacamos:

-pico de 2008, ano em que o prejuízo da TAP é de €208milhões (9),

-posterior queda brusca seguida de estabilização acima de €100,

-queda brusca iniciada em 2014, que se prolonga em 2015 e 2016.

A um ano, destacamos a recente tendência de crescimento, que deve ser seguida com atenção. A tendência é anterior aos recentes acontecimentos na Arabia Saudita e reforçada por estes em extensão que desconhecemos. Certo é estarmos em presença de tendência crescente e volatilidade que a pode reforçar ou inverter.

Figura 1 – Crude Oil Brent preço a dez anos e a um ano.


Fonte: Elaboração própria com base em NASDAQ


Em 27 Setembro 2016, David Neeleman fixa o custo aceitável do combustível:

-a companhia aérea aguenta enquanto o barril de combustível estiver “abaixo de 50” euros, mas que a empresa não pode contar com isso para o futuro, porque o preço irá, inevitavelmente, subir mais cedo ou mais tarde, pelo que tem de se reorganizar desde já.” (10a).

Até que ponto a politica de crescimento da oferta de lugares marca os últimos tempos é sustentável (como parece ser o crescimento na América do Norte) ou, como parece ser o caso de outras rotas, não é apenas efémero e de consequências gravosas? Nas palavras de analista so CAPA ao Financial Times, “Some Airlines have kept going longer than they would have and some have put more capacity in as a result of cheaper fuel,” e “Bur there is a self-correcting mechanism here – the capacity glut leads to plummeting unit revenues, and those that don’t have the cost base to survive plummeting unit revenues eventually suffer and dis appear. You almost need that situation to cut the dead wood out.” (10b).

A gestão desta ameaça sobre a existência da TAP implica aviões mais eficientes e a redução de custos que referimos, porque o fatal aumento do custo do combustível escapa quase completamente à empresa.


5.Redução de custos unitários

Até quando conta a TAP omitir informação sobre custos unitários (CASK), cuja redução é indispensável à sobrevivência da Empresa? Está ou não em curso um esforço sustentado de redução dos custos em 150 a 200 milhões de euros até 2020, como previsto no Projecto RISE? Como a TAP concilia a redução de custos com o contrato Groundforce depois do acordo entre governo/sindicato para evitar a greve do Natal 2016?   

Durante toda a discussão sobre a TAP, já longa de anos e anos, não recordamos ter encontrado referência ao que é factor crítico de sucesso das companhias aéreas ao longo dos últimos mais de cinquenta anos: agestão do ‘custo unitário’ ou CASK - Cost per Available Seat Kilometer. Citamos:

-“For all airlines and all markets, CASK reduction - or, at least having the most efficient level of CASK for the chosen business model - is crucial. The long-term history of the global airline industry is one of falling unit revenue in real terms. The only way that the industry has ever made a positive margin has been through lowering its CASK. This remains vitally the case as economic conditions remain soft.
After profits, CASK has become a vital focus for airline managements over recent years [o sublinhado é nosso].” (11).

Sobre a ilusão de compensar custo unitários excessivos com crescimento da receita unitária, citamos:

-“Just as, in aggregate, the global airline industry has struggled to sustain real RASK (Revenue per Available Seat Kilometer) growth, individual airlines often find that it can be difficult to maintain a reliably profitable strategy based on unit revenue increases. In such an industry, CASK is king.”.

Em 26 Setembro 2016, o título do Eco fala por si: “Estudo: TAP tem de poupar 150 a 200 milhões de euros até 2020 para ser eficiente”. O Eco tem acesso ao estudo “Project RISE: Transforming TAP into a more efficient and agile flag airline carrier“, que se apresenta como

- “Um ambicioso programa de eficiência, com poupanças entre 150 e 200 milhões de euros até 2020, poderia ser implementado. A tripulação e comandantes e as despesas gerais apresentam-se como as áreas com maior nível de potencialidade”.

Há três áreas essenciais onde cortar

-Pilotos e tripulação:A produtividade e eficiência de custos destes trabalhadores têm “grande margem para melhoria”. Mais concretamente, uma margem de 50 a 70 milhões de euros. Esta poupança seria conseguida com a renegociação de acordos de empresa e o ajustamento do número de assistentes de bordo ao mínimo exigido por voo.”,  

-Custos com passageiros: “Contas feitas, a companhia aérea tem de fazer poupanças de 40 a 65 milhões de euros nesta área.”,

-Serviços de apoio: “Aumentar a eficiência e eficácia dos serviços de apoio permitiria arrecadar mais dez a 15 milhões de euros em poupanças, reduzindo a força de trabalho em 40% (incluindo os trabalhadores em regime de outsourcing)” – inclui renegociação do contrato com a Groundforce (cujo custo é 30% mais caro do que o contrato com a Portway, empresa integrada na Vinci).

Por fim, a TAP precisa de

-“uma organização mais ágil para implementar a mudança e alcançar resultados sustentáveis” e “implementar um programa de recursos humanos abrangente, com um processo de avaliação do desempenho e gestão de talentos”. (12).

A 27 Setembro 2016, David Neeleman declara: “As pessoas pensaram que íamos cortar salários, pessoas, mas não, isso é o novo activo. Quando dizemos que temos de poupar 150 milhões de euros é com eficiência“ (13). Esta declaração ignora que o pessoal da TAP não quer despedimentos nem alteação do seu estatuto para cortar custos.

De Outubro até hoje, não se volta a ouvir falar no RISE. O Relatório de Gestão (Principais Factos) e Contas do Exercício 2016 não o destaca. Pelo contrário, há notícia perturbadora. A redução de custos abrange os de Assistência em Terra prestados pela Grounforce. O Sitava anuncia greve para Natal/Ano Novo de 2016. Segundo o Publico “depois de contactos entre o gabinete do primeiro-ministro e a direcção da CGTP, onde está integrado o Sindicato dos Trabalhadores da Aviação e Aeroportos”, o sindicato quer que “o contrato que a TAP tem com os serviços de handling prestados pela Groundforce seja renovado em Junho”. Segundo um sindicalista “Assim que assuma o seu lugar como accionista maioritário da TAP poderá faze-lo, e assim dar as garantias de que a empresa continuará com a sua estrutura e com os postos de trabalho” (14). Por outras palavras, uma interferência politica a travar redução de custos prevista no Programa RISE.


6.China – a terceira oportunidade da opção pelo hub

Posicionar o hub de Lisboa na rota China/Brasil data de Novembro 2015, quando a HNA entra no capital da Azul, ganha exposição empresarial e política com os primeiros voos Pequim/Lisboa. Apesar do secretismo das negociações pode a TAP pública a 50% fornecer informação profissional sobre o assunto, dada a sua relevância para o País?

Em Novembro de 2015, o grupo chinês HNA adquire 24% do capital da Azul, a companhia aérea brasileira fundada por David Neeleman. Desde então a aquisição da TAP por David Neeleman arrasta consigo a possibilidade de Lisboa ser a opção da HNA em rotas para a América do Sul.

Esta possibilidade e o simples bom senso levam DN a cancelar a aquisição dos Airbus A350 por aviões mais adequados ao hub de Lisboa para a América do Sul e, inovação estratégica decisiva de Neeleman, para a América do Norte. Fica claro que os voos entre China e Portugal serão operados por companhias chinesas e não em operação isolada da TAP. Graças a DN não temos o repetir da ruinosa rota de Macau.

Em Novembro 2015, a análise CAPA sobre a HNA no capital da Azul refere:
-“A TAP partnership could potentially have given Hainan more one-stop access and a less capital intensive way of accessing Latin America, compared to potentially flying its own aircraft all the way to the region. TAP also does not serve Asia, meaning a Hainan connection from China onto TAP's network would create no direct cannibalisation, although TAP may face objections from Star partner Air China. Star Alliance generally has restrictions on codeshares with non-Star carriers.” (15).

Em 24 Abril 2016, o Dinheiro Vivo cita o ministro Pedro Marques “Trata-se de uma grande empresa asiática, grande operadora turística e de aviação. Que poderá permitir alguma rota de ligação da Ásia a Lisboa o que faz de Lisboa um hub muito interessante”, afirmou Pedro Marques, não escondendo que “foi o governo anterior que deu os primeiros passos no sentido destes acionistas chineses [entrarem] na TAP” (16).

A 27 Setembro 2016 o Dinheiro Vivo noticia o entusiasmo de David Neeleman
-“David Neeleman confirma que chineses começam a voar no próximo ano para a Lisboa. Para já serão quatro vezes, mas accionista até quer mais. A primeira ligação da TAP entre Lisboa e a China deve arrancar em junho do próximo ano e, se a vontade do accionista David Neeleman se cumprir, os voos poderão ser diários.” (17).

Segundo o NewsAvia, “Neeleman até comentou que, da próxima vez que for à China, ainda consegue chegar acordo para se fazerem não quatro, mas sim sete voos semanais para a China” (18).

Em 11 Julho 2017, “O primeiro-ministro português, António Costa, disse hoje esperar que os voos diretos Lisboa-Pequim, a partir de 26 de julho, sejam um reforço de Portugal como "grande 'hub' intercontinental" (centro de operações).” (19).

Em 18 Julho 2017, “As companhias brasileira Azul e chinesa Beijing Capital Airlines fecharam um acordo de interline que proporcionará aos clientes de ambas as empresas viagens mais rápidas e cómodas entre o Brasil e a China. A partir de agora, ambas passam a comercializar passagens de maneira conjunta para voos entre os países, com uma escala em Lisboa. As passagens já estão à venda em todos os canais de atendimento da Azul. A companhia aérea chinesa faz parte do Grupo HNA, investidor da Azul desde 2016.” (20).


7.“TAP poderá ir para a bolsa e ser um sucesso”

A colocação em bolsa do capital privado da TAP em bolsa está prevista na privatização de 2015 e sua reversão em 2016. Neste quadro e no contexto económico e financeiro da empresa e em meados de 2017, que sentido faz o CEO Fernando Pinto referir esta operação? É parte da informação cosmética que tem vindo a ser divulgada só com boas notícias?

Em 15 Junho 2015 e na onda da privatização, “Consórcio de David Neeleman e Humberto Pedrosa tem em mente a chegada ao mercado de capitais nos próximos anos. Meta faz parte do plano estratégico apresentado durante o processo de privatização.”. Mais, “Neeleman e Pedrosa esperam que em cinco anos, a TAP passe a ter um saldo positivo de 1,3 mil milhões de euros em capitais próprios.”. No documento de estratégia a Gateway afirma: “Tendo em conta estes valores, perto de 2020 o agrupamento acredita que terá uma perspectiva realista de poder lançar a TAP na Euronext”, afirma a Gateway no documento de estratégia.” (21).

Em 21 Novembro 2016 e na onda da reversão, o título do Público é:” TAP só pode ser vendida em bolsa quando valer 1200 milhões”. Citamos:

-“As acções da TAP só vão poder ser vendidas em bolsa quando a companhia valer 1,2 mil milhões de euros. Este é um dos pontos mais importantes do acordo selado entre o Estado e a Atlantic Gateway […] Foi, aliás, um ponto decisivo na negociação, […] só nessa altura é que poderá avançar uma venda em bolsa – mas sempre sem que o Estado perca os seus 50% na TAP. […] A avaliação de 1,2 mil milhões de euros é baseada num outro indicador inscrito no plano de negócios da transportadora aérea (22).

Em 14 Junho 2017 e quando só saem notícias positivas sobre a TAP, o Jornal de Negócios faz título de uma frase de Fernando Pinto: “TAP poderá ir para a bolsa e ser um sucesso”. No texto da notícia apenas encontramos: “Fernando Pinto adianta que a TAP até poderá dispersar o capital em bolsa mais cedo do que muitos imaginam.”. Apesar da importância do que Fernando Pinto afirma … o jornalista nada mais adianta. (23).

A 21 Julho, na Conferência Think Forward, Fernando Pinto é mais preciso: “Um horizonte de cinco anos é bastante interessante” (24).


8.Gestão privada e exigências políticas – uma geringonça diferente

Porque não têm sido os portugueses informados sobre o futuro da TAP assentar, entre outros, em três pressupostos: i)a Atlantic Gateway via comissão executiva assegura gestão exclusivamente privada e pode gerir a TAP sem interferências políticas; ii)o plano estratégico definido pelo Atlantic Gatewya com o qual venceu a privatização foi aceite pelo novo Governo; iii)acordo de accionistas em que o Governo protege a gestão privada de alterações e interferências nestes domínios? Mais concretamente, há ou não interferência política no escamotear do plano RISE de redução de custos que é decisiva para a TAP?

Muitas das notícias sobre a administração da TAP ignoram o essencial: a gestão da TAP é privada e a administração é pública/privada. O governo insiste em não divulgar os documentos sobre o acordo de reversão da privatização, o que viola todas as regras da transparência da coisa pública.
Felizmente para os portugueses, David Neleman fala da boca para fora. 

Retemos o essencial das suas declarações em entrevista ao Publituris em Março 2017:

-”se me perguntar se era o que eu sonhava quando, em conjunto com o meu sócio HP, vencemos a privatização da TAP, a minha resposta sincera é que nunca poderia imaginar tal alteração e não a desejava.

Mas a vida é o que é e temos de nos saber ajustar às suas mudanças” […]

-“Aceitámos negociar e estabelecer um novo modelo com este Governo e, hoje, estamos confortáveis com o acordo a que chegámos”,

-“Na negociação, estabelecemos três pressupostos sem os quais não pretendíamos continuar, mas felizmente foi possível serem satisfeitos.”,

-“Concordámos que o Estado reforçasse a sua participação social desde que a Atlantic Gateway pudesse gerir a TAP sem interferências políticas – a comissão executiva ser exclusivamente privada.”,

-“o plano estratégico definido por nós, e com o qual vencemos a privatização fosse aceite pelo novo Governo”,

-“Os nossos direitos económicos [superiores à percentagem de capital] ficassem salvaguardados.”,

-“o Governo nos ajudasse na melhoria das condições financeiras existentes para a TAP”.

-“Com estes pressupostos garantidos e assentes num acordo de accionistas com o Governo que nos protege de alterações e interferências nestes domínios, foi possível continuar este projecto tão aliciante para nós e sobretudo para Portugal.”.

Os administradores vão “administrar” no quadro de um acordo em que a gestão é privada e que exclui interferências políticas na gestão da TAP.

Em 14 Junho 2017, Fernando Pinto é interrogado sobre: “O facto de o Estado ter reforçado a sua posição como accionista, ficando com uma participação de 50%, causa algum incómodo aos accionistas privados?”. A resposta é politicamente correcta, mas não tranquiliza o cidadão:

-“existe um acordo de accionistas muito bem feito que proporciona um equilíbrio muito bom para os dois lados. O Estado está muito bem protegido, mas os accionistas privados também estão.” (25).


A Bem da Nação

Lisboa 21 Novembro 2017

Sérgio Palma Brito


Notas

(1)2015.06.24 Observador Novo dono da TAP afasta cenário de ceder a maioria do capital.

(2)2016.10.04 Jornal Negócios Fernando Pinto anuncia plano de redução de custos da TAP em 150 milhões de euros.

(3)McKInsey&Company, Winter is coming: The future of European aviation and how to survive it, Travel, Transport & Logistics September 2016.

(4)2016.09.20 NewsAvia TAP Começa A Voar Para A China Antes Do Verão Com Quatro Voos Semanais

(5)Publituris de 17 Março 2017.

(6) 2017.07.14 Jornal Negócios Fernando Pinto: “TAP poderá ir para a bolsa e ser um sucesso”

(7)2016.10.04 Jornal Negócios TAP deverá beneficiar de 220 milhões com a queda do petróleo este ano


(9)Ver post Resultados da TAP e Grupo TAP em 2016. FALTA

(10a)2016.09.27 Sic Noticias, TAP quer cortar custos pela eficiência sem despedimentos


(11)2016.06.01 CAPA, CASK: Europe's Full Service Airlines have the world's highest costs, US airlines the lowest

(12)2016.09.26 Eco, Estudo: TAP tem de poupar 150 a 200 milhões de euros até 2020 para ser eficiente

(13)V2016.09.28  Eco, Neeleman: TAP tem de “melhorar resultados”, mas corte de custos será pela eficiência. Sem despedimentos

(14)2016.12.26 Publico, Intervenção do Governo faz cancelar greve nos aeroportos

(15)2015.11.28 CAPA, HNA of Hainan Airlines buys 24% of Azul as China's airlines eye their final continent: South America

(16)2016.04.26.DVivo.HubChina
Chineses da TAP farão “de Lisboa um hub muito interessante”

(17)2016.09.29.DVivo.China
Neeleman admite voo diário da TAP para a China já em 2017

(18)Texto da Nota (4).

(19)2017.07.11.DN.HubChina
Costa espera que voos diretos Lisboa-Pequim reforcem Portugal como "grande 'hub'"

(20)2017.07.18.NewsAvia.AZulHub
Azul Vende Voos Do Brasil Para A China Com Escala Em Lisboa

(21)2015.06.15 noticiasaominuto, Novos donos querem TAP na bolsa portuguesa

(22)2016.11.21 Publico, TAP só pode ser vendida em bolsa quando valer 1200 milhões

(23)Ver Nota (5).

(24)2017.07.21 Dinheiro Vivo TAP em bolsa? “Tão logo quanto possível”.

(25)Ver Nota (6).