População residente e turismo em Lisboa 1960/2011

Entre 1960/2011, Lisboa perde 254 mil habitantes (31,7%), o que parece muito, sobretudo quando a população de Barcelona cresce 45 mil habitantes (2,9%). Acontece que

-no mesmo período, o Centro Histórico perde 193 mil habitantes (63,5%), a Zona crítica de despovoamento perde 120 mil habitantes (73,2%) e a freguesia do Castelo perde 1.535 habitantes (81.2%).

-na realidade, só nos vinte anos entre 1981/2001, Lisboa perde 243 mil habitantes, porque entre 1961/81 a população ganha 6 mil habitantes.

Vamos esmiuçar três pontos:

-Lisboa perde de população na diversidade de evoluções de diferentes freguesias antigas,

-padrão de perda de população no Centro Histórico e Zona crítica diverge do seguido pela população de Lisboa,

-População de Lisboa estimada pelo INE e comparada com a do Algarve.


Este post é apoiado pelo documento “Informação útil a quem opina sobre turismo e Lisboa” (aqui). Recomendamos leitura dos Princípios Gerais do blogue (http://sergiopalmabrito.blogspot.pt/p/apresentacao.html).


1.Lisboa – perda de população na diversidade de evoluções

*População de Lisboa entre 1960/2011
Na evolução da população de Lisboa entre 1960/2011 (gráfico 1), há três períodos. Entre 1960/1981 a população de Lisboa aumenta ligeiramente, com perda de 33k residentes na década de sessenta (saldo de emigração/imigração) e ganho de 39k na de setenta (regresso dos portugueses das colónias?),

Nos vinte anos entre 1981/2001 Lisboa perde 243k habitantes, na realidade a perda que marca o meio século em apreço. Nos dez anos seguintes (2001/11) Lisboa apenas perde apenas 17k habitantes.

Gráfico 1 – População residente em Lisboa entre 1960/2011 (milhares)


Fonte: Elaboração própria com base em INE, Recenseamentos da Habitação

*Entre 1960/2011 – ganhos e perdas de população
O gráfico 2 ilustra a variação entre 1960/2011 da população das freguesias de Lisboa que mais ganham ou perdem população. Um facto salta à vista:

-freguesias da Zona crítica de despovoamento perdem população e freguesias da periferia do concelho ganham população.

Gráfico 2 – Variação da população de freguesias de Lisboa 1960/2011


Fonte: Elaboração própria com base em INE, Recenseamentos da Habitação

*Freguesias que ganham e perdem população
O gráfico 3 ilustra a evolução da variação decenal da população de Lisboa (a azul), das freguesias que ganham população (grenat) e das que perdem população (amarelo torrado).

Gráfico 3 – Evolução decenal da população Lisboa entre 1960/11 (milhares)


Fonte: Elaboração própria com base em INE, Recenseamentos da Habitação

Deste gráfico destacamos,

-a década de 1960, com freguesias a perderem 147 mil habitantes e outras a ganhar 105 mil – serão lisboetas a emigrar para o estrangeiro e provincianos a migrar para a capital?

-na evolução na década de 1970 a explicação da divegência pode residir na instalação dos portugueses que fogem das colónias,

-na evolução das três décadas seguintes domina a perda de população, a ritmo naturalmente decrescente, no que parece ser “profundo processo de suburbanização endógeno das últimas décadas” de que fala Paulo Trigo Pereira (aqui), mas certamente não por efeito do turismo.

O leitor deve preocupar-se com uma explicação séria da evolução que o gráfico ilustra. As nossas sugestões são o que são, talvez mais sólidas do que muitos dos palpites que ouve e lê, mas ainda assim sugestões.  

*Freguesias na variação entre 1981/2001 e 2001/11
Consideramos (gráfico 4) a evolução da população nas freguesias em que a população mais diminui durante os vinte anos de queda brusca (1981/2001) e mostramos o que acontece nos dez anos de quase estabilização (2001/11).

Gráfico 4 – Freguesias na variação entre 1981/01 e 2001/11 (habitantes)


Fonte: Elaboração própria com base em INE, Recenseamentos da Habitação

Do destacamos:

-quase todas as freguesias que mais população perderam nos vinte anos anteriores estabilizam a perda de população entre 2001/11, com excepção de Santo Condestável, Ajuda, S. João, Benfica e S. João de Brito que perdem mais de 1.000k habitantes cada uma,

-Sta. Maria dos Olivais que passa de uma perda de -15.531k habitantes a um ganho de 4.626 habitantes,

-duas freguesias com evolução positiva no século XXI e forte perda nos vinte anos antes: S. Jorge de Arroios e S. Sebastião da Pedreira que são freguesias contíguas, conhecidas como área de residência de imigrantes.


2.Perda de população: Centro Histórico e Zona crítica divergem

O gráfico 5 é sobretudo informativo, mas dá uma primeira imagem da diferença entre o padrão de evolução da população da cidade e o da evolução da população no Centro Histórico e Zona crítica:

-perda de população no Centro Histórico e Zona crítica que é muito mais importante do que na Cidade,

-diferença acentuada na variação decenal dos anos de 1960 e 1970.

Gráfico 5 – População da Cidade, Centro Histórico e Zona Crítica (habitantes)


Fonte: Elaboração própria com base em INE, Recenseamentos da Habitação

A variação da população em índice (gráfico 6) é mais elucidativa porque atenua o efeito da diferença de escala no gráfico em quantidade. Assim,

-nas décadas de 1960 e 1970, Lisboa ganha um ponto base, mas o Centro Histórico perde 28 e a Zona crítica 36 – é fundamental conhecer as dinâmicas que explicam esta diferença,

-entre 1981/2001, Lisboa perde 33 pontos base, mas o Centro Histórico e Zona crítica, apesar da perda dos vinte a anos anteriores, perdem 31 e e 32 pontos base, respectivamente,

-na década de 2000/11, a população de Lisboa perde dois pontos base, mas as do Centro Histórico e Zona crítica perdem cinco.

Gráfico 6 – População da Cidade, Centro Histórico e Zona Crítica (1960=100)


Fonte: Elaboração própria com base em INE, Recenseamentos da Habitação

O gráfico 7 compara, em quantidade, a variação decenal da população dos três territórios em causa e reforça as observações anteriores:

-a grande diferença no padrão de evolução da população residente da Cidade por um lado, e residente no Centro Histórico e Zona crítica por outro, ocorre durante as décadas de sessenta.

Gráfico 7 – Variação decenal população da Cidade, Centro Histórico e Zona Crítica (milhares)


Fonte: Elaboração própria com base em INE, Recenseamentos da Habitação


3.População de Lisboa: INE e Algarve

*Evolução anual população de Lisboa e modelos estatísticos do INE
A quantificação pelo INE da evolução anual da população de Lisboa segundo os Anuários da Região de Lisboa (gráfico 8) levanta questões:

-a queda de população entre 2005/10 é questionada pelo Recenseamento de 2011 e parece resultar de modelo estatístico desligado da realidade,

-a evolução entre 2012/15 parece resultar da aplicação do mesmo modelo e constatamos que, com a excepção de 2013, os números anuais não corrigidos coincidem com os corrigidos … enquanto esperam pelo Recenseamento de 2021 que os corrigirá.

Gráfico 2.8 – População de Lisboa em valores anuais não corrigidos (milhares)


Fonte: Elaboração própria com base em INE - Anuário Estatístico da Região de Lisboa

O gráfico 9 com valores anuais revistos da população de Lisboa com base nos recenseamentos de 1991, 2001 e 2011 e correcção dos resultados do modelo estatístico com o Recenseamento de 2011.

No quadro do presente documento, a evolução da população de Lisboa pode interessar para termos uma noção da influência do crescimento da economia do turismo. Em nossa opinião este exercício não faz grande sentido por

-a escala da população de Lisboa não permitir identificar a influência do turismo no crescimento da população da Cidade.

-inquérito junto de quem trabalha em actividades turísticas poderá dar uma ideia da influência directa do turismo na população da Cidade – este esforço parece possível e susceptível de dar informação útil.

Gráfico 9 – População de Lisboa valores anuais corrigidos (milhares)


Fonte: Elaboração própria com base em INE

*População de Lisboa e turismo – o precedente do Algarve
A comparação da evolução da população residente no Algarve e em Lisboa (gráfico 10) mostra que

-no Algarve o desenvolvimento do turismo inverte um processo de despovoamento que teria sido fatal para a Região,

-em Lisboa, o turismo tem menor escala e muito menor componente de promoção imobiliária, mas retém e atrai população – a questão é saber quanta e onde se aloja.

Gráfico 10 – População residente em Lisboa e Algarve (1950=100)


Fonte: Elaboração própria com base em INE, Recenseamentos da Habitação

Sobre o Algarve, citamos Território e turismo no Algarve:

-“Se esta região estivesse unicamente dependente da sua dinâmica natural, tenderia a perder progressivamente população, como consequência do acentuado declínio da sua fecundidade. Até ao ano 2000 perderia cerca de 90.000 habitantes”*.

Não perdeu 90.000 habitantes no que passaria a ser um Nordeste transmontano com praias. Ganhou 183.000, para atingir 451.000 habitantes em 2011.


A Bem da Nação

Lisboa 23 de Fevereiro de 2017

Sérgio Palma Brito

*J. Manuel Nazareth, Unidade e Diversidade da Demografia Portuguesa no Final do Século XX, Portugal: os próximos 20 anos, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa 1988.


Turismo no território de Lisboa – a base de todas as opiniões

As actividades da indústria do turismo em Lisboa têm limitada implantação espacial nos 87.74 km2 da cidade. Nada de original nem de extraordinário. Turismo e outro espaço urbano ocupam cerca de 200 km2 nos 5.000 km2 do Algarve e encontramos o mesmo padrão em outras cidades do mundo.

Em nossa opinião, toda e qualquer opinião sobre o turismo em Lisboa deve assentar em base territorial explícita, de preferência com definição formal. Na maior parte dos casos, ignorar esta regra desqualifica a opinião.   


Explicaremos isto e muito mais na série de posts de que este é o primeiro. A base analítica dos posts é o documento “Informação útil a quem opina sobre turismo e Lisboa” (aqui), Princípios Gerais do blogue, de leitura que recomendamos (http://sergiopalmabrito.blogspot.pt/p/apresentacao.html).


1.Lisboa

*Concelho de Lisboa
Lisboa tem 87.74 km2 de superfície. Em 2011 tem 548 mil habitantes, 238 mil alojamentos de residência habitual, 35 mil de residência secundária e 50 mil vagos. Um olhar sobre o mapa da Cidade com ‘novas freguesias’ dá-nos primeira ideia de quão vasta é a área em que não vislumbramos turistas e de quão limitada é a que mais directamente os recebe (figura 1).

Figura 1 – Cidade de Lisboa



*Urbe Histórica de Lisboa
Sem museu, monumento ou atracção que a afirmem como destino turístico, a diferença da oferta de turismo de Lisboa reside no que nós façamos na extensa faixa de Urbe Histórica, que se estende sobre colinas e ao longo do Tejo, nos cerca de doze quilómetros de Belém ao Beato.

A Urbe Histórica tem limites difusos, mas é parte da percepção que os turistas têm de Lisboa, antes de se familiarizarem com nomes como Alfama, Castelo, Bairro Alto e por aí adiante (1).

Muito do futuro do turismo na cidade de Lisboa depende da nossa capacidade em intervir a Urbe Histórica, de modo a

-conciliar as exigências do desenvolvimento da industria do turismo com a salvaguarda dos valores da cidade, da sua gente e do seu património,

-identificar os pontos de tensão neste conciliar de exigências, para intervir localmente no âmbito de estratégia consensualizada [ver ponto2].

A grande maioria de críticas ao turismo em Lisboa e as respostas que exigem têm a ver com Urbe Histórica. Para as analisar, temos de considerar espaços formais: Centro Histórico e Zona crítica de despovoamento de Lisboa

*Centro Histórico de Lisboa
No seio da Urbe Histórica, o Centro Histórico de Lisboa ocupa 16,15km2 e tem 110.792 habitantes em 2011. Tem definição administrativa e ocupa seis das ‘novas freguesias’ (2).

A experiência mostra que o Centro Histórico não é significativo para a relação entre território e turismo na Urbe Histórica de Lisboa:

-inclui freguesias antigas cujo território não é sede de problemas relevantes entre turismo e residentes,

-não inclui toda a área de Belém e Ajuda,

-a ATL acaba de definir no seu seio três novas microcentralidades turísticas, abandonando a referência genérica a Centro Histórico. [ver ponto2].

*Zona crítica de despovoamento – definição
Somos obrigados a definir um espaço formal que nos permita analisar as dinâmicas de despovoamento e de desenvolvimento do turismo no seio da Urbe Histórica de Lisboa e comparar com zonas similares de outras cidades. Esta é a origem da Zona crítica de despovoamento de Lisboa, formada pelo conjunto das vinte e uma freguesias nas quais a população residente diminui mais de 65% entre 1960/2011 (gráfico 1) (3). Esta zona

-é o coração da urbe histórica, ocupa 4,88Km2 e tem 44.482 habitantes em 2011, ou seja 5,9% da área de Lisboa e 8,1% da população,

-é definida a partir de critério estatístico e administrativo, mas ocupa um espaço urbano coerente.

Gráfico 1 – Zona crítica - variação da população residente 1960/2011 (%)


Fonte: Elaboração própria com base em INE, Recenseamentos da População

Registamos que três freguesias perdem mais de 80% da população entre 1960/2015 e, arredondando a unidades, oito perdem 75% ou mais.

*Zona crítica de despovoamento no território da Cidade
A Zona crítica de despovoamento

-exclui freguesias do Centro Histórico de Lisboa: Santa Isabel e Santo Condestável (Campo de Ourique), Lapa e Prazeres (Estrela), Penha de França e S. João (Penha de França), Graça e Santa Engrácia (São Vicente)

-inclui freguesia fora do Centro Histórico: Pena (Arroios), Coração de Jesus e S. José (Santo António),

-inclui 18 freguesias do Centro Histórico: Castelo, Encarnação, Madalena, Mártires, Mercês, Sacramento, Sta. Catarina, Sta. Justa, Santiago, Sto. Estêvão, Santos-o-Velho, São Cristóvão e São Lourenço, São Miguel, São Nicolau, São Paulo, São Vicente de Fora, Sé e Socorro,

-forma um território contíguo e coerente, susceptível de ser individualizado (figura 2) – observação a ser feita no site https://www.viamichelin.pt/.

Figura 2 – Zona crítica de despovoamento Lisboa – 21 freguesias ‘antigas’


Fonte: Elaboração própria com base em https://www.viamichelin.pt/

*Zona crítica de despovoamento e debate sobre turismo em Lisboa
Partimos da observação e da estatística e acabamos por definir uma Zona que integra as freguesias de Sta. Maria Maior e Misericórdia, mais a de Santo António, esta com excepção da freguesia antiga de S. Mamede, na qual a população diminui ‘apenas’ 61% entre 1960/2011. 

A Zona crítica de despovoamento de Lisboa

-coincide grosso modo com o das três microcentralidades turísticas definidas pela ATL – Associação Turismo de Lisboa [ver ponto 2],

-concentra muita das actividades turísticas, nomeadamente pouco menos de 62.7% do total de apartamentos de Alojamento Local registados no RNAL em 31 Dezembro 2016 (gráficos 2 e 3),

-permite comparar a sua população com a da Città Storica de Veneza ou da Ciutat Vella de Barcelona, como veremos em posts futuros.

Gráfico 2 – Registos de apartamentos de AL em Lisboa por freguesia


Fonte: Elaboração própria com base em Registo Nacional do Alojamento Local (RNAL)

Gráfico 3 – Registos de apartamentos de AL no TOP6 freguesias percentagem


Fonte: Elaboração própria com base em Registo Nacional do Alojamento Local (RNAL)

Estamos perante exemplo da concentração de actividades turísticas em três freguesias que são nova realidade na governança do turismo em Lisboa.


2.Turismo no território de Lisboa

*Microcentralidades turísticas de Lisboa
O Plano Estratégico Para o Turismo da Região de Lisboa 2015/2019 (4) “revê as microcentralidades da cidade de Lisboa adequando-as à nova realidade”:

-separação do Centro Histórico em três novas microcentralidades: ‘Bairro Alto, Cais do Sodré e Santos’, ‘Baixa-Chiado’, ‘Alfama, Castelo e Mouraria’,

-criação de uma nova microcentralidade: Marquês de Pombal e Av. da Liberdade, reconhecendo a sua relevância como destino de shopping e de negócios;

-microcentralidades de Belém, Parque das Nações e Eixo Ribeirinho mantêm as actuais fronteiras (figura 3).

Figura 3 – Redefinição das microcentralidades do turismo em Lisboa


Fonte: Elaboração própria com base em Plano Estratégico Para o Turismo na Região de Lisboa

*Há turismo em Lisboa para além da Zona crítica despovoamento
Lisboa é cidade moderna e ligada ao Tejo. Outras microcentralidades turísticas destacam

-o Eixo Ribeirinho que acompanha e integra a Urbe Histórica, mas que vai mais para além, até ao Parque das Nações,

-Avenida da Liberdade que liga Urbe Histórica a um dos business districts,

-Belém, que inclui Ajuda, na Urbe Histórica,

-Parque das Nações em si e pelo Oceanário com mais de um milhão de visitas.

*Concentração de actividades turísticas e pontos de tensão
As actividades turísticas tendem a concentrar-se na cidade, em resultado do espírito gregário dos humanos, de aparente racionalidade económica (Bairro Alto), ou de localização de atracções (Belém).

A frente Tejo, Belém ou Praça do Comércio são zonas de concentração de turistas que, pela sua extensão e paisagem com o Tejo diferenciam positivamente Lisboa – não temos o equivalente do excesso de visitantes na praça de S. Marcos em Veneza.

Diferente é o caso de pontos de tensão entre turismo e residentes. Com mais de 1.7 milhões de visitantes e as ruelas na envolvente, o Castelo de S. Jorge é/será ponto de tensão. Ainda assim abaixo da Sagrada Família que, num quarteirão da malha urbana de Barcelona recebe mais de 3.7 milhões de visitas por ano.

Zonas de concentração de actividades turísticas e pontos de tensão entre turismo e residentes exigem gestão local integrada em modelo de desenvolvimento consensualizado.

3.Referências vagas ao turismo no território

*“Dez teses sobre o centro histórico de Lisboa”
O geógrafo João Seixas é professor auxiliar da Universidade Nova de Lisboa e foi coordenador da equipa para a Reforma Administrativa da Cidade. Na quinta tese das dez sobre “o centro histórico de Lisboa” e em artigo muito assertivo no Publico, refere o crescimento da população [sublinhados nossos]:

-“Desde 2008 que o centro histórico de Lisboa estava finalmente a recuperar da absurda doença a que havia sido sujeito durante décadas. Em população e em empresas.”, “confirmando que muitas famílias (das mais variadas classes sociais) se encontravam a ocupar, de novo, o centro urbano.”.

Depois,

-“instala-se, entretanto, uma mudança de forças que está a tornar a habitação muito mais cara e pressionada, e muito rapidamente. Desde 2013 que a cidade estará de novo a perder população estável e densidade residencial; a uma média de mais de 3500 eleitores/ano. A população escolar, após subir de 2008 a 2012, tem estado a diminuir de novo,” (5).

Em poucas linhas o autor refere centro histórico e cidade (duas áreas definidas mas bem diferentes) e centro urbano, área sem definição rigorosa. Esta mistura não permite a leitura rigorosa do texto.

A seguir o autor refere a perda de habitantes pela cidade desde 2013 e

-dá a ideia que esta alteração ao nível da Cidade resulta da dinâmica do turismo no centro histórico ou centro urbano, o que é um exagero,

-parece ignorar que a diminuição de população residente resulta erro do modelo estatístico do INE, como explicamos no post sobre População.

*“pressão que o turismo exerce nas cidades”
Voltamos a João Seixas, agora em declarações ao Expresso:

-“[João  Seixas] fez as contas e chegou à conclusão de que o rácio de turistas face ao número de residentes, um indicador para a pressão que o turismo exerce nas cidades, “é um dos maiores da Europa”: “Peguei nos dados de 2014: Barcelona teve 7,9 milhões de visitantes e uma estada média de 2,9 dias. Multiplique [dá 22,91]. Esta cidade tem 1,6 milhões de residentes. Dividindo, temos um rácio de 14,3. E Lisboa teve nesse ano 4,9 milhões de visitantes com uma estada média de 2,4, para 550 mil residentes. Dá um rácio de 21,4. E se fizermos estes cálculos apenas para os residentes das zonas mais turísticas e históricas, o rácio fica mais acentuado. É um ‘indicador sintético’, de análise, mas relevante.” (6).

O rácio utilizado por João Seixas não é o de turistas/residentes mas sim o de dormidas na hotelaria/residentes, mas não é isso que está em causa. Ser um ‘indicador sintético’ é, e em casos muito especiais dá indicação útil. Relevante, não é, porque é arcaísmo sem base científica e esgotado na década de 1980. Basta pensar na escala do espaço a que se aplica e na integração deste espaço no território.

Este ratio pode ser utilizado na concepção de resorts que combinem residência permanente e alojamento turístico, mas é tudo.

O ratio é de facto um indicador sintético, mas da impotência de cientistas que fazem uma abordagem superficial de dinâmica económica, social e urbana na formação da economia do turismo.

4.Nota final

Certamente por falha nossa, não conhecemos texto que formalize o conhecimento sobre o turismo na cidade a partir da observação e análise da realidade no terreno.

Zona crítica, áreas de concentração e pontos de tensão são noções que criámos a partir da observação do turismo em várias cidades do mundo e leitura de livros do período da geografia de Orlando Ribeiro. 


A Bem da Nação

Lisboa 23 Fevereiro 2017

Sérgio Palma Brito


Notas

(1)No branding de destinos turísticos, Simon Anholt utiliza o caso da caixa de chocolates. Num mercado em que apenas a marca Lisboa tem notoriedade, o destino é Lisboa. Quando Lisboa já é conhecida, as microcentralidades passam a poder ter identidade própria mas sempre ligada à de Lisboa.

(2)Estrela, Campo de Ourique, Misericórdia, Santa Maria Maior, Penha de França e São Vicente.

(3)Deixamos ao leitor a possibilidade de fixar o limite inferior da diminuição de população. Se for em 60%, e não 65%, aumenta a Zona crítica em mais oito freguesias.

(4)Ver Associação Turismo de Lisboa, Plano Estratégico Para o Turismo da Região de Lisboa 2015-2019, Lisboa 2014.

(5)Ver 2016.08.08 Publico, Dez teses sobre o centro histórico de Lisboa

(6)Ver 2016.12.23 Expresso, O novo fado de Lisboa


Notas sobre o excesso de novos hotéis em Lisboa

O aumento do número de hotéis em Lisboa é um dos argumentos utilizados pelos adeptos da turistificação da Cidade, seja lá isto o que for. O cidadão merece uma informação mais objectiva.

*Variações sobre o número de hotéis
Lisboa demora dezenas de anos para ter 93 hotéis em 2005 e apenas onze anos para duplicar este número em 2016, na realidade o crescimento é de 118.2% (gráfico 1). Afinal a malta da turistificação pode não estar enganada. Está e vamos mostrar como.

Gráfico 1 – Número de hotéis em Lisboa 2005/15


Fonte: Elaboração própria com base em INE – Anuário Estatístico da Região de Lisboa e ATL

O gráfico 2 dá a mesma informação do gráfico 1, mas uma alteração no eixo vertical (começa a quartos e não zero) cria no leitor uma percepção mais forte de crescimento. É uma ajuda para a malta da turistificação argumentar.  

Gráfico 2 – Número de hotéis em Lisboa 2005/15


Fonte: Elaboração própria com base em INE – Anuário Estatístico da Região de Lisboa e ATL

O gráfico 3 ilustra a variação anual do número de hotéis em Lisboa e dá-nos informação mais útil sobre o crescimento do seu número. Constatamos que a partir de 2010 o crescimento do número de hoteis passa a novo patamar.

Gráfico 3 – Número de hotéis em Lisboa 2005/15 - variação anual


Fonte: Elaboração própria com base em INE – Anuário Estatístico da Região de Lisboa e ATL

*Variações sobre o número de quartos dos hotéis
O gráfico 4 ilustra o número de quartos nos hotéis de Lisboa entre 2005/15. Constatamos que o número de quartos dos hotéis de Lisboa cresce 54.3% entre 2005/15, quando o número de hotéis cresce 118.2% (gráfico 1).

Gráfico 4 – Número de quartos nos hotéis de Lisboa 2005/15


Fonte: Elaboração própria com base em INE – Anuário Estatístico da Região de Lisboa e ATL

O gráfico 5 ilustra a variação anual do número de quartos dos hotéis de Lisboa que segue o padrão do crescimento do número de hotéis (gráfico 3), mas o salto de patamar parece mais atenuado.

Gráfico 5 – Variação anual do número de quartos dos hotéis de Lisboa


Fonte: Elaboração própria com base em INE – Anuário Estatístico da Região de Lisboa e ATL

*Variações sobre o número de hotéis e de quartos
O gráfico 6 ilustra a variação do número médio do stock de quartos nos hotéis de Lisboa. Se o número de hotéis cresce mais do que o número de quartos, o número médio de quartos por hotel tem fatalmente de descer.

Gráfico 6 – Número médio do stock de quartos nos hotéis de Lisboa


Fonte: Elaboração própria com base em INE – Anuário Estatístico da Região de Lisboa e ATL

Por fim, chegamos ao gráfico 7, o mais interessante. Temos o número médio de quartos por hotel em cada ano – o valor de 2005 e o médio do stock do ano. 

Este gráfico ilustra uma característica do novo paradigma dos hotéis de Lisboa – unidades mais pequenas. O que é simultaneamente simpático e assustador, porque a sua rentabilização levantará problemas.

Gráfico 7 – Número médio de quartos por hotel em cada ano 2005/15


Fonte: Elaboração própria com base em INE – Anuário Estatístico da Região de Lisboa e ATL

*Nota final
Em síntese, em Lisboa e entre 2005/16,

-o número de hotéis de Lisboa aumenta 118.2% e o de quartos 54.3%, com a tendência para hotéis mais pequenos,

-quanto a turistificação, o número de hotéis não é argumento, por serem hotéis de menor escala.


A Bem da Nação

Lisboa 9 de Fevereiro de 2017


Sérgio Palma Brito

Em três anos o aeroporto de Lisboa cresce 6.4 milhões de passageiros, Porto 3 milhões e Faro 1.7 milhões

O gráfico 1 ilustra o crescimento do número de passageiros entre 2014-2016 e o número de passageiros em 2016 nos aeroportos de Lisboa, Porto e Faro. 

Destacamos:

-Lisboa a ultrapassar 22 milhões de passageiros em 2016, Porto quase a atingir 10 milhões e Faro quase a atingir 8 milhões,

-entre 2013/16, Lisboa cresce 40%, Porto 47% e Faro 28%.

Gráfico 1 – Lisboa, Porto e Faro: passageiros 2016 e crescimento 2014-2016
(milhares)


Fonte: Elaboração própria com base em informação ANA

O gráfico 2 ilustra o crescimento anual de passageiros nos últimos dez anos em Lisboa, Porto e Faro.

Destacamos a performance de Lisboa, com ritmo e intensidade de crescimento que ninguém previra. Aqui reside

-boa parte de explicação do sucesso do turismo em Lisboa,

-explicação para a urgência em aumentar a capacidade do aeroporto Humberto Delgado.   

Gráfico 2 – Lisboa, Porto e Faro: crescimento anual de passageiros nos últimos dez anos
(milhares)


Fonte: Elaboração própria com base em informação ANA

O gráfico 3 ilustra o crescimento em índice (2001=100) do tráfego de passageiros em Lisboa, Porto e Faro e reforça a leitura do gráfico 2.

Gráfico 3 – Lisboa, Porto e Faro: crescimento em índice (2001=100)


Fonte: Elaboração própria com base em informação ANA

Os gráficos 4 a 6 ilustram a evolução do tráfego de passageiros em Lisboa, Porto e Faro. Em Lisboa destacamos (gráfico 4):

-o arranque para uma nova fase de crescimento entre 2003/06 (a primeira data de 1998), o impacte da crise com retoma do crescimento que, a partir de 2014 atinge ritmo e intensidade que ninguém previra.

Gráfico 4 – Passageiros no aeroporto de Lisboa entre 2001/16
(milhares)


Fonte: Elaboração própria com base em informação ANA

No Porto destacamos (gráfico 5):

-a estabilidade inicial do tráfego que vem de antes, arranque do crescimento entre 2004/2005, com ligeiro impacte da crise e, a partir de 2014 e a exemplo de lisboa, crescimento com ritmo e intensidade que ninguém previra.

Gráfico 5 – Passageiros no aeroporto do Porto entre 2001/16
(milhares)


Fonte: Elaboração própria com base em informação ANA

Em Faro destacamos (gráfico 6):

-estabilidade do tráfego até 2004, passagem a patamar ligeiramente superior de 2007 a 2012, ligeiro crescimento até 2015 e ponta de 18,5% em 2016.

Gráfico 6 – Passageiros no aeroporto de Faro entre 2001/16
(milhares)


Fonte: Elaboração própria com base em informação ANA


A Bem da Nação

Lisboa 25 de Janeiro de 2017

Sérgio Palma Brito



Compromisso entre accionistas inesperados da TAP - a geringonça condenada funcionar

Estamos a rever a ficha que consagramos à TAP no Relatório sobe Turismo e Transporte Aéreo em Portugal. Nesta revisão procuramos dar base objectiva aos Desafios ao compromisso entre accionistas inesperados, a exemplo do que fizemos com a alínea sobre a Importância da TAP para Portugal. Publicamos esta alínea d) do texto na talvez vã esperança de suscitar contributos dos leitores. O texto inclui remissões para a parte da ficha que ainda está a ser completada, a estrutura da ficha e a numeração das fontes – com o texto completo da Ficha ainda a ser publicado ainda esta semana.



d)Desafios ao compromisso entre accionistas inesperados
*Compromisso estratégico entre accionistas inesperados
O consórcio privado não teria concorrido a uma posição minoritária na TAP e o governo actual não teria iniciado a privatização que seduziu o seu actual parceiro. O futuro da TAP depende em grande parte de um compromisso estratégico entre dois accionistas inesperados e que não desejavam ‘o outro’. E isto com longos meses antes da aprovação final deste modelo de privatização da TAP.

Por outras palavras, o actual modelo de governação da TAP é uma geringonça condenada a funcionar.

Acontece que a força do compromisso entre accionistas vai ser posto à prova em desafios que tem de ultrapassar para assegurar a sustentabilidade da TAP.

*Da higiene cultural à pedagogia clarificadora
O ponto sobre Higiene cultural prévia da alínea consagrada à Importância da TAP para Portugal é porventura uma provocação sweet, mas transforma-se aqui numa pedagogia clarificadora de posições.

O accionista estado tem de interiorizar completamente a realidade que sistema político/administrativo tem vindo a negar desde 1993/94 e que a TAP deve comunicar de forma pedagógica:

-a regulação europeia exige que a TAP, transportadora aérea europeia, seja gerida como empresa privada, isto é, ser rentável de maneira sustentada, em mercado muito competitivo e sem Ajuda de Estado.

O consequência final desta realidade deve ser repetida à exaustão:

-se a TAP não assegurar a sua rentabilidade, o desfecho quase certo deste processo será a falência.

*Estratégia empresarial
A estratégia empresarial definida em 2001 e reforçada em 2015/16 tem de ser interiorizada pelo accionista estado por

-ser parte da acção de higiene cultural referida antes,

-implicar resistência firme a pressões regionalistas (como no caso do Porto) ou politicas (como pode ser o caso de Venezuela, Angola e até Guiné-Bissau) para a TAP manter rotas/frequências estruturalmente deficitárias.

Não podemos esquecer que na génese do accionista ‘estado português politico partidário” está uma tradição cultural que confunde estratégia com táctica ou mera manobra politica.

*Comunidade de accionistas, gestores e trabalhadores
Pode haver mil e uma definições de empresa, mas no essencial a empresa é uma comunidade de accionistas, gestores e trabalhadores que partilham uma identidade e realização de fins, com base em objectivos acordados.

A consequência mais evidente desta realidade elementar é a urgência em criar na TAP esta comunidade de accionistas, gestores e trabalhadores. Tarefa que não é fácil em empresa desequilibrada pelo condomínio entre estado e sindicatos a enfraquecer a gestão. Vital Moreira sintetiza:

-“Sob o ponto de vista do controlo empresarial, a TAP constitui desde há muito uma espécie de condomínio entre o Estado e os sindicatos da empresa, que exercem um eficaz poder de veto na gestão da empresa.” (aqui).

Por fim, deve haver um contrato de gestão entre accionistas e gestores, com o recuperar da exigência de remuneração do capital acima do seu custo, e responsabilização/prestação de contas pela gestão.

Em Portugal, governo, accionistas privados, sindicatos e opinião pública deviam conhecer a história recente da Ibéria, ou como uma empresa é salva da falência por accionistas determinados, gestão forte e sindicatos com capacidade de compromisso. Mais a inevitável cobardia de alguns políticos. Tema de próximo post neste seu blogue.

*Fatal revisão do estatuto do pessoal
Accionistas e gestores devem deixar claro que a revisão do estatuto do pessoal é uma decisão negociada mas inevitável e urgente, na qual há o compromisso de não haver despedimentos.

Esta revisão decorre da acção de higiene cultural e é parte da construção da comunidade de accionistas, gestores e trabalhadores.

Já se agita o slogan ‘a TAP não pode ser uma companhia low cost’. Na realidade,

-como vimos, a cultura de redução de custos é comum a todas as companhias aéreas eficientes,

-o instrument do “zero-based budget reviews of all spending on customer experience to evaluate what truly drives satisfaction” racionaliza o que está em causa: saber como os passageiros avaliam cada um dos custos da operação da empresa.

É o momento de, uma vez por todas, ficar claro estar em causa a escolha entre “an airline fit to compete effectively or no airline at all”, na síntese da McKinsey.

*Estrutura financeira da TAP, renovação da frota e consequências
A análise da estrutura financeira da TAP está fora do âmbito do que os nossos meios permitem. Sobretudo quando somos bombardeados com informação dispersa. Assim,

-4 Outubro 2016 e em reunião com trabalhadores, Fernando Pinto nomeadamente refere “dificuldade de investimento“, agravada pela “dívida ainda elevada”. A dívida da transportadora ascende a 887 milhões de euros e está actualmente a ser renegociada, o que “limita a capacidade de investimento em novas aeronaves”. (19).

-recentemente o Público, com base em fonte da empresa, informa-nos sobre  “120 milhões de euros emprestados por cinco bancos no final de 2015” e “restante dívida bancária sob renegociação (330 milhões)” (20),
Ainda a 4 Outubro 2015,Fernando Pinto acrescenta informação relevante “desactualização da frota e do produto“:

“A idade média da frota da TAP é 15 anos, face a uma média de oito ou nove anos dos concorrentes. Ao mesmo tempo, as tarifas que a TAP oferece são 

“pouco competitivas” no que toca à relação preço/serviço, reconheceu Fernando Pinto”.

Voltamos ao “Preparing for winter”, em que sobre cost restructuring o já referido estudo da McKinsey propõe:

-“Purchases are cheaper than leases over the lifetime of the asset, even including the value of flexibility that leases bring. Airlines should look to buy more of their aircraft as they replace their fleet, lowering their lease costs.”.

É isto que a TAP não pode fazer pelo endividamento excessivo, fruto da descapitalização da empresa que resulta da descapitalização inicial de 2000 e da insuficiente rentabilidade desde então.

A renovação da frota é indispensável para reduzir custos de operação e apresentar um produto mais competitivo ao consumidor.

*Transparência
A TAP deve criar 

-sistema de informação empresarial completo e profissional, como o de FSC congéneres cotadas nas bolsas europeias e adequado aos milhões de ‘accionistas’ que o Estado representa,

-comunicação corporativa que esvazie as ilusões e inverdades de tido o que gira à volta ‘paixão’ pela TAP da quase falência em 1993, 2000 e 2015.
A TAP e muito particularmente o accionista Estado têm de responder ao que dois factos implicam:

-na realidade, o Estado representa cerca de dezasseis milhões de accionistas espalhados por Portugal e Resto do Mundo,


-a maior parte destes accionistas têm sido iludidos e intoxicados por narrativas da obsoleta transportadora aérea nacional, incompatíveis com a TAP da regulação europeia.


A Bem da Nação

Lisboa 15 de Dezembro de 2016

Sérgio Palma Brito