Concentração/dispersão da procura/oferta de Turismo em Portugal Continental

Assistimos ao ruminar permanente de temas como a integração transporte aéreo/turismo ou a concentração/dispersão da procura/oferta de turismo. Na realidade, deviam ser parte de acervo de conhecimento sobre turismo que nos permita olhar para o futuro sem desperdiçar energias com actividade própria de ruminantes. No fundo é o velho menosprezo da escolha do consumidor na base da integração e concentração/dispersão.

É neste contexto que devemos integrar a opção Portela+1 no Montijo [ver a seguir] e intervenções recentes sobre ‘o turismo no interior’ [próximo post].  

*O consumidor compra deslocação turística a destino em Portugal
O consumidor que decide adquirir uma deslocação turística a um destino em Portugal é o actor mais importante na dinâmica da procura/oferta de turismo. Isto era real e evidente no tempo do package holiday de estadia no Algarve (oferta bundled). Hoje continua a ser real mas talvez menos evidente pela possibilidade de separar a aquisição do transporte aéreo e outros serviços (oferta unbundled em tempos de unbundling dominante).

O turismo em Portugal é essencialmente intra-europeu:

-em 2015, os passageiros oriundos da Europa são 88,5% no total dos três aeroportos, 99.9% em Faro, 96,3% no Porto e 81,6% em Lisboa.

O crescimento do turismo em Portugal continental está ligado às duas baixas estruturais no preço do transporte aéreo na Europa:

-desde a década de 1950, com os operadores de package holiday que democratizam o acesso dos povos do Norte da Europa às praias do Sul,

-desde a década de 1990, com as companhias aéreas low cost, filhas directas da liberalização do transporte aéreo, que democratizam as deslocações intra-europeias entre cidades.

Dito isto, o crescimento do turismo em Portugal continental não existiria sem a capacidade de atracção turística do Algarve, na deslocação de estadia de sol, praia e golfe, e de Lisboa e Porto. Isto é cada vez mais verdade porque

-são cada vez menos frequentes os casos em que basta pôr aviões a voar para a procura por deslocações turísticas aumentar e são cada vez mais frequentes os casos em que é a capacidade de atracção de turistas que faz o sucesso desta procura.

É a este nível que se situa a necessidade e importância da concertação publico/privado no destination branding e marketing & vendas da oferta.

Na realidade, a capacidade de atracção de um destino integra a oferta e o transporte aéreo. Só os separámos para melhor compreender a sua integração na escolha do consumidor.

*Zonas de concentração e dispersão da procura/oferta de turismo
As escolhas dos consumidores fazem com que em Portugal Continental haja diferença estrutural entre concentração e dispersão da procura/oferta:

-os aeroportos de Lisboa, Porto e Faro estão na origem das três maiores concentrações da procura/oferta de turismo do País e desde há muito que a tendência é para a concentração da procura nas grandes aglomerações urbanas do mundo moderno e da oferta em cidades e áreas turísticas de estadia,

-estas concentrações da procura/oferta de turismo têm escala, organização e distribuição que as diferencia da procura/oferta estruturalmente mais dispersa nas outras regiões do País: Alentejo e o que se chama Centro e Norte de Portugal – o consumidor escolhe entre a Tuscânia e ... o Centro.

Depois, a segunda diferença estrutural resulta da especialização das áreas de concentração da procura/oferta entre

-Algarve, Área Turística da Bacia Alargada do Mediterrâneo, fruto da procura oferta por deslocações de estadia desde a década de 1950 com os operadores de package holiday, com procura crescente por residência prolongada ou permanente de reformados não residentes,

-cidades de Lisboa e Porto, e urbes adjacentes, fruto da procura/oferta por deslocações de tour urbano e cultural, tornadas acessíveis pela recente barateza do transporte aéreo entre cidades e pela capacidade de atracção de turistas do após transformação da década de 1990.

A este nível, a política de turismo ainda não foi capaz de tratar de maneira diferente o que é diferente:

-zonas de concentração e dispersão da oferta exigem abordagem diferente pela concertação pública/privado no destination branding e marketing & vendas da oferta.

*O Montijo na concentração da procura/oferta de turismo
A competitividade do aeroporto é elemento decisivo da competitividade do acesso aéreo ao destino. Em Faro e Porto estão em causa investimentos na infra-estrutura existente.

Em Lisboa, a expansão da capacidade do aeroporto Humberto Delgado entrou na espiral do Novo Aeroporto de Lisboa ligado à privatização da ANA (1), e ainda hoje não conseguimos recuperar completamente o bom senso:

-a proximidade do aeroporto Humberto Delgado é factor decisivo na competitividade da oferta turística pelo que só em situação extrema deve ser deslocalizado,

-nunca foi avaliado o cenário de não deslocar o aeroporto (cenário zero), quando esta é a primeira regra na avaliação de um investimento deste tipo,

-Ota e mesmo Alcochete teriam custo elevado de investimento e sobretudo acessos muito caros em dinheiro e tempo.

Com a ajuda da crise, voltamos ao cenário zero, por onde deveríamos ter começado. Se o tivéssemos feito, teríamos hoje um aeroporto de duas pistas e não a Alta de Lisboa.

Desde 2007/08 que, a título pessoal e profissional (Director-Geral da Confederação do Turismo Português e essa era a posição da CTP), defendemos o Portela+1 no Montijo. Passamos sobre as razões da escolha porque hoje é um facto.

A escolha do Montijo é feita sem debate público, um erro em si e pelo que envenena o debate. Esta falta de abertura contribui para escamotear as maiores dificuldades do projecto:

-revisão drástica das servidões militares em redor de Lisboa e deslocalização das bases aéreas suburbanas para Beja ou equivalente,

-corte limitado na Zona de Protecção Exclusiva (Rede Natura) em que o aeroporto se insere) e outros custos ambientais,

-alteração do PDM do Montijo para responder à procura de habitação e espaços vários, com medidas para travar a especulação imobiliária.


*Recuperar o tempo perdido
Apesar de denodados esforços de muitas pessoas, associações e CTP, o turismo nunca foi tido em conta durante o processo do aeroporto de Lisboa. Também não foi tido em conta na privatização da ANA, que surge ligada ao NAL, mas aqui por ausência – os nossos posts não tiveram eco nas forças vivas do turismo (2).

Portela+1 vai ser decidido sob pressão, necessariamente pior do que decidido em devido tempo, e não vai evitar tempos muito duros no aeroporto Humberto Delgado. Eventualmente, perderemos frequências.

Em 2008, a opção Portela+1 era óbvia.



A Bem da Nação

Lisboa 25 de Outubro de 2016

Sérgio Palma Brito


Notas

(1)Na realidade, recuperou e reforçou uma espiral iniciada ainda antes do 25 de Abril.

(2)Ver o post Participação activa e crítica na privatização da ANA SA em 2012
http://sergiopalmabrito.blogspot.pt/2016/10/participacao-activa-e-critica-na.html

Participação activa e crítica na privatização da ANA SA em 2012

Ao longo de 2012 acompanhámos o processo de privatização da ANA. Reunimos todos os posts para facilitar a consulta por quem se interesse por este assunto.

Foi um esforço individual e solitário. Não conseguimos sensibilizar os mais variados actores do turismo para a importância da privatização e para o inevitável agravar de erros que vinham do passado [ver post sobre atribuição de slots] quando

-a privatização da ANA não só continua a ignorar o turismo mas também passa a ser instrumento da relação entre o ministério das Finanças e a troika e o que conta é o montante a encaixar.

Republicamos os textos conforme o original de 2012. O leitor terá em conta os erros dos textos e má qualidade dos gráficos … matéria em que progredimos.

Eis os posts e documentos de trabalho, quando existem, por ordem do mais recente para trás:

Privatização da ANA: Contrato de Concessão entre o Estado e a ANA

Privatização da ANA (4) – Leitura Crítica do “Quadro Jurídico Geral”

Privatização da ANA (3) – Primeiros Factos Oficiais

Privatização da ANA (2): Quinze Anos de Privatização e Dois Para Vender

Privatização da ANA (1): Turismo, Transporte Aéreo e Grupo ANA

Privatização da ANA (1): Turismo, Transporte Aéreo e Grupo ANA – Documento Trabalho

Portela 2012 – Imparcialidade, Transparência e Não Descriminação na Atribuição de Slots

Portela 2012 – Imparcialidade, Transparência e Não Descriminação na Atribuição de Slots –Documento de trabalho


A Bem da Nação

Lisboa 25 de Outubro de 2016


Sérgio Palma Brito

Turismo e transporte aéreo em Portugal

Acabo de terminar um trabalho de pesquisa sobre a relação entre Turismo Transporte Aéreo em Portugal. 

Disponibilizo um Relatório que é instrumento de informação e consulta, útil para quem queira ou precise conhecer o turismo transporte e o aéreo, para além do que é superficial e imediato. 

Na realidade é uma acção de voluntariado a bem da Pátria e Humanidade.

Permitam que a apresentação do Relatório seja feita num tom pessoal nunca utilizado antes neste blogue.

*“sem companhias aéreas não há aeroportos” …
A visão dominante da política de transporte aéreo é limitada a ‘residentes em mercados emissores onde utilizam uma companhia aérea que aterra num aeroporto do Continente e depois embarcam num voo de regresso’.

Em meados de 2008, um dos consórcios que concorreria ao frustrado Novo Aeroporto de Lisboa organiza um colóquio presidido pelo ex-ministro Jorge Coelho. Fala o Professor Nunes da Silva do IST e pouca atenção merece. As coisas sérias começam com a intervenção do Presidente da ANA SA, então estatal. Depois é a vez de falar o CEO da TAP, Fernando Pinto, no auge da sua glória e a defender um terminal exclusivo da TAP no NAL – cá fora seria alvo exclusivo da atenção da comunicação social. Jorge Coelho apresenta-o, começando por um afirmativo

-“sem companhias aéreas não há aeroportos”.

*… “sem turistas não há passageiros nem companhias aéreas nem em aeroportos”
Depois, falo eu, então Director Geral da Confederação do Turismo Português que defendia, contra tudo e contra todos, o Portela+1 … no Montijo. Para muita gente, eu era marginal e irrelevante.

Lembro-me que comecei com qualquer coisa como

-“salvo o devido respeito, estão todos a esquecer que sem procura de turistas, não há passageiros, nem companhias aéreas nem em aeroportos”.

Quando chego à defesa de Portela+1 que era a posição da CTP (o aeroporto tem de ser low cost), vejo na plateia alguns quadros superiores da ANA a gozar com o pratinho. Acho que me excedi ao disparar:

-“Vejo a tecnoestrutura da ANA e rir-se do que eu digo. E eu digo-lhes que só um burro não muda de opinião. E eles vão ter de mudar”.

A ideia do Relatório de que vos apresento nasce neste dia. Depois, foi ‘só’ ter tempo para o elaborar.

*Transporte aéreo no marketing & vendas da deslocação turística
Na origem de tudo está o consumidor que adquire uma deslocação turística a Portugal. Para esta pessoa, a mais importante que há na nossa actividade, a realidade é simples:

-num país com a localização de Portugal, o transporte aéreo é elemento do ‘produto’ (do marketing operacional), a tal deslocação turística que ele compra.

‘Isto’ é evidente para o consumidor e é para muitos de entre nós, como evidente ainda não é para muitos e pior de tudo é ainda ‘disto’ não tirarmos as devidas consequências.

No marketing operacional e para além de elemento do produto,
-o transporte aéreo está, directa ou indirectamente, ligado à distribuição e as vendas ganham se for integrado com a promoção.

No marketing estratégico é instrumento decisivo na segmentação geográfica e tem alguma influência da psicográfica.

O essencial da relação entre transporte aéreo e turismo reside nesta síntese. Depois, é pôr em prática, obter resultados e ser reconhecido ou ser sancionado por não os obter. Não o fazer, é discurso light sobre turismo.

*Uma visão holística
O Relatório resulta de uma visão holística da realidade e tem cinco partes:

-na então Europa Ocidental, o turismo da década de 1950 à transformação do mercado europeu na década de 1990, durante o qual modelo de negócio do package holiday cria as Áreas Turísticas da Bacia Alargada do Mediterrâneo, de que o Algarve é exemplo (I Parte),

-companhias aéreas que integram as indústrias europeias de transporte aéreo: Full Service Carriers, Low Cost Carriers e Leisure Low Cost Carriers – conhecer as suas políticas e estratégias é indispensável a compreender a relação que estabelecem com Portugal (II Parte),

-a partir destes dois pilares, podemos abordar o tráfego aéreo no total dos três aeroportos do Continente por continente e país emissor e por companhia aérea (III Parte),

-chegados aqui, podemos observar e analisar o tráfego aéreo nos aeroportos de Lisboa, Porto e Faro por continente e país emissor e por companhia aérea (IV Parte).

-terminamos com notas sobre Procura/oferta de turismo e a intervenção pública e como as duas se relacionam com a gestora aeroportuária (V Parte).

O impacte da transformação dos anos noventa no turismo do Algarve obriga a completar o capítulo do aeroporto de Faro com o anexo Relatório “Package holiday e independent travel - o Algarve no contexto europeu”.

*Como aceder ao Relatório?
Os cinco volumes estão disponíveis em http: http://www.ciitt.ualg.pt/

ou

I Parte – Da década 1950 à transformação do mercado europeu dos anos noventa

II Parte – Indústrias europeias do transporte aéreo

III Parte – Tráfego aéreo no total dos três aeroportos (Lisboa, Porto e Faro) – continentes, países e empresas

IV Parte – Passageiros nos aeroportos de Lisboa, Porto e Faro – continentes, países e empresas

V Parte – Procura/oferta de turismo e intervenção pública - Inclui Anexo - Package holiday e independent travel no Algarve (da década de 1990 à actualidade)

*Boa utilização do Relatório
São quinhentas páginas de texto, muitas figuras e ainda mais gráficos. Poucos as lerão de fio-a-pavio. O Relatório pode ser lido por partes ou capítulos e pode sobretudo ser consultado.

Dentro de poucas semanas sai uma actualização porque parece ter havido uma conspiração contra o texto – desde a sua finalização até hoje houve uma série de transformações importantes em companhias aéreas que são importantes para Portugal.

Dentro de alguns meses, é publicada uma actualização. Insisto em que comentários, correcções, críticas e sugestões sejam enviadas para o email disponibilizado: spalmabrito@gmail.com.

O leitor que contribua para a divulgação do Relatório terá a minha gratidão e terá feito uma boa acção: divulgar uma fonte de conhecimento.


A Bem da Nação

Lisboa 24 de Outubro de 2016


Sérgio Palma Brito



PS – Não refiro a posição da política de Turismo sobre transporte aéreo nem a posição da iniciativa privada. Salvo o devido respeito, há muito a debater até consensualizarmos orientações politicas para além da “importância do transporte aéreo para o turismo”.

Ligação aérea Portugal/China – o problema de sempre e a esperança actual

O título é do Expresso mas poderia ser de outros jornais: “TAP está a negociar voos directos para a China”. Neste post situamos a dificuldade de voos directos entre os dois países, esclarecemos o projecto da Capital Airways e temos reservas ao entusiasmo de David Neleman.

*Rota directa China/Portugal – o problema de sempre
A ideia de uma rota aérea entre Portugal e a China tem mais de um quarto de século e começa com o desastre operacional, económico e financeiro da operação da TAP Lisboa/Macau. Este merece post especifico que não tardará.

O problema de sempre é encontrar fora de Portugal a procura que alimente uma operação rentável que implica vários voos por semana – é óbvio que o tráfego outbound de Portugal é mínimo.

Aí por 1994, a rota Lisboa/Macau é apoiada pela criação da Air Macau que ligava várias cidades a Macau e funcionaria como feeder do longo curso. Todo este projecto foi geringonça política que rapidamente se desengonçou com prejuízo importante para a TAP e pago pelos portugueses.

Com mais ou menos profissionalismo, temos sempre uma rota que aterra na ponta Oeste da Europa, continente em que há vários hubs com rotas competitivas para a Ásia. Sem falar das companhias do Médio Oriente. Por outras palavras

-o tráfego outbound da China terá Portugal como destino e por muito atractivo que o País possa ser, não chega para rentabilizar a rota.

O cenário fica mais risonho com uma companhia chinesa a tomar o risco e alimentar o hub de Lisboa. É isto que excita David Neeleman.

*Dois voos semanais da Capital Airways
Sobre o projecto da Capital Airways sabemos que

-“Os voos serão operados pela Capital Airlines, detida pela HNA, a partir de Hangzhou, a menos de 200 quilómetros de Xangai. O pedido de autorização deu entrada na Administração de Aviação Civil da China (CAAC) há alguns meses, mas só recentemente foi comunicada a autorização ao Governo e ao supervisor português, a Autoridade Nacional da Aviação Civil.” (1).

A decisão empresarial não é fácil e está emperrada no imbróglio político e administrativo nacional e europeu, sobre o acordo bilateral de 1999 sobre trafego aéreo entre Portugal e China.

Há indicações de ser possível obter uma autorização da ANAC e informação contraditória sobre ser uma operação regular e primeiro passo de mais frequências ou voos charter de grupos de turistas.

*O interesse da TAP na rota Portugal/China – a esperança actual
A TAP como a conhecemos depende do hub intercontinental de Lisboa, muito dependente do Brasil e a sofrer com os males da economia, sociedade e política do chamado país irmão.

Com pragmatismo, acordo com Jet Blue e conhecimento do mercado dos EUA, David Neeleman lança rotas entre que o liguem a Lisboa e destino Portugal. Não encontramos referência a tráfego com destino à Europa, do género voar via Lisboa para Paris e regressar de Londres com conexão por avião ou comboio.

Neste quadro uma companhia chinesa a operar a rota e a alimentar o hub para a América e África seria ouro sobre azul (sem jogo de palavras com a Azul).

*Declarações de David Neeleman sobre rota China/Lisboa
O Expresso informa que o grupo chinês HNA “prepara-se para lançar uma rota para Portugal, com dois voos semanais”. No texto, destaca que “a TAP quer mais”, e informa que Neeleman “diz estar a tentar que haja um voo diário entre Lisboa e a China ate ao final do ano”. Por fim, cita Neeleman:

-”seria fácil para eles (HNA) e muito bom para a TAP. Temos 75 ligações por semana para África, Brasil, EUA e Europa para distribuir os voos que venham cheios de Pequim”, e ”eles estão abertos a essa possibilidade”. (2).

O título do Jornal de Negócios fala por si:  David Neeleman: “Precisamos de um voo diário para a China”. Segundo o jornal,

-“O arranque de voos diários entre Portugal e a China faz parte dos desejos de David Neeleman, []O responsável adiantou que é um tema que tem estado em cima da mesa e tem sido discutido com o HNA, accionistas chineses do consórcio: "Falámos com eles ontem (sexta-feira)", disse Neeleman, sublinhando que ainda não está nada fechado.” (3).

*Em síntese
Em síntese, temos o problema de sempre, o projecto de um primeiro passo concreto e a esperança actual de David Neeleman convencer a HNA a assegurar uma operação de voos regulares e boa frequência semanal (diária?) e que assegure passageiros para o hub intercontinental de Lisboa.

Uma coisa nos parece certa: David Neeleman é a melhor pessoa para negociar com o parceiro chinês e tal só é possível com uma TAP privada, mas por agora tudo o que sabemos é o que DN deseja. Entre desejos e realidade, qual a distância?


A Bem da Nação

Lisboa 14 de Junho de 2014

Sérgio Palma Brito


Notas
(1)Ver
2016.06.03.Publico.VooDirectoChina
Chineses da TAP autorizados a lançar primeiro voo directo para Portugal

(2)Expresso, caderno Economia, 11 de Junho de 2016.

(3)Jornal de Negócios online em 12 Junho 2016.


Pare! Olhe! Escute! Resultados das empresas do Grupo TAP entre 2003/2015

Consta que o Parlamento se ocupa hoje do que o mainstream imagina serem os problemas da TAP. Aproveitamos a deixa para informar os leitores sobre a situação dramática a que a TAP chegou, a negação da realidade que a isso a conduziu e a parceria estratégica com o Estado que a pode salvar.

*Conhecer o que está em causa – resultados do Grupo TAP
Para princípio de conversa e de qualquer ângulo que se aborde a TAP, não podemos ignorar esta singela dimensão do desastre que a espreita:

-o valor do ‘resultado líquido acumulado’ entre 2003/2015 da TAP e das outras empresas do Grupo aqui revelado pelo gráfico seguinte (1):

Gráfico 1 – Grupo TAP, resultado líquido acumulado entre 2003/2015
(€milhões)




Fonte: Elaboração própria com base em Grupo TAP, relatórios anuais

O factor mais decisivo na formação destes resultados reside na negação da realidade do mercado e regulação em que a TAP actua por todos os que tiveram poder para intervir na empresa.

*Qual realidade de mercado e regulação é negada desde 1993?
Com o 25 de Abril a TAP perde a função de soberania e metamorfoseia-se na fábula com duas faces da ‘transportadora aérea nacional’:

-modelo de negócio irresponsável: ‘o Estado paga’ permite à empresa receber fundos públicos, acumular prejuízos sistemáticos e não ser objecto da transformação profunda de que carece,

-sublimação da irresponsabilidade: a TAP garante “estabelecer ligações permanentes com as comunidades portuguesas mais significativas” e “com os países de expressão oficial portuguesa”, assegurar “transporte para as regiões autónomas” e ser “dinamizador da actividade turística nacional”.

Em 1 de Janeiro de 1993, a liberalização do transporte aéreo no espaço da então Comunidade Europeia

-transforma a TAP numa transportadora aérea europeia que opera em mercado muito competitivo, aberto à concorrência e sem ajuda do Estado,

-destrói o binómio ‘Estado paga e TAP garante’ em que assenta a fábula da ‘transportadora aérea nacional’.

No ano charneira de 1994, a Comissão autoriza o aumento de capital da TAP no valor actual de €1,4 mil milhões. Em Portugal ninguém leva o assunto a sério, e em 2000 a empresa está de novo à beira da falência que nem sequer o Estado pode evitar. 

O gráfico 2 ilustra o custo anual e o total da factura dos vinte e cinco anos da fábula com duas faces:

-entre 1976 e 2000, o resultado líquido acumulado da TAP, actualizado a valor de 2014, é de €-2,9 mil milhões.

Gráfico 2 – TAP -Resultado líquido do exercício entre 1976/2000
(€milhões, actualizados a 2014)



Fonte: Elaboração própria com base nos relatórios anuais da TAP EP e SA, actualizado pelo índice da Pordata

*Como a realidade continuou a ser ignorada até à exaustão de 2015
Em 2000 e no âmbito da falhada privatização da TAP com a Swissair, o então ministro Jorge Joelho escolhe a equipa de gestores profissionais que evita a falência da empresa e a gere (ou, melhor, aguenta) até hoje.

Como a gestão profissional ‘aguenta’ a empresa, o accionista estado ignora dois dos seus deveres elementares: i)impor à gestão da TAP o rigor de remunerar o capital nela investido; ii)capitalizar a empresa e evitar que esta sobreviva em condições inaceitáveis de investimento e tesouraria.

A situação da TAP agrava-se em 2014/2015 e falência volta a ser eminente. Privatizar ou não a TAP consiste de facto em decidir sobre quem a reestrutura e capitaliza: ou o accionista privado segundo as regras do mercado, ou o accionista Estado com desastrosa reestruturação imposta pela União Europeia.

Durante estes quinze anos de vida da TAP SA

-o ‘resultado líquido do exercício acumulado’ da empresa é de €-147,2 milhões, dos quais €-145,7 milhões em 2014 e 2015 (2).

Gráfico 3 – Resultado líquido do exercício entre 2001/2015
(€milhões)



Fonte: Fonte: Elaboração própria com base em Grupo TAP, relatórios anuais

*O governo do PS e a TAP em 2016
A imposição do governo PS sobre capital e gestão estratégica da TAP perturba o funcionamento normal de uma companhia aérea privada como são quase todas as concorrentes. Este handicap é um facto, mas por muito isenta que seja a intervenção do accionista Estado, há que estar sempre atento ao que impõe.

Algum benefício a presença do Estado terá e já resistiu à primeira tentativa de interferência politica forte na gestão de rotas e do hub de que depende a sobrevivência da TAP.

A maneira como é aceite a serôdia participação da HNA no capital da TAP e as perspectivas que abre são outro teste positivo.

O teste maior desta estrutura accionista é afinal o da própria empresa e tem a ver com a sustentabilidade do hub intercontinental dependente do Brasil e do qual a existência da TAP depende. O presidente da Câmara do Porto não quis ou não foi capaz de perceber que vivemos tempos de ‘Tudo pelo hub, Nada contra o hub’.

*Evolução do Grupo TAP e das outras empresas do grupo
Para informação e deleite do leitor mais curioso publicamos a actualização a 2015 da evolução 2003/2015 do resultado líquido do exercício do Grupo TAP e das outras empresas do grupo.

Gráfico 4 – TAP SGPS - Resultado líquido do exercício
(€milhões)



Fonte: Fonte: Elaboração própria com base em Grupo TAP, relatórios anuais

A SPdH SA, conhecida pela marca Groundforce de serviços de assistência em terra, é um caso significativo, porque
-inverte uma sucessão insustentável de prejuízos no seguimento de privatização imposta por regras da União Europeia a qual implica um despedimento colectivo em Faro e alteração radical do regime de trabalho herdado do tempo em que esta actividade era um departamento da TAP.

Gráfico 5 – SPdH SA - Resultado líquido do exercício
(€milhões)



Fonte: Fonte: Elaboração própria com base em Grupo TAP, relatórios anuais

Sobre a Manutenção Brasil continuamos a ignorar até que ponto

-a sua aquisição pela TAP foi parte do generoso acordo bilateral de tráfego aéreo entre Portugal e Brasil, que dá à TAP acesso a número aparentemente ilimitado de aeroportos brasileiros … em troca de Lisboa e pouco mais,

-os prejuízos anuais resultam de limitação local ao impor de boas regras de gestão pela TAP.
Certo é o ano de 2015 desmentir o anunciado equilíbrio de contas da Manutenção Brasil.

Gráfico 6 – Manutenção Brasil - Resultado líquido do exercício
(€milhões)



Fonte: Fonte: Elaboração própria com base em Grupo TAP, relatórios anuais


A Bem da Nação

Lisboa 14 de Junho de 2014

Sérgio Palma Brito



Notas

(1)O Grupo TAP é formado em 2003. Por coerência contamos o resultado líquido da TAP SA desde 2003. No gráfico 3 contamos o resultado líquido desde 2001, primeiro ano em que gere a TAP.

(2)Não adianta falar da imputação em 2015 de €vv milhões da Venezuela. Prejuízo em 2015, foram contabilizados como lucro em exercícios anteriores.




Onde pode o diabo encontrar 33.000 unidades de Alojamento Local em Lisboa?

O discurso bipolar sobre o sucesso do turismo em Lisboa ou o desastre a que conduz entrou em impasse de onde não sairá. Urgente e pertinente é o debate, com base analítica sólida e espirito aberto, sobre as exigências do sucesso do turismo em Lisboa e arredores e o seu contributo para a economia, sociedade e cultura. É neste debate que queremos participar.

*Factores que ofuscam debate das exigências do sucesso do turismo em Lisboa
O debate, com bases analíticas sólidas, sobre as exigências do sucesso do turismo está a ser ofuscado e dificultado pela opinião mainstream, em discurso light que ignora ou deforma a realidade na exploração de temas populistas do tipo ‘excesso de turistas e de hotéis’, ‘plastificação da cidade e perda de identidade’ & similares.

Este debate está também a ser enviesado pela defesa de interesses corporativos da parte mais conservadora da indústria da hotelaria, que vê na concorrência do alojamento local a fonte maior dos seus problemas. A hotelaria é decisiva para o sucesso do turismo em Lisboa, mas há alojamento turístico para além da hotelaria e a sua regulação deve visar a criação de valo económico, social e cultural e não proteger esses interesses. Voltaremos ao assunto.

*Os 33.000 “homes and apartments” da Airbnb em Lisboa
Quando a Bloomberg ecoa “33.000 homes and apartments” da Airbnb em Lisboa, muita gente acredita piamente e daí parte para as duas ‘tartes à la crème” que denunciamos: i) discurso mainstream sem base analítica e enviesado, ii) excesso de oferta e concorrência maligna à hotelaria. Isto desfoca-nos do que é essencial.

O gráfico ilustra a evolução do número de Alojamentos Familiares (INE, Recenseamentos da Habitação) de utilização “residência permanente e secundária” e “vagos”, numa amostra de dezanove freguesias ‘antigas’ da urbe histórica de Lisboa. Assim:

-em 2011 e antes do arranque do crescimento do Alojamento Local em Lisboa, nestas dezanove freguesias, temos 3.375 Alojamentos Familiares de residência secundária e 7.524 vagos, num total de 10.899 unidades.

Gráfico 1 – Utilização de alojamentos familiares em 19 freguesias da urbe histórica
(unidades)

Fonte: Elaboração própria, com base em INE, Recenseamentos da Habitação

Em 2011, há 323.076 Alojamentos Familiares no concelho de Lisboa (Recenseamento da Habitação). O gráfico 2 ilustra a sua repartição entre Residência Principal e Secundária e Vagos. Estas duas utilizações totalizam 84.618 alojamentos.

Em teoria, há lugar para os 33.000 da Airbnb. Na realidade não é assim. Como ilustraremos em futuro post, a maior parte fica longe da urbe histórica, onde se concentra o alojamento local. 

Por exemplo, não parece haver muito alojamento local na freguesia de S. Domingos de Benfica, com os seus 5.000 apartamentos de Residência Secundária e Vagos.

Gráfico 2 – Repartição dos alojamentos familiares de Lisboa por utilização (2011)
(Unidades)

Fonte: Elaboração própria, com base em INE, Recenseamentos da Habitação

Chegado aqui e com a maior abertura de espírito (podemos estar errados), pedimos resposta a uma pergunta:

-onde diabo na cidade de Lisboa pode haver 33.000 unidades de Alojamento Local na Airbnb?


A Bem da Nação

Lisboa 8 de Junho de 2016

Sérgio Palma Brito


Portugal no mercado emissor do Reino Unido – Rankings 2015

O Office of National Statistics acaba de publicar os Travel Trends 2015 com informação detalhada sobre o mercado emissor do Reino Unido.
Brevemente publicaremos análise macro sobre Portugal no mercado do Reino Unido.

Para aguçar o apetite publicamos dois rankings em que Portugal tem bom posicionamento. Com efeito,

-em número de turistas, Portugal é sexto, depois dos ‘quatro grandes’ e do caso especial da Republica da Irlanda,

-em receita, Portugal é quinto, depois dos ‘quatro grandes’ porque os residentes no Reino Unido vão frequentemente à Irlanda em viagens curtas e com menos gastos,

-será difícil Portugal ultrapassar os EUA em número de turistas e a Itália em despesa.

A performance da Grécia em receitas é de registar.

Figure 15: Top 10 countries visited by UK residents for at least 1 night, 2015



Source: International Passenger Survey (IPS) - Office for National Statistics


Figure 16: Top 10 countries by expenditure of UK residents whilst visiting abroad for at least 1 night, 2015

Source: International Passenger Survey (IPS) - Office for National Statistics



A Bem da Nação

Lisboa 23 de Maio de 2016


Sérgio Palma Brito