Aeroporto Sá Carneiro – desTAPizar espíritos e desfazer equívocos

O aeroporto do Porto é enorme sucesso, assente no crescimento do tráfego intra-europeu de companhias estrangeiras. A TAP não contribui nem contribuirá para este crescimento e o tráfego intercontinental é quase irrelevante. O sistema político deve conhecer a dinâmica que está realmente na base deste sucesso para a facilitar e estar preparado para a apoiar no dia em que haja problemas. Para isso tem de desTAPizar espíritos e eixar de ruminar equívocos.

Num primeiro post celebramos indicadores do sucesso do aeroporto e abrimos debate sobre o seu posicionamento no futuro, factor decisivo da sustentabilidade do sucesso que tem vindo a conhecer.

Dada a relevância da TAP e da reversão da sua privatização, sugerimos a consulta de posts sobre o assunto (primeiro, segundo, terceiro, quarto).  

Boa leitura e previa consulta dos Princípios Gerais do Blogue em:


*O sucesso e o anticlímax
Em 30 de Novembro de 2015, com o aeroporto do Porto a comemorar 70 anos de vida, o Jornal de Notícias anuncia: “Aeroporto do Porto com planos para duplicar passageiros em 6 anos”. No texto, o director do aeroporto afirma:

-“As companhias de longo curso só começam a equacionar aeroportos quando atingem cerca de 12 milhões de passageiros, portanto, com oito milhões, já vão começar a olhar para nós com outro interesse. Já temos algumas aproximações de certas companhias, mas estas coisas chegam a levar anos a negociar".

-“Lembro-me de andarmos de "chapéu na mão" a correr todas as forças vivas da região para conseguirmos um incentivo que trouxesse para cá as "low cost", e de todos nos dizerem que esse turista de chinelo não nos interessava. Só o Mário Ferreira [da Douro Azul] foi capaz de participar nesse incentivo, numa altura em que a Ryanair mal nos recebia. Posso dizer, sem modéstia, que foi o Aeroporto do Porto que deu o pontapé de saída nisto tudo, neste crescimento brutal do turismo nos últimos anos." (1).

Dois dias depois, a 2 de Dezembro de 2015 e em declarações aos jornalistas à margem da reunião camarária e admitindo não saber se a decisão está tomada, o presidente da Câmara Municipal do Porto cria um anticlímax a este sucesso ao disparar contra a TAP e Lisboa a propósito da decisão de cancelar os voos intercontinentais no aeroporto Sá Carneiro – é caso que detalhamos no ponto 2.

1.Para uma abordagem objectiva da TAP no aeroporto do Porto
Neste primeiro ponto

-quantificamos o papel da TAP no tráfego intercontinental do aeroporto do Porto e a sua participação no crescimento do tráfego aeroportuário entre 2001/2014,

-situamos a importância da TAP no quadro das companhias aéreas que operam para o Porto.  

*Quantificação do tráfego intercontinental do aeroporto do Porto
O gráfico 1 ilustra, entre 2001/2014, a parte da Europa em cada aeroporto do Continente:

-o tráfego de Faro é exclusivamente europeu (menos 0.01%),

-em Lisboa a Europa perde importância relativa em relação ao conjunto dos outros continentes devido ao sucesso do hub intercontinental,

-no Porto a parte da Europa passa de 94.0% a 95.3%.

Gráfico 1 – Parte da Europa em cada aeroporto do Continente
(percentagem)

Fonte – Elaboração própria com base em informação da ANA

O gráfico 2 ilustra o número de passageiros do aeroporto do Porto por país de origem de voos intercontinentais. O Brasil domina, seguido de Canadá EUA e Angola. Constatamos que os números têm significado reduzido.

Em 2013, há um total de 310k passageiros intercontinentais no aeroporto do Porto:

-a TAAG com 60k e a Air Transat com 34k são as companhias estrangeiras mais importantes, num conjunto que gera cerca de 110k passageiros,

-por diferença com o total, a TAP transporta cerca de 200k passageiros,

-muitos destes passageiros são do hub que a TAP opera no Porto dada a saturação da Portela, já ultrapassada pela maior eficiência deste aeroporto,

-a TAP pode cancelar voos intercontinentais de exclusivo ponto a ponto.

Esta é a racionalidade empresarial da decisão da TAP. Poderá ser mitigada? Ignoramos, mas o assunto exige diálogo e não espalhafato mediático.

Gráfico 2 – Países de origem de voos intercontinentais
(milhares)

Fonte – Elaboração própria com base em informação da ANA

*TAP no crescimento do aeroporto do Porto
A análise da variação anual do número de passageiros do aeroporto do Porto ganha em ser feita em comparação com a dos passageiros da TAP – gráfico 3.

A leitura do gráfico 3 deve ser ligada ao gráfico 4 sobre passageiros Portugália e TAP. Com efeito, o indicador TAP do gráfico 3 consolida os passageiros TAP e Portugália desde 2001 mas

-a Portugália ainda voa até parte de 2007, pelo que a variação anual positiva da TAP em 2007 e 2008 resulta de incorporar a variação da Portugália em 2006 e 2007.

O gráfico 6 (variação 2001/2013 por companhia) mostra como o contributo da TAP para o crescimento (715k) incorpora 461k de tráfego da Portugália.

Gráfico 3 – Passageiros do aeroporto do Porto e TAP – variação anual
(milhares)

Fonte – Elaboração própria com base em informação da ANA

Gráfico 4 – Passageiros Portugália e TAP no aeroporto do Porto
(milhares)

Fonte – Elaboração própria com base em informação da ANA

Chegados aqui, há uma conclusão a tirar:

-a TAP não tem intervenção significativa no crescimento do número de passageiros do aeroporto do Porto entre 2001/2013,

-o seu papel no futuro está condicionado pelo posicionamento do aeroporto e dinâmica empresarial da TAP.

Importa reter que estes factos resultam da estratégia empresarial da TAP, nas condições de regulação europeia e de mercado em que opera – ver primeiro post sobre a TAP.

*Tráfego aéreo do aeroporto do Porto por companhias
Os gráficos 10 e 11 dão pálida ideia da análise do tráfego do aeroporto do Porto por companhias aéreas e limitamo-nos a pontos concretos.

Em 2000 ainda há FSCs a voar para o Porto, mas KLM cessa operação nesse ano, Air France em 2007, Iberia em 2008 e a British Airways não opera. A Air Europa tem pouco tráfego em 2000 e perde-o. Swis e Brussels Airlines operam na ordem dos 50k. A Lufthansa é excepção. Esta evolução deve ser considerada no quadro dos três grupos da consolidação de FSC’s cuja estratégia para o tráfego intra-europeu tem elementos comuns:

-as ‘grandes companhias’ operam rotas que são significativas para o alimentar do hub intercontinental,

-há companhias com mais baixo custo de operação que alimentam os hubs (Iberia Express e parte da Vueling) e outras que voam para cidades que não são hub (Germanwings),

-em cada um dos três grupos, há uma Low Cost Carrier que ambiciona ser pan-europeia (Transavia, Vueling e Eurowings),

-casos especiais: Hop! da Air France e Air Nostrum franchisada da Iberia.

Quando a transformação do Lufthansa Group estiver em pleno, muito provavelmente veremos os actuais passageiros da empresa também repartidos por Germanwings e sobretudo Eurowings. No seio deste grupo, Swiss e Brussels Airlines podem ou não manter a pacatez do seu tráfego.

A TAP não foge a este modelo. A TAP Express será dominante, com a ‘ponte’ Lisboa/Porto e rotas em que resista à concorrência das LCC. 

Fora isto e casos pontuais de que a Aigle Azur  e Luxair são exemplo até ver, temos

-Ryanair a liderar de muito longe e com parte de mercado na zona dos 50%+,

-a Easyjet (com destaque para a Easyjet Suiça) a crescer,

-o potencial ainda inaproveitado da Norewegian e da Wizz Air.

Esta é a big picture das companhias aéreas no aeroporto do Porto.

Gráfico 5 – Passageiros por companhia aérea no Porto - 2013
(milhares)

Fonte – Elaboração própria com base em informação da ANA

Gráfico 6 – Passageiros por companhia aérea Porto - 2001/2013
(milhares)

Fonte – Elaboração própria com base em informação da ANA

2.DesTAPizar espíritos e desfazer equívocos 

Neste ponto mostramos como é importante desTAPizar os espíritos e desfazer equívocos quando se avalia o aeroporto do Porto, porque

-os voos intercontinentais da TAP não têm a importância que a política e opinião pública lhes dão,

-a TAP deu contributo mínimo ao crescimento do aeroporto do Porto,

-o contributo que pode dar no futuro passa mais pela base e hub de Lisboa,

-a ponte aérea facilita a vinda de turistas ao Porto e deslocações de residentes de Portugal ao estrangeiro.

Deixamos a TAP Express para posterior análise.

Em síntese e à imagem do País,

-o importante é a acessibilidade aérea competitiva ao Porto, que assenta em Low Cost Carriers e na qual a TAP ainda é relevante mas não determinante.

*Crítica à ainda não decisão da TAP cancelar voos intercontinentais
Segundo o Jornal de Notícias de 2 de Dezembro de 2015, “em declarações aos jornalistas à margem da reunião camarário” e admitindo não saber se "a decisão está tomada", o presidente da Câmara Municipal do Porto faz declarações de que damos amostra:

-"O meu dever é informar os accionistas da TAP, que estão neste momento a desenvolver um plano estratégico, que devem olhar para esta região e perceber que esta região pode estar com a TAP ou pode não estar com a TAP".

Da notícia da Rádio Renascença, citamos:

-"Por aquilo que sei, os accionistas da TAP querem que os voos de longo curso deixem de vir ao aeroporto Francisco Sá Carneiro. Ou seja, nós para apanharmos voos de longo curso da TAP teremos que ir a Lisboa com a velhinha frota Embraer da Portugália" [ignora que a frota vai ser renovada],

-"É uma pena, mas aconteceu nesta privatização, mais uma vez, o costume, que também já aconteceu o mesmo na privatização dos aeroportos: o Porto é sempre ignorado", desabafa o autarca.

-"Deixo aqui um sério aviso: é que a população do Norte de Portugal não vai esquecer isto e, provavelmente, vai escolher outro aeroporto. Madrid está à mesma distância de Lisboa. Em tempo aéreo, é praticamente o mesmo."

-"a grande ameaça é esta política de uma transportadora que já foi nacional e que agora é privada e que continua a estar de costas voltadas para o Porto". (2a).

O Presidente da Câmara Municipal não procura junto dos novos accionistas confirmação, explicação e eventual revisão da decisão.

A 29 de Janeiro de 2016, o Publituris online descreve o decidido na reunião do Conselho Metropolitano do Porto (CmP):

-“Manifestamos a discordância relativamente aquela que foi a opção da TAP” e lamentamos “profundamente a falta de diálogo de uma empresa tão importante e relevante como a TAP” [com os autarcas da Área metropolitana do Porto],

-“Não aceitamos e não admitimos qualquer enfraquecimento de uma estrutura tão importante como é o aeroporto Francisco Sá Carneiro”.

-“há aqui qualquer coisa que não está a correr de acordo com a estratégia que nos foi apresentada” e por isso os autarcas da AMP querem “ouvir de viva voz a TAP”.
Segundo o jornal,

-“Os autarcas da AMP decidiram também “desenvolver contactos com as forças vivas” da região, designadamente com o Turismo do Porto e Norte, associações empresariais e comunidades intermunicipais da região Norte, para que não estejam “sozinhos a contestar” a decisão da administração da TAP.” (2b).
*Reversão da privatização da TAP e impossível gestão política
Em 26 de Janeiro de 2016 e no contexto do ‘incidente Vigo’ que referimos a seguir,

-o vereador Ricardo Valente do PSD questiona Rui Moreira sobre a TAP cancelar rotas de Barcelona, Bruxelas, Roma e Milão. “O Porto merece uma explicação. O conselho de administração da TAP tem representantes do Estado, que votaram este plano estratégico. Como votaram? E comunicaram à tutela?”,

-Rui Moreira – que já defendera que a avaliação da relação da TAP com o Porto é diferente caso a empresa se mantenha privada ou volte a ser pública – admitiu que as perguntas do vereador eram “legítimas” e que iria “tentar saber” o que acontecera. (3).

O vereador e o Presidente

-ignoram que a TAP, de capital público ou privado, está obrigada a ser rentável em mercado aberto e sem ajuda do Estado, o que exclui ‘administradores por parte do Estado’ e decisões deficitárias com base em interesse público – ver o já referido primeiro post sobre a TAP.

As intervenções do presidente e vereador são uma espécie de recaída politica porque cerca de uma semana antes e segundo a Lusa, a “Câmara do Porto desvaloriza suspensão pela TAP de voos para cidades europeias”:

-"a notícia agora conhecida do cancelamento de ligações europeias não preocupa a câmara do Porto, já que as cidades de Barcelona, Bruxelas, Milão e Roma são ligadas ao Porto através de outros operadores." (4).

*“Ligação da TAP Lisboa-Vigo é “dramática” para o Porto”
A recaída política sobre o cancelamento de rotas acontece no contexto da reacção ao anúncio da rota Vigo-Lisboa pela TAP.

Rui Moreira fala em “segredo mais bem guardado” pela companhia TAP [operar a rota Lisboa/Vigo]. “Isto é dramático. Todo o tráfego da Galiza é retirado do Aeroporto Francisco Sá Carneiro, o que vai fazer com que daqui a um tempo se parem com as ligações intercontinentais. Está-se a reduzir o hinterland para depois justificar o fim das ligações intercontinentais, concretizando-se o que a TAP está a fazer há doze anos, que é destruir o aeroporto do Porto”.

Ricardo Valente do PSD: “Não consigo compreender como se considera estratégica a ligação Vigo-Lisboa, parecendo claramente uma intenção de transformar Lisboa na plataforma portuguesa, eliminando o Porto”. (5).
Rui Moreira e Ricardo Valente parecem ignorar que

-o hub intercontinental de Lisboa é indispensável à existência da TAP, está sujeito a intensa concorrência internacional e Lisboa dispõe de condições competitivas e comparativas únicas para o seu sucesso – a rota de Vigo faz concorrência ao hub da Iberia em Madrid,

-o aeroporto Sá Carneiro atrai tráfego da Galiza por via das LCCs que nele operam e da ponte aérea Lisboa/Porto,

-como vimos, os passageiros intercontinentais da TAP são poucos e a dinâmica empresarial transfere-os para Lisboa.

*Ponte aérea entre Lisboa/Porto – não ignorar o Lisboa/Porto
O PS junta-se à luta. Carla Miranda, actual deputada pelo PS, junta-se às vozes às críticas à TAP e garante: “alguns deputados eleitos pelo Porto já questionaram o Governo sobre o que pretende fazer e se conhecia a suspensão destas linhas”.

Já Manual Pizarro defende que a ideia “caritativa da ponte aérea” entre o Porto e Lisboa tem um único objectivo: “É drenar o tráfego do Aeroporto Francisco Sá Carneiro para o Aeroporto de Lisboa”. (6).

Manuel Pizarro não tem em conta que

-um residente na área do Porto só vai apanhar o avião a Lisboa se não tiver oferta no aeroporto de Sá Carneiro, o qual terá sempre menos rotas do que o de Lisboa,

-a ponte aérea facilita a viagem para o Porto via o aeroporto de Lisboa, seja em hub intercontinental ou ligação intra-europeia.

*Declarações recentes
Neste post não referimos declarações recentes de Rui Moreira e do presidente de uma associação empresarial. Não acrescentam nada de novo porque insistem nos argumentos que desmontamos.

Estas declarações têm relevância por confirmarem estarmos longe da avaliação objectiva da situação, o que realmente importa para o futuro. E a elas voltaremos.

A Bem da Nação

Lisboa 4 de Março de 2016

Sérgio Palma Brito

Notas

(1)Ver
2015.11.30.JN.PortoDuplica
Aeroporto do Porto com planos para duplicar passageiros em 6 anos

(2a)Ver
-2015.12.02.DN.RuiMoreira.TAP
Rui Moreira diz que TAP tenciona abandonar longo curso no aeroporto do Porto
-2015.12.02
Rui Moreira diz que TAP admite acabar com voos de longo curso de e para o Porto

(2b)Ver
2016.01.29.Publituris.TAP.Porto.Autarcas
AUTARCAS DA ÁREA METROPOLITANA DO PORTO QUEREM EXPLICAÇÕES DA TAP

(3)Texto redigido com base em
 2016.01.26.Publico.TAP.VigoDramáticaPorto
Ligação da TAP Lisboa-Vigo é “dramática” para o Porto

(4)Ver
2016.01.19.sapo.CamaraPortoCancelamento
Câmara do Porto desvaloriza suspensão pela TAP de voos para cidades europeias
Ver também a posição da associação empresarial APHORT em
2016.01.21
AHPORT Considera uma Oportunidade o Cancelamento de Rotas no Norte

(5)Ver Nota (3).

(6)Idem.


Iberia contrata os seus primeiros pilotos em 11 anos

Mais um sinal da recuperação da Iberia, depois de reestruturação rigorosa que atinge o auge em 2013 e se concretiza a partir do pacto de produtividade assinado em Fevereiro de 2014 entre a empresa e os sindicatos de pilotos e pessoal de cabine e de terra.

Nota – sobre o outro sinal (a reabertura da rota Marid/La Habana) ver:

O anúncio é feito numa ocasião festiva, o voo inaugural Madrid/La Habana no início de Junho de 2015. O El País ilustra a noticia com uma foto da equipagem muito sorridente do Airbus 330-300.



É uma boa notícia. É sobretudo uma notícia significativa:

-“los nuevos pilotos tendrán un salario de entrada de 35.000 a 40.000 euros anuales, en torno a la tercera parte de los copilotos a los que sustituirán.”.

Há mais,

-“El presidente de Iberia ha señalado que son “condiciones de mercado”, similares a las de entrada en compañías como Vueling o Iberia Express y que solo eso permite realizar incorporaciones. Los nuevos contratados entrarán como copilotos en vuelos de corto radio. Sustituyen a pilotos que venían cobrando unos 120.000-130.000 euros que pasarán a ser comandantes, con unos 150.000-160.000 euros al año. Estos, a su vez, sustituyen a los pilotos de mayor antigüedad que van dejando la compañía dentro del ERE voluntario pactado el año pasado, que reservaba 244 plazas a pilotos.”.

Não publicamos este post para saudar pilotos que ganham menos, mas para celebrar um marco na recuperação de uma companhia aérea salva da falência por tensões laborais que terminam no pacto de produtividade histórico de Fevereiro de 2014:

-“ Según el presidente de Iberia ese acuerdo es el que ha permitido no solo contratar nuevos pilotos, sino también haber abierto más de 20 rutas desde 2014, un pedido de 16 aviones de largo radio, lograr un beneficio operativo de 50 millones o convertirse en una de las aerolíneas más puntuales del mundo.”.


A Bem da Nação

Lisboa 18 de Janeiro de 2014

Sérgio Palma Brito

Nota

Texto elaborado com base em
2015.06.02.ElPaís.Iberia.Pilotos.TerçoCusto
Iberia contrata sus primeros pilotos en 11 años, pero a un tercio de coste.


Voar de Madrid a La Habana via Londres? – história de uma mentira

Neste post desmontamos a mentira de uma ‘verdade’ politicamente correcta:

-a da Iberia deixar de voar entre Madrid e La Habana obrigar espanhóis a viajar via Londres com a British Airways.

Esta em sido a imagem simbólica da Iberia canibalizada pela British Airways e do hub de Barajas pelo de Heathrow, e exemplos do que acontece a uma ‘companhia de bandeira’ quando o estado pagante a deixa privatizar.

A realidade é muito diferente e este mito urbano é apenas a imagem de políticos e opinion makers que em toda a impunidade falam de alto sobre assunto que desconhecem. Veremos como a Iberia contrata os seus primeiros pilotos em 11 anos - ver


Vamos então pôr esta questão em pratos limpos.

*Cenário de fundo – a reestruturação da Iberia
Em 2011, a fusão da British Airways e Iberia no International Airlines Group (IAG) responde à crise do transporte aéreo e à recente formação do Air France/KLM Group e do Lufthansa Group numa indústria marcada pela concorrência intensa e consolidação de empresas.

Mais do que uma diferença de escala (a BA é muito maior do que a Iberia), em 2011,

-há uma diferença enorme entre a BA cuja reestruturação e diminuição de custos está concluída e a Iberia onde ainda não começou,

-vai haver uma diferença entre a maneira como a economia do Reino Unido (e EUA, cujo tráfego é fundamental para a BA) e a de Espanha reagem à crise, com esta última a ser muito dura.

Na Iberia integrada no IAG há duas greves

-entre 2011/2012, contra a criação da low cost Iberia Express que é um êxito,

-entre 2012/2013, contra as medidas de reestruturação: despedimentos, congelamento de salários, corte de rotas não rentáveis e diminuição de frotas.

O volume de tráfego da Iberia

-cresce entre 2010/2011,

-cai 3,3% em 2012 e 14,1% em 2013, com este a ser o annus horribilis da Iberia.
Depois, a reestruturação da Iberia

-é reforçada em Fevereiro de 2014, com a assinatura entre a empresa e sindicatos de um pacto de produtividade muito justamente considerado histórico,
-permite a partir deste pacto, o crescimento de tráfego em 2014 e 2015 com a empresa a operar novas rotas e frequências, aumenta a frota e criar emprego.

*2013 – fim de “un romance aeronáutico de casi 64 años”
O Diário de Cuba de 21 de Março de 2013 dá o tom emocional:

-“A las 00:25 del primero de abril, cuando el vuelo 6620 de Iberia despegue de La Habana, habrá concluido, quizás temporalmente, un romance aeronáutico de casi 64 años.
[…]La Habana, una de las primeras capitales latinoamericanas en recibir aeronaves desde España, lidera ahora el desmantelamiento de la compañía en países "poco rentables" de la región.”.

O Diario de Cuba acrescenta:

-“Air Europa ya anunció que aumentará a diez sus frecuencias semanales a La Habana. La segunda aerolínea española considera que el negocio "va bien" y niega un alza en los precios, según dijo una portavoz a Diario e Cuba.

La compañía del Grupo Globalia mantiene un enlace diario entre los aeropuertos de Barajas y José Martí, que parte de la capital española a las 15:00 horas. A partir del 1 de abril, habrá también vuelos a las 16:35, los lunes, miércoles y sábados, con sus correspondientes rutas de regreso desde La Habana.

Todos los vuelos son operados por Airbus 330-200, con capacidad para 299 pasajeros.” (1).

Afinal, 

-nenhum espanhol terá de escalar Londres para ir a La Habana, basta tomar um dos dez voos semanais da companhia aérea espanhola Air Europa entre Madrid e La Habana,

-a realidade é a Iberia ter custos de operação superiores aos da concorrência, e perder dinheiro em rotas que podem ser rentáveis mas a custos de operação mais baixos.

*2015 – rota Madrid/La Habana rentável por Iberia reestruturada
Em 2015, acontece a inversão da decisão de 2013, porque a Iberia já consegue ser rentável na rota Madrid/La Habana. Segundo o El País de 26 de Janeiro de 2015,

-“Iberia ha anunciado hoy la reanudación de sus vuelos a La Habana (Cuba), suspendidos hace algo menos de dos años, conexión que comenzará a operar el próximo 1 de junio, con cinco frecuencias semanales directas”,

-En el caso de La Habana, según Iberia, hay "un factor adicional a los acuerdos alcanzados con todos los colectivos que ha sido determinante para su reapertura: la flexibilidad, el compromiso y la buena predisposición de los pilotos de Iberia". "Todo ello hace posible que la ruta puede ser rentable y sostenible" (2).EEl País de 26 de Janeiro de 2015

Isto acontece há quase um ano mas em Portugal ninguém falou no assunto e continuámos a ouvir e ler referências à Iberia canibalizada pela British Airways, como argumento contra o triste destino que o Estado deve evitar à TAP mantendo a sua propriedade.

*O hub de Madrid na ligação com a América Latina
Desde 2009/2010, quando é acordada a fusão das duas empresas, os hubs de Hethrow e Barajas são os dois mais importantes activos em que assenta o desenvolvimento do IAG. Só condições excepcionais poderia justificar a desvalorização do hub de Barajas.

As rotas não rentáveis da Iberia para a América Latina são cortadas em 2013, no quadro de um plano de reestruturação que tinha condições para dar certo.

Deu certo e a retoma das rotas de longo curso está diante dos nossos olhos: La Habana, Cali e Medellin, Montevideo, Santo Domingo, Johanesburgo, Puerto Rico.

Como veremos em outro post, em 2015 é admitido o cenário de voos do hub de Heathrow passarem a ser operados em Madrid.

*Recordar o acordo de produtividade de Fevereiro de 2014
Em Setembro de 2015, quando dá notícias sobre a recuperação da Iberia, o El Mundo recorda o acordo de produtividade de Fevereiro de 2014:

-“Los acuerdos laborales que trajeron la paz social a Iberia en 2014 basaron la recuperación de parte del salario perdido por la plantilla en una mayor actividad. 
Para la compañía, con las nuevas condiciones de producción, también resultaba más positivo volar más horas y a más destinos para ganar más dinero. Por eso, el compromiso implícito de Gallego [Luis Gallego, CEO da Iberia] con la plantilla era recibir de Londres -sede ejecutiva de IAG- permiso para aumentar hasta un 10% su capacidad, además de acelerar la renovación de la flota, especialmente los Airbus 340-300 de largo radio y un consumo de combustible nada competitivo en comparación con sus sustitutos A330-200.” (3).

Sem este acordo, não haveria aumento de produtividade da empresa e em consequência disso, não haveria nem novas rotas nem aumento de frota.

Esta é a realidade, muito simples como podemos constatar.


A Bem da Nação

Lisboa 18 de Janeiro de 2016

Sérgio Palma Brito

Notas

(1)Ver
2013.03.21.diariodecuba.IberiaLaHabana
Iberia se despide de Cuba

(2)Ver
2015.01.26.ElPaís.Iberia.LaHabana
Iberia reanuda sus vuelos a La Habana dos años después de abandonarlos

(3)Ver
2015.09.04.ElMundo.Q3.Euforia

Iberia pulveriza sus propios objectivos

Aeroportos do continente em 2015 – Lisboa domina, Porto cresce mais e Faro estagna

A ANA acaba de divulgar os grandes números dos aeroportos do País. Neste post enquadramos a evolução entre 2014/15 dos três aeroportos do continente (1) no quadro temporal dos últimos quinze anos.

*Lisboa domina em quantidade, Porto em percentagem e Faro estagna
Em síntese,

-Lisboa não é o aeroporto que mais cresce em percentagem, mas os 10.7% são assinaláveis dada a maturidade no seu desenvolvimento, e crescer 2m em quantidade impressiona o observador mais cauteloso,

-Porto é o aeroporto que mais cresce em percentagem (18,1%), não entra na fase de estabilidade e crescer 1.2m em quantidade também impressiona o observador mais cauteloso,

-Faro cresce 300k e 4.7% respectivamente em quantidade e percentagem mas confirma a fase de estagnação – a palavra é forte mas é a nossa interpretação dos números de 2015.

Gráfico 1 – Crescimento 2014/15 dos três aeroportos do Continente
(milhões e percentagem)


Fonte: Elaboração própria com base em INE – Estatísticas dos Transporte e comunicado de imprensa da ANA Aroportos

*Evolução em quantidade, índice, parte do total e variação anual
Na análise conjunta dos quatro gráficos que seguem, não consideramos a fase de crescimento até à Crise de 2008/09 nem os anos da Crise. Focamos a atenção nos anos que vão de 2010 até 2015.

No aeroporto de Lisboa

-o crescimento (re)arranca já em 2010 e acelera a partir de 2013,

-entre 2010/15, a parte de Lisboa no total dos três aeroportos passa de 53% para 58%,

-a variação anual em 2004 e 2015 diminui ligeiramente, mas ainda se situa nos 2m o que é assinalável,

-brevemente veremos como Ryanair, TAP e Transavia são os principais drivers destas variações.

No aeroporto do Porto

-a Crise de 2008/2009 não se nota, mas há estabilidade em 2011 e 2013, com o crescimento a (re)disparar a partir de 2013,

-entre 2010/15, a parte do Porto no total dos três aeroportos passa 19.7% de para 23.4%,

-a variação anual em 2015 é de um extraordinário 1.2m,

-falta a informação crucial sobre quais companhias aéreas geram este crescimento.

No aeroporto de Faro

-o crescimento é lento a partir de 2010 e lento se mantém até 2015 – em seis anos aumenta 1.4m (pouco mais do que o Porto em 2015), à media de 231k por ano,

-entre 2010/15, a parte de Faro no total dos três aeroportos ainda atinge 21.3% em 2012 mas diminui para 18.5% em 2015, porque o crescimento de Faro não acompanha o de outros aeroportos,

-a variação anual em 2015 é de 287k, superior à de 2014, mas inferior às de 2013 e 2011 e situa-se ao nível médio de 231k.

Gráfico 2 – Evolução 2001/15 dos aeroportos do Continente – quantidade
(milhões)


Fonte: Elaboração própria com base em INE – Estatísticas dos Transporte e comunicado de imprensa da ANA Aeroportos

Gráfico 3 – Evolução 2001/15 dos aeroportos do Continente – índice
(2001=100)



Fonte: Elaboração própria com base em INE – Estatísticas dos Transporte e comunicado de imprensa da ANA Aeroportos

Gráfico 4 – Evolução 2001/15 dos aeroportos do Continente – parte dp total dos três aeroportos
(percentagem)



Fonte: Elaboração própria com base em INE – Estatísticas dos Transporte e comunicado de imprensa da ANA Aeroportos

Gráfico 5 – Evolução 2001/15 dos aeroportos do Continente – variação anual



Fonte: Elaboração própria com base em INE – Estatísticas dos Transporte e comunicado de imprensa da ANA Aeroportos

*Nota final
A evolução do número de passageiros nos três aeroportos do Continente tem três faces com duas positivas e uma negativa:

-o crescimento de Lisboa e Porto é excelente e mais não dizemos sem dispormos da informação por país, aeroporto de origem e companhia aérea e, no caso de Lisboa, por continente,

-a estabilidade/estagnação do tráfego aéreo em Faro exige análise mais profunda, para a qual contribuiremos em breve, e que questiona todos, cada qual com os seus diferentes graus de responsabilidade,

-estes números confirmam a tendência de crescimento do city break (deslocação de tour urbano e cultural) e a estagnação da long holiday (deslocação de estadia, desde sempre ligada à praia) – voltaremos ao assunto.


A Bem da Nação

Lisboa 8 de Dezembro de 2015

Sérgio Palma Brito


Nota
(1)Apenas consideramos os três aeroportos do Continente por serem o que temos vindo a analisar, e por representarem em 2015 89.1% do total dos aeroportos do País. No presente texto há pequenas discrepâncias com a informação do comunicado de imprensa da ANA Aeroportos mas não alteram a avaliação feita e serão brevemente explicadas.


Porque Diabo a Condor não voa para Faro desde 2008?

De entre notícias sobre rotas aéreas, retemos a da Condor acrescentar duas rotas às que já opera para as Canárias. A notícia levanta pergunta imediata: porque Diabo a Condor não voa para Faro desde 2008? A resposta mostra que, entre 1995 e 2014, o número de hóspedes residentes na Alemanha no alojamento classificado passa de 453k a 272k (menos 40%). Esta descida é inaceitável em si e ainda mais porque o mercado emissor da Alemanha é o mais importante da Europa.

*A Condor no Thomas Cook Group plc
A Condor é uma companhia charter, fundada em 1956 por investidores institucionais, com destaque para a Lufthansa que em 1959/1960 adquire 100% do capital. Desde há muitos anos, a Condor é associada ao operador Neckerman, o segundo do mercado da Alemanha depois da TUI.

Hoje, a Condor é uma companhia aérea de capital detido a 100% pelo Thomas Cook Group plc e no qual ocupa lugar de destaque. Em 2014

-tem uma frota de 40 aviões dos quais 12 Boeing 767/300,

-transporta 7,2 milhões de passageiros, menos cerca de 4 milhões do que a TAP mas com RPK de cerca de 90% do da TAP, o que denota um grande peso das rotas intercontinentais.

*A Condor no Aeroporto de Faro
É como companhia do operador Neckerman que a Condor opera para Faro até 2007. O gráfico 1 ilustra a evolução do número de passageiros transportados para Faro entre 1995 e 2007 – não dispomos dos números anteriores a 1995. Neste gráfico dois passageiros representam um turista – em 2002, a Condor traz ao Algarve 70.000 turistas do mercado emissor da Alemanha.

Gráfico 1 – Passageiros da Condor no aeroporto de Faro
(milhares)



Fonte: Elaboração própria com base em informação da ANA

Da história da Condor e destes números retemos:

-uma evolução positiva entre 1995/2002, seguida de queda brusca até à irrelevância dos números de 2007,

-a Condor não voar para o Algarve desde 2008.

*Notas sobre a Condor no aeroporto de Faro
Ao longo destes anos e em proporção variável, a Condor transporta passageiros da Neckerman, de outros operadores e de seat only. Estes últimos ganham com a liberalização do transporte aéreo na Europa em 1993.

A queda de passageiros a partir de 2002 é indissociável da incapacidade da hotelaria (alojamento classificado) do Algarve atrair turistas do mercado da Alemanha (gráfico 2):

-o número de hóspedes residentes na Alemanha na hotelaria do Algarve cai de maneira sustentada desde 1995 para mínimo de 213k em 2009 e ligeira recuperação para 272K em 2014.

Gráfico 2 – Hóspedes residentes na Alemanha na hotelaria do Algarve
(milhares)



Fonte: Elaboração própria com base em INE – Estatísticas de Turismo

A queda dos operadores de package holiday do emissor da Alemanha para o Algarve

-não é susceptível de ser explicada pela “concorrência das low cost”,

-a partir de 2002 parece ter a ver com decisão comercial no seio da Neckermann,

A suspensão da operação para Faro coincide com a formação do Thomas Cook Group plc em 2007 e integra a queda da operação do grupo para o Algarve.


*Oferta do Algarve, mercado da Alemanha, a Condor e o canário
Nas minas de carvão havia um canário cuja vivacidade ou desfalecimento era indicador da ausência/presença de monóxido de carbono que seria fatal para os mineiros. No Algarve da actualidade, a Condor é como um canário cujo regresso indicará que a hotelaria do Algarve é capaz de atrair turistas residentes na Alemanha:

-se a hotelaria for competitiva, a Condor volta a voar para Faro.

Desde o início da década de 2000 (vai para quinze anos) é evidente que posicionar a oferta do Algarve no mercado emissor da Alemanha exige fazer algo diferente de ‘mais do mesmo’. 

Depois da crise de 2008/2009 este ‘algo diferente’ tem de ser ‘ainda mais diferente’.

A responsabilidade em inovar e recuperar posição no mercado da Alemanha é das empresas privadas, por si ou em parceria na ATA e concertação com Turismo de Portugal e ANA. 

O instrumento deste novo posicionamento é um plano de marketing & vendas a três ou mais anos, com objectivos realistas,
programação da oferta ligada à distribuição e promoção de vendas, e responsabilização dos parceiros envolvidos.


A Bem da Nação

Lisboa 23 de Outubro de 2015  


Sérgio Palma Brito