A importância do aeroporto de Faro no arranque do turismo do Algarve – 1962/1965

O aeroporto de Faro é inaugurado em Julho de 1965 mas a data a comemorar é Abril de 1962, quando a decisão e compromisso políticos de Salazar em o construir marcam o ‘antes’ e o ‘depois’ do turismo do Algarve.

Neste post começamos por apresentar a decisão e compromisso políticos de Abril de 1962 e situar o contexto europeu em que se inserem.

Depois mostramos como desencadeiam a promoção de grandes projectos de imobiliária turística que hoje nos são familiares.

A ideia generalizada da dinamização do turismo do Algarve pelos ‘cinco hotéis de cinco estrelas’ da década de 1960 não corresponde à realidade:

-os hotéis são importantes para o modelo de negócio dos operadores turísticos de pacotes de férias, mas inserem-se da dinâmica de projectos de imobiliária turística (Penina, Alvor, Balaia e D. Filipa) de que apenas um é independente – o Hotel Algarve de grupo financeiro de então. (1).

A realidade é simples:

-desde o início, o turismo do Algarve integrz dois modelos de negócio: as estadias temporárias em hospedagem onerosa sobretudo em pacote de férias e o turismo residencial,

-o primeiro modelo é do conhecimento geral e está no cerne da política de turismo tal como a conhecemos,

-diferente é o caso do turismo residencial, tema polémico e maltratado pela política de turismo, de 1963 à actualidade.

1.Decisão e compromisso políticos de Abril de 1962,

*Abril de 1962 – decisão e compromisso políticos do governo
Em Abril de 1962 o governo aprova um decreto-lei que estipula:

-“As despesas resultantes da construção e equipamento do aeroporto de Faro, previsto no II Plano de Fomento, serão feitas com dispensa no cumprimento de todas as formalidades legais, incluindo o visto do Tribunal de Contas”.

Comecemos pelo II Plano de Fomento para 1959-1964, que

-não inclui o Aeroporto de Faro, apenas reconhece ser “da maior urgência dotar a ilha da Madeira de um aeroporto, que satisfaça as necessidades do turismo” a “ser completado com um aeródromo na ilha de Porto Santo”.

Oprevisto no II Plano de Fomento’ é uma peta politica para justificar a decisão que segue (2).

A dispensa de “todas as formalidades legais, incluindo o visto do Tribunal de Contas”

-lembra as dos decretos-lei de 1944 e 1947 sobre o “serviço especial denominado Transportes Aéreos Portugueses (T.A.P.)” encarregue da exploração de “carreiras aéreas de grande interesse nacional” com despesas “independentemente do cumprimento de quaisquer formalidades, inclusivamente as do visto do Tribunal de Contas” (3).

Tudo parece indicar que se trata de decisão e compromisso político de Salazar.

*Decisão e compromisso abrem caminho para dupla ruptura política
A decisão de 1962 faz com que a dinâmica do novo turismo rompa com

-a visão pacata do turismo de país periférico com acesso aéreo medíocre e caro,

-o turismo da hotelaria tradicional tal como o próprio Salazar o define na Lei de 1954 e ao qual acorda os generosos benefícios fiscais da Utilidade Turística (4).

Os grandes projectos da imobiliária turística do Algarve

-são aprovados informalmente pelo Ministro das Obras Públicas na ausência de competência legal,

-têm a oposição aos Serviços de Turismo, integrados no SNI e na dependência de Salazar,

-justificam pesquiza adicional que esclareça a relação entre Salazar e Eduardo Arantes e Oliveira, que virá a ser afastado do MOP em condições que lembram as de Duarte Pacheco na década de 1930 (5).

*Realidade e ruptura da dinâmica do novo turismo do Algarve
A dinâmica do novo turismo do Algarve rompe com a realidade do ritmo de crescimento pacato da oferta exclusivamente hoteleira do turismo em Portugal. 

Esta realidade é ilustrada em Janeiro de 1961, pela exposição Política de Turismo Seis Anos de Acção, hossana excessivo ao crescimento do turismo da hotelaria tradicional entre a Lei de 1954 e 1960:

-a capacidade hoteleira do país cresce 24%, e o número de turistas passa de 165 mil a 353 mil.

A referida dinâmica rompe também com a versão Algarve desta realidade nacional. Na abertura do I Colóquio Nacional de Turismo associado à exposição, o ministro da Presidência Pedro Teotónio Pereira aborda o turismo do Algarve na perspectiva de continuidade do modelo tradicional:

-“Há três dias apenas que pusemos a funcionar a grande zona turística de Sagres. […] Sagres, estou certo disso, vai ser o grande motivo de atracção, ao mesmo tempo meta e porta de entrada de uma região privilegiada que se conservou, no entanto, muito tempo à margem do grande caudal do turismo.” (6).

Em 10 de Junho de 1962 o Eng.º Pessanha Viegas detém-se “um pouco na análise do que tem sido a interferência humana nestes últimos dez anos “. Faz um balanço e Reconhece que esta “interferência humana”

-“se limitou à construção dos hotéis de Monte Gordo, Meia Praia (Lagos) e Baleeira (incompleto), da Pousada de Sagres e da estalagem de Lagos e do Parque de campismo de Monte Gordo. Entretanto a ampliação do Hotel Faro está paralisada de há muito – sem ter entrado ao serviço – e o Hotel de Vila Real de Santo António fechou já lá vão uns anos.” (7).

Este é o turismo do Algarve, na política de turismo de então e no terreno. O Algarve vai ser palco da maior ruptura que a economia do turismo conhece em Portugal.

*O turismo no planeamento nacional e regional
Em 10 de Junho de 1962 o Eng. Pessanha Viegas, responsável dos serviços regionais da Direcção Geral dos Serviços de Urbanização, assina os exemplares dactilografados do seu “Um Plano de Aproveitamento Turístico do Algarve”.
Ainda em 1962, o SNI começa a elaborar o “Plano de Valorização Turística do Algarve”, um plano que ignora a nova realidade da imobiliária turística e se reduz à hotelaria.

No início de 1963, o Ministro das Obras Públicas decide a elaboração do Plana Regional do Algarve, no modelo do Plano de Urbanização da Costa do Sol do ministro Duarte Pacheco seu antecessor no MOP. Dos documentos deste plano destacamos:

-Direcção-Geral dos Serviços de Urbanização Planeamento Urbanístico da Região do Algarve – “Esboceto” e Orientação Geral, Relatório do Gabinete Técnico do Plano Regional do Algarve, Lisboa, 1964.

Entre 1962/1963 os tecnocratas que criam os onze Grupos dos Trabalhos Preparatórios do Plano de Investimentos para 1965/1967 têm criar mais dois grupos para actividades que lhes apareciam como menores e politizadas: as Pescas de Henrique Tenreiro e o Turismo ligado à propaganda e informação do SNI (8). Pela sua grande qualidade e actualidade, destacamos

-Presidência do Conselho Relatório Preparatório do Plano de Investimentos para 1965-1967, Relatório do Grupo de Trabalho nº 13, Turismo, Lisboa, 1964.

2.Contexto europeu da decisão e compromisso políticos de 1962

*Operadores de pacotes de férias e explosão do transporte aéreo
No terceiro sábado de Maio de 1950, um DC-3 Dakota reconvertido em avião de passageiros transporta 32 passageiros entre Gatwick e a Córsega.

Um operador turístico organiza os primeiros pacotes de férias (o package holiday) em que o transporte aéreo é assegurado por uma cadeia de voos “charter back to back”. O crédito pela inovação é reconhecido a Vladimir Raitz que para o efeito cria o operador Horizon.

O preço do package é 32 libras e 10 xelins e compreende transporte, transfers, assistência local, alojamento em tendas de campismo, refeições e vinho local à discrição. O preço de ida e volta Londres-Nice com a British European Airways é de 70 libras (9).

No início da década de 1960 já há operadores turísticos similares nos países do Norte da então Europa Ocidental, para cá da Cortina de Ferro.

*Entretanto, em Espanha
Na Espanha do final da década de 1950 o modelo económico de autarcia está em ruptura. Em Julho de 1959 a ruptura é consumada com a aprovação do Decreto-Ley de Nueva Ordenacion Económica. Entramos no tempo da intensificação das relações com o exterior, da liberalização das importações, do investimento estrangeiro, da supressão de parte do intervencionismo estatal na economia e da fixação da paridade da peseta pelo FMI.

O arranque do turismo internacional para Espanha tem lugar durante a década de 1950. Entre 1950/1962,

-o número de visitantes estrangeiros com passaporte cresce de 457k para 6.390k e o das chegadas de visitantes aos aeroportos cresce de 59k para 826k.

Na Costa del Sol o aeroporto de Málaga abre o caminho para a formação de uma área turística por influência dos mesmos dois modelos de negócio do Algarve:

-estadias temporárias em hospedagem onerosa sobretudo em pacote de férias e turismo residencial.

Em Julho de 1962, no âmbito de uma vasta remodelação, Manuel Fraga e Iribarne assume a pasta de Información y Turismo. Cria Subsecretaria de Turismo, com as direcções gerais de Promocion del Turismo e de Emplesas y Actividades Turísticas.

Em Julho de1963 é aprovada a Ley de Competencias Turísticas, explicitada pelo decreto de 14 de Janeiro de 1965 que aprova o Estatuto Ordenador de las Empresas y Actividades Turísticas (10).

*Algarve na Bacia Turística Alargada do Mediterrâneo
O Aeroporto de Faro permite integrar o Algarve na Bacia Turística Alargada do Mediterrâneo, cujos limites se estendem para Oeste e Sudoeste, ao Algarve, ilhas atlânticas e costa marroquina, e para Este aos mares Negro e Vermelho.

A Bacia forma-se, a partir dos anos cinquenta do Século XX, pelo desenvolvimento rápido e simultâneo de várias áreas turísticas, cada uma formada em torno do aeroporto, que a torna acessível às classes médias do Norte da Europa. As áreas turísticas desenvolvem-se segundo modalidades, tempos e morfologias diferentes, mas partilham elementos invariantes. 
Acessibilidade aérea, mais tempo livre e rendimento disponível oferecem uma geografia, dimensão e diversidade novas, à procura da viagem para estanciar durante o tempo livre.

3.Grandes projectos de imobiliária turística da iniciativa privada
A listagem que segue inclui os mais importantes projectos de imobiliária turística que são consequência directa da decisão e compromisso políticos de Salazar de 1962.

*Projectos de 1962 em Albufeira
Em 15 de Outubro de 1962, um promotor inglês requer à Câmara Municipal as licenças para um grupo de 20 habitações, que acabar em Junho de 1963. As moradias são vendidas na condição do proprietário ceder a sua fruição ao promotor durante os meses de Abril a Outubro, por período mínimo de cinco anos. Nos meses de Novembro a Março as casas serão utilizadas pelos respectivos proprietários, ou permanecerão arrendadas ao promotor. É esta a origem da Aldeia Turística das Areias de S. João e as moradias estão ocupadas pela Economia da Noite na Oura, dada a proximidade da Praia da Oura.

Em Outubro de 1962, o promotor requer ao SNI a construção de um hotel de turismo, com 150 quartos, num terreno de 5 hectares a Nascente de Albufeira. 
Em Outubro de 1963, o programa já compreende hotel de 50 quartos, motel de 15 apartamentos e 48 bungallows. É hoje o Auramar.

Datado de Novembro de 1963, o projecto das Areias Douradas ocupa cerca de 300 hectares, a poente de Albufeira, desde a Ponta da Baleeira até à Galé. A complicada estrutura fundiária dos 300 hectares e a alternativa de Vale do Lobo explicam o abandono deste projecto.

*Penina e Vale do Lobo em 1963
Entre 1962/1963 os projectos da Penina e Vale do Lobo inovam pela sua extensão (cem e mais hectares), campo de golfe e venda de moradias para alargar a procura e financiar os projectos (11). O financiamento dos futuros hotéis Penina e D. Filipa é indissociável da dinâmica dos projectos de imobiliária turística em que se integram.

Os Serviços de Turismo opõem-se formalmente ao licenciamento dos dois empreendimentos. Sem as decisões do Ministro das Obras Públicas que ultrapassa esta oposição, os actuais empreendimentos turísticos da Penina e Vale do Lobo não existiriam.

Dada a valia de cada um dos empreendimentos, o ministro das Obras Públicas 

-autoriza a venda de lotes para “construção de moradias, em parte da propriedade, para refinanciamento da operação”.

*Empreendimentos da Prainha, SALVOR e Anglopor

1.Prainha. Em Julho de 1963, o projecto de Anteplano de Urbanização de Uma Unidade Turística – Aldeia da Prainha ocupa 6,5 hectares, com 250m frente de mar (12). Prevê, entre outros, dois hotéis, cerca de 85 moradias, e “população turística” de 600 a 700 pessoas, ”distribuída aproximadamente em duas partes iguais: uma referente ao grupo dos hotéis, e a outra ao aldeamento.”.

2.Terreno do Hotel Alvor. Em 1963, a empresa promotora apresenta à DGSU o anteprojecto do que virá a ser o Hotel Alvor. Apesar de ser um empreendimento do Grupo CUF o seu licenciamento não é facilitado. Tudo acaba por correr bem porque a declaração de utilidade turística prévia é confirmada pelo Presidente do Conselho em Outubro de 1965.

O projecto de imobiliária turística é proposto em 1969: moradias isoladas e em correnteza, bloco de apartamentos, com oito pisos, para habitações mais económicas, em terreno junto à estrada e um aparthotel, em torre com cerca de 12 pavimentos. O projecto não é implementado.

3.Emprendimento da Anglopor na Praia de Alvor. Em Novembro de 1964 a Anglopor requer ao SNI a aprovação do “Estudo urbanístico de um conjunto turístico para as praias do Alvor e Três Irmãos”, situado num terreno de 31 hectares e 1.050 m de frente de praia. Entre outros, prevê quatro unidades hoteleiras, cada uma rodeada de seis torres de dez andares residenciais. Depois de várias peripécias, em Abril de 1965, a Anglopor requer a aprovação do Plano de Urbanização de um Complexo Turístico nas Praias de Alvor e Três Irmãos, e em Maio de 1965, o Ministro das Obras Públicas aprova o Plano.

*De Vila Lara a Vilamoura, passando pela Praia Maria Luísa
O primeiro projecto de Vila Lara é aprovado pelo MOP em Novembro de 1964. O processo segue o seu curso e obtém as generosas isenções fiscais da declaração de utilidade turística reservada a hotéis. O projecto inclui imobiliária turística o que obriga o promotor a renunciar a este estatuto em Julho de 1972.

Depois de longa preparação em 1965 um promotor apresenta o Plano Geral de Expansão da Praia Maria Luísa elaborado pelo arquitecto Conceição e Silva, um “estudo de expansão e desenvolvimento turístico duma faixa costeira do Algarve, entre Olhos de Água e Balaia”. A empresa promotora do Hotel da Balaia, que ocupa um lote deste Plano, é informada da urbanização do terreno em Setembro de 1965 e o anteprojecto do hotel é submetido ao Comissariado do Turismo em Agosto de1966.

Em Maio de 1964 e no âmbito do Plano Regional do Algarve, Vilamoura é um das áreas de concentração de empreendimentos turísticos, e a única em que o estudo relativo a Vilamoura fica a cargo do promotor, a Lusotur SARL. Em Outubro de 1964 a empresa requer definição formal das possibilidades e limitações do empreendimento pretendido. Em Novembro de 1965, a Lusotur apresenta o Anteplano de Urbanização da Estação Turística de Vilamoura: 12.000 habitantes de população residente, 38.000 de população turística e mais 10.000 no exterior. A área submetida a estudo de urbanização é de 1054 hectares, dos quais, 323 de espaços verdes; é prevista uma grande exploração agro-pecuária em 577 hectares, por acréscimo da rentabilidade geral e por factor de segurança.


A Bem da Nação

Lisboa 7 de Julho de 2015

Sérgio Palma Brito


Notas

(1)Todas as referências ao turismo do Algarve têm a mesma fonte em livro de nossa autoria: Território e Turismo no Algarve, disponível em

(2)Decreto-Lei nº 44299, de 24 de Abril de 1962 e Presidência do Conselho (1968a) Relatório da Execução do II Plano de Fomento, Metrópole, Imprensa Nacional, Lisboa.

(3)Sobre os decretos-lei de 1944 e 1947, ver o Documento de Trabalho TAP Air Portugal - Notas Genealógicas (1944/2012) em https://drive.google.com/file/d/0Bwm0NmwjZfYiT05DU1JUOEgxazQ/view?pli=1.

(4)Lei n.º 2073, de 23 de Dezembro de 1954.

(5)Ver Sérgio P. Brito, Notas Sobre a Evolução do Viajar e a Formação do Turismo, Media Livros, Lisboa, 2003.

(6)Ver Sérgio Palma Brito, Direcção-Geral do Turismo – contributos para a sua história, Turismo de Portugal, Lisboa 2011.

(7)Ver, Alberto A. P. Viegas, Um Plano de Aproveitamento Turístico do Algarve, dactilografado, Faro, 1962.

(8)Ver livros das Notas (1) e (5) e documentos citados, disponíveis no Centro de Documentação do Turismo de Portugal.

(9)Roger Bray e Vladimir Raitz, Flight to the Sun: The Story of the Holiday Revolution, Continuum International Publishing Group, London and New York, 2001. Sobre Regulação do Transporte Aéreo ver post em preparação.

(10)Ver o monumental AAVV, 50 Años del turismo español – un análisis histórico e estrutural, Editorial Centro de Estudios Ramón Arces, SA, Madrid, 1999.

(11)Sobre estes projectos ver o post Penina e Vale do Lobo – Inovar em 1963

(12)Como mostramos no livro sobre Território e Turismo no Algarve, o ministro das Obras Públicas licencia empreendimentos turísticos sem ter competência legal e ignorando ou contrariando os Serviços de Turismo. As designações de Anteplano de Urbanização, Estudo urbanístico, Plano de Urbanização, complexo turístico e Plano Geral de Expansão são informais. Quando legais (Plano e Anteplano de urbanização) são utilizadas de maneira inadequada com a sua definição legal.


Pacheco Pereira, insinuações sobre a TAP e atirar pedras aos gregos

Pacheco Pereira fala de países que enganam a Europa e da Europa que se deixa enganar porque é do seu interesse. Depois, acrescenta:

-“E nós? Só para não ir aos inevitáveis exemplos socráticos, vamos para este governo e bem perto de nós. Com que então a TAP foi comprada por um português? O brasileiro-americano o que é, o consultor para a aviação? De onde veio o dinheiro, a pergunta que se faz sempre aos remediados, que já são vigiados por 1000 euros, e ninguém faz aos ricos e poderosos? Para que é esta cosmética? Para enganar a União Europeia dando a entender que a TAP foi comprada por um cidadão da União. O truque é tão evidente, que muito provavelmente, como aconteceu com os gregos, a União Europeia já assinou de cruz pelas aparências porque lhe convém. Atirem pois mais uma pedra aos gregos.”.

O autor não apresenta a substancia subjacente às perguntas que formula e faz afirmações graves sobre esta frágil base. Basicamente, as perguntas insinuam um cambalacho entre Portugal e Bruxelas a encobrir a associação dos dois empresários que compra a TAP.

Esmiucemos este número de Pacheco Pereira.

1.”Com que então a TAP foi comprada por um português?”. PP sabe que foi comprada por uma empresa cujo capital é detido a 50,1% por Humberto Pedrosa e a 49,1% por David Neeleman. Este facto é público e notório, mas PP ignora-o e insinua.

2.” O brasileiro-americano o que é, o consultor para a aviação?”. David Neeleman é um empresário com provas dadas como criador de companhias de aviação e capacidade de atrair financiamento de pessoas ou instituições que confiam nele. PP nem se deu ao trabalho de ir à Wikipedia, mas insinua.

3.”De onde veio o dinheiro, a pergunta que se faz sempre aos remediados, que já são vigiados por 1000 euros, e ninguém faz aos ricos e poderosos?”. A pergunta insinua e vem associada a um murro na honorabilidade dos empresários. PP não admite a possibilidade destes dois fulanos disporem do capital próprio necessário e de financiamento próprio ou alheio para o resto. Quando soubermos de onde vem o dinheiro (será publico) já a lama lançada por PP terá cumprido a sua curta e nadagloriosa missão.

4.”Para que é esta cosmética?”. Mais uma pergunta/insinuação e mais um murro na honorabilidade dos dois empresários. PP esconde o que sabe, pela simples razão de ser culto e informado. David Neeleman é o mais do que conhecido driver do negócio, mas precisa de um parceiro português. Humberto Pedrosa é empresário de sucesso, respeitado (PP parece ignorar o que leva pessoas como eu a respeitar Humberto Pedrosa), com fortuna pessoal, conhecedor do sector dos transportes e sabe que DN precisa dele, sob pena de não fazer o negócio. PP não hesita em ofender HP ao atribuir-lhe o miserável papel de homem de palha de DN. PP não admite que até dois burros perceberiam que a privatização da TAP criava oportunidade a partilhar por ambos.

5.”Para enganar a União Europeia dando a entender que a TAP foi comprada por um cidadão da União.”. PP passa á afirmação e faz uma acusação gravíssima com base em ‘pensar de que’ sobre factos cuja explicação é relativamente evidente. É publico que a privatização da TAP é alvo de queixas em Bruxelas e objecto de atenção de concorrentes poderosos. PP imagina que o escrutínio de Bruxelas se deixaria enganar, e que DN e HP urdiriam uma aldrabice para enganar o pagode e Bruxelas. Esta sua atitude é muito feia.

6.”O truque é tão evidente, que muito provavelmente, como aconteceu com os gregos, a União Europeia já assinou de cruz pelas aparências porque lhe convém.”. Não contente com a acusação anterior, PP insiste. Chegados aqui, já não comentamos. O leitor já percebeu.

A démarche de Pacheco Pereira consiste em

-acusar com base em insinuações e sem elencar um facto que seja,

-não admitir o contraditório,

-condenar em processo mais do que sumaríssimo,

-transitar a sentença em julgado, sem apelo nem agravo,

-publicar tudo no Público, ao abrigo da liberdade de expressão

PP denuncia uma patifaria imaginária ao serviço da tese do artigo de opinião em que esta cena da TAP se insere:

-“Atirem pois mais uma pedra aos gregos”, atitude medíocre a que PP reduz os que discordam do governo do Syriza e de Tsipras & Friends.


A Bem da Nação

Lisboa 27 de Junho de 2015

Sérgio Palma Brito


Ver o artigo de opinião de Pacheco Pereira:

A Europa que nos envergonha



Privatização da TAP – Miguel Sousa Tavares em Dupond e Dupont com Pires de Lima

Em recente comentário na SIC, Miguel Sousa Tavares ataca a privatização da TAP, mas comete um erro grosseiro que o faz comparsa do ministro da Economia António Pires de Lima numa improvável encenação de Dupond e Dupont.

Neste post não nos interessa que um comentador no topo da opinião pública nacional desça a este nível. Apenas analisamos o erro de MST por ser magnífico exemplo da falta de preparação de muitas intervenções sobre a privatização da TAP.

Síntese do post

Miguel Sousa Tavares e o ministro da Economia, apesar das suas responsabilidades e quais Dupond e Dupont, ignoram que

-o governo não subsidia voos para a Madeira e Açores,

-a TAP não opera voos políticos que custam dinheiro ao governo português,
-Obrigações de Serviço Público são escrutinadas pela Comissão e operadas pela companhia que ganhe o concurso público.
Mais concretamente,

-as OSP foram suprimidas na Madeira (2008) e Açores (2015) com a liberalização das rotas,

-a TAP cancelou a rota de Bissau por não ser rentável e é operada pela Euroatlantic Airways com base em modelo de negócio mais flexível.

Podemos concluir que há falta de seriedade profissional e política na base de referências a Obrigações de Serviço Público ou rotas como a de Bissau, pelo governo, oposição e muita da opinião pública.


1.Delarações e erro de MST mais Pires de Lima em Dupond e Dupont

*Declarações de Miguel Sousa Tavares
No seu comentário semanal na SIC (1), MST critica a privatização da TAP. Em apoio da sua posição, formula duas perguntas e dá a resposta:

-“vai o governo subsidiar os voos para as ilhas?

-vai a TAP manter os voos políticos que custam dinheiro ao governo português, Guiné, STP, Venezuela, etc. e com prejuízo?

-não vai, eu não estou a ver o investidor privado dizer ‘pois eu estou muito sensível para os interesses da política externa portuguesa, portanto e vou perder dinheiro voando para a Guiné Bissau’.”.

*O inaceitável erro de Miguel Sousa Tavares

A realidade é simples. Salvo as raras excepções previstas, regras da União Europeia impedem o governo de subsidiar

-os voos para as ilhas ou para qualquer outro destino,

-a TAP para operar voos políticos e com prejuízo e que custam dinheiro.

Se MST fizer as perguntas ao investidor privado da TAP, o homem fica basbaque com a ignorância revelada pelo nosso comentador e responderá tudo menos o que MST afirma que ele dirá.

Com efeito,

-desde 1993, a TAP é uma transportadora aérea europeia, sujeita às regras da concorrência da União Europeia,

-desde 1994, o auxílio do estado à TAP, sob qualquer forma que for, está muito condicionado pela União Europeia,

-Obrigações de Serviço Público são operadas por companhia escolhida por concurso público e em rotas que satisfaçam critérios rigorosos (2).

Na realidade,

-já não há Obrigações de Serviço Público nas rotas entre o Continente r Madeira/Açores,  

-a única Compensação financeira atribuída a transportadora aérea é … a da rota Porto Santo / Funchal / Porto Santo (3).

*O inesperado Dupond e Dupont

Nunca esperámos ver a cena Dupond e Dupont representada por dois parceiros tão improváveis como MST e o coloquial ministro da Economia, António Pires de Lima de sua graça. Recordamos declarações do nosso ministro.

A 14 de Novembro, o site do CDS informa:

-“Pires de Lima garante que o futuro comprador tem de continuar a assegurar um serviço público aos portugueses e às comunidades lusófonas” (aqui).

A Lusa dá mais informação sobre as declarações do ministro:

-"Em qualquer caso serão sempre garantidas obrigações de serviço público. Voos para a Guiné? Claro que o futuro accionista da TAP tem que garantir. Voos para os Açores e para a Madeira? Claro que o futuro accionista da TAP tem que garantir. Voos para as comunidades lusófonas? Faz parte do caderno de encargos",

"São condições que nós protegeremos de uma forma reforçada enquanto tivermos 34% do capital e que protegeremos de outra forma se deixarmos de estar no capital, se isso eventualmente vier a acontecer" (aqui).




2.Obrigações de Serviço Público nas rotas Madeira/Açores

*Disposições legais e falta de seriedade profissional e política

Entre outros, as Obrigações de Serviço Público são definidas em três artigos de Regulamento da União Europeia (4):

-o dos Princípios gerais aplicáveis às obrigações de serviço público (Artigo 16º),

-o do Procedimento de concurso público para as obrigações de serviço público (Artigo 17º),

-o da Análise das obrigações de serviço público (Artigo 18º).

A ignorância destas disposições  

-situa a falta de seriedade profissional e política de quase todas as referências a Obrigações de Serviço Público pelo governo, oposição e muita da opinião pública.

A descrição que segue da realidade destas Obrigações reforça estas duras mas merecidas palavras.

*Região Autónoma da Madeira

No caso das ligações entre o Continente e a Região Autónoma da Madeira, em 2008 o governo de maioria absoluta do PS

-considera que “a liberalização do mercado do transporte aéreo para a Região Autónoma da Madeira pode trazer benefícios ao nível das tarifas a praticar, tendo em conta a actuação das regras da concorrência num mercado aberto a todos os operadores”  

-entende “pôr termo à imposição de obrigações de serviço público para a Região Autónoma da Madeira, designadamente em matéria de fixação de tarifas”,

-aguarda que “as regras de funcionamento de mercado permitam, a curto prazo, uma redução dos preços praticados para aquela Região e consequentemente um aumento do número de passageiros, com um incremento significativo ao nível do turismo.” (5).

Em síntese,

-desde 2008, não há Obrigações de Serviço Público nas ligações entre o Continente e a Região Autónoma da Madeira.

*Região Autónoma dos Açores

Em 1 de Março de 2008, o título do Correio dos Açores de teria chocado os nossos Dupond e Dupont:



A posição da TAP ainda mais os chocaria:

-“Tendo em conta as condições que as transportadoras aéreas terão que cumprir nas obrigações de serviço público entre o continente, Açores e Madeira a partir de 30 de Março, a TAP está a avaliar se vai ou não continuar com a operação que nos últimos dois anos tem assegurado em regime de code-share com a SATA Internacional.

Caso a TAP decida não concorrer, tudo indica que será a SATA a assegurar, em exclusivo, as ligações aéreas inter-ilhas e para o exterior do arquipélago, pelo menos até à existência de um regime de liberalização como vai acontecer já este ano na Madeira.” (6).

No virar de 2014/2015, tudo muda e para melhor:

-é definido o Regime de obrigações de serviço público e de subsídio de auxílio social de mobilidade,

-são suprimidas as obrigações de serviço público aos serviços aéreos regulares nas rotas Lisboa/Ponta Delgada/Lisboa, Lisboa/Terceira/Lisboa, Porto/Ponta Delgada/Porto e Porto/Terceira/Porto (7).

É do conhecimento público que a liberalização destas rotas se traduziu em

-dois novos operadores (Easyjet e Ryanair), preços mais baixos em mais rotas e mais viajantes, com aumento do turismo,

-TAP e SATA obrigadas a baixar os preços pela pressão competitiva de Easyjet e Ryanair.

Em síntese,

-desde 2015, não há Obrigações de Serviço Público nas ligações entre o Continente e a Região Autónoma dos Açores,

-oferta diversificada e baixa de preços fazem aumentar o tráfego aéreo e o turismo.

3.A estranha fixação pela rota de Bissau

A rota Lisboa-Bissau virou ícone de quem defende o ‘serviço publico’ a que a TAP estaria obrigada, mesmo perdendo dinheiro (8). A realidade vai surpreender o leitor menos atento às misérias do País. 

Em 9 de Dezembro de 2014, o CEO Fernando Pinto conta como as coisas são e de uma assentada desmente o ministro e responde a MST:

-os voos da TAP Lisboa/Bissau suspensos desde Dezembro de 2013, não são retomados, apesar de já ter "a garantia das autoridades que as condições de segurança estão reunidas".

E porque não são retomados?

-"A razão principal é mercado mesmo. Chegámos a fazer uma pesquisa para ver como estavam as possibilidades, mas temos uma procura muito baixa do mercado".

Fernando Pinto adianta que, quando a TAP suspendeu a operação, "outras empresas" assumiram a sua posição e, por isso, houve "uma queda muito forte da procura" e finaliza:

"Então vimos que não era ainda possível retornar ao mercado. No início do próximo ano tem que ser muito bem analisada para ver se a rota vale a pena", acrescentou.

As ligações Lisboa-Bissau estão a ser asseguradas pela Euroatlantic Airways (companhia aérea do Grupo Pestana e Tomaz Metello), que opera em modelo de negócio mais flexível do que o da TAP.

O Expresso online de 30 de Outubro de 2014 é claro:



Em síntese,

-a TAP suspendeu a rota Lisboa-Bissau por não ser rentável e há outra que companhia aérea de capital português que a opera.

A rota Lisboa-Bissau ilustra uma realidade simples e a ser escamoteada:

-há acessibilidade aérea a Portugal para além da TAP, assegurada por companhia aérea portuguesa (post).

Mas esta é outra história.



A Bem da Nação

Lisboa 22 de Junho de 2015

Sérgio Palma Brito


Notas
(2)Poupamos os leitores à listagem dos documentos de apoio a estas afirmações que são do conhecimento corrente. Vão ser descritos num post sobre A regulação internacional do transporte aéreo em Portugal (em preparação).
(3)Ver Comunicação da Comissão (2013/C 353/05), de 3 de Setembro e site da ANAC http://www.anac.pt/vPT/Generico/RegEconomica/ObrigacoesServicoPublico/Paginas/ObrigacoesdeServicoPublico.aspx
(4)O texto deste item é justificado no post “Privatização da TAP – quando a realidade do mercado contraria o equívoco politico” (aqui), de que retemos o essencial. Ver Regulamento (CE) nº 1008/2008 do Parlamento Europeu e do Conselho de 24 de Setembro de 2008 relativo a regras comuns de exploração dos serviços aéreos na Comunidade (reformulação). No site do INAC, o leitor mais curioso pode ir directamente a Obrigações de Serviço Público (aqui).
(5)Ver Decreto-Lei n.º 66/2008, de 9 de Abril (aqui) e Portaria n.º 316-A/2008 de 23 de Abril (aqui).
(6)Ver o Correio dos Açores de 1 de Março de 2008. O link já não está operacional:
(7)Ver site da ANAC na NOTA (2).
(8)O texto deste item é justificado no post “Privatização da TAP – quando a realidade do mercado contraria o equívoco politico” (aqui), de que retemos o essencial. Entrevista de Fernando Pinto ao jornal i de 9 de Dezembro de 2014.