Voar de Madrid a La Habana via Londres? – história de uma mentira

Neste post desmontamos a mentira de uma ‘verdade’ politicamente correcta:

-a da Iberia deixar de voar entre Madrid e La Habana obrigar espanhóis a viajar via Londres com a British Airways.

Esta em sido a imagem simbólica da Iberia canibalizada pela British Airways e do hub de Barajas pelo de Heathrow, e exemplos do que acontece a uma ‘companhia de bandeira’ quando o estado pagante a deixa privatizar.

A realidade é muito diferente e este mito urbano é apenas a imagem de políticos e opinion makers que em toda a impunidade falam de alto sobre assunto que desconhecem. Veremos como a Iberia contrata os seus primeiros pilotos em 11 anos - ver


Vamos então pôr esta questão em pratos limpos.

*Cenário de fundo – a reestruturação da Iberia
Em 2011, a fusão da British Airways e Iberia no International Airlines Group (IAG) responde à crise do transporte aéreo e à recente formação do Air France/KLM Group e do Lufthansa Group numa indústria marcada pela concorrência intensa e consolidação de empresas.

Mais do que uma diferença de escala (a BA é muito maior do que a Iberia), em 2011,

-há uma diferença enorme entre a BA cuja reestruturação e diminuição de custos está concluída e a Iberia onde ainda não começou,

-vai haver uma diferença entre a maneira como a economia do Reino Unido (e EUA, cujo tráfego é fundamental para a BA) e a de Espanha reagem à crise, com esta última a ser muito dura.

Na Iberia integrada no IAG há duas greves

-entre 2011/2012, contra a criação da low cost Iberia Express que é um êxito,

-entre 2012/2013, contra as medidas de reestruturação: despedimentos, congelamento de salários, corte de rotas não rentáveis e diminuição de frotas.

O volume de tráfego da Iberia

-cresce entre 2010/2011,

-cai 3,3% em 2012 e 14,1% em 2013, com este a ser o annus horribilis da Iberia.
Depois, a reestruturação da Iberia

-é reforçada em Fevereiro de 2014, com a assinatura entre a empresa e sindicatos de um pacto de produtividade muito justamente considerado histórico,
-permite a partir deste pacto, o crescimento de tráfego em 2014 e 2015 com a empresa a operar novas rotas e frequências, aumenta a frota e criar emprego.

*2013 – fim de “un romance aeronáutico de casi 64 años”
O Diário de Cuba de 21 de Março de 2013 dá o tom emocional:

-“A las 00:25 del primero de abril, cuando el vuelo 6620 de Iberia despegue de La Habana, habrá concluido, quizás temporalmente, un romance aeronáutico de casi 64 años.
[…]La Habana, una de las primeras capitales latinoamericanas en recibir aeronaves desde España, lidera ahora el desmantelamiento de la compañía en países "poco rentables" de la región.”.

O Diario de Cuba acrescenta:

-“Air Europa ya anunció que aumentará a diez sus frecuencias semanales a La Habana. La segunda aerolínea española considera que el negocio "va bien" y niega un alza en los precios, según dijo una portavoz a Diario e Cuba.

La compañía del Grupo Globalia mantiene un enlace diario entre los aeropuertos de Barajas y José Martí, que parte de la capital española a las 15:00 horas. A partir del 1 de abril, habrá también vuelos a las 16:35, los lunes, miércoles y sábados, con sus correspondientes rutas de regreso desde La Habana.

Todos los vuelos son operados por Airbus 330-200, con capacidad para 299 pasajeros.” (1).

Afinal, 

-nenhum espanhol terá de escalar Londres para ir a La Habana, basta tomar um dos dez voos semanais da companhia aérea espanhola Air Europa entre Madrid e La Habana,

-a realidade é a Iberia ter custos de operação superiores aos da concorrência, e perder dinheiro em rotas que podem ser rentáveis mas a custos de operação mais baixos.

*2015 – rota Madrid/La Habana rentável por Iberia reestruturada
Em 2015, acontece a inversão da decisão de 2013, porque a Iberia já consegue ser rentável na rota Madrid/La Habana. Segundo o El País de 26 de Janeiro de 2015,

-“Iberia ha anunciado hoy la reanudación de sus vuelos a La Habana (Cuba), suspendidos hace algo menos de dos años, conexión que comenzará a operar el próximo 1 de junio, con cinco frecuencias semanales directas”,

-En el caso de La Habana, según Iberia, hay "un factor adicional a los acuerdos alcanzados con todos los colectivos que ha sido determinante para su reapertura: la flexibilidad, el compromiso y la buena predisposición de los pilotos de Iberia". "Todo ello hace posible que la ruta puede ser rentable y sostenible" (2).EEl País de 26 de Janeiro de 2015

Isto acontece há quase um ano mas em Portugal ninguém falou no assunto e continuámos a ouvir e ler referências à Iberia canibalizada pela British Airways, como argumento contra o triste destino que o Estado deve evitar à TAP mantendo a sua propriedade.

*O hub de Madrid na ligação com a América Latina
Desde 2009/2010, quando é acordada a fusão das duas empresas, os hubs de Hethrow e Barajas são os dois mais importantes activos em que assenta o desenvolvimento do IAG. Só condições excepcionais poderia justificar a desvalorização do hub de Barajas.

As rotas não rentáveis da Iberia para a América Latina são cortadas em 2013, no quadro de um plano de reestruturação que tinha condições para dar certo.

Deu certo e a retoma das rotas de longo curso está diante dos nossos olhos: La Habana, Cali e Medellin, Montevideo, Santo Domingo, Johanesburgo, Puerto Rico.

Como veremos em outro post, em 2015 é admitido o cenário de voos do hub de Heathrow passarem a ser operados em Madrid.

*Recordar o acordo de produtividade de Fevereiro de 2014
Em Setembro de 2015, quando dá notícias sobre a recuperação da Iberia, o El Mundo recorda o acordo de produtividade de Fevereiro de 2014:

-“Los acuerdos laborales que trajeron la paz social a Iberia en 2014 basaron la recuperación de parte del salario perdido por la plantilla en una mayor actividad. 
Para la compañía, con las nuevas condiciones de producción, también resultaba más positivo volar más horas y a más destinos para ganar más dinero. Por eso, el compromiso implícito de Gallego [Luis Gallego, CEO da Iberia] con la plantilla era recibir de Londres -sede ejecutiva de IAG- permiso para aumentar hasta un 10% su capacidad, además de acelerar la renovación de la flota, especialmente los Airbus 340-300 de largo radio y un consumo de combustible nada competitivo en comparación con sus sustitutos A330-200.” (3).

Sem este acordo, não haveria aumento de produtividade da empresa e em consequência disso, não haveria nem novas rotas nem aumento de frota.

Esta é a realidade, muito simples como podemos constatar.


A Bem da Nação

Lisboa 18 de Janeiro de 2016

Sérgio Palma Brito

Notas

(1)Ver
2013.03.21.diariodecuba.IberiaLaHabana
Iberia se despide de Cuba

(2)Ver
2015.01.26.ElPaís.Iberia.LaHabana
Iberia reanuda sus vuelos a La Habana dos años después de abandonarlos

(3)Ver
2015.09.04.ElMundo.Q3.Euforia

Iberia pulveriza sus propios objectivos

Aeroportos do continente em 2015 – Lisboa domina, Porto cresce mais e Faro estagna

A ANA acaba de divulgar os grandes números dos aeroportos do País. Neste post enquadramos a evolução entre 2014/15 dos três aeroportos do continente (1) no quadro temporal dos últimos quinze anos.

*Lisboa domina em quantidade, Porto em percentagem e Faro estagna
Em síntese,

-Lisboa não é o aeroporto que mais cresce em percentagem, mas os 10.7% são assinaláveis dada a maturidade no seu desenvolvimento, e crescer 2m em quantidade impressiona o observador mais cauteloso,

-Porto é o aeroporto que mais cresce em percentagem (18,1%), não entra na fase de estabilidade e crescer 1.2m em quantidade também impressiona o observador mais cauteloso,

-Faro cresce 300k e 4.7% respectivamente em quantidade e percentagem mas confirma a fase de estagnação – a palavra é forte mas é a nossa interpretação dos números de 2015.

Gráfico 1 – Crescimento 2014/15 dos três aeroportos do Continente
(milhões e percentagem)


Fonte: Elaboração própria com base em INE – Estatísticas dos Transporte e comunicado de imprensa da ANA Aroportos

*Evolução em quantidade, índice, parte do total e variação anual
Na análise conjunta dos quatro gráficos que seguem, não consideramos a fase de crescimento até à Crise de 2008/09 nem os anos da Crise. Focamos a atenção nos anos que vão de 2010 até 2015.

No aeroporto de Lisboa

-o crescimento (re)arranca já em 2010 e acelera a partir de 2013,

-entre 2010/15, a parte de Lisboa no total dos três aeroportos passa de 53% para 58%,

-a variação anual em 2004 e 2015 diminui ligeiramente, mas ainda se situa nos 2m o que é assinalável,

-brevemente veremos como Ryanair, TAP e Transavia são os principais drivers destas variações.

No aeroporto do Porto

-a Crise de 2008/2009 não se nota, mas há estabilidade em 2011 e 2013, com o crescimento a (re)disparar a partir de 2013,

-entre 2010/15, a parte do Porto no total dos três aeroportos passa 19.7% de para 23.4%,

-a variação anual em 2015 é de um extraordinário 1.2m,

-falta a informação crucial sobre quais companhias aéreas geram este crescimento.

No aeroporto de Faro

-o crescimento é lento a partir de 2010 e lento se mantém até 2015 – em seis anos aumenta 1.4m (pouco mais do que o Porto em 2015), à media de 231k por ano,

-entre 2010/15, a parte de Faro no total dos três aeroportos ainda atinge 21.3% em 2012 mas diminui para 18.5% em 2015, porque o crescimento de Faro não acompanha o de outros aeroportos,

-a variação anual em 2015 é de 287k, superior à de 2014, mas inferior às de 2013 e 2011 e situa-se ao nível médio de 231k.

Gráfico 2 – Evolução 2001/15 dos aeroportos do Continente – quantidade
(milhões)


Fonte: Elaboração própria com base em INE – Estatísticas dos Transporte e comunicado de imprensa da ANA Aeroportos

Gráfico 3 – Evolução 2001/15 dos aeroportos do Continente – índice
(2001=100)



Fonte: Elaboração própria com base em INE – Estatísticas dos Transporte e comunicado de imprensa da ANA Aeroportos

Gráfico 4 – Evolução 2001/15 dos aeroportos do Continente – parte dp total dos três aeroportos
(percentagem)



Fonte: Elaboração própria com base em INE – Estatísticas dos Transporte e comunicado de imprensa da ANA Aeroportos

Gráfico 5 – Evolução 2001/15 dos aeroportos do Continente – variação anual



Fonte: Elaboração própria com base em INE – Estatísticas dos Transporte e comunicado de imprensa da ANA Aeroportos

*Nota final
A evolução do número de passageiros nos três aeroportos do Continente tem três faces com duas positivas e uma negativa:

-o crescimento de Lisboa e Porto é excelente e mais não dizemos sem dispormos da informação por país, aeroporto de origem e companhia aérea e, no caso de Lisboa, por continente,

-a estabilidade/estagnação do tráfego aéreo em Faro exige análise mais profunda, para a qual contribuiremos em breve, e que questiona todos, cada qual com os seus diferentes graus de responsabilidade,

-estes números confirmam a tendência de crescimento do city break (deslocação de tour urbano e cultural) e a estagnação da long holiday (deslocação de estadia, desde sempre ligada à praia) – voltaremos ao assunto.


A Bem da Nação

Lisboa 8 de Dezembro de 2015

Sérgio Palma Brito


Nota
(1)Apenas consideramos os três aeroportos do Continente por serem o que temos vindo a analisar, e por representarem em 2015 89.1% do total dos aeroportos do País. No presente texto há pequenas discrepâncias com a informação do comunicado de imprensa da ANA Aeroportos mas não alteram a avaliação feita e serão brevemente explicadas.


Porque Diabo a Condor não voa para Faro desde 2008?

De entre notícias sobre rotas aéreas, retemos a da Condor acrescentar duas rotas às que já opera para as Canárias. A notícia levanta pergunta imediata: porque Diabo a Condor não voa para Faro desde 2008? A resposta mostra que, entre 1995 e 2014, o número de hóspedes residentes na Alemanha no alojamento classificado passa de 453k a 272k (menos 40%). Esta descida é inaceitável em si e ainda mais porque o mercado emissor da Alemanha é o mais importante da Europa.

*A Condor no Thomas Cook Group plc
A Condor é uma companhia charter, fundada em 1956 por investidores institucionais, com destaque para a Lufthansa que em 1959/1960 adquire 100% do capital. Desde há muitos anos, a Condor é associada ao operador Neckerman, o segundo do mercado da Alemanha depois da TUI.

Hoje, a Condor é uma companhia aérea de capital detido a 100% pelo Thomas Cook Group plc e no qual ocupa lugar de destaque. Em 2014

-tem uma frota de 40 aviões dos quais 12 Boeing 767/300,

-transporta 7,2 milhões de passageiros, menos cerca de 4 milhões do que a TAP mas com RPK de cerca de 90% do da TAP, o que denota um grande peso das rotas intercontinentais.

*A Condor no Aeroporto de Faro
É como companhia do operador Neckerman que a Condor opera para Faro até 2007. O gráfico 1 ilustra a evolução do número de passageiros transportados para Faro entre 1995 e 2007 – não dispomos dos números anteriores a 1995. Neste gráfico dois passageiros representam um turista – em 2002, a Condor traz ao Algarve 70.000 turistas do mercado emissor da Alemanha.

Gráfico 1 – Passageiros da Condor no aeroporto de Faro
(milhares)



Fonte: Elaboração própria com base em informação da ANA

Da história da Condor e destes números retemos:

-uma evolução positiva entre 1995/2002, seguida de queda brusca até à irrelevância dos números de 2007,

-a Condor não voar para o Algarve desde 2008.

*Notas sobre a Condor no aeroporto de Faro
Ao longo destes anos e em proporção variável, a Condor transporta passageiros da Neckerman, de outros operadores e de seat only. Estes últimos ganham com a liberalização do transporte aéreo na Europa em 1993.

A queda de passageiros a partir de 2002 é indissociável da incapacidade da hotelaria (alojamento classificado) do Algarve atrair turistas do mercado da Alemanha (gráfico 2):

-o número de hóspedes residentes na Alemanha na hotelaria do Algarve cai de maneira sustentada desde 1995 para mínimo de 213k em 2009 e ligeira recuperação para 272K em 2014.

Gráfico 2 – Hóspedes residentes na Alemanha na hotelaria do Algarve
(milhares)



Fonte: Elaboração própria com base em INE – Estatísticas de Turismo

A queda dos operadores de package holiday do emissor da Alemanha para o Algarve

-não é susceptível de ser explicada pela “concorrência das low cost”,

-a partir de 2002 parece ter a ver com decisão comercial no seio da Neckermann,

A suspensão da operação para Faro coincide com a formação do Thomas Cook Group plc em 2007 e integra a queda da operação do grupo para o Algarve.


*Oferta do Algarve, mercado da Alemanha, a Condor e o canário
Nas minas de carvão havia um canário cuja vivacidade ou desfalecimento era indicador da ausência/presença de monóxido de carbono que seria fatal para os mineiros. No Algarve da actualidade, a Condor é como um canário cujo regresso indicará que a hotelaria do Algarve é capaz de atrair turistas residentes na Alemanha:

-se a hotelaria for competitiva, a Condor volta a voar para Faro.

Desde o início da década de 2000 (vai para quinze anos) é evidente que posicionar a oferta do Algarve no mercado emissor da Alemanha exige fazer algo diferente de ‘mais do mesmo’. 

Depois da crise de 2008/2009 este ‘algo diferente’ tem de ser ‘ainda mais diferente’.

A responsabilidade em inovar e recuperar posição no mercado da Alemanha é das empresas privadas, por si ou em parceria na ATA e concertação com Turismo de Portugal e ANA. 

O instrumento deste novo posicionamento é um plano de marketing & vendas a três ou mais anos, com objectivos realistas,
programação da oferta ligada à distribuição e promoção de vendas, e responsabilização dos parceiros envolvidos.


A Bem da Nação

Lisboa 23 de Outubro de 2015  


Sérgio Palma Brito

Portugal destaca-se nos rankings do mercado de turismo do Reino Unido

O turismo é um dos mercados mais competitivos da economia mundial e, de entre os países que o integram, o mercado emissor do Reino Unido é dos que mais contribui para essa competitividade.

Antes e publicarmos uma síntese deste mercado em 2014, avançamos com os rankings de deslocações (turistas), dormidas e gastos. 
Portugal ganha lugar de destaque:

-é sexto no ranking das deslocações e quarto nos rankings de dormidas e gastos.

Para compreender melhor o que isto representa é preciso ter em conta que

-os destinos Espanha e França jogam num campeonato à parte,

-fora destes destinos, em deslocações Portugal só é ultrapassado pela Republica da Irlanda (outro caso à parte) e dois grandes destinos: Itália e Alemanha,

-em dormidas e gastos, Portugal só é ultrapassado pela Itália e ultrapassa Grécia, Turquia e por aí adiante.

Duas notas finais:

-a seriedade da informação estatística do International Passenger Survey é reconhecida internacionalmente,

-estes são números do País, que devemos reconhecer como tal e não devem ser ligados com performances empresariais do género “estes números não chegam às empresas”.

Para informação mais detalhada ver a série de posts publicada em 2014:

-Portugal no Mercado de Turismo do Reino Unido – Introdução


E agora os rankings

Gráfico 1 – Portugal no mercado do Reino Unido: deslocações

(milhares)



Fonte: Elaboração própria com base em Office of National Statistics, International Passenge Survey


Gráfico 2 – Portugal no mercado do Reino Unido: dormidas

(milhares)



Fonte: Elaboração própria com base em Office of National Statistics, International Passenge Survey


Gráfico 3 – Portugal no mercado do Reino Unido: gastos

(milhares de libras)



Fonte: Elaboração própria com base em Office of National Statistics, International Passenge Survey


A Bem da Nação

Lisboa 3 de Outubro de 2015

Sérgio Palma Brito



A TUI Travel da actualidade e o que exige ao turismo do Algarve


Depois de para aí trinta anos de consolidação (por crescimento orgânico, fusões e aquisições) e integração vertical (companhia aérea, distribuição em High Street e online, alojamento e cruzeiros), a TUI Travel é extraordinário caso de sucesso. O Thomas Cook Group, o outro operador turístico que a acompanha na consolidação atravessa problemas financeiros e internos que põem o seu sucesso em causa.

Fiona Downie substitui o histórico Duarte Correia na direcção da TUI Portugal e Cabo Verde e faz declarações que exigem atenção.  O que Fiona Downie diz sobre estratégia parece um discurso da vulgata corrente sobre turismo, mas não é. 

Na ocorrência é a estratégia que faz o sucesso da TUI, talvez o único operador turístico de package holiday que em 2007, quando se consolida, é capaz de reconhecer a fraqueza estratégica em que assenta e de a ela reagir (brevemente neste blogue).

Esta é a estratégia que desafia o Algarve a responder à

-“necessidade de desenvolver experiências únicas em destinos que se pretendem modernos, e nos quais o controlo de custos, as relações com os fornecedores e o empenhamento e envolvimento das equipas são pedras basilares”.

Parece mais um exemplo do frequente discurso fácil sobre turismo, mas não é. É a realidade do mercado a entrar-nos pela casa dentro.

A ‘nova’ companhia aérea da TUI integra todas as companhias aéreas dos operadores consolidados (desde a Britannia da Thomson, à Air2000 da First Choice, passando pela Hapag-Lloyd Flug da ex-TUI Alemanha e acabando na simpática Arke da Holanda do senhor Arke ou a Fritidsresor da Suécia).

Esta companhia aérea concorre com “low-costs como a easyJet, Ryanair ou Norwegian”. A Fiona não diz que:

-quando fizer business sense, os clientes do package holiday dos operadores TUI voam numa dessas ou outras companhias – o que põe em causa a dicotomia ‘low cost contra charter’ de uma das guerras estéreis sobre o turismo do Algarve,

-a companhia aérea tem a 7ª maior frota na Europa, com 13 Dreamlineers e planos para 17 em 2019.

Mais informação em posts já publicados e no documento em curo de elaboração sobre a acessibilidade aérea competitiva a Portugal.

A Bem da Nação

Lisboa 3 de Outubro de 2015

Sérgio Palma Brito


Ver mais em

http://www.ambitur.pt/tui-preve-crescer-5-ate-2020-com-produtos-unicos-e-diferenciadores/#sthash.yLiIQRND.dpuf

O Lufthansa Group na acessibilidade aérea a Portugal

Mais uma greve dos pilotos da Lufthansa é excelente ocasião para introduzir o Lufthansa Group aos leitores deste blogue. O post divulga o papel que o LG pode vir a taer na acessibilidade aérea competitiva a Portugal.

Esta é mais uma greve dos pilotos da Lufthansa num processo longo e sem fim aparente à vista – segundo o Jornal de Negócios esta “foi a 13ª paralisação em 18 meses” (aqui). A greve é sobre o regime de pensões, mas “the real agent provocateur and the common underlying irritant for Lufthansa's unions is the introduction of low cost operations into the group” (1).

Como veremos nos próximos posts sobre o International Airlines Group (IAG) e Air France/KLM Group, as suas FSC enfrentam problemas similares com a operação low cost, o estatuto do pessoal e o nível e financiamento das reformas

*O Lufthansa Group
A figura 1 ilustra a estrutura do LG, formado pela Lufthansa, Germanwins, Eurowings, Swiss e Austrian Airlines do mercado DACH (Deutchsland, Austria e Suíça) e os 50% que o LG detém no capital da Brussels Airlines. A estrutura combina multi-hub e multi-produto, com relevante operação low cost nas Wings.

Figura 1 – Estrutura do Lufthansa Group



Fonte: The Way Forward, Julho de 2014 (2)

O gráfico 1 ilustra o número de passageiros do Lufthansa Group em 2014 (3). Para dar uma ideia, em 2014 o número de passageiros da TAP é de 11,1 milhões. As Lufthansa passenger Airlines incluem a Lufthansa, Germanwings e ‘regional airlines’ que supomos inclui a Eurowings de antes da transformação estratégica que descrevemos a seguir. A Brussels Airlines não é incluída.

Gráfico 1 – Passageiros do Lufthansa Group em 2014
(milhões)



Fonte: Elaboração própria com base em Lufthansa Group Investor Relations
*Ver explicação no texto.

O relatório do Lufthansa Group referente a 2014 é mais completo:
-“The portfolio also includes the low-cost airline Germanwings and the equity investments in the carriers Brussels Airlines, JetBlue and SunExpress.”.

*Segmentos Business e Private
O LG divide o mercado entre Business e Private, englobando nesta categoria as deslocações por motivo do que o INE designa por ‘lazer, recreio e férias’, ‘visita a familiares e amigos’ (VFA) e ‘diversos’ (saúde, religião, educação e outros). 

Neste mercado,

-“O segmento Private de deslocações cresce mais depressa do que o segmento Business e é dominante quer nas rotas intercontinentais (75%) quer nas do continente europeu (79%)”.

Em documento a publicar brevemente (Introdução ao turismo) relacionamos estes dois segmentos com a diversificada quantificação de deslocações turísticas por ‘motivo principal da deslocação.

*Lufthansa e concorrência nos 5 hubs da Europa
O gráfico 1 ilustra a parte de mercado das FSC nos cinco principais hubs da Europa (4). Fora o caso especial da Turkish Airlines,
-a Lufthansa é a FSC com posição mais dominante no hub respectivo e isto apesar de opera um segundo hub em Munique.

Gráfico 2 – Importância das FSC dos três grupos nos seus hubs  
(em % do total de available seats)



Fonte: Elaboração própria com base em CAPA, Air France-KLM SWOT, 10 de Julho de 2015 (3)

*Duas dimensões da estratégia da LH
Nas rotas intercontinentais a estratégia do LG é pacífica:

-clarificar as rotas que alimentam os hubs de Munique e Frankfurt,

-reforçar a qualidade do serviço de primeira classe e executiva,

-intensificar “joint-venture partnerships with leading airlines” para tirar partido do crescimento das maiores economias do mundo – USA, China, Japan and Canada (5).

Diferente é o caso da estratégia do LG para as rotas ponto a ponto europeias e intercontinentais [sobre estas, ver a seguir]. A figura 2 ilustra a estratégia do LG nestas rotas.

Figura 2 – Rotas ponto a ponto na Europa e a “wings Family”



Fonte: The Way Forward, Julho de 2014

*Concorrência e contexto legacy da Lufthansa
A Lufthansa enfrenta a concorrência estrutural, no sentido em que não é passageira, de LCC nas rotas ponto a ponto europeias e das Gulf Carriers nas rotas intercontinentais de FSC.

Esta concorrência só passa a ser problema porque, a exemplo das FSC em geral e das dos três grandes grupos em particular, a Lufthansa enfrenta uma herança de problemas (daí a frequente designação de legacy carrier):

-estatuto (salários, benefícios e intervenção) do pessoal com destaque para pilotos,

-custo e financiamento do sistema de reformas,

-apesar dos progressos da década de 2000, consolidação insuficiente do mercado europeu que é fonte de underperfomance (6).

Na abordagem e minimização destes problemas o LG está em atraso em relação ao IAG e à frente do Air France/KLM Group (próximos posts).

*Germanwigs e Eurowings nas rotas ponto a ponto da Europa
Germanwigs e Eurowings estão integradas no LG desde há anos, mas só recentemente são objecto de definição estratégica que a figura 1 ilustra.

Em 2012, a Lufthansa decide transferir para a Germanwings as rotas europeias que não ligam com os hubs de Frankfurt e Munique. O processo começa em 2013 e está concluído (7). Esta transferência pode representar sinergia para o Grupo porque a Germanwings tem custos de operação inferiores aos da Lufthansa, mas não é isenta de problemas de legacy:

-a Germanwings tem custos de operação que a afastam dos das verdadeiras LCC e os seus pilotos têm regime laboral idêntico ao dos pilotos da LH.

Por outro lado, os pilotos da Eurowings operam fora do acordo colectivo da Lufthansa e da Germanwings e os custos de operação são 20% abaixo dos desta, o que coloca a Eurowings nas LCC. A decisão em curso é de

-transferir 55 rotas da Germanwings para a Eurowings a partir da estação de Inverno,

-abrir bases da Eurowings na Áustria e Suíça.

Em teoria, o Grupo pode esperar sinergias

-de rotas operadas pela Lufthansa passarem a sê-lo pela Germanwings e rotas que esta opera passarem para a LCC Eurowings,

-com bases na Alemanha, Áustria e Suíça a Eurowings é o embrião de uma LCC pan-europeia, factor crítico de sucesso para expansão futura para uma escala significativa.

*Opiniões sobre a Eurowings
Segundo a Bloomberg,

-“Lufthansa seeks to make the operation into Europe’s third largest point-to-point carrier, even as the two biggest low-fare competitors, Ryanair Holdings Plc and EasyJet Plc, look at Germany for expansion. Ryanair wants to triple the number of jets it operates in the continent’s largest economy to as many as 80 within five years.” (8).

Em Setembro de 2014 Michael O’Leary, CEO da Ryanair, tem uma opinião crítica:
-“One of the reasons we’re expanding so quickly in Germany is because Air Berlin is continuing to cut back on short-haul European destinations and focus more on Gulf routes. There is also Lufthansa that has some bizarre plan about establishing a new low-fare airline. Unfortunately [Lufthansa] started with a high-fare airline called Germanwings and they’ll need to do a lot more than call it that and paint it yellow to make it a low-cost carrier.” (9).

*Wings longhaul nas LHLCC
Em Julho de 2015, a Eurowings solicita ao United States Department of Transportation a licença para uma companhia aérea estrangeira operar entre a Alemanha e os EUA. É o início da implementação da rede intercontinental da Eurowings, que se junta à emergente industria das Longhaul Low Cost Carrier – LHLCC (10).

Citamos o CEO do Lufthansa Group
-“ To this end, a Letter of Intent has been signed with SunExpress, a joint-venture company of Lufthansa and Turkish Airlines, under which the intercontinental services to be offered under the Eurowings brand will be flown under the air operator certificate (AOC) of SunExpress Deutschland and with SunExpress Deutschland cockpit and cabin crews. The first intercontinental destinations to be served will include points in Florida, Southern Africa and the Indian Ocean.” (11).

A Europa já conhece a expansão para LHLCC da Norwegian e os problemas que a companhia enfrenta (tema de próximo post). A Eurowings intercontinental é um passo na formação desta nova industria.

*Portugal em tudo isto
O gráfico 3 ilustra os passageiros nas rotas entre a Alemanha e Lisboa, Porto e Faro. Constatamos:

-a Lufthansa voa para Lisboa, Porto e Faro e a Germanwings para Lisboa e Faro.
Num futuro próximo

-a Eurowings com as suas bases no mercado DACH pode estar a voar para os três aeroportos se os destinos regionais tiverem capacidade de atracção para esta procura e em função de eventual concorrência da Ryanair,

-a Lufthansa concentrará a procura de hub intercontinental, o que levanta a possibilidade de eliminar Faro para a Eurowings (12) e questionar a rota do Porto em função da contribuição desta para alimentar o hub intercontinental. 

Gráfico 3 – Passageiros Lufthansa/Germanwings Lisboa, Porto, Faro
(milhares)



Fonte: Elaboração própria com base em várias fontes e valores aproximados

Como veremos em outro post,

-a visão de Portugal como destino turístico nos mercados emissores mais importantes passa por identificar as companhias aéreas mais dinâmicas e com mais potencial de crescimento.

No caso do mercado da Alemanha, temos de pelo menos considerar Ryanair e Eurowings.


A Bem da Nação

Lisboa 10 de Setembro de 2015

Sérgio Palma Brito


Informação ao leitor

O leitor deve estar informado sobre os Princípios Gerais do blogue.

Notas
(1)CAPA, Lufthansa’s Eurowings goes to America; will the pilots unions allow US DoT to issue an exemption?, 24-Jul-2015. Ver

Sugerimos a leitura de CAPA, Lufthansa SWOT: new low cost platforms are smarter strategy than resorting to protectionism, 9-Apr-2015. Ver

(2)The Way Foward designa Lufthansa Group, The Lufthansa Group – The Way Forward, Carsten Spohr, Chairman of the Executive Board & CEO, July 2014.



(5)Ver documento da Nota (2).

(6)CAPA, Europe's airlines underachieve in profit margins, but LCCs typically perform better than FSCs, 3-Apr-2015. Ver http://centreforaviation.com/analysis/europes-airlines-underachieve-in-profit-margins-but-lccs-typically-perform-better-than-fscs-217527

(7)CAPA, Deutsche Lufthansa AG unveils new strategy, 10-Jul-2014. Ver


(9)Michael O’Leary, CEO da Ryanair, em 24 de Setembro de 2014 na conferência de imprensa sobre a colaboração com o GDS Amadeus. Ver

(10)CAPA, Lufthansa’s Eurowings goes to America; will the pilots unions allow US DoT to issue an exemption?, 24-Jul-2015. Ver



(12)Segundo informação não oficial, o voo da Lufthansa para Faro é justificado para os passageiros gastarem as milhas que acumulam em programas de fidelização.