Produtividade do trabalho nas companhias aéreas da Europa


O presente post completa o que já publicámos sobre ‘A TAP no contexto do transporte aéreo internacional’ (aqui) e divulga os mais importantes gráficos do estudo do CAPA sobre European airline labour productivity (1).

O estatuto e custo do pessoal da TAP são tema polémico e que sofre de falta de avaliação objectiva. Os rankings do CAPA devem ser lidos com todo o cuidado mas ajudam a situar o problema e completam o benchmarking com Finnair e Aer Lingus. Em síntese antecipada,

-a TAP ocupa o 13º lugar no ranking geral e o seu posicionamento nos rankings parcelares é inferior ao das duas companhias do benchmark, com excepção do ranking de Employee cost per employee em que a TAP ocupa o 2º lugar.

 

Informação ao leitor

O presente post tem versão em PDF está disponível (aqui).

O leitor deve estar informado sobre os Princípios Gerais do blogue.

A lista dos posts já publicados pelo blogue está acessível aqui.

 

*Overall labour productivity ranking: 2012

OOverall labour productivity ranking: 2012’ combina a informação dos seis rankings que listamos a seguir (2). Comentários:

-no TOP 10 há sete companhias low cost,

-depois do caso especial da Turkish Airlines, a Finnair é a companhia full service com melhor produtividade, e a Aer Lingus está dois lugares à frente da TAP

-a TAP está melhor posicionada do que IAG, Lufthansa Group, Air France-KLM, Iberia e KLM.

Em síntese,

-no que toca à produtividade do trabalho a TAP ocupa o 13º lugar em dezanove companhias aéreas europeias, à frente de algumas das maiores, mas depois das duas companhias do benchmark (Finnair e Aer Lingus).

Gráfico 1 – Overall labour productivity ranking: 2012

 



*Labour cost as a percentage of revenues

No ranking de Labour cost as a percentage of revenues (gráfico 2), a TAP

-ocupa o 13º lugar, depois da Finnair e Era Ligus, respectivamente em 10º e 12º,

-volta a estar à frente de grandes companhias full service.

Gráfico 2 – Labour cost as a percentage of revenues

 



*Employee cost per employee

No ranking ‘Employee cost per employee’ (gráfico 3), a TAP

-ocupa o 2º lugar, só ultrapassada pela Wizzair e bem à frente de Finnair e Aer Lingus, respectivamente em 10º e 15º.

Gráfico 3 – Employee cost per employee

 



*Revenue per employee

No Ranking Revenue per employee, a TAP

-ocupa o último lugar, com a Aer Lingus e a Finnair respectivamente em 9º e 10º lugar.

Gráfico 4 – Revenue per employee

 



*Operating profit per employee

No ranking Operating profit per employee (gráfico 5), a TAP

-ocupa o 14º lugar, com valor negativo, e Aer Lingus e Finnair ocupam respectivamente o 5º e 9º lugares, ambas com valor positivo.

Gráfico 5 – Operating profit per employee

 



 

A Bem da Nação

Lisboa 22 de Maio de 2015

Sérgio Palma Brito

 

Notas

1)O CAPA é criado em 1990 e anuncia-se como “Established for over 20 years, CAPA delivers market analysis and data that support strategic decision making at many of the world’s most recognised organisations.” Ver http://centreforaviation.com/about-capa/. O estudo ‘European airline labour productivity: Cpa rankings’ está disponível (aqui).

(2)O Grupo IAG integra British Airways, Ineria e Vueling. No caso da Lufthansa, o CAPA considera o ‘flying-based business segments’ (the Passenger Airline Group and the Logistics segment) e o Lufthansa Group em geral. Os números da TAP são os de 2011. 

Não TAP a crítica aos erros e omissões do governo na privatização da TAP


Segundo o Público*,

-a “Associação ligada ao movimento Não TAP os Olhos moveu um processo contra o Estado por considerar que o caderno de encargos é ilegal. E espera uma decisão antes que a companhia seja vendida. […]

O Supremo Tribunal Administrativo prepara-se para julgar uma acção e uma providência cautelar interpostas pela Associação Peço a Palavra, ligada ao movimento Não TAP os Olhos, em que se pede que a privatização da transportadora aérea seja suspensa.”.

Esta notícia justifica e inspira os comentários que seguem

*SPAC, PS e Não TAP os Olhos - um duplo fio condutor

As manobras do SPAC, as últimas declarações de António Costa e agora esta acção do movimento Não TAP os Olhos têm um mesmo e duplo fio condutor:

-impedir a privatização da TAP nos termos e tempo decididos pelo governo,

-ignorar ou escamotear as consequências da capitalização da TAP pelo Governo segundo condições da União Europeia – quem viver, verá e não será bonito.

Mesmo no cenário de haver mais de um candidato credível à privatização (no dia 15 de Maio saberemos) estas movimentações podem fazer falhar todo o processo em curso.

Depois saberemos o preço a pagar pelo programa de reestruturação imposto pela União Europeia e implementado pelo accionista estado.

*Apurar responsabilidades

Esta decisão judicial obriga que desde já o governo

-identifique o responsável pela elaboração do Caderno e Encargos,

-e o responsabilize pela defesa em tribunal e por todos os custos para o Estado português.

É um consultor? É a malta do gabinete? É um governante práfrentex? Alguém tem de ser!

*Governo – mentira ou incompetência?

Desde a liberalização dos direitos de tráfego aéreo no espaço comunitário (1993) e da Decisão da Comissão de 1994, sabemos que

-estar obsoleto o modelo/narrativa em que ‘o estado paga’ a TAP que ‘garante’ o “estabelecer ligações permanentes com as comunidades portuguesas mais significativas” e “com os países de expressão oficial portuguesa”, assegurar “transporte para as regiões autónomas” e ser “dinamizador da actividade turística nacional”,

-a TAP tem de ser uma companhia rentável em mercado aberto e sem ajuda do Estado.

Desde 2009, ainda no governo de José Sócrates, a descapitalização da TAP inicia uma trajectória crescente e insustentável. Chegados a uma situação extrema, o governo

-não clarifica a opção entre capitalização pelo accionista estado ou privado,

-não justifica as razões válidas da opção pelo accionista privado como a mais eficiente solução para viabilizar a TAP,

-enrodilha-se em argumentos falaciosos sobre ‘serviço público’ e ‘garantias’ e não é capaz de dizer a verdade.

Teria sido muito mais simples e honesto o governo explicar uma opção

-o accionista privado, judiciosamente escolhido, é o que mais eficientemente faz da TAP uma companhia rentável em mercado aberto e sem ajuda do Estado.

*’o accionista privado garante’

Ainda não esquecemos as declarações de governantes sobre o accionista privado ‘garante’ num estapafúrdio remake do ‘garante’ da obsoleta ‘transportadora aérea nacional’.

Pois bem! O movimento Não TAP os Olhos apanha o governo em contrapé. A realidade é simples

-só a competitividade da TAP, publica ou privada, pode garantir rotas, hub, base de Lisboa, marca e tudo o resto,

-nenhum accionista pode ‘garantir’ o que o caderno de encargos exige e exige numa redacção cinzenta e com erros de semântica.

Esta é a base da providência cautelar e da acção em tribunal.

*Mais concretamente, os argumentos do Movimento

Segundo o Publico

-o caderno de encargos que serve de base à venda da transportadora aérea está “enfermado de ilegalidades e de cláusulas abusivas que serão impossíveis de cumprir pelo comprador”,

-entre as cláusulas consideradas ilegais está o requisito, imposto ao investidor privado no caderno de encargos, de manutenção da sede da TAP em Portugal, porque “atenta contra o direito de livre estabelecimento”, previsto no Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia,

-outro dos requisitos previstos no caderno de encargos, que obriga à manutenção da direcção da TAP em Portugal, “além de ilegal é impossível de controlar”.

O governo enleou-se em falsas garantias para iludir os portugueses. Agora tem a resposta de quem quis iludir.

*Supra sumo de apanhar o governo em contra pé – Serviço Público

Voltamos a citar o Publico

-Outra cláusula contestada nesta acção é a que diz respeito à capacidade para assegurar as obrigações de serviço público da companhia de aviação. Algo que a associação considera que atenta contra “o princípio da livre prestação de serviços”, igualmente previsto no Tratado da União Europeia, bem contra o direito a “decidir e definir qual a estratégia empresarial”.

Mil vezes criticámos o governo por iludir os portugueses com a referência a uma noção de ‘serviço público’ que

-não existe e, pior, liga com a de Obrigação de Serviço Público formalizada por regras da União Europeia e de Portugal e é já arcaica com a recente liberalização da rotas entre o Continente e os Açores,

-é incompatível com a exigência da TAP ser rentável em mercado aberto e sem ajuda do estado – esta evidência não tem sido suficientemente afirmada.

*Supra sumo de apanhar o governo em contra pé – o hub de Lisboa

Voltamos a citar o Publico

-Este argumento está directamente ligado ao que põe em causa outro requisito do caderno de encargos: a manutenção e desenvolvimento do actual hub (placa giratória) de Lisboa. “É ilegal e impossível”, já que “se a desistência de rotas depende apenas da estratégia da empresa, a manutenção de rotas, que garantam o hub, não depende exclusivamente da empresa”, considera-se na acção.

O governo neo liberal e um ministro vindo da iniciativa privada passam pelo enxovalho de ser um movimento contestatário a defender o abc da gestão:

-o hub é indispensável à TAP como a conhecemos, sem hub esta TAP desaparece e a que poderá substituir não resistirá à concorrência nas rotas intra europeias,

-de novo, só a competitividade da TAP pode garantir a sustentabilidade do hub, do qual depende.

*Nota final

O processo de privatização da TAP será recordado durante muitos e bons (ou maus, ou péssimos) anos.

E durante esses anos, todos terão de responder à pegunta:

-onde estava quando a TAP andou para ser privatizada.

 

A Bem da Nação

Lisboa 11 de Maio de 2015

António Costa vítima de informação errada sobre a SAS


Na entrevista de 6 de Maio a José Alberto de Carvalho e a propósito da recapitalização pública da TAP, António Costa cita o exemplo da SAS:

-“Devia ser esgotada em Bruxelas a possibilidade de uma capitalização pública. Isso não foi feito mas ainda recentemente a Comissão Europeia autorizou a SAS, empresa escandinava, a fazer um reforço público” (aqui).

Nesta informação há dois erros graves, só explicáveis por incompetência de quem assessora o leader do Partido Socialista (1).

Corrigimos o erro por respeito a António Costa e aos nossos leitores e porque é muito mais importante do que podemos pensar:

-não só a SAS não recebeu ajuda do estado, como foi salva da falência porque pilotos e pessoal de cabine aceitaram redução de salários e outros benefícios.

 

*A SAS não recebeu ajuda do estado

O já conhecidíssimo folheto de divulgação publicado pela Comissão em Maio de 2014 é claro:

-“a SAS não recebeu ajuda do Estado” [SAS did not receive any tate aid] (2).

Sublinhamos que esta informação figura num folheto e não num daqueles relatórios da eurocracia que são muito difíceis de ler.

*SAS salva da falência com redução de salários e outros benefícios de pilotos e pessoal de cabine

A realidade ainda é mais diferente. No final de 2012, os accionistas da SAS (50% do capital é detido pelos estados da Dinamarca, Suécia e Noruega) estão perante um dilema

-o financiamento indispensável à sobrevivência da empresa só é concedido se pilotos e pessoal de cabine aceitarem reduções de salários até 15%, mais flexibilidade nas regras de trabalho e uma forma de contenção das pensões pagas pela empresa,

-no outro lado da balança está a falência e a perda imediata de 15.000 postos de trabalho.

Accionistas, gestores e oito sindicatos chegam a este acordo, apesar de serem acusadas de romper com a tradição escandinava de negociação colectiva (3).  

Qualquer semelhança com a TAP não é pura coinjcidência.

A Bem da Nação

Lisboa 7 de Maio de 2015

Sérgio Palma Brito

 

Notas

(1)Este texto é parte de um post detalhado sobre a Capitalização da TAP pelo accionista estado, a publicar brevemente.

(2)State aid for airline restructuring: Does it give you wings?


(3)A Bem da Nação, disponibilizamos as nossas notas de trabalho, todas com base no arquivo do Financiakl Times online.

30 de outubro de 2012

SAS plans $453m cuts and assets sale

A venda de activos deve gerar o mesmo valor dos cortes.


12 de Novembro de 2012

SAS warns of ‘final call’ for survival

SAS warned workers on Monday that they had six days to agree to swingeing cuts in pay and pensions or else perennially lossmaking Scandinavian airline could loose its fight for survival.

SAS wants to cut 40% pf its workforce either through redundancies or by selling businness and asking its remaining staff to take a pay cut up to 15% and move to defined contribution pensions.

Os três governos e os financiadores “had given their backing to a new $519 credit facility but only if workers agree to new terms”.


13 de Novembro de 2012

SAS tops European airline critical list

-CEO Rickard Gustafson: “This is not just me playing hard ball: this is the brutal reality we are facing. But we have got a chance”,

-The capital from two right issues in 2009 and 2010 has been spent and the main shareholders have said there will no more.


16 de Novembro de 2012

SAS survival hangs on a crew pay deal

Os bancos acordaram dar o crédito necessário à sobrevivência da SAS com a condição do pessoal da SAS nos três países “signing of up to 15% and pension changes.”.


19 de Novembro de 2012

SAS averts bankruptcy as cews agents cuts

In a marathon negotiation session that lasted from Sunday morning until Monday afternoon, the company managed to convince one union after another to go along with the deal [oito sindicatos].

A SAS pode receber o crédito bancário com a condição de “pilots and cabin crew signing up to new working contract involving pay cuts and more flexible working patterns.


19 de Novembro de 2012

Legacy airlines struggle amid competition

Síntese sobre IAG (BA, Iberia), KLM/AF e Lufthansa


21 de Novembro de 2012

Swedish tycoon defends SAS move

Jacob Wallenberg, Sweden’s leading industrialist, has defended SAS from fierce criticism from trade unionists that the Scandinavian airline broke with the Nordic tradition of collective bargaining during restructuring.

“You can ask if it is legitimate or not. If this is the way that we can save the company and make sure 15.000 empoyees don’t loose their jobs overnight then is very legitimate.”.


22 de Novembro de 2012

Chapter 11 might have lent wings to SAS

Síntese sobre aplicação do Chapter 11 na Europa. Nos EUA, todas as grandes companhias (excepto a low cost Southwest Airlines) passaram por este mecanismo de recuperação de empresas e puderam continuar a voar, aliviadas de parte considerável do custo dos salários e pensões do pessoal.



 

Reestruturação da TAP pelo accionista Estado


O presente post foi concebido bem antes de serem conhecidas as empresas que apresentam propostas vinculativas para comprar a TAP. A estrutura da série de posts faz com que seja finalizado depois de conhecermos as três candidaturas, que clarificam o confronto decisivo entre

-governo, que pode escolher entre dois bons candidatos e tem o dever democrático de decidir a privatização,

-e PS, que sai enfraquecido pela escolha entre dois candidatos possíveis e que tem o direito democrático de fazer o País o pagar para inverter a decisão, mas ao qual não atribuo o dever e o fazer.

Neste contexto, o presente post pode apenas servir para avaliarmos a atitude do governo em excluir e a do PS em querer impor a capitalização e reestruturação pública da TAP.

O post descreve

-o ‘accionista estado português político partidário’ que passa a ser responsável pela reestruturação da TAP e pela nova,

-como a União Europeia condiciona/impõe esta reestruturação com duas vias de saída: o sucesso da reestruturação ou a falência da TAP.

Convidamos o leitor a um pequeno exercício:

-imaginar um plano de reestruturação (1) como o descrito no post anterior (aqui), mas em vez de decidido e implementado por accionista e gestão conhecedores do negócio, passa a ser acordado entre o ‘accionista estado português político partidário’ e técnicos superiores da União Europeia.

 

Informação ao leitor

O presente post tem versão em PDF está disponível (xxxx).

O leitor deve estar informado sobre os Princípios Gerais do blogue.

A lista dos posts sobre a TAP está acessível aqui.

 

1.Portugal: ’Estado’ e ‘accionista estado’ na privatização da TAP

1.1.Introdução

*É uma realidade portuguesa com certeza

A nossa análise da decisão de privatizar ou não a TAP assenta na realidade concreta

-do ‘Estado português da aviação civil’ corporizado pelo ‘sistema político e administrativo da aviação civil’,

-do ‘accionista estado português político partidário’ da TAP, que integra o que resta deste sistema,

-da sobreposição do calendário político do País com o da privatização da TAP e o ‘Estado português’ a liderar o processo que descrevemos no ponto 2 do presente post.

Esta realidade bem portuguesa no pior sentido da palavra

-sobrepõe-se à dimensão ideológica que influencia a posição de governo e PS,

-inviabiliza muitas das comparações com os estados e companhias aéreas de outros países. 

*‘Estado português’ e ‘sistema político/administrativo’ da aviação civil em Portugal

O ‘Estado português da aviação civil’ é corporizado pelo ‘sistema político e administrativo da aviação civil em Portugal’. Ao longo dos anos identificámos este sistema, formado por pessoas e instituições, ligadas por relações que se consolidam ao longo de décadas.

São pessoas do ‘arco do poder politico’, fazem o seu melhor com as excepções que confirmam a regra, alternam cargos nas empresas públicas e administração, com saltos pelo governo e são guardiãs do poder e do saber. Conhecemos muitos, lidámos com quase todos ao ponto de criar amizade com alguns.

Não dispomos de meios para o analisar, mas é este sistema que, em nome do ‘Estado português da aviação civil’ e do interesse público,

-define políticas para a aviação civil, é proprietário de instalações e de empresas, seu utilizador, administração pública, regulamentador e fiscalizador, accionista, fiscal e gestor, concorrente de si próprio (na Grounforce e Portway), regulador e regulado (2).

Insistimos sobre o ‘accionista estado português político partidário’ da TAP ser parte do que resta deste sistema.

*Intervenção futura do Estado na aviação Civil

Durante anos e até à actualidade, a força e homeostasia deste sistema ilude a dramática fraqueza do Estado português no exercício das funções de um estado moderno. Portugal acumula atraso em dispor do Estado ‘sem comas’, que intervenha no que o sector privado não pode assegurar:

-regulação económica de todo o sistema da aviação civil, com destaque para a regulação económica da gestão aeroportuária (3),

-centro de conhecimento público, que terá de resultar da colaboração entre administração e universidade,

-policy cujas grandes linhas sejam conhecidas e partilhadas pelos partidos da responsabilidade de governar Portugal e pelas partes interessadas pertinentes.

 

1.2.Quarenta anos de ‘accionista estado português político partidário’

*Quarenta anos

A intervenção do ‘accionista estado português político partidário’ ao longo dos quarentas anos que vão da nacionalização à prevista privatização é marcada por tempos diferentes:

-entre 1975/1994, paga e alimenta a narrativa da ‘transportadora aérea nacional”,

-depois de 1994, ignora a nova realidade da TAP obrigada a ser rentável em mercado aberto e sem ajuda do estado,

-entre 1975/2015, bloqueia a capacidade da TAP se adaptar às exigências do mercado,

-entre 1975/2000 nomeia gestores de génese politico partidária e desconhecedores do negócio e a gestão profissional é imposta por factores externos,

-desde 1994 e apesar de sucessivas decisões de o fazer não consegue privatizar a TAP,

-entre 2009 e a actualidade, permite a descapitalização da empresa ao ponto de comprometer a sua viabilidade.

Na actualidade e com a TAP a ir bater contra a parede, o confronto entre PS e governo também é o confronto entre o que resta do ‘sistema político e administrativo da aviação civil e forças/pessoas de governo que o enfrenta.

Em Portugal, este é o ‘accionista estado’ e é diferente do accionista estado de países comparáveis.

*A empresa comunidade de accionista, gestão e trabalhadores

O ‘accionista estado português político partidário’ destrói a dinâmica virtuosa que viabiliza a empresa como comunidade de accionista, gestão e trabalhadores:

-desde sempre, por pagar ou dar a ilusão que pode pagar os prejuízos da empresa e nunca exigir a remuneração do capital,

-entre 1975/2000 pela nomeação de gestores de génese político partidária e desconhecedores do negócio,

-desde 2001, pela relação de irresponsabilidade com a gestão, sem formalização de objectivos e dispensa da remuneração do capital,

-desde 1975, pela relação viciosa de “condomínio estre o Estado e os sindicatos, que exercem um eficaz poder de veto na gestão da empresa”, nas palavras de Vital Moreira (aqui).

Esta é a origem do ‘accionista estado’ bloquear a possibilidade da empresa se adaptar às exigências reais do mercado.

*Serviços estratégicos e empresas que os asseguram

Apesar das divisões da ideologia, cultura e das influências das máquinas partidárias, o ‘accionista estado português político partidário’ corporizado por governo e Partido Socialista é concorda na incapacidade de explicitar o essencial:

-a definição de uma politica, no sentido de policy, que dê prioridade à acessibilidade aérea competitiva que apoie o desenvolvimento económico, social e cultural de Portugal, na qual a TAP e a sua privatização se integram mas à qual não se sobrepõem.

Luís Campos e Cunha diz isto por outras palavras:

-"A TAP faz serviços estratégicos para o país, o que é diferente de ser uma empresa estratégica. São alguns serviços e não a empresa em si" (aqui).

*Instabilidade de posições e de pessoas

Na ausência da policy da responsabilidade do ‘Estado português’, o ‘accionista estado português político partidário’ é caracterizado pela instabilidade

-de estratégias empresariais saídas de cada equipa de gestão que nomeia durante o quarto de século que vai da nacionalização à gestão profissional,

-de posições políticas conjunturais, de que são exemplo: i)o PSD violentamente contra a privatização da ANA em bloco e depois a privatizar a ANA … em bloco; ii)o PS que entre 1995/2011 deixa a ANA gerir os aeroportos sem contrato de concessão e depois critica o governo pelo contrato de 2012 (4),

-das pessoas que o representam sem preparação prévia e tão diferentes como Paulo Campos (com Mário Lino e António Mendonça) e Sérgio Monteiro (com Santos Pereira e Pires de Lima) – segundo o Expresso, desde 2001 a gestão profissional da TAP já conheceu cinco primeiros-ministros e nove ministros dos Transportes (5). 

 

1.3.‘accionista estado português político partidário’ na actualidade

*Governo e Partido Socialista – a substância da divergência

Entre governo e Partido Socialista há uma divergência substantiva. A nível do Primeiro-Ministro e da ministra das Finanças, o governo está consciente da TAP precisar de reestruturação sem a qual definha a caminho da insolvência desordenada (aqui). Talvez mais do que a ideologia, o que  os leva a defender a privatização da TAP é esta realidade e o saberem que o ‘accionista estado’, por incapacidade congénita e condicionamento da União Europeia, não consegue implementar a reestruturação de que a empresa carece.

Para o PS

-"a TAP não é uma companhia qualquer, é uma companhia que garante hoje a soberania nacional e o risco de perdermos a TAP é um risco enorme para o futuro do país" (aqui).

-"A TAP não está tecnicamente falida, tem vindo a ter um trajecto muito positivo ao longo dos últimos anos, tem um problema muito localizado na sua empresa de manutenção do Brasil, e teve um problema muito sério no Verão do ano passado" (aqui),

-"mesmo que não houvesse recursos do Estado para fazer essa capitalização [a pública], a solução devia ter sido aumentar o capital da empresa por via da sua dispersão em bolsa e nunca, em circunstância alguma, perdendo o Estado a posição maioritária no capital da empresa". (aqui).

Receamos que, uma vez no governo, o PS seja surpreendido pela realidade da TAP, pelo que representa a União Europeia a condicionar a reestruturação pública e pelas exigências de uma oferta pública de acções em bolsa.

*Governo e oposição – iliteracia na política da União Europeia?

Como veremos no ponto 2, a capitalização pública da TAP configura auxílio do Estado, a aprovar pela Comissão de acordo com a política da União Europeia sobre auxílio do estado a empresas. Esta política tem dezenas de anos e no caso de companhias aéreas está formalizada em vários documentos e divulgada em folheto de Julho de 2014.

Não acreditamos que governo e PS não tenham informação sobre as exigências e implicações no caso da capitalização pública da TAP. Mais concretamente

-o argumento da capitalização pública ser impossível nunca deveria ter sido usado, para além de declarações irresponsáveis de governantes, figura no preâmbulo do decreto-lei de Dezembro de 2014 que formaliza o processo de privatização da TAP,

-a possibilidade da TAP ser obrigada a ‘encolher’ actividades e pessoal devia ter sido claramente explicada pelo governo e assumida pelo PS e todos os que se opõem à privatização da TAP,

-esta última omissão pode ser entendida como manobra para iludir os cidadãos por PS e todos os que se opõem à privatização da TAP, o que é muito grave.

A inaceitável iliteracia, real ou aparente, de governo e Partido Socialista sobre política de concorrência da União Europeia ainda se manifesta hoje. Consegue apenas ser pouco mais qualificada do que a do tempo em que políticos e comentadores se guerreavam com base em declarações vagas de Comissária europeia de visita a Lisboa (6).

*Obrigações de serviço público segundo o governo

No Anexo 2 mostramos como as Obrigações de Serviço Público a assegurar por uma companhia aérea

-têm definição formal a nível da União Europeia e da legislação nacional,

-no caso da Região Autónoma da Madeira são suprimidas em 2008 e recentemente são reduzidas ao mínimo no caso da Região Autónoma dos Açores.

De entre várias, damos exemplo de declarações do Ministro da Economia que

-mostram como o governo não tem noção da realidade das OSPs, mas faz afirmações sobre a sua natureza e extensão que iludem as pessoas sobre o que a privatização da TAP ‘garante’ – ver detalhe no post Privatização da TAP – realidade e ilusão de ‘garantir serviço público’ (aqui).

Mostramos finamente como governantes, decreto-lei sobre formalização da privatização da TAP e Caderno de Encargos se embrulham na definição das OSPs.

A realidade é simples e não tem nada a ver com ideologia. O governo que assume o papel de Estado e ‘accionista estado’

-não tem ideias claras sobre pontos importantes da definição das condições de privatização da TAP,

-deixa a defesa do interesse público nas mãos do profissionalismo de futuros adquirentes da TAP.

*Privatização mal preparada e impossível consenso

No início de Maio, o leader do PS critica a privatização mal preparada:
-“foi muita negativa a decisão de a privatização se fazer no final da legislatura e sem que haja um consenso politico alargado como era absolutamente imprescindível que houvesse para uma decisão desta dimensão estratégica" (
aqui).

Pela mesma ocasião, passa da crítica ao confronto:

-“o processo em curso nunca conduza a uma alienação de mais de 49% do capital e um governo do PS tudo fará para que seja revertida qualquer situação que entretanto seja tomada que ponha em causa a manutenção da maioria do capital por parte do Estado”. (aqui).

-“O próximo Governo do PS tudo fará que esteja ao seu alcance e que ainda seja possível fazer para assegurar que a TAP não tenha a maioria do capital privatizado”, garantiu, considerando que a TAP “é a empresa estratégica fundamental para garantir a soberania nacional” (aqui).

 

2.Reestruturação da TAP pelo accionista estado e condicionamento pela União Europeia

As orientações da UE sobre “auxílios estatais ajuda de emergência e à reestruturação a empresas em dificuldades” têm como objectivo, entre outros, obter a viabilidade futura da empresa em mercado aberto e sem apoio público.

Este objectivo das orientações da União europeia

-não difere do exigido à reestruturação por accionista privado,

-difere e muito por ser atingido por reestruturação implementada pelo ‘accionista estado português político partidário’ e não por accionista privado comprometido com o sucesso da empresa, como descrevemos no post anterior.

O texto que segue apenas refere a TAP.

 

2.1.Ajuda pública e reestruturação de companhias aéreas

O auxílio do Estado à TAP deve conduzir a verdadeira reestruturação da empresa e contribuir para que a Europa disponha de indústria formada por companhias aéreas fortes e saudáveis.

Para realizar estes fins, o auxílio do Estado à TAP é condicionado pela União Europeia em quatro pontos:

-plano de reestruturação da TAP,

-contribuição própria da TAP em 50% do custo da reestruturação,

-medidas destinadas a limitar as distorções da concorrência

-ser monitorizado.

Se a Comissão entender que este processo não viabiliza a TAP, a alternativa é simples e brutal:

-falência da TAP e prioridade politica a que outras companhias aéreas assegurem a conectividade dos aeroportos (7).

 

*Plano de reestruturação para a viabilidade da empresa

Os elementos mais importantes do plano de reestruturação da TAP são:

i)’Facilitar as operações para a empresa se focar na actividade chave de transporte de passageiros’, o que entre outros

-obriga quase certamente à alienação da Manutenção do Brasil com custo que desconhecemos mas que implica aumentar o auxílio do Estado e a participação da TAP,

-pode questionar a Manutenção de Lisboa e obrigar a privatizar actividades marginais, como a empresa das lojas francas;

ii)’Melhorar a base de custos’ pode implicar

-racionalizar a frota, o que pode implicar a sua redução,

-minimizar custos de pessoal, o que pode implicar uma combinação de despedimentos (por mútuo acordo ou não), redução de salários e alteação profunda do Acordo de Empresa.

iii)”Last but not the least”, ‘redefinir a rede de ligações’

-obriga a TAP a focar-se em sinergias que venham da localização geográfica (caso do hub de Lisboa) e sobretudo nas rotas mais rentáveis.

*Contribuição própria da TAP

A União Europeia

-impõe “uma contribuição significativa para os custos de reestruturação a partir dos recursos próprios do beneficiário do auxílio, dos seus accionistas ou credores ou do grupo empresarial de que faz parte, ou a partir de novos investidores.”,

-e considerar-se-á que a contribuição própria é adequada se o seu montante se elevar a, pelo menos, 50 % dos custos de reestruturação”.

*Medidas destinadas a limitar as distorções da concorrência

A Comissão “irá apreciar a forma e o âmbito adequados” das medidas destinadas a limitar as distorções da concorrência. Estas medidas passam por reduzir actividades lucrativas da empresa – não é erro, a redução de actividades deficitárias não conta.

Mais concretamente e entre outros, estão em causa

-redução de capacidade, medida em Available Seat Kilometers (ASK),

-venda de slots em aeroportos congestionados (8).

(8)Ver post ‘Portela 2012 – Imparcialidade, Transparência e Não Descriminação na Atribuição de Slots’ (aqui).

Sobre este elemento da viabilização da TAP, a Comissão consulta o mercado em que o auxilio à TAP pode prejudicar outras empresas. Sem paranóia, não espantaria ver full services carriers contestar a aquisição dos A350 que concorrem com as ligações do hub de Lisboa ou o número de slots em Heathrow, S. Paulo ou outros.

Ver o Anexo 3 sobre como este princípio foi avaliado em 1994. Em 2015/16, devemos esperar mais rigor.

*One time last time e monitorização

As linhas de orientação da UE são claras sobre:

i)“One time, last time principle”: uma companhia não pode ser ajudada se o foi durante os últimos dez anos, de modo a desperdiçar dinheiros públicos em companhias inviáveis. Como a TAP já foi ajudada em 1994, pode ser mas não nos deve espantar que haja um maior rigor.

ii)Monitoring implementation

A Comissão acompanha o processo de reestruturação com base em relatórios enviados pelos estados membros. Mais uma vez, a monitorização deverá ser mais severa do que em 1994/1997.

*Intervenção da Comissão

Há precedentes de decisões da Comissão sobre auxílio do estado à reestruturação de companhias aéreas:

-antes da crise de 2008/2009, temos Alitalia em 2005, Cyprus Airways em 2007, Olympic Airways em 2008 e Austrian Airlines em 2009,

-desde 2010 há notificações de ajuda do Estado à reestruturação de Czech Airlines, Air Malta, LOT Polish Airlines, airBaltic, Adria Airways, Cyprus Airways and Estonian Air,

-três casos em curso: Cyprus Airways, Estonian Air e LOT Polish Airlines (9).

É oportuno sublinhar

-a existência de uma experiência que os responsáveis políticos não podem ignorar e que ajuda a situar o caso da TAP,

-as decisões recentes sobre a LOT e Cyprus Airways são muito pertimemtes e devem ser estudadas – os mais apressados podem limitar-se ao comunicado de imprensa da Comissão (10).

 

2.2.E se a ajuda pública não funcionar? Falência da TAP!

*Falências e primado da conectividade dos aeroportos

A avaliação que a Comissão faz da companhia aérea em dificuldade inclui a sua falência se não for viável e depender de ajuda dos contribuintes, minado a concorrência no mercado único.

*Recuperação da ajuda pública, falência e conectividade

O folheto da Comissão lista três situações possíveis:

-falência e liquidação

-criação de uma nova companhia e o caso da Alitalia em 2008

-conectividade pela obrigação de serviços públicos.

Nesta fase do processo TAP, mais do que as situações possíveis, interessa a postura da Comissão:

-a falência da TAP é apenas o que acontece se Portugal não for capaz de justificar o auxílio do estado para capitalizar a empresa,

-o que conta é outras companhias viáveis sem ajuda publica assegurarem a conectividade dos aeroportos do País.

 

A Bem da Nação

Lisboa 16 de Maio de 2015

Sérgio Palma Brito

 

Anexo 1 – Notas sobre a União Europeia e o auxílio do estado à TAP

A inaceitável iliteracia, real ou aparente, de governo e Partido Socialista sobre política de concorrência da União Europeia ainda se manifesta hoje, mas já não é o que foi quando políticos e comentadores se guerreavam com base em declarações vagas de Comissária europeia de visita a Lisboa (11).

As declarações do ministro da Economia a 5 de Dezembro de 2014 datam deste período:

-“Um Estado não pode injectar capital nas empresas [de aviação], salvo uma circunstância excepcional: só em razão de um plano de salvamento. E só se pode fazer uma vez e a TAP já o fez” (12). (aqui).

A 17, o secretário de estado dos Transportes contradiz o ministro da Economia e transforma a “impossibilidade” do ministro em opção politica:

-refere que a União Europeia impõe que a capitalização pública implique, entre outros, “diminuição de rotas e despedimento de pessoas” e reconhece ser a defesa do serviço da TAP por inteiro que “nos impede de olhar para esta hipótese” e por isso “acreditamos que é impossível injectar dinheiro na TAP” (aqui).

A primeira grande crítica do PS ao Governo

-é ser "incompreensível que não se tenham esgotado todos os esforços junto da Comissão Europeia para que se procedesse à capitalização pública da TAP", porque, "ao contrário do que foi dito muitas vezes, não é verdade que a União Europeia não permita a capitalização pública" (aqui).

A crítica é repetida, mas nunca o PS se pronuncia sobre

-a capitalização pública implicar programa de reestruturação condicionado pela União Europeia, que pode reduzir a TAP à dimensão de Tapezinha que o PS critica na política do governo (aqui) e poder ser o governo PS a implementar o programa e criar a Tapezinha.

 

Anexo 2 – Notas sobre Obrigações de Serviço Público

2.1.Definição formal e realidade das Obrigações de Serviço Publico

*Definição Formal de Obrigações de Serviço Público

As Obrigações de Serviço Público têm definição formal pela União Europeia e legislação nacional - ver site da ANAC (aqui). Sugerimos consulta do post ‘Privatização da TAP – realidade e ilusão de garantir serviço público’ (aqui).

Na actualidade, as OSPs são marginais.

*Região Autónoma da Madeira

No caso das ligações entre o Continente e a Região Autónoma da Madeira, é o governo de maioria absoluta do PS que em 2008,

-considera que “a liberalização do mercado do transporte aéreo para a Região Autónoma da Madeira pode trazer benefícios ao nível das tarifas a praticar, tendo em conta a actuação das regras da concorrência num mercado aberto a todos os operadores” 

-entende “pôr termo à imposição de obrigações de serviço público para a Região Autónoma da Madeira, designadamente em matéria de fixação de tarifas”,

-aguarda que “as regras de funcionamento de mercado permitam, a curto prazo, uma redução dos preços praticados para aquela Região e consequentemente um aumento do número de passageiros, com um incremento significativo ao nível do turismo.” (13).

*Região Autónoma dos Açores

No caso das ligações entre o Continente e a Região Autónoma dos Açores, em Janeiro de 2015 o governo decidiu

-“suprimir as obrigações modificadas de serviço público para as ligações aéreas Lisboa/Ponta Delgada/Lisboa, Lisboa/Terceira/Lisboa, Porto/Ponta Delgada/Porto e Porto/Terceira/Porto”,

-impor obrigações modificadas de serviço público para os serviços aéreos regulares nas rotas Lisboa/Horta/Lisboa, Lisboa/Santa Maria/Lisboa, Lisboa/Pico/Lisboa e Funchal/ Ponta Delgada/Funchal.

 

2.2.Amostra de declarações do ministro da Economia

As intervenções do ministro da Economia justificam post específico, mas destacamos a sua versão das “obrigações de serviço público”, divulgada em meados de Novembro de 2014 e já objecto de crítica no post “Privatização da TAP – realidade e ilusão de ‘garantir serviço público’” (aqui):

-"Em qualquer caso serão sempre garantidas obrigações de serviço público. Voos para a Guiné? Claro que o futuro accionista da TAP tem que garantir. Voos para os Açores e para a Madeira? Claro que o futuro accionista da TAP tem que garantir. Voos para as comunidades lusófonas? Faz parte do caderno de encargos", disse Pires de Lima aos jornalistas à margem da III Conferência Franco Portuguesa, em Lisboa.

"São condições que nós protegeremos de uma forma reforçada enquanto tivermos 34% do capital e que protegeremos de outra forma se deixarmos de estar no capital, se isso eventualmente vier a acontecer", disse.

Segundo o governante, assegurar as obrigações de serviço público da companhia, "tem que ser sempre uma garantia e até uma condição para que a TAP possa ser privatizada a 100% algum dia" (aqui).

Sobre o caso da rota Lisboa Bissau recomendamos ainda Privatização da TAP – “o accionista privado tem de garantir a ligação com a Guiné-Bissau” (aqui) e sobre a rota Heathrow-Funchal ver Privatização da TAP – quando a realidade do mercado contraria o equívoco politico (aqui).

 

2.3.Decreto-Lei n.º 181-A/2014 de 24 de Dezembro

Segundo o i:

"A TAP é uma companhia de bandeira por estatuto, porque ela presta um serviço público na ligação às ilhas e um serviço fundamental na ligação à diáspora portuguesa", acrescentou o secretário de Estado ainda a propósito da venda da TAP. As obrigações actualmente impostas à companhia "serão mantidas independentemente de quem for o accionista futuro da TAP, (aqui).

Não compreendemos a referência a “companhia de bandeira”, uma noção indefinida e hoje obsoleta na aviação civil – não no transporte marítimo, por exemplo. Certo é que a voltamos a encontrar no preâmbulo do Decreto-Lei n.º 181-A/2014 de 24 de Dezembro que formaliza o processo de privatização da TAP. Citamos parte do preâmbulo, sem referência a OSP mas sim à indefinida noção de «companhia bandeira»:

-“Está em causa uma empresa que apresenta forte ligação ao país, ligação essa que importa manter, afigurando –se por isso relevante privilegiar a manutenção do seu pendor característico enquanto «companhia bandeira». O Governo considera que o processo de reprivatização da TAP deverá respeitar a importância estratégica do chamado «hub nacional», como elo fundamental nas relações entre a Europa, a África e a América Latina, de que as operações aéreas da TAP são um elemento primordial, tendo igualmente presente a importância das ligações dentro do território nacional, em particular aquelas que asseguram a conexão entre o território continental e ilhas, as quais se mostram fundamentais para promover a coesão territorial e social e o desenvolvimento económico.”.

No articulado, o número 3 do Artigo 4.º (Processo da venda directa de referência) dispõe:

-“3-Constituem critérios de selecção das intenções de aquisição para integração dos potenciais investidores em subsequentes etapas do processo de venda directa e para a escolha das propostas objecto de adjudicação:

d) A capacidade para assegurar o cumprimento, de forma pontual e adequada, das obrigações de serviço público que incumbam à TAP;” [o sublinhado é nosso]. 

O secretário de estado dos Transportes destaca esta explicitação das OSP:

A terminar, sublinha:

-“A expressão serviço público não constava do diploma de 2012, revogado com a entrada em vigor deste novo Decreto-Lei.” (aqui).

2.4.Caderno Encargos: RCM nº 4-A/2015, de 20 de Janeiro

O Artigo 5º da Resolução do Conselho de Ministros 4-A/2015, de 20 de Janeiro (aqui) define os critérios de selecção do adquirente da TAP. De entre estes, citamos:

-“d)A capacidade para assegurar o cumprimento, de forma pontual e adequada, das obrigações de serviço público que incumbam à TAP, S. A., incluindo no que concerne às ligações aéreas entre os principais aeroportos nacionais e das regiões autónomas, quando aplicável, bem como a continuidade e reforço das rotas que sirvam as regiões autónomas, a diáspora e os países e comunidades de expressão ou língua oficial portuguesa;”.

O texto do Caderno de Encargos alarga alegremente a abrangência das Obrigações de Serviço Público.

A exigência de “reforço das rotas que sirvam as regiões autónomas” é paradoxal por ser feita quando a TAP publica reduz.

 

Anexo 3 – 1994: “potenciais efeitos negativos do auxílio na concorrência”,

Em 1994 a Comissão avalia para os anos 1994/1997 os “potenciais efeitos negativos do auxílio nas trocas comerciais e na concorrência”. É uma avaliação focada nas ligações intra europeias pela sua importância e porque o reduzido tráfego de longo curso não ser concorrente significativo, ao ponto da TAP ser autorizada a adquirir os quatro A340 de que ainda dispõe.. Em síntese, a TAP

-não utiliza o auxílio para expansão da actividade e dumping, não cria nova rota europeia e tem como “único objectivo o de racionalizar a sua rede” e reduz a frota de 38 aviões em 1993 para 32 em 1997,

-a oferta de lugares no mercado europeu diminui 9,5%, num período em que a procura cresce a 6,6% ao ano.

Citamos,

-“ Em geral, a TAP tem uma parte de cerca de 3 % do número total de passageiros europeus transportados pelas transportadoras aéreas membros da AEA (Associação das Transportadoras Aéreas Europeias). Com uma parte de mercado tão pequena, e tendo em consideração que a TAP planeia deixar de operar em várias rotas europeias, que prevê um aumento de capacidade inferior ao valor médio previsto pela IATA durante o período de reestruturação e ainda que não tenciona passar a operar em novas rotas no mercado europeu, é virtualmente impossível sustentar que a recuperação da TAP vai afectar a competitividade das suas concorrentes europeias.”.

 

Notas

(1)No início de maio de 2015, numa carta enviada aos trabalhadores da TAP durante a greve do SPAC, Fernando Pinto menciona "a necessária restruturação da empresa”. A ‘restruturação’ a que nos referimos é diferente, muito mais profunda e implementada ou pelo accionista privado depois da privatização, ou pelo accionista estado no âmbito da recapitalização pública da TAP.

(2)Ver post publicado em 2 de Agosto de 2011: Sobre a racionalidade, utilidade e modalidade da privatização da ANA – Aeroportos e Navegação Aérea SA (aqui).

(3)Na ausência de post específico sobre esta regulação, o leitor mais interessado pode percorrer posts sobre privatização da ANA e gestão de slots em aeroportos congestionados (aqui).

(4)Ver o detalhe no post Privatização da ANA (2): Quinze Anos de Privatização e Dois Para Vender (aqui).

(5)Revista E do Expresso de 28 de Fevereiro de 2015.

(6)Sobre as declarações da comissária, ver o Anexo 1 e Nota (11). O que designamos por orientações da União Europeia sobre o auxílio do estado à TAP está formalizado em regras compatíveis com o Mercado Interno e que constam dos seguintes documentos:

-Comunicação da Comissão, Orientações comunitárias relativas aos auxílios estatais de emergência e à reestruturação a empresas em dificuldades (2004/C 244/02) (aqui).

-“State aid for airline restructuring: does it give you wings?” de 9 de Julho de 2014 (aqui).

-Comunicação da Comissão, Orientações relativas aos auxílios estatais de emergência e à reestruturação concedidos a empresas não financeiras em dificuldade (2014/C 249/01) (aqui).

-Competition policy brief, “State aid for airline restructuring: does it give you wings?” de 9 de Julho de 2014 (aqui).

Sobre o precedente de 1994, ver

-Decisão da Comissão, de 6 de Julho de 1994, relativa ao aumento de capital, garantias de crédito e isenção fiscal existente em favor da TAP (aqui).

(7)Ver ponto 2.1 e post sobre Introdução à conectividade dos aeroportos de Portugal (aqui).

(8)Ver post ‘Portela 2012 – Imparcialidade, Transparência e Não Descriminação na Atribuição de Slots’ (aqui).

(9)Aconselhamos a leitura do folheto já refrido na Nota (6): Competition policy brief, “State aid for airline restructuring: does it give you wings?” de 9 de Julho de 2014 (aqui).

(10)Ver comunicados de imprensa da decisão da Comissão sobre a Cyprus Airways em 1 de Janeiro de 2015 (aqui) e LOT em 29 de Julho de 2014 (aqui), a partir dos quais se faz download to texto completo.

(11)A politica da União Europeia sobre auxilio do estado a empresas e, em particular a companhias aéreas, tem dezenas de anos, está formalizada em vários documentos e divulgada em folheto. Sobre a Comissária e entre outros, ver o Expresso: ““Bruxelas diz que injetar dinheiros públicos em companhias aéreas é "questão delicada”” (aqui).

(12)Segundo o jornal, o ministro ‘disponibilizou-se para entregar aos deputados uma cópia do documento que a Comissão Europeia publicou em Julho sobre as ajudas de Estado ao sector da aviação’, documento que desmente a sua afirmação.

(13)Sobre Madeira e Açores, ver Decreto-Lei n.º 66/2008, de 9 de Abril (aqui) e Portaria n.º 316-A/2008 de 23 de Abril (aqui) e Decreto-Lei n.º 41/2015 de 24 de Março (aqui).