Importância dos mercados emissores da Europa para o Turismo em Portugal


O presente post é uma espécie de teaser à série de três posts sobreBalança de Pagamentos – o admirável crescimento da receita de viagens e turismo’, que publicaremos a 13 de Maio.

O leitor deve estar informado sobre os Princípios Gerais do blogue.

A versão PDF do presente post está disponível aqui.

 

*Hóspedes, dormidas e receita viagens/turismo – quota da Europa
É consensual que os residentes na Europa formam o essencial da procura pela oferta de turismo de Portugal. Reconhecido isto,

-interrogamo-nos sobre a evolução da quota da Europa no total da procura pelo turismo em Portugal, e

-numa primeira e muito rudimentar observação, consideramos a quota da Europa no total de hospedes e dormidas da industria da hotelaria e no total de receita de viagens e turismo.

O gráfico mostra que, independentemente de variações anteriores a 2008, a crise de 2008/2009 parece estar na origem de um padrão comum na evolução dos três indicadores:

-a partir de 2009, a Europa perde quota nos três indicadores: hóspedes, dormidas e receita de viagens e turismo.

Quota da Europa em hóspedes, dormidas e receita de viagens e turismo
(percentagem)  

 
Fonte: Elaboração própria com base em INE – Estatísticas de Turismo e Banco de Portugal – BPStat

O gráfico mostra ainda que

-a quota das dormidas é superior à dos hóspedes e diminui menos do que esta, o que indicia estadias mais longas pelos residentes na Europa.    

*Nota sobre a receita de viagens e turismo
Já dispomos do valor de 2014 na quota na receita de viagens e turismo e inverte a tendência (79,3%). Este indicador integra também a despesa de hóspedes no alojamento não classificado. Sabemos que

-a procura de emigrantes dirige-se muito para residência secundária por conta própria e alojamento gratuito por familiares e amigos,

-a de estrangeiros não residentes ocupa muita residência secundária por conta própria ou arrendada no vacation rental market, que a politica de turismo insiste em ignorar.

Quando dispusermos dos números de hóspedes e dormidas (pelas Estatísticas de Turismo que o INE divulga pelo Verão), veremos se a tendência da evolução destas quotas também muda.

*Que fazer?
As tendências registadas não podem ser ignoradas pela política de turismo, que deve intervir de maneira profissional e em ligação com o ‘produto’ e ‘distribuição’.

Sobre esta desejada intervenção, levantamos algumas questões:

-não cair numa de ‘a Europa acabou’, mas sim interrogar-nos sobre a que mercados emissores e onde nesses mercados nos devemos focar,

-no ‘fora da Europa’, preferir os valores seguros onde Portugal tem market awareness real e positivo (EUA, por exemplo),

-não ver tudo pela óptica da hotelaria (casos de Angola e China, com turismo residencial), 

-no caso da China, trabalhar com a distribuição e nada fazer sem a distribuição, utilizar ligações aéreas existentes (que tal a Finnair?) e não esperar pela ligação directa com a TAP, excelente quando e se acontecer.

 

A Bem da Nação

Lisboa 10 de Abril de 2015

Sérgio Palma Brito

Receita e despesa de viagens e turismo, sim! Balança turística, não!


Quando falamos de têxtil, calçado, agricultura ou vinho, falamos do valor das exportações e do preço à exportação. É raro que na mesma ocasião se fale de importações de têxtil, calçado ou vinho e cada vez se fala menos da ‘balança alimentar’ por já não ser o problema que foi.

Hoje não é isto que nos preocupa, mas começamos por lembrar que a ‘receita de viagens e turismo’ é parte de realidade económica mais vasta: a da ‘receita de turismo na balança de pagamentos’ (aqui).

O que nos ocupa é algo de aparentemente anódino:  

-quando se fala de turismo, é demasiado frequente ouvir falar de ‘balança turística’, resultado da subtracção entre receita e despesa de viagens e turismo.

Qual é a importância? Simples:

-falar de ‘receita’ é falar de exportação de serviços de viagens e turismo e pôr o acento na economia macro e micro,

-falar de ‘balança turística’ é ignorar a economia e insistir em ver o turismo à luz ‘do sector’, uma realidade ensimesmada e arcaica.    

Em 2014 temos:

-a economia do turismo exporta €10,4 mil milhões de serviços de viagens e turismo, em deslocações a Portugal por residentes no estrangeiro.

-Portugal importa €3,1 mil milhões de euros de serviços de viagens e turismo, em deslocações ao estrangeiro por residentes em Portugal.

O turismo interno (residentes em Portugal em deslocação turística no País) pode representar alguma substituição de importações e deve ser a segunda grande prioridade da política de turismo.

Face a estes números,

-a prioridade da política de turismo consiste em facilitar e fomentar a competitividade de empresas e estabelecimentos que estão na base das deslocações a Portugal por residentes no estrangeiro,

-a política de turismo é avaliada pela sua capacidade em contribuir para a exportação de serviços de viagens e turismo.

Não é por acaso que o Banco de Portugal contabiliza débito e crédito (receita e despesa) de viagens e turismo. Talvez por inércia, o INE insiste em publicar a Balança Turística, apesar das International Recommendations for Tourism Statistics não a mencionarem, e alimenta o arcaísmo.  

Ainda recentemente o espírito aberto e sem teias de aranha do meu camarada Adolfo Mesquita Nunes caiu na ratoeira da ‘balança turística’. Estou certo que recupera.

Passemos a alguma quantificação.

O gráfico 1 apresenta a percentagem da despesa de viagens e turismo na receita e quantifica de maneira mais explícita a evolução que o gráfico 2 ilustra. Esta percentagem

-diminui entre 1996/2004, aumenta até 2010 e diminui de maneira sustentada desde então.

Coincidência ou não, esta evolução surpreendeu-nos (nunca tínhamos feito esta quantificação) por coincidir com uma visão política do ‘despesismo’.

Gráfico 1 – Percentagem da despesa de viagens e turismo na receita
(percentagem)

 
Fonte: Elaboração própria com base em BPStat

O gráfico 2 ilustra a evolução da receita e despesa de viagens e turismo na balança de pagamentos. Constatamos que

-a receita é mais importante do que a receita e cresce a ritmo mais rápido,

-a ‘balança turística’ é a diferença entre duas actividades largamente independentes.

Gráfico 2 – Receita e despesa de viagens e turismo
(€milhões)

 
Fonte: Elaboração própria com base em BPStat

 

A Bem da Nação

Lisboa 8 de Abril de 2015

Sérgio Palma Brito

Balança de Pagamentos – o admirável crescimento da receita de viagens e turismo (I)


Introdução

A evolução da receita de viagens e turismo da balança de pagamentos entre 1996/2014 ilustra o fio condutor e contextualiza a nossa observação (gráfico 1) do surto de forte crescimento iniciado em 2009 e reforçado entre 2013/14.

Com efeito,

-entre 2009/14 a receita aumenta €3,5 mil milhões (50,5%), mas

-entre 2013/14 o aumento da receita é de €1,1 mil milhões (12,4%) e representa por si só 32% dos €3.5 mil milhões de aumento entre 2009/14.

Estes dois períodos ocorrem depois de crescimento sustentado entre 1996 e 2007, seguido de estabilidade em 2008 e queda em 2009 por efeito directo da crise de 2008/2009.

Gráfico 1 – Receita e despesa de viagens e turismo (1996/2014)
(€mil milhões)



Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal – BPStat

Nota – O grafismo apenas permite uma casa decimal e implica arredondamentos.

Esta é a justificação

-do foco da nossa observação ser o surto de crescimento da receita de viagens e turismo entre 2009/2014 e sua aceleração entre 2013/2014.

 

Como acontece em outros posts sobre turismo na balança de pagamentos, a nossa observação é condicionada pelas limitações do Blogue (1).

 

*Informação ao leitor
O presente post

- é o segundo de uma série de três (primeiro, segundo, terceiro) que consagramos ao Admirável crescimento da receita de viagens e turismo,

-está disponível versão em PDF (aqui).

O leitor deve estar informado sobre os Princípios Gerais do blogue.

Em Março de 2014 consagramos três posts à observação da Receita de Viagens e Turismo por Mercado Emissor e enquadramos os números de 2013 na evolução entre 2003/2013 (aqui).

 

1.TOP 15 de países na receita de viagens e turismo em 2014

*TOP 15 na receita de viagens e turismo em 2014 e 2013
O gráfico 2 ilustra o TOP 15 dos países na receita de viagens e turismo em 2014 e a ser comparado com o TOP 15 de 2013 (gráfico 3, analisado aqui).

Constatamos alguma estabilidade nos países do TOP 15. Entre 2013/14,

-os quatro principais mercados emissores com receita superior a €1.000 milhões continuam a liderar o ranking,

-no grupo dos mercados com receita superior a €400 milhões a Holanda ocupa o lugar do Brasil,

-no grupo dos Mercados emissores com receita superior a €200 milhões, o Brasil substitui a Holanda e a Irlanda ultrapassa a Suíça,

-no grupo dos Mercados emissores com receita superior a €100 milhões, a Noruega dá lugar à Suécia.

Em termos quantitativos também encontramos estabilidade:

-o TOP 15 de 2014 representa 88,8% do total da receita do ano e o TOP 15 de 2013 89,5% do total,

-entre 2013/2014 o TOP 15 cresce 11%% e o total da receita 12,4%.

Gráfico 2 – TOP 15 de mercados emissores em 2014
(€milhões)

 
Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal – BPStat

Gráfico 3 - TOP 15 dos mercados emissores em 2013
(€milhões)

 
Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal – BPStat

*Mercados emissores no crescimento entre 2013/2014
O gráfico 4 ilustra o TOP 15 dos mercados emissores no crescimento entre 2013/2014. Observações:

-cinco mercados têm crescimento superior a €100 milhões: os quatro principais mercados (Reino Unido, França. Espanha, Alemanha) e Angola,

-cinco mercados têm crescimento superior a €30 milhões: Bélgica, Holanda, Irlanda, Moçambique e Suíça.

Gráfico 4 – TOP 15 no crescimento em valor entre 2013/14
(€milhões)

 
Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal – BPStat

O gráfico 5 ilustra o crescimento entre 2013/2014 e em percentagem dos oito mercados emissores mais importantes do TOP 15 anterior.

Gráfico 5 – Mercados com maior crescimento em percentagem  
(percentagem)

 
Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal – BPStat

*Mercados com maior descida em valor entre 2013/14
O gráfico 6 mostra os mercados com maior descida entre 2013/14. Na cauda estão Brasil, Venezuela e EUA, com a recuperação de Brasil e EUA a exigir atenção especial. Depois, temos três países nórdicos: Noruega, Finlândia e Dinamarca e por fim, Japão, Áustria e Canadá.

Gráfico 6 – Mercados emissores com maior descida entre 2013/14
(€milhões)

 
Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal – BPStat

*Estabilidade do TOP 15 de mercados emissores em 2014 e 2003
O gráfico 7 ilustra o TOP 15 dos países na receita de viagens e turismo em 2003.

Gráfico 7 – Receita de viagens turismo – TOP 15 em 2003
(€milhões)

 
Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal – BPStat

A observação deste gráfico e do TOP 15 de 2014 (gráfico 2) identifica tripla estabilidade

-dos países do TOP 15: em 2014 e em relação a 2013 apenas o Luxemburgo substitui o Japão,

-do crescimento entre os valores em 2003 e 2014 da receita total do TOP 15 (cresce 75%) e da receita total do País (cresce 78%),

-da parte dos países do TOP 15 no total da receita: de 90% em 2003 a 89% em 2014.

 

2.Mercados emissores no crescimento da receita entre 2009/14

*TOP 15 dos mercados emissores no crescimento entre 2009/14
O surto de crescimento da receita de viagens e turismo entre 2009/14 levanta uma questão prévia sobre se também resulta de alteração na metodologia da estimativa – retomamos esta questão no terceiro post.

O gráfico 8 ilustra o TOP 15 dos mercados emissores que geram mais crescimento da receita entre 2009/14 e 2013/2014.

Gráfico 8 – TOP 15 dos países no crescimento entre 2009/2014
(€mil milhões)

 
Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal – BPStat

A receita cresce €3.4861 milhões entre 2009/2014 (50,5%) e €1.144 milhões entre 2013/14 (12,4%). O crescimento entre 2013/2014 reforça o surto de crescimento iniciado em 2009 e passamos da sustentabilidade do surto para sabermos se o ritmo de 2013/2014 se mantém.

*crescimento entre 2013/14 no crescimento entre 2009/14
O gráfico 9 ilustra, a percentagem do crescimento 2013/14 no crescimento entre 2009/14 e o gráfico 10 a parte em valor deste crescimento.

Gráfico 9 – Percentagem do crescimento 2013/14 no de 2009/14
(percentagem)

 
Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal – BPStat

Gráfico 10 – Valor do crescimento 2013/14 no de 2009/14
(€milhões)

 
Fonte: Elaboração própria com base em Banco de Portugal – BPStat

Ficamos com uma primeira ideia do grupo de mercados emissores que combinam crescimento em percentagem e em valor e que mais podem contribuir para o crescimento da receita de viagens e turismo. Parece estranho, mas dois dos países que conhecem as maiores descidas entre 2013/14 (Brasil e EUA) devem também figurar neste grupo.

 

A Bem da Nação

Lisboa 13 de Abril de 2015

Sérgio Palma Brito

 

Notas

(1)Actualizamos opiniões já expressas em 2014 sobre o mérito (algum há de ter)e limitações do Blogue no caso particular da receita de turismo na balança de pagamentos:

-os textos publicados situam-se ao mero nível descritivo, e daí utilizarmos ‘observação’ e não ‘análise’,

-a nossa falha reside mais na falta de ‘informação do terreno’ do que na não utilização de modelos estatísticos sofisticados sobre quantificação limitada, que também são necessários,

-a inexplicável ausência e/ou divulgação de estudos profissionais sobre um assunto cuja importância é inegável.

Resultados da indústria da hotelaria – propaganda e realidade


As estatísticas da indústria da hotelaria referente a 2014 são tema de algum debate que representa progressos em relação às de 2013:

-o ministério da Economia não volta a organizar uma conferência de imprensa tonta e o secretário de estado do Turismo regista que não falou do “melhor ano turístico de sempre” – sugerimos rever o post Resultados do Turismo em 2013 – Politica e Realidade aqui. 

O presente post é minimalista porque apenas

-utiliza alguns dos números do Destaque do INE referente a 2014,

-mostra como a propaganda sobre indicadores operacionais razoáveis (hóspedes, dormidas, proveitos) não pode escamotear fraquezas estruturais da industria da hotelaria,

 

*Informação ao leitor

O presente post tem versão em PDF disponível aqui.

O leitor deve estar informado sobre os Princípios Gerais do blogue.

 

1.Hóspedes, dormidas e proveitos

Em 1970 e estudante num seminário de Macroeconomia sobre Planificação da economia e turismo nos países do Mediterrâneo, utilizámos o número de hóspedes, dormidas e proveitos, mas tivemos de os analisar com os índices de Laspeyres Paasche. No Portugal de 2015 continuamos reduzidos aos mesmos indicadores e … sem os índices – algo está errado.

*Hóspedes
Na ocorrência, o número de hóspedes interessa à relação entre procura turística e indústria do transporte aéreo, mas tem duas características a não ignorar:

-é um indicador amigo da propaganda porque permite publicitar crescimento de 24,8% entre 2009/2014 e de 16,1% entre 2007/2014 (2007 é o penúltimo/último ano ‘limpo de vestígios de crise’),

-não deve ser utilizado para avaliar o sucesso da indústria da hotelaria e ainda menos o do turismo em Portugal ou regiões.

Gráfico 1 – Número de hóspedes da indústria da hotelaria
(milhões)

 

Fonte: Elaboração própria com base em INE – Actividade Turística, Dezembro de 2014

*Dormidas
O número de dormidas (gráfico 2) também é amigo da propaganda:

-permite publicitar crescimento de 26% entre 2009/2014 e de 16% entre 2007/2014, mas tem mais substância económica do que o número de hóspedes.

Gráfico 2 – Número de dormidas da indústria da hotelaria
(milhões)

 
Fonte: Elaboração própria com base em INE – Actividade Turística, Dezembro de 2014

*Proveitos totais
O indicador de proveitos totais tem dificultado a tarefa da propaganda:

-entre 2009/2013 cresce apenas 2,2%, mas o valor de 2013 é praticamente idêntico ao de 2007 e a preços correntes,

-já entre 2009/ 2014 cresce 11,1% e é cerca de 10% superior ao de 2007.

Este crescimento é a preços correntes o que diminui uma performance já de si modesta.

Gráfico 3 – Proveitos totais da indústria da hotelaria
(€mil milhões)

 
Fonte: Elaboração própria com base em INE – Actividade Turística, Dezembro de 2014

 

2.Proveito total e de aposento médio por dormida

O ponto 2 já dá um arzinho muito ligeiro da análise que é preciso fazer para ultrapassar o nível rudimentar de ‘hóspedes, dormidas, proveitos’. É um arzinho muito ligeiro mas chega para questionar o optimismo da propaganda referida e antevermos os problemas da indústria da hotelaria.

*Proveito de aposento e de não aposento
O INE detalha os proveitos totais da indústria da hotelaria por proveitos de aposento e não aposento. O gráfico 4 ilustra a evolução 2005/2014 dos proveitos de aposento e não aposento na indústria e permite observar

-algum crescimento do proveito de aposento e estabilidade no proveito e não aposento.

Gráfico 4 – Proveitos de aposento e não aposento na hotelaria
(€mil milhões)

 
Fonte: Elaboração própria com base em INE – Actividade Turística, Dezembro de 2014

O gráfico 5 quantifica a diferença entre ‘algum crescimento‘ e ‘estabilidade’ e ilustra a evolução entre 2005/2014 da percentagem do proveito de alojamento no proveito total.

Gráfico 5 – Percentagem proveito de aposento nos proveitos totais
(%)

 
Fonte: Elaboração própria com base em INE – Actividade Turística, Dezembro de 2014

Constatamos que

-a percentagem cresce de maneira sustentada entre 2006 e 2014.

*Proveito de aposento e total médio por dormida
A evolução ilustrada pelos gráficos 4 e 5 obriga a

-considerar o proveito de aposento médio por dormida (gráfico 6), e não o proveito total médio por dormida (gráfico 7), como acontece frequentemente e … já nos aconteceu a nós.

Gráfico 6 – Proveito de aposento médio por dormida
(€)

 
Fonte: Elaboração própria com base em INE – Actividade Turística, Dezembro de 2014

Gráfico 7 – Proveito total médio por dormida
(€)

 
Fonte: Elaboração própria com base em INE – Actividade Turística, Dezembro de 2014

 
Constatamos que o proveito médio por dormida

-apresenta valores baixos, explicáveis pela combinação de procura insuficiente e muito sazonal em mais casos do que seria desejável, mais o efeito se possível sub estimação pelo inquérito do INE,

-o crescimento entre 2009/2014 (da queda pós crise à actualidade) é de 3,4% a preços correntes em cinco anos, o que indicia algo de errado e estrutural. 

 

3.Nota final

*Insuficiência do debate
O debate sobre a indústria da hotelaria sofre de duas insuficiências

-apenas dispomos de indicadores operacionais do inquérito que o INE realiza desde a década de 1960 e pouco sabemos de concreto sobre a rentabilidade e viabilidade económica/financeira de estabelecimentos e empresas,

-o conhecimento da indústria da hotelaria, mais do que assentar nestes indicadores macro e insuficientes, exige que governo e associações conjuguem esforços para realizar uma ‘análise estratégica´ segundo a proposta de Micael Porter (ou outra).

Sem esta análise ou outra equivalente, a intervenção pública na indústria da hotelaria será sempre casuística e susceptível de efeitos perversos (obter resultado oposto ao desejado).

*Realidade a não ignorar
Dito isto, há que enfrentar a realidade:

-por muito bons que os indicadores operacionais sejam não sustentam afirmações sobre o sucesso da hotelaria e, ainda menos, do turismo em Portugal,

-o Proveito de alojamento e total médio por dormida mostram que a indústria da hotelaria não está de boa saúde

-o propagandear números deve dar lugar a atitude proactiva que conduza à ‘análise estratégica’ que apoie a intervenção empresarial e politica que a realidade exige.

Quanto mais tarde enfrentarmos a realidade pior será.

*Realidade e propaganda
Em resposta a quem justifica a propaganda dominante com a necessidade de boas notícias que alimentem a nossa auto-estima ou de posicionar ‘o turismo’, lembramos:

-nenhuma auto-estima aumenta com números agradáveis mas que escondem fraquezas estruturais,

-nenhuma indústria é competitiva e se posiciona na opinião pública e sistema politico/administrativo sem estatísticas fiáveis e conhecimento do negócio.

*Proveitos da hotelaria e receita de viagens e turismo
Por fim, insistir em tema já abordado no blogue. Os números da industria da hotelaria não podem continuar a ‘capturar’ os da receita de viagens e turismo porque estes

-integram o contributo de cerca de 43% de turistas não residentes e que escolhem o alojamento não classificado,

-crescem 50,5% entre 2009/2014 enquanto os proveitos totais da hotelaria crescem 11,1% - a comparação é indirecta mas iniludível,

-exigem uma intervenção politica que ultrapassa os limites da indústria da hotelaria.

Sobre este tema, ver vários post e o mais recente:

-Balança de Pagamentos – o admirável crescimento da receita de viagens e turismo (aqui).

 

A Bem da Nação

Lisboa 7 de Abril de 2015

Sérgio Palma Brito

Taxa municipal turística de Lisboa – estratégia, profissionalismo e entropia (1)


*Síntese

Uma estratégia consensualizada e implementada com profissionalismo é factor importante do sucesso do turismo em Lisboa. Esgotadas outras fontes de financiamento, a taxa municipal turística é indispensável para financiar investimentos que são instrumento desta estratégia. Investimentos igualmente consensualizados e decisivos para a continuidade do sucesso.

*Anúncio da taxa e críticas à autarquia e seu presidente
O anúncio da taxa a 10 de Novembro de 2014 dá origem a fortes críticas à autarquia e seu presidente, críticas com origem na política, associações e opinião pública. Estas críticas têm uma base comum que as enfraquece: a taxa municipal turística de Lisboa é diferente de outras taxas turísticas por

-ser contributo decisivo de cadeia de valor que é parte da estratégia do sucesso do turismo na cidade e não poder se avaliada fora desta realidade,

-não ser mera contribuição para o deficit corrente de uma autarquia, sob pretexto de compensar custos gerados pelos turistas, esquecendo a contribuição destes para o concelho onde consomem,

-pelo seu valor e capacidade de atracção turística da cidade e do país, não comprometer o crescimento da procura.

O governo, pelo Ministro da Economia, comete três erros a exigir crítica

-ignora o contexto, substância e utilização da receita da taxa, posição inaceitável quando a lei estipula que uma das atribuições do Ministério é “Fomentar o turismo, promovendo a qualidade, a diferenciação, a diversificação, e a autenticidade do serviço e do produto” (2),

-utiliza o protagonismo do turismo como plataforma da política e integra a iniciativa do município na guerrilha politico partidária contra o presidente da câmara por este ser o leader do partido de alternativa democrática ao governo,

-intervém no posicionamento de uma associação empresarial, ‘zelando’ pela “consistência da posição dos hoteleiros”.

As associações empresariais são “frontalmente contra qualquer aumento da carga fiscal sobre a hotelaria”, não reconhecendo a diferença da taxa municipal turística e Lisboa e a sua contribuição para a sustentabilidade do sucesso do turismo na cidade.

O anúncio da taxa leva o presidente da câmara de Cascais a falar de “algo que só existia no tempo medieval”. No Porto, Rui Moreira só criará “uma coisa dessas” depois de “estudo macroeconómico”, e precisa de “prudência infinita”.

Passado o pico inicial de críticas, surge o agitar do inevitável fracasso da taxa por dificuldades operacionais na sua operacionalização.

*Protocolo entre CML/ANA e o serôdio dinamismo autárquico
A partir de 30 de Março de 2015, o anúncio do protocolo entre a Câmara Municipal de Lisboa e a ANA espevita a criatividade de presidentes de várias câmaras.  

No Porto, Rui Moreira não precisa de estudo macroeconómico nem infinita prudência para pedir à ANA uma cooperação “equivalente à que ora acabou de ser anunciada relativamente ao município de Lisboa”, esquecendo a diferença da taxa de Lisboa e o não poder criar uma taxa em aeroporto fora do concelho do Porto.

Em Cascais, Carlos Carreiras afirma “aguardar serenamente que a ANA nos diga quanto é que vamos beneficiar deste subsídio que é dado a Lisboa”.

Outros presidentes são mais proactivos. O presidente da Maia "está a estudar juntamente com Matosinhos e com Vila do Conde para colocar uma taxa aeroportuária” – o aeroporto do Porto ocupa terrenos nestes três concelhos.

O presidente de Guimarães admite juntar-se a outras autarquias que queiram o mesmo tratamento que a de Lisboa por parte da ANA.

O presidente de Faro pensa no Porto quando fala da ANA poder “ usar da mesma generosidade, em condições de equidade, em relação aos outros dois concelhos que são sede de aeroportos internacionais – ignora que o concelho do Porto não tem aeroporto.

Last but not the least, os deputados do PSD eleitos por Faro “acusam a ANA de pagar a taxa aeroportuária em Lisboa com dinheiro cobrado aos turistas de Faro”.

Nesta galeria de serôdio dinamismo autárquco, os presidentes de Câmara esquecem que a ANA é privada, o que exclui pedidos baseados em argumento politico e exige propostas profissionais que justifiquem o contributo da gestora aeroportuária para o orçamento municipal.

 

*Informação ao leitor

O presente post tem versão PDF disponível (aqui).
O leitor deve estar informado sobre os Princípios Gerais do blogue.

 

1.Explicação, justificação e implementação das taxas turísticas

*Surto de crescimento da procura por Lisboa
A procura turística por Lisboa conhece um surto de crescimento a partir da primeira metade da década de 2000.

A partir da segunda metade da década é visível o investimento em reabilitação urbana gerado directamente por esta procura. Surgem hostels, apartamentos dispersos e hotéis no centro histórico até aí abandonado e em ruína.

Entre 1983 e 2013, o número de passageiros em tráfego internacional desembarcados no aeroporto de Lisboa cresce e o ritmo de crescimento acelera. Entre 2003 e 2013, o tempo do mais recente surto na procura, o número de turistas não residentes que se aloja em Lisboa cresce em mais de dois milhões.

*Zona histórica e frente ribeirinha
Sem museu, monumento ou atracção que a afirmem como destino turístico, Lisboa diferencia-se pela extensa faixa de urbe histórica que se estende sobre colinas e ao longo da frente ribeirinha do Tejo. Nos doze quilómetros que vão de Belém ao Beato

-o espaço entre o Cais do Sodré e Santa Apolónia é determinante para a atracção e competitividade do destino.

Depois de dezenas de anos de abandono e ruína da urbe histórica e degradação de frente ribeirinha, algo muda. Com ‘verbas do jogo’ e outras, a Câmara Municipal e a Associação Turismo de Lisboa iniciam a reabilitação urbana que vai do Cais do Sodré a Santa Apolónia ao

-recuperar o Terreiro do Paço e abrir à utilização turística a área do Páteo da Galé, a ala e torreão a nascente, um sonho de dezenas de anos,

-fazer da degradada avenida da Ribeira das Naus uma zona qualificada de lazer e assim.

Este esforço não é só destinado a turistas. Os lisboetas são os primeiros a dele beneficiar e ganha a nossa auto-estima.

*Decisão sobre a taxa municipal turística
A Camara Municipal reconhece a importância de continuar a investir na urbe histórica e frente ribeirinha e na promoção de novo centro de congressos que posicione a cidade no mercado da meet industry. A insuficiência de recursos próprios, o definhamento das ‘verbas do jogo’ e o não acesso a fundos do Portugal 2020 obrigam a Câmara a optar pela criação de uma taxa municipal turística que compatibiliza receita e competitividade:

-soluções que não sejam demasiado onerosas para o turista, preservando a competitividade relativa de Lisboa no contexto internacional de destinos turísticos.” (3).

Depois de cuidada preparação, que não está a ser devidamente reconhecida, a Câmara Municipal decide

-criar a taxa municipal turística sobre hóspedes do alojamento turístico e passageiros desembarcados no aeroporto de Lisboa e terminal de cruzeiros, que sejam não residentes em Portugal.

*Anúncio da taxa municipal turística
A 10 de Novembro de 2014, o Presidente da Câmara anuncia a taxa municipal turística (aqui):

-“Não é uma receita municipal. É uma receita consignada ao Fundo de Desenvolvimento Turístico”, […]

-a gestão desse novo fundo “não será feita exclusivamente pela câmara”, mas sim “em processo de co-decisão com os parceiros” do sector do turismo, chamados a pronunciar-se sobre os investimentos que “reconhecem como mais-valias” para a sua área de actividade;  

-os investimentos possíveis constam do Plano Estratégico para o Turismo na Região de Lisboa 2015-2019: espaço museológico dedicado às descobertas (na Ribeira das Naus), “mobilidades suaves” para o Castelo de São Jorge, “projecto de sinalética turística e de percursos turísticos” e “continuação da requalificação da frente ribeirinha”.

-particular relevo à criação de um novo centro de congressos [este projecto seria abandonado face à oposição da AHP], e à requalificação da Estação Sul e Sueste, onde a Associação de Turismo de Lisboa pretende concentrar a “actividade marítimo-turística”,

-a taxa municipal turística é a solução possível para fazer face àqueles investimentos, “fundamentais para continuar a alimentar a atractividade da cidade”, uma vez que “o próximo quadro comunitário de apoio não vai financiar estes projectos”.

-a taxa existe “em todas as capitais europeias e em muitas cidades europeias” e é medida “temporária”, que vigorará até 2019 e será reavaliada nessa altura.

*Formalização da taxa municipal turística
Um regulamento municipal publicado a 30 de Dezembro de 2014 formaliza a taxa municipal turística instituída nas modalidades de dormida e de chegada por via aérea e de chegada por via marítima (4). Citamos o essencial das disposições sobre liquidação e arrecadação

-da taxa de dormida compete às pessoas singulares ou colectivas que explorem os empreendimentos turísticos e os estabelecimentos de alojamento local, que devem fazer reflectir, de forma autónoma, na factura o valor correspondente a esta taxa.

-da taxa de chegada por via aérea e da taxa de chegada por via marítima compete, respectivamente à concessionária do serviço público aeroportuário de apoio à aviação civil no aeroporto internacional de Lisboa e às entidades incumbidas da exploração dos terminais de navios de cruzeiro.

A operacionalização destes procedimentos poderá ser objecto de protocolo a celebrar entre a Município de Lisboa e as entidades responsáveis. O Município de Lisboa pode delegar noutra entidade a gestão das operações de liquidação e arrecadação da taxa.

*Avaliação da decisão da Câmara Municipal de Lisboa
A avaliação da decisão da Câmara Municipal deve rer em conta o contexto, substância e utilização da receita da taxa turística municipal:

-a receita da taxa só pode financiar investimentos cruciais para o desenvolvimento do turismo na cidade e não o deficit corrente municipal,

-os investimentos são consensualizados com as partes interessadas e o abandono do projecto de novo centro de congressos isto prova,

-a criação da taxa insere-se em estratégia de desenvolvimento do turismo, consensualizada e implementada com profissionalismo.

A liberdade de pensamento ou a defesa imediata de interesses políticos ou sectoriais permite a qualquer um ser ‘contra todas as taxas’. A responsabilidade de fomentar a competitividade de um destino pode exigir a criação de uma taxa municipal turística. A decisão da Câmara Municipal de Lisboa

-concilia o criar mais um encargo aos custos da oferta com o manter a capacidade de atracção turística de Lisboa,

-não é transferível para outra autarquia sem ter em conta o já referido contexto, substância e utilização da receita da taxa.

 

2.Críticas à taxa municipal turística e dificuldades à implementação

2.1.Críticas à taxa municipal turística

*Críticas do Governo
A 7 de Novembro de 2014 e em antecipação ao anúncio da taxa (a 10 de Novembro) “O ministro da Economia, Pires de Lima, desafiou no parlamento o presidente da Câmara de Lisboa e candidato a primeiro-ministro, António Costa, a "resistir à tentação" de criar uma taxa de dormida para turistas em Lisboa» (aqui). Num estilo que ficaria bem em récita de finalistas, o ministro afirma:

-"Só espero que, depois de termos resistido à criação de taxas, por exemplo na área das dormidas, a Administração Local, nomeadamente aqui na zona de Lisboa, liderada pelo autarca que também é candidato a primeiro-ministro, António Costa, quando apresentar o orçamento da Câmara de Lisboa para 2015 tenha o mesmo poder de resistir à tentação que demonstrou o Governo".

Está dado o mote para o governo, pelo ministro da Economia, enveredar por dois caminhos que nos merecem a maior crítica:

-o ministro da Economia a quem compete “Fomentar o turismo, promovendo a qualidade, a diferenciação, a diversificação, e a autenticidade do serviço e do produto” (5), ignora o contexto, substância e utilização da receita da taxa turística municipal e parece ter uma estranha ideia do interesse do turismo na cidade e no País

-integra uma iniciativa importante do município de Lisboa na guerrilha politico partidária contra o presidente da câmara e leader do principal partido da oposição – a exemplo de tantos outros utiliza o turismo como plataforma da politica.

A 11 de Novembro, o Vice Primeiro-Ministro e coordenador da área económica afirma (aqui):

-"Eu respeito a autonomia do poder local, mas, como tenho responsabilidades na área da coordenação das políticas económicas, acho que devo deixar um alerta: não matem a galinha dos ovos de ouro fazendo, ao mesmo tempo, taxas para dormir, taxas para aterrar e taxas para desembarcar" […] o sector "hoje tem conceitos - como o low cost e os hostels - onde o preço é muito relevante".

Estas críticas vêm de governantes obrigados por lei a “Fomentar et.” e levantam duas perguntas:

-estão mesmo convencidos que combater a taxa municipal turística de Lisboa é a melhor maneira de “Fomentar etc.” o turismo na capital, ou

-não estarão a violar a lei, e o bom senso, quando utilizam a taxa apenas como instrumento na luta politico partidária conta o leader da oposição que ameaça ganhar as eleições?

*Associação de Hotelaria de Portugal e governo – unidade na acção?
Em post atempadamente publicado (Do Centro de Congressos que falece à cidade de Lisboa – contexto da sua promoção aqui) descrevemos a estranha unidade de acção entre a AHP e o governo na oposição à taxa municipal turística de Lisboa. Aqui retomamos o essencial.

Entre Outubro e Novembro de 2014 Câmara Municipal e AHP negoceiam a taxa. Segundo o Expresso (6) “fonte governamental” questiona esta posição da AHP:

-“Como é possível que alguém que processou a Câmara de Aveiro quando lançou a taxa turística, agora aceitasse esta taxa como inevitável, só porque era António Costa, apoiado apenas por dois ou três hoteleiros?”.

O semanário informa como “Pires de Lima mobilizou os hotéis contra Costa” durante os dias que antecedem a reunião do Conselho Geral da AHP:

-“Esta semana circulavam rumores, em meios ligados ao turismo, sobre pressões que teriam sido exercidas pelo Ministro da Economia sobre os hoteleiros, no sentido de os alinhar contra a iniciativa da CML”.

O Expresso cita o Ministro:

-“Não fiz pressão absolutamente nenhuma” […] “num certo sentido, zelei pela consistência da posição dos hoteleiros, que sempre foram contra estas taxas e não viam necessidade de um novo centro de congressos em Lisboa”,

-“Limitei-me a alertar algumas pessoas que fazem parte da AHP para o que se estava a passar, e elas depois tomaram as decisões que tomaram”.

Zela quem pode, é zelado quem deve. No fim da tarde de 10 de Novembro, o presidente da AHP informa que o Conselho Geral da associação se manifesta

-"frontalmente contra qualquer aumento da carga fiscal sobre a hotelaria, independentemente da natureza e nome que venha a revestir, bem como de quaisquer taxas que penalizem a actividade turística" (aqui). 

Em quase quarenta anos de turismo em Portugal, assistimos a muita intervenção excessiva e abusiva de Governo e Administração na actividade associativa e junto de empresários. Nunca vimos este assumir de uma intervenção que diz muito sobre a relação entre política e administração de turismo e iniciativa privada.

*Outros interesses empresariais ou sectoriais
A 11 de Novembro de 2014, o Público regista várias críticas (aqui). Segundo o secretário-geral AHRESP, José Manuel Esteves  

-“Lisboa não tem condições não só legais mas na sua oferta de estar a aplicar estas taxas que, além de inexequíveis, têm legalidade muito duvidosa".

A Confederação do Turismo considera que "se mantêm válidos os argumentos já anteriormente invocados por si e pelos agentes privados do sector do turismo, quando outros municípios ainda que, com outra fundamentação, pretenderam igualmente criar uma taxa municipal sobre o alojamento turístico".

Segundo o Publico:

-“ Também as associações de Dinamização da Baixa Pombalina e de Valorização do Chiado consideram que a taxa vai retirar competitividade e penalizar a cidade”.

No mesmo dia, o Publico publica a posição da CTP, de que destacamos:

-"continua a ser ilusório pensar que serão os turistas a suportar estas taxas. Na verdade, serão os operadores do sector que, em defesa da competitividade do destino, serão obrigados a internalizar esse custo, com prejuízo acrescido da sua margem já tão sacrificada, como bem evidenciou o recente estudo levado a cabo pelo Banco de Portugal" (aqui).

A Associação Nacional de Turismo reúne entidades regionais de turismo e não é de génese empresarial, mas

-“rejeita perentoriamente a aplicação da Taxa Municipal Turística pela Câmara Municipal de Lisboa”.

-recorda que “na maioria dos municípios que aplicam ou aplicaram esta medida, os resultados têm sido muito abaixo do que esperavam, não justificando a sua manutenção” e espera que a autarquia lisboeta “repondere as suas intenções e não avance com esta medida” (aqui).

*Câmaras municipais
Nesta fase apenas registamos duas reacções de presidentes de câmaras municipais. A 11 de Novembro o editorial do Publico refere a posição ponderada de Rui Moreira, presidente da Câmara do Porto:

-“A avançarmos com uma coisa dessas, temos de fazer um estudo macroeconómico e falar com os operadores. É preciso uma prudência infinita” (aqui).

Veremos como Rui Moreira não precisa de “estudo macroeconómico” nem de “paciência infinita” para tentar tirar partido da iniciativa de Lisboa.

O presidente da Câmara de Cascais afirma que a taxa criada pela autarquia de Lisboa é “do tempo medieval” e considera:

-“É inconcebível como um presidente de câmara decide intervir sobre câmaras vizinhas. Isso é algo que só existia no tempo medieval” (aqui).

O presidente é pioneiro em excessos futuros de outros presidentes.

 

2.2.Dificuldades de implementação da taxa municipal turística

Em 11 de Novembro, o Observador publica um texto informativo: “Como vai ser paga a Taxa Turística?” (aqui). Nenhum dos intervenientes que seguem parece ter lido este texto e ainda menos se preocupa com a estratégia de desenvolvimento do turismo em que a taxa se insere. Ultrapassada a fase aguda das críticas, as notícias e opiniões passam ao desgaste da taxa municipal turística pela dificuldade da sua operacionalização.

Com o aproximar da data de aplicação da taxa a passageiros desembarcado não residentes sucedem-se críticas sobre a dificuldade/impossibilidade de fazer os passageiros pagar a taxa.

Em 17 de Dezembro, o director da RENA (Associação Representativa das Companhias Aéreas a operar em Portugal) confirma a impossibilidade das companhias aéreas ajudarem a ANA Vinci na colecta da taxa e conclui:

-“A hipótese que eu vejo como mais provável é a de recuarmos umas décadas e colocarmos o aeroporto de Lisboa ao nível de alguns destinos turísticos e obrigar os passageiros passar por um balcão para liquidar a taxa de um euro” (aqui).

Em 24 de Novembro em entrevista ao Económico, o “Presidente da ANA diz que não tem condições para aplicar taxa turística”. Afirma: Não tenho condições de aplicar aquilo [o regulamento]. Até trouxe o regulamento. E não o consigo aplicar.”. Levanta reais dificuldades operacionais:

-“Porque 70% dos passageiros que atravessam a Portela são do espaço Schengen. Desde a porta do avião até à porta do táxi, ou do carro ou do transporte público, não são interrompidos em momento nenhum. Como é que faço? Ponho um guichet para pagarem um euro? Ponho 50 mil pessoas em bicha durante o dia?”.

-“Teremos de cumprir o que for determinado. Agora, alguém vai assumir as responsabilidades do que vai acontecer num aeroporto que, ao fim do terceiro dia, por ventura, está a fechar porque é inoperacional a cobrança da taxa. Haverá bom senso de se encontrar soluções diferentes.”.

Interrogado sobre se a ANA também podia incorporar essa taxa, responde que não tem essa possibilidade e insiste na crítica à dificuldade de operacionalizar a cobrança (aqui).

Em 4 de Fevereiro de2015, o ministro da Economia volta a esquecer o fomento da economia e insiste na guerrilha político partidária:

 "Vejo milhares de turistas numa fila onde vão pagar a taxinha ao presidente de câmara que se apresenta como primeiro-ministro" (aqui).

A 30 de Março 2015 e com o protocolo já assinado, a Lusa lança duas informações publicadas acriticamente pelo Jornal de Negócios. A primeira é publicada às19:00 e tem título desequilibrado e falso:

-“Taxa turística de Lisboa devia começar em Abril mas ninguém sabe como,”.

Depois, informa:

-a RENA garante que "não serão as companhias aéreas a fazer a cobrança", enquanto a empresa que gere o aeroporto, a Ana opta por não comentar o assunto, a Associação Portuguesa das Agências de Viagem e Turismo admite "não ter conhecimento de que vá ser aplicada já alguma taxa" e, questionada várias vezes, a Câmara de Lisboa não responde (aqui).

A segunda é publicada às 21H28 e tem o título:

-“Taxa turística vai ser paga pela ANA”.

Depois acrescenta:

-o acordo resulta de um protocolo assinado hoje, dois dias antes de entrar em vigor a 1 de Abril, e implica que a Taxa Turística não seja cobrada individualmente a cada turista que chegue à capital através de avião (aqui).

*A substância empresarial da decisão da ANA

Todo este ruído não informa os leitores sobre o essencial:

-quando a ANA exclui o aeroporto de Lisboa do Programa de Incentivos, fá-lo porque a capacidade de atracção turística de Lisboa não exige incentivos, ou fá-lo para pagar a taxa que tem a obrigação legal de colectar?

-independentemente ou não desta exclusão, o acordo entre CML/ANA reconhece ou não que qualificar ‘o produto’ se justifica mais do que aumentar 'rotas, frequências, lugares' via Programa de Incentivos?

 

3.Protocolo entre CML e Ana Vinci – anúncio e reacções

3.1.Assinatura e anúncio do Protocolo

A assinatura do protocolo entre CML e ANA em 30 de Março sobre a taxa turística municipal é um marco na estratégia de desenvolvimento do turismo em Lisboa e do profissionalismo na sua aplicação. Onde todos apenas viam e agitavam dificuldades, o município e a ANA privada chegam a acordo.

Em termos práticos, a ANA Vinci é responsável pela “liquidação e arrecadação da taxa de chegada por via aérea” e "aceita assumir, com carácter excepcional, o pagamento" da taxa até 31 de Dezembro de 2015.

Na conferência de imprensa após a assinatura o vice-presidente Fernando Medina:

-afirma "O que existe entre a ANA e a Câmara é um objectivo comum: ambos procuramos fomentar o turismo na cidade de Lisboa",

-salienta que "a forma mais eficaz" de efectuar a cobrança é "a ANA suportar esta taxa relativamente ao ano de 2015, beneficiando [...] do facto de em Lisboa não haver ainda incentivos às companhias aéreas" (aqui).

*Anúncio do protocolo a 30 de Março
Segundo o comunicado da CML em 30 de Março,

"A ANA obriga-se ainda ao pagamento por conta, até 31 de Dezembro, do montante de três milhões de euros relativos aos meses de Abril a Outubro, havendo lugar ao pagamento do restante montante até ao dia 31 de Janeiro de 2016”.

O valor reverterá inteiramente para o Fundo de Desenvolvimento e Sustentabilidade Turística de Lisboa e terá como objectivo "investimentos estruturantes", como a reabilitação do Cais do Sodré e Campo das Cebolas; a criação de acessibilidades assistidas à Colina do Castelo; e o projecto de instalação de um espaço museológico dedicado às Descobertas.” (aqui). 

No comunicado divulgado a 31 de Março, a ANA esclarece:

-"tendo em vista contribuir para o desenvolvimento da actividade turística no município de Lisboa e o facto do novo Plano de Incentivos de Promoção do Tráfego Aéreo e da Actividade Turística da ANA, que entra em vigor no próximo Verão IATA, se aplicar a todos os aeroportos da rede com excepção do Aeroporto Internacional de Lisboa, a ANA aceita assumir o pagamento da referida taxa de chegada por via aérea referente ao ano de 2015, não sendo o respectivo valor cobrado aos passageiros durante este período" (aqui).

*Ruído mediático sobre a decisão da ANA
O título do Jornal de Negócios sobre o mais de que claro comunicado da ANA não é objectivo:

-ANA deixa de promover Lisboa para pagar taxa turística” (7).

A 31 de Março o subtítulo do Publico é objectivo: “ANA justifica decisão com ausência de incentivos ao turismo”. O texto também é objectivo, mas termina com informação que exige confirmação:

-“Ao que o PÚBLICO apurou, já nesta altura [Março, quando apresentou o novo plano de incentivos] a ANA tinha percebido que o modelo para resolver o impasse das taxas turísticas iria passar pela assunção dos custos por parte da gestora aeroportuária.” (aqui).

Esta objectividade não impede que, a 1 de Abril, o Observador siga o mote do Jornal de Negócios:

-o título: “Para pagar taxa turística, ANA suspende regime de incentivos criado há menos de um mês”, e

-o destaque: “Regime de incentivos às companhias aéreas que operam em Lisboa foi apresentado no início de Março e devia iniciar-se agora, mas já foi posto de lado”,

-o início do texto: “A ANA decidiu suspender o plano de incentivos às companhias aéreas que operam em Lisboa para, assim, poder pagar à câmara municipal o valor da taxa turística criada pela autarquia.” (aqui).  

 

3.2.Reacções ao anúncio

*Governo
A 31 de Março, segundo Adolfo Mesquita Nunes Secretário de Estado do Turismo, o “Governo aplaude mas tem reservas”:

-"A Câmara de Lisboa recuou na decisão de cobrar uma taxa turística aos passageiros desembarcados em Lisboa, dando ouvidos aqueles que no sector do turismo e também no Governo chamaram a atenção para a inoportunidade da taxa e para a impraticabilidade da sua cobrança no aeroporto",

-"O efeito da substituição da taxa turística por uma comparticipação suportada pela ANA só poderá ser avaliado depois de sabermos onde é que a ANA vai deixar de investir para suportar os custos pedidos pela Câmara de Lisboa" (aqui).

A 1 de Abril, de um comunicado do ministério da Economia destacamos dois pontos. Para o gabinete de Pires de Lima,

-"a taxa proposta põe em causa a percepção dos não residentes em relação ao nosso país e prejudica o desempenho de um sector campeão da economia nacional, fundamental para a retoma da economia".

Apesar de não conhecer os detalhes do protocolo estabelecido entre a CML e a ANA, o Ministério assinala que

-"a concessionária privada evita  os constrangimentos que a aplicação da cobrança desta taxa provocaria,  como longas filas de espera e litígio com as companhias aéreas internacionais que têm sido um factor positivo para o crescimento da nossa economia" (aqui).

*Associações empresariais
A 31 de Março, António Portugal presidente da Associação das Companhias Aéreas em Portugal (RENA) declara ao PÚBLICO

“A única coisa que não vamos admitir é que haja repercussões, directas ou indirectas. Não aceitamos que a ANA depois venha tentar compensar esse custo, seja com taxas aeroportuárias, com as rendas [aos lojistas] ou os parques de estacionamento”,

-"é estranho o voluntarismo [da ANA] quando as companhias de aviação andam a pugnar contra as taxas aeroportuárias e a ANA vem dizer que não há disponibilidade financeira” [para as reduzir] (aqui).

Não encontramos registo de outras declarações.

*Presidentes de Câmara
O presidente da Câmara de Cascais afirma

-"Estamos a aguardar serenamente que a ANA nos diga quanto é que vamos beneficiar deste subsídio que é dado a Lisboa, uma vez que Cascais recebe tantos turistas que desembarcam naquele aeroporto",

-a situação é "uma grande trapalhada criada pela Câmara de Lisboa" e reitera que "resta aguardar para perceber o que vai acontecer", mais "Quem se meteu nesta trapalhada, agora que faça para sair dela. Nós só temos é de aguardar" (aqui).

A Câmara municipal do Porto não pode criar uma taxa municipal turística sobre passageiros desembarcados no aeroporto Francisco Sá Carneiro porque este ocupa terrenos dos concelhos de Maia, Matosinhos e Vila do Conde. A 31 de Março e segundo o Público, Rui Moreira pede reunião ao presidente da ANA para que possam “discutir e depois concretizar uma solução de cooperação” entre a empresa e o município, “equivalente à que ora acabou de ser anunciada relativamente ao município de Lisboa” (aqui). A 1 de Abril afirma que não irá pronunciar-se mais sobre a decisão da ANA, enquanto não receber resposta à carta enviada ontem à empresa (aqui).

O presidente da Câmara da Maia

-"está a estudar juntamente com Matosinhos e com Vila do Conde para colocar uma taxa aeroportuária, por cada levantamento ou aterragem de avião" e defende que “os municípios têm todos de ser tratados de igual forma” e anuncia que envia carta à ANA a dar conta dessa reivindicação. (aqui).

O presidente da Câmara de Guimarães admite juntar-se a outras autarquias que queiram o mesmo tratamento que a de Lisboa por parte da ANA:

-"Aceito poder trabalhar essa possibilidade porque isso aumenta a receita e é justo. Estou disponível para fazer essa reivindicação em conjunto com municípios do Norte porque ninguém nos vem dar nada se nós não reivindicarmos" (aqui).

O presidente da Câmara de Faro também pede reunião à ANA e afirma:

-“O que tencionamos é que a ANA possa usar da mesma generosidade, em condições de equidade, em relação aos outros dois concelhos que são sede de aeroportos internacionais. Em Faro teríamos, certamente, bom destino a dar a estas verbas na criação de condições de maior atractividade urbanística e turística. Pensamos que há muitas formas de proceder a este incentivo” (aqui).

Em declarações ao Publico afirmações que justificam comentário:

-a taxa “poderia representar um encaixe superior a seis milhões de euros por ano” – a taxa seria paga pelos três milhões de passageiros desembarcados e não pelo total de desembarcados/embarcados,

-o aeroporto em Faro representa custos adicionais e condicionantes urbanísticos, “mas as receitas dos turistas ficam noutros concelhos” – esquece que o aeroporto cria emprego no concelho de Faro (aqui). 

Esta resenha não pode ignorar que “Os deputados do PSD eleitos por Faro acusam a ANA de pagar a taxa aeroportuária em Lisboa com dinheiro cobrado aos turistas de Faro”. Segundo o deputado Cristóvão Norte:

-desde Março deste ano, a ANA cobra no Aeroporto de Faro uma taxa extra sobre algumas empresas de rent a car, num total de cerca de quatro milhões de euros este ano,

-“Parece que uma coisa serve para pagar a outra. Quatro milhões tirados aos turistas do Algarve e dados a Lisboa”.

 

A Bem da Nação

Lisboa 6 de Abril de 2015

Sérgio Palma Brito

 

Declaração de interesses
O autor é militante do Partido Socialista e apoia a taxa municipal turística de Lisboa. A independência do autor é reconhecida por quem o acompanha desde sempre e em particular desde Fevereiro de 1977, quando recomeça a ser activo no turismo em Portugal. Em termos partidários, o autor não votou nas Primárias do PS por falta de propostas pelos candidatos. Basta ir ao Facebook para conhecer as posições do autor. Em suma, para suspeitar ou atacar o autor, não vale a pena ir por esta via.

 

Notas

(1)Neste contexto, entropia é sinónimo de desordem no significado comum da palavra (“estado de confusão ou de impreparação para determinado fim; perturbação do funcionamento regular de alguma coisa”, em Dicionário da Academia) e não no que tem na termodinâmica.

(2)Ver Lei Orgânica do Ministério da Economia e Transportes, Decreto-Lei nº 11/2014 de 22 de Janeiro de 2014.

(3)Ver Regulamento n.º 569-A/2014, publicado no Diário da República, 2.ª série — N.º 251 — 30 de Dezembro de 2014.

(4)Idem.

(5)Ver Nota (2).

(6)Ver Expresso de 14 de Novembro de 2014. O Conselho Geral da AHP reúne na Segunda-Feira 10 de Novembro da parte da tarde, depois do anúncio da taxa turística municipal que é feito na parte da manã.

(7)Para compreender melhor o que está em causa, há dois programas:

-o destinado a incrementar a procura turística no país – são os “apoios de marketing”,

-o Plano de Incentivos da ANA que exlui o aeroporto de Lisboa.

Em 23 Fevereiro de 2015, ANA e Turismo de Portugal fecham acordo para reforçar sinergias e definir metas para incrementar a procura turística no país – são os “apoios de marketing”. O acordo é válido por cinco anos e prevê investimento conjunto de 10 milhões de euros. É a continuidade do programa Initiative.pt iniciado em 2009 (aqui).

Em 3 de Março de 2015 a ANA apresenta o novo Plano de Incentivos, que apoia as companhias aéreas de que destacamos duas ideias chave. A primeira é a da complementaridade deste Programa de Incentivos com

-o sistema de apoio à promoção da procura (apoios de marketing), em articulação com o Turismo de Portugal através do protocolo assinado no dia 23 de Fevereiro de 2015.

A segunda é a do novo sistema de incentivos ter “uma estrutura comum para todos os aeroportos rede ANA (com excepção de Lisboa onde o programa não é aplicável), sendo, ainda assim, flexível e adaptável à estratégia e objectivos de desenvolvimento de cada aeroporto”.

Por fim a ANA acrescenta:

-“Por questões de estratégia comercial o sistema de incentivos não estará, nesta fase, disponível em Lisboa, onde apenas se vai aplicar o sistema de apoios de marketing para promoção da procura.” (aqui).